Os poetas de Juazeiro por Luíz Galvão

A Agência MultiCiência publica neste post um artigo publicado pelo cantor Luiz Galvão, filho de Juazeiro, que conquistou o reconhecimeto musical pela poesia da beira de rio entoada pelos Novos Baianos. Hoje, dia 29 de novembro, Galvão se apresenta no Centro de Cultura João Gilberto no encerramento do Festival Edésio Santos, promovido pela Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer. Este artigo do Berro D´Água foi gentilmente cedido pelo Acervo Maria Franca Pires, localizado no Departamento de Ciências Humanas, DCH, UNEB. O crédito da matéria, portanto, é de O Berro D´Água, jornal que circulou na década de 80 em Juazeiro.

FALAM POETAS

Juazeiro, a terra tem poesia, talvez para compensar a falta de chuva. A terra ama poemas e nascem outros frutos. O nome é poético e musical mais que 90% das cidades distritos e bairros de nosso Brasil. Vou mais além, soamos melhor que o Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Porto Seguro. A poesia vem para confundir... Juazeiro do Norte não é tão musical quanto nós. Talvez percamos apenas para Salvador/Bahia, Itapoá e Amaralina.

Não sei quando começou a poesia na beira desse rio, do lado de cá, onde as palhas do coqueiro e bananeiras fazem chuá e a água beija o cais e trepa nele e algumas vezes beija os pés do povo indo até a prefeitura e adjacências. Sei que deve ter sido num fim de tarde-por do sol ou no amanhecer porque o sol nasce ali por cima de Agronomia e se põe no Rodeadouro. Todos sabem que a lua nasce em Petrolina que é outra menina que também tem nome bonito e musical. As duas cidades formam um par como o dia e a noite numa poesia musical sobre o rio azul e as vezes barrento


A poesia de Pedro Raimundo, universal em gênero, número e cor. Um poeta preciso arquitetando as palavras quer concreto e abstrato. No trato com as palavras, Dó Drumond. Um requintado humor. Um lirismo jamais visto por meus olhos. Um mestre. O poeta do Angari Euvaldo Macedo Filho. Uma vida poética. Curta mais registrada através de sua dedicação em vida. Euvaldo tinha os olhos de poesia e via os melhores ângulos de uma flor ou de um fato.

José Eurico com sua poesia cheia de humor e irreverência. Um filósofo na prática e que as vezes vai filosofar na praça como aconteceria na Grande Grécia. Sua linha é a estrada que passa pelo núcleo do planeta. Um mestre.

Mauriçola poeta musical e por ser da música seu tema preferido é o amor e a paixão, coisas do ser humano e adorando rara beleza com um arranjo de estrelas, lua, rio, chuva e azul céu. Dádivas da natureza.

A importância da poesia de Manuka. Manuka é telegráfico com seu mini poema, cabendo, numa camiseta ou numa caixa de fósforo. Manuka é poeta da praça de Juazeiro.

Há outros poetas que eu não falei por não conhecer seus versos. Há um poeta de antiga obedecendo todas aquelas rimas, o Dilton Libório, que me mostrou alguns poemas de ótima construção. Babá que é de Curaçá e vive entre nós que já me mostrou seus e de D. Zita de Petrolina que é das melhores pérolas poéticas que Petrolina nos deu além de Geraldinho Azevedo. Tem ainda Josias com publicações em antologias poéticas editadas em Salvador. Estes foram os que mais de destacaram e por isso fotografei mais sei que há outros porque a respiração de Juazeiro é poética. Há outros que nunca escreve.

Por Luis Galvão para O Berro D´Agua, edição de 20/02 a 20/03 de 1989.

Edital para o Concurso Perfis MultiCiência

A Agência de Notícias MultiCiência, projeto de extensão do Departamento de Ciências Humanas da Universidade do Estado da Bahia, situada na Rua Edgard Chastinet, s/n, Bairro São Geraldo, torna público o Concurso Perfis MultiCiência.

Do objeto
Em sua primeira edição, o Concurso Perfis MultiCiência tem por objetivo estimular e premiar trabalhos jornalísticos do gênero perfil, técnica jornalista entremeada pela literatura.

Das Condições

2.1 Poderão concorrer ao prêmio trabalhos inéditos e não veiculados na mídia.

2.2 Cada concorrente poderá participar com até três trabalhos jornalísticos, sendo que os perfilados devem ser pessoas, sem restrição de etnia, orientação política, religiosa e de gênero.

2.3 Poderão participar deste concurso universitário estudantes dos cursos de jornalismo, letras e pedagogia do Vale do São Francisco, pois há uma relação entre os gêneros jornalísticos e literários no percurso acadêmico destas graduações, visando ainda estimular a produção na região citada.

2.4 Os perfis jornalísticos devem ter autoria individual. Não serão aceitos textos assinados por mais de uma pessoa.

2.5 Os textos devem ter de quatro a seis mil caracteres (com espaço), fonte Times News Roman, tamanho 12.

2.6 Devem ser anexadas na matéria obrigatoriamente de 1 a 3 fotografias com qualidade de resolução para publicação, sendo que o fotógrafo pode ser uma segunda pessoa.

2.7 Ao se inscrever, o candidato automaticamente:

a) está de acordo com as normas deste edital e com a ficha de inscrição;

b) está de acordo com a publicação de sua matéria nos veículos de comunicação;

c) declara-se titular dos direitos autorais morais e patrimoniais da matéria jornalística inscrita.

Das Formas de Encaminhamento e dos Prazos

3.1 Os trabalhos deverão ser encaminhados via e-mail, no período de 24 de novembro a 23 de dezembro de 2009, para o endereço eletrônico multicienciauneb@hotmail.com com cópia para multi.ciencia@yahoo.com.br, devendo constar no item assunto a seguinte indicação: “Concurso Perfis MultiCiência”.

3.2. Os proponentes que apresentarem trabalhos fora do prazo e/ou que não estejam de acordo com as condições deste Edital e os documentos necessários serão sumariamente desconsiderados.

3.3. A comprovação do cumprimento de datas e prazos, bem como os ônus e as obrigações constantes ou decorrentes da participação da seleção de que trata este Edital, são de única e exclusiva responsabilidade dos proponentes.

Da Seleção

4.1 Será formada uma banca examinadora para seleção dos perfis.

4.2 A habilitação do trabalho exige a apresentação dos documentos abaixo relacionados, dentro do prazo fixado, como também o cumprimento das demais exigências constantes do presente Edital:

a) Formulário de Identificação;

b) Cópia do comprovante de matrícula na Universidade;

c) Matéria jornalística conforme item 2 deste edital.

Da Avaliação dos Trabalhos
Serão considerados nos critérios de avaliação e seleção dos trabalhos: estruturação adequada do perfil jornalístico; profundidade da abordagem; construção da narrativa jornalística conforme as exigências de um perfil; ritmo; rigor com a língua portuguesa; relação entre jornalismo e literatura; humanização do relato.

Da Premiação

6.1 Serão concedidos os seguintes prêmios aos primeiros colocados:

1 º lugar: publicação do perfil em um veículo regional impresso, uma biografia;

2º lugar: livro-reportagem perfil

3º lugar: livro-reportagem de bolso (pocket book).

4º e 5º lugar: exemplar de revistas


6.2 Os perfis premiados e os classificados terão os perfis publicados no MultiCiência.

Da Divulgação dos Resultados
7.1 A lista dos trabalhos selecionados será divulgada no blog MultiCiência: www.multicienciaonline.blogspot.com;

7.2 O resultado da seleção será comunicado por meio eletrônico aos proponentes dos trabalhos selecionados.

Das Disposições Finais

8.1 A divulgação do resultado da seleção e a entrega dos prêmios referidos no item 6.1 ocorrerão até o dia 16 de fevereiro de 2010.

8.2 O Edital completo e seus anexos estarão disponíveis no blog www.multicienciaonline.blogspot.com ou poderão ser solicitados pelo e-mail multicienciauneb@hotmail.com.

8.3 As dúvidas que, porventura, surgirem na disposição contidas no presente edital serão dirimidas e esclarecidas pelo e-mail multicienciauneb@hotmail.com

8.3 Os casos omissos neste Edital serão decididos pela Comissão Organizadora.

Juazeiro-BA, 19 de novembro de 2009.

Comissão Organizadora:

Andréa Cristiana Santos

Emerson Rocha

Naiara Soares de Oliveira

Seminário discute práticas de estágio

O Departamento de Ciências Humanas, campus III, da Universidade do Estado da Bahia, realiza, a partir de amanhã até sexta-feira, o seminário Vivências Formativas do Estágio: um diálogo multicampi, que discute os desafios da modalidade Estágio Supervisionado na área da educação.

Durante o evento, professores, discentes e profissionais irão refletir o papel do pedagogo nos diferentes espaços de atuação e as metodologias utilizadas no atendimento de crianças com necessidades especiais. Para a professora e coordenadora da Comissão de Estágio do curso de Pedagogia, Antoneide Almeida, o seminário surgiu a partir dos relatórios feitos pelos estagiários, no qual descrevem as suas experiências. “As temáticas foram centradas no que os alunos apontam nos relatórios, as suas dificuldades e aprendizagens”, declara a professsora.


O estágio é um procedimento didático-pedagógico importante devido a sua natureza de complemento curricular. Segundo Elissama Medrado, estudante do curso de pedagogia, o estágio é uma experiência de extrema importância, porque é um momento que o aluno passa a compreender a relação efetiva da teoria e da prática. “O que aprendi nas disciplinas em sala de aula passou a interagir com o que estava vivenciando no estágio. Este seminário será uma boa oportunidade para debater as nossas experiências e refleti-las”, afirma Elissama.

Na programação, palestras, mini-cursos e oficinas, que discutirão questões como: diários eletrônicos feitos por professores, educação inclusiva, atendimento às crianças portadoras de anemia falciforme ou com algum tipo de necessidade. “Consideramos necessário inserir temas que esclarecessem as principais dúvidas dos alunos quando em sala de aula, como trabalhar com crianças com necessidades especiais”, acrescenta Antoneide.

As atividades do seminário começam amanhã (25/11) às 18h; e prosseguem durante os dias de quinta-feira (26/11) e sexta-feira (27/11), sempre das 8h às 12h; e 14h às 19h, respectivamente. Informações sobre o evento no Departamento de Ciências Humanas, pelo telefone (74) 3611-5617.


por Juliane Peixinho, da Agência MultiCiencia
24/11/09

“Espelho, espelho meu: de que modo a educação aconteceu”


Cadernos de professores, livros de atas, fotos de eventos, fichas de estudantes, jornais e revistas. Estes guardados ajudam a constituir a memória educacional de Juazeiro e estão presentes na exposição “Espelho, espelho meu: de que modo a educação aconteceu”, aberta ao público até 26 de novembro no Departamento de Ciências Humanas (DCH), da Universidade do Estado da Bahia.

A exposição só foi possível graças ao empenho inicial da pesquisadora e professora primária Maria Franca Pires, que se dedicava a recolher materiais de acontecimentos significativos de sua época com a intenção de instaurar um arquivo público da história juazeirense.

Maria não chegou a ver a realização de seu intento. Ela faleceu em 1988, aos 67 anos. Contudo, o seu arquivo pessoal foi doado à professora Odomaria Rosa Bandeira Macedo, historiadora, antropóloga e professora do DCH III, que coordena o projeto de pesquisa "O arquivo da profª Maria Franca Pires: memória e história cultural em pesquisa na região de Juazeiro/BA". Nesta entrevista, a professora fala da importância da preservação da memória cultural de Juazeiro e da exposição com os materiais guardados por Maria Franca Pires.


Agencia MultiCiencia: Como surgiu a iniciativa de fazer um projeto com o trabalho de pesquisa da professora Maria Franca Pires?

Odomaria Macedo (OM): O conhecimento que tinha da pesquisa intuitiva realizada pela professora Maria Franca, na qual reconhecia uma importância, além do afeto e afinidade pela pessoa que fora Maria; nosso interesse por história e cultura, nossas histórias de professoras, de mulheres de atuação na sociedade. Quase 15 anos após a morte dela, sua família convocou-me a receber o arquivo que resultara daquele trabalho. Eu atendi, o recebi e diante dele achei que o destino digno a dar para tanto trabalho que Maria teve e o lugar certo para seu legado seria o DCH-UNEB, juntamente com a apresentação do projeto de pesquisa O arquivo da profª Maria Franca Pires: memória e história cultural em pesquisa na região de Juazeiro/BA. O DCH III acolheu o arquivo em 2005 e de lá para cá trabalhamos com ele. Não é um trabalho de rápida execução, consiste na produção de fontes documentais a partir de materiais, fontes escritas ou fontes orais, como fotografias, jornais, revistas, cartas oficiais ou pessoais, cartazes, panfletos, cadernos de notas, diários, discursos, calendários, convites, flâmulas e muitos outros objetos. Fazemos o trabalho de levantamento do fundo do arquivo, inventariar e catalogar o acervo, classificar cada material com vistas a torná-lo disponível ao acesso das pessoas interessadas em conhecer a história e compreender a cultura regional.


Multiciencia: Qual a importância do acervo?

Odomaria: Sua importância está no volume e variedade de informações que se encontra em diversos tipos de materiais, através dos quais se pode desenvolver o conhecimento sistemático sobre muitos aspectos históricos da cultura regional, em Juazeiro e Petrolina, como técnicas, tecnologias, valores, tipos de conhecimento, a educação escolar, a comunicação, etc. Para os pesquisadores da história local, esse trabalho virá a suprir uma lacuna lastimável de fontes documentais de que se ressente Juazeiro e Petrolina, dois pólos regionais que não dispõem de espaços públicos para acesso a acervos de documentos como esses. Na pesquisa realizada pela profª Maria Franca, observa-se que já estava presente uma preocupação dela com esse tipo de problema da cultura regional e a vontade e esforço de resolver isto. Nos seus registros pessoais encontra-se a justificativa para todo o material recolhido por ela, que era a implantação de um arquivo público em Juazeiro. Mas, isso ainda não aconteceu até a presente data, embora a professora tenha se empenhado há tanto tempo atrás.


AM: O que evidenciam os elementos presentes nesta exposição?

OM: Nos cadernos das professoras Maria Franca Pires e Emília Mattos Cajé evidenciam-se o exercício profissional do professor de então; algumas práticas escolares típicas como planos de aula, programação de eventos, os conteúdos do ensino escolar, as técnicas e recursos pedagógicos. Nos livros de ata da associação de pais e mestres, destaca-se o movimento docente de organização da categoria, as preocupações dos professores com os alunos, a busca da presença dos pais no processo educacional escolar, a consciência da escola de que a sociedade encontrava-se em mudança na década de 50 e 60, e de que isso se constituía em uma questão a ser trabalhada e enfrentada por todos através da escola. Nas fotografias, os rituais escolares, os momentos de formação técnica profissional do professor, os eventos de integração da categoria docente. O diário de classe da escola da Professora Maria Franca contém as experiências vivenciadas em agosto de 1956, por ela com seus alunos do 4º ano primário na turma daquele ano. Nas revistas e jornais, constam as preocupações sociais e a visão que se tinha sobre a educação escolar. Assim, se evidenciam as condições, limites e desafios da educação escolar entre as décadas de 50, 60 e 70 do século XX diante das mudanças rápidas e intensas que se manifestavam naquele momento, especialmente pela crescente presença dos meios de comunicação de massas. Existem ainda as questões de gênero que marcaram os comportamentos, os procedimentos na escola; os entraves das políticas públicas de educação; as questões técnicas da qualificação profissional docente, as relações de poder na prática escolar, a estrutura do ensino na escola, enfim, o caráter público e os níveis de qualidade educacional na concepção da educação como direito.


Multicência: Como surgiu a idéia de fazer a exposição?
Odomaria: Em tudo que vemos, nas formas e conteúdos observados, nos materiais que compõem o acervo de memórias da educação escolar, pode-se ver o modo como se deu a educação e como os professores se autoformavam. Além disso, aparecem junto as imagens da educação escolar que insurgem nessa memória e que se processa na atualidade, levando-nos a pensar sobre a escola e sua trajetória do passado ao presente. Com isso está o porquê da abordagem que fazemos nessa exposição, de onde surgiu a idéia de fazê-la. Atuando sobre nós como um espelho, a memória da educação que se apresenta possibilita-nos refletir os educadores que somos, a escola que temos, a educação que realizamos, e o lugar de tudo isso no contexto atual. A mostra é especial sob muitos aspectos. Através dela, podem-se ver perfis biográficos de alguns professores, como nos demonstra Juliana Pires Machado no livro-reportagem Maria Franca Pires: entre papéis e vozes, lançado na abertura dessa exposição. Trata-se de um ensaio biográfico produzido através dos materiais que compõem o arquivo. Outros personagens têm sido delineados em perfis biográficos como Édson Ribeiro, através de Luis Osete. Outros poderão ainda ser pesquisados.


Por Edilane Ferreira e Naiara Soares
Foto: Kall Britto

História de Pescador concorre a final do Festival 5 minutos

O curta História de Pescador, finalista do Festival Nacional 5 Minutos, foi exibido ontem no Centro de Cultura João Gilberto, em Juazeiro. O vídeo é uma produção de Natália Carneiro e Raphael Freitas, com direção de Carlos Santana, alunos do 5° período de Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia.

Ao documentar o drama de um pescador que vive às margens do Velho Chico, o vídeo mostra como a poluição afeta diretamente a vida dos ribeirinhos. O pescador Erenildo de Souza, mais conhecido como Leleco, narra a fartura de outrora e revela a importância do Rio São Francisco na sua vida.


História de Pescador é um dos 50 finalistas da 13ª edição do evento, que teve sua abertura no último dia 16, em Salvador. A mostra competitiva começou no dia 17, simultaneamente, na capital baiana e em 10 cidades do interior e segue até esta sexta-feira (20/11). A final será no sábado, dia 21, em Salvador.Com premiação total de R$ 30 mil, o festival aproxima o público da 7ª arte através do Voto Popular.

Redação MultiCiencia
20/11/2009

Consciência Negra é discutida em Escolas Estaduais

Auto-preconceito, subjetividade, acesso à educação, políticas de cotas, arte, culinária, música, dança e moda. Estes temas serão discutidos pelos alunos do curso de Letras do Programa Especial de Formação de Professores do Estado (PROESP), durante a realização da segunda Oficina Interarticular, que acontece hoje (19/10) e amanhã (20/10), nas Escolas Estaduais das cidades de Juazeiro, Uauá, Sobradinho e Curaçá.

O evento pretende discutir os modos de representação do negro na sociedade, em virtude da comemoração do 20 de novembro, dia da Consciência Negra. Para discutir a temática, serão desenvolvidas oficinas pelos alunos-professores do PROESP junto com os estudantes das escolas estaduais. As oficinas constituem uma oportunidade dos professores-alunos de Letras discutirem com os seus alunos problemáticas atuais relacionadas ao negro e fomentar a reflexão de novos conceitos.

Em Juazeiro, as atividades se concentram na Escola Normal Edvaldo Machado Boaventura durante os turnos manhã, tarde e noite; e na Escola Pedro Raimundo Rêgo, durante a tarde e noite (quinta-feira) e tarde de sexta-feira.

O PROESP é um programa coordenado pelo Departamento de Ciências Humanas, da Universidade do Estado da Bahia, que visa oferecer graduação em Letras aos professores que já atuam nas escolas estaduais, contudo não tem licenciatura especifica na área.

Redação MultiCiência

"É uma rua com casinhas bem juntinhas, uma colada na outra..."

Cafetões, freqüentadores de bordéis, antigas prostitutas e moradores da comunidade. Estes são os protagonistas do documentário Rua do Fogo - Memórias do Baixo Meretrício, produzido pelas cineastas e estudantes de jornalismo da Universidade do Estado da Bahia Kall Britto e Laura Ferreira, exibido no III Encontro de Cinema Negro Brasil/África e Américas, que começou na última segunda (09/11) e segue até a próxima quinta-feira (19/11), no Rio de Janeiro (RJ).

O curta-metragem de 25 minutos, lançado dia 3 de outubro na própria Rua do Fogo, bairro Alto do Cruzeiro em Riachão do Jacuípe, conta como os bordéis dinamizavam a cultura e a sociedade jacuipense nas décadas de 40 e 50. Laura Ferreira, em entrevista, conta como foi o processo de produção do vídeo, fala de prostituição e preconceito e de histórias e mudanças na Rua do Fogo ao longo do tempo.

Como nasceu a idéia de fazer um vídeo sobre a Rua do Fogo?

Laura Ferreira: Eu já tinha esse desejo, pois freqüento a Rua do Fogo desde criança. Embora nunca tenha morado lá, tenho familiares: meu avô, alguns tios. Desde pequena ia com minha mãe aos fins de semana. Fui crescendo e percebendo um lugar bem místico, bem diferente. O meretrício lá em baixo e lembro que minha mãe dizia assim, “olhe, só brinque até aqui, não desça porque ali só tem cabaré”. Então, fui fomentando essas coisas em minha cabeça. Depois, li um livro, A louvação das prostitutas de Riachão do Jacuípe ao glorioso São Roque, de Nete Benevides. O foco do livro é a lavagem que as mulheres faziam e ainda fazem. Hoje, a manifestação está mais fraca devido a falta de apoio para dar segmento, mas ainda existe. No livro, embora ela fale da lavagem, fala do contexto da Rua do Fogo e das pessoas, as primeiras donas de cabaré, os cafetões, enfim, eu achei encantador. Ainda criança acompanhei o período de declínio dos cabarés, mas que ainda estão presentes na memória da cidade. De férias em Riachão, fiz umas imagens lá e colhi alguns depoimentos de moradores. Quando retornei para Juazeiro mostrei para Kátia e ela achou bacana, e pensamos em fazer um doc. É uma produção minha e de Kátia.

AM: Gostaria que descrevesse a Rua do Fogo.
É uma rua estreita que vai se enlarguecendo, com casinhas bem juntinhas, uma colada na outra. Um bairro humilde, constituído de moradores de baixa renda, descendentes das fateiras. A afrodescendência é muito marcante. Tem também o rio Jacuípe, que corta toda a Rua e boa parte da cidade. Na beira do rio, as antigas profissionais do sexo criavam seus filhos, tratavam os fatos de boi, pescavam. A Rua do Fogo gerava a economia da cidade e a prostituição era só uma conseqüência. Lá, tinha fábrica de balas, chumbaria, batedeiras de sal, olarias na beira do rio, tudo na Rua do Fogo ou adjacências. Os antigos bordéis deram lugar a casas comerciais e a igrejas evangélicas. O nome fogo, no livro de Nete, explica que, nos anos 40, teve um incêndio na Petrobrás em Salvador (BA) e aí eles associavam, “essa mulher tem um fogo, o fogo da Petrobrás”, então ficou Rua do Fogo. É até comum em outras cidades que tem um meretrício a rua ser chamada de Rua do Fogo.

AM: Como era a vida noturna em Riachão do Jacuípe?

Naquela época, a vida noturna era somente na Rua do Fogo. Doutores, filhos da elite de Riachão que estudavam em Salvador, iam para Riachão no fim de semana curtir na Rua do Fogo. O Centro, a rua de Cima, como Nete fala no livro, era da elite. E lá, tinha horário para dormir, acordar, e não podia ter barulho, por isso as mulheres do baixo meretrício eram impedidas de subir. Na época, tinha um sargento que ficava na vigília e quando elas ultrapassavam... “Ó, você não pode, você tem que descer”. E aí elas tinham um amigo de confiança delas, uma espécie de cafetão, que combinava os encontros, e ia comprar remédio em farmácia, botar e pegar carta em correio, porque elas não podiam ter esse acesso. Só as mais ousadas como Cheirinho, segundo seu próprio depoimento, é que enfrentava e subia. A prostituição em casa noturna até hoje é marcada pela exploração. Elas falam que, não ganhavam bem, eram exploradas e que, às vezes ficavam endividadas, pois davam todo dinheiro para os cafetões e por isso não podiam sair da vida.

AM: O que mudou do que era a Rua do Fogo antes para hoje?
Os depoentes deixam bem claro no vídeo que a Rua do Fogo não é mais a mesma, que o meretrício praticamente acabou. Não é o meretrício de antigamente, aquela agitação, um bordel colado no outro, profissionalizado mesmo, mulheres de fora atraídas. Hoje é outra configuração. São mulheres de Riachão mesmo, a maioria casada, e separada de marido, que aí fazem programas. Hoje, nem chamam mais de bordel, nem de casa noturna, porque elas não dormem e vivem lá, não tem uma relação de meretrício. O que tem lá são mulheres que vão durante o dia, que elas chamam de ponto de encontro ou de reservado, um bar reservado, ou seja, aquele que tem um quartinho no fundo. Uma das depoentes, que ainda trabalha com bar, disse que deixa praticamente os quartos fechados e não tem mais aquela efervescência, as mulheres não moram mais nessas residências. É outra Rua do Fogo. Embora fosse agitado, agoniado, segundo os depoentes, não tinha violência. Hoje eles falam que, devido as drogas, eles não têm mais aquela tranqüilidade de deixar a porta aberta, de dormir com a janela aberta até mais tarde, que é comum em cidade interiorana como Riachão, no calor, enfim. A droga é uma das questões que eles mais tocam quando se fala da rua hoje.

AM: Como é a relação da Rua do Fogo com a comunidade jacuipense hoje?

Eu diria que não há relação, vejo o bairro como um todo marginalizado pelo poder público, as pessoas que passaram a freqüentá-lo foram obrigadas a isso, pois muitos cabarés viraram casas comerciais, mas é uma relação restrita a isso, à compra e vendas. Antigamente, quando o cortejo da procissão da igreja católica tinha que passar pelo Alto do Cruzeiro, o padre passava, mas dizia “quando estivermos passando naquele ambiente, virem a cara para o lado esquerdo ou então olhem para o céu”. Minha mãe e outras pessoas mais antigas contam isso. Hoje nem o cortejo passa mais na Rua do Fogo.


Por Naiara Soares, texto e foto

O destino na palma da mão


Como a maioria dos meninos do sertão nordestino, Josemar Martins poderia seguir a trajetória de seus pais que, com pouco ou quase nenhum estudo, trabalhavam na roça o dia todo. Agricultores, eles tinham um sítio no povoado de São Bento, próximo a cidade de Curaçá. Foi lá que o menino Josemar cresceu e aprendeu a ler com seu pai que incentivou os cinco filhos a estudar.

A força de vontade do pai em educar os filhos levou a família a mudar-se do sitio para encontrar melhores condições de vida em outro lugar. Durante a saída, foi necessário levar as vacas, ovelhas, cabras e os poucos pertences para a beira do rio. Nesse processo, boa parte se perdeu. Passaram um ano morando às margens do rio em um terreno que era de sua avó, antes de ir para a cidade de Curaçá. Para Josemar, essas mudanças foram traumáticas. Além de ter deixado uma vida para trás, o lugar onde estavam era ainda pior que o de antes. Contudo, foi nessa época que a vida do menino começou a mudar.


Na cidade, ele teve contato com um mundo muito diferente do que ele conhecia. A vida nova trazia outros referenciais, causando preocupação de seu pai. Foram oportunidades que surgiram e eram aproveitadas. Josemar, que já se aventurava com os primeiros versos, alcançou o terceiro lugar no concurso de poesia da Primeira Semana Cultural de Curaçá. Sua primeira poesia lhe rendeu muitas outras. Em 1986, lançou o livro “Come-Tendo Poesias” com seu amigo Pinduka.

Depois de certo tempo morando em Curaçá, começou a se relacionar com os artistas de teatro na cidade. Para ele, o teatro é uma oportunidade de se repensar como pessoa, de rever seus valores, de se descobrir. O contato com a arte fez com que sua visão de mundo se transformasse, o que era refletido no seu estilo de vida. As roupas mudaram, o cabelo cresceu, e foi o primeiro homem a usar brinco em sua cidade. O rapaz, que vinha da roça, se reconstruiu fazendo teatro e, como conseqüência, conflitos começaram a surgir.

As relações sociais ficaram abaladas devido a sua atitude de colocar o brinco. Josemar não imaginava que pagaria um preço tão alto por isso. Foi considerado homossexual pelos moradores. Suas atitudes, hábitos e poesias provocavam comentários na pequena cidade, que chocaram seus pais.

As poesias que escrevia fugiam da tradição da época de frases rimadas e temas agradáveis. Suas composições traziam conteúdos de crítica social que se aproximava muito da poesia moderna. Para ele, esse foi o período de sua vida de maior aprendizado, foi sua maior escola. A partir daí, surgiu o desejo de ingressar em um curso superior, veio morar em Juazeiro para prestar vestibular de pedagogia na Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Juazeiro, hoje Universidade do Estado da Bahia (UNEB).

Assim que ingressou na academia, participou de movimentos culturais, estudantis, dos debates ocorridos na época, vivenciou a primeira eleição direta para diretor do Departamento de Ciencais Humanas (DCH III), quando foi eleita a professora Giovanna De Marco. Foi presidente do Diretório Acadêmico e fez teatro de rua na UNEB. Vivenciou tudo que a Universidade lhe proporcionava. Engajou-se nas lutas sociais, pois tinha esperanças de ver um mundo melhor. “Para mim foi fantástico, ter convivido com as pessoas que convivi, ter acampado, ter viajado, ter me embriagado, foi maravilhoso o tempo que tive como aluno dentro da Universidade. Acredito que perdi muito pouco do que ela pode me oferecer”, conta um sorridente Josemar, ao relembrar a época.

Durante o período universitário, ele precisou estudar à noite e trabalhar durante o dia como balconista de papelaria no comércio de Juazeiro. Para ele, o trabalho era um universo cruel. Preferiu sair do emprego e fazer serigrafia, vendendo, na Orla de Juazeiro, camisetas com poesias suas e de outros autores. Ao concluir o curso, prestou concurso em março de 1994 para professor efetivo da UNEB, e, naquele mesmo ano, ministraria aula para amigos da turma e portadores de diploma. Logo em seguida, fez especialização em Gestão de Temas Educacionais, pela Pontifícia Universidade Católica em Minas Gerais (PUC-MG).









Em 998, ingressou no mestrado em Educação e Desenvolvimento Sustentável pela UNEB, ministrado por professores do Canadá. Na ocasião, Josemar voltou à sua cidade de origem para desenvolver a sua pesquisa em educação com depoimentos de várias pessoas e imagens do local. Para ele, foi um trabalho bastante gratificante. Seu diploma foi entregue em 2003, mas já, em 2002, fez a seleção para Doutorado na Faculdade de Educação, da UFBA, e foi aprovado. Em 2006, com a tese Tecendo a rede: Notícias Críticas do Trabalho de Descolonização Curricular no Semi-árido Brasileiro, Josemar tornou-se Doutor em Educação.

Hoje, Josemar Martins é professor da UNEB, mais conhecido como Pinzoh. O apelido adquirido na quinta série, quando errou o nome de um dos navegadores das embarcações de Colombo, Vicente Yáñez Pinzón, o acompanha durante toda a sua vida. Pinzoh casou-se, teve filhos e hoje, ao voltar ao seu lugar de origem, é chamado de doutor. Mas considera que, embora seja proveitoso percorrer todas estas etapas em um curto espaço de tempo, isso o privou de oportunidades.

“A minha vida é uma média das coisas que eu queria fazer e das que eu consegui fazer. Agora, estou numa fase de desacelerar. Quero correr menos, trabalhar menos e viver mais”, declara o professor e acrescenta serem apenas ideais, e não sabe quando serão cumpridas. Trabalha com Educação, Comunicação e Cultura, desenvolvendo projetos nestas áreas. No momento, ele pretende realizar pesquisas para o seu pós-doutorado.

A vida de Josemar Martins tinha todas as condições para ser bem diferente do que é hoje. “Eu tinha todos os pré-requisitos de um fracassado. Sempre ouvi que nunca daria certo, mas tomei essas situações como um desafio para provar o contrário”, afirma Pinzoh, descrevendo a sua história.

Ao olhar sua trajetória, é possível perceber que não é necessário possuir as condições ideais para transformar o próprio destino. Basta ter coragem e força de vontade para vencer desafios e construir um final diferente com as próprias mãos, como descreve Pinzoh em sua primeira poesia A mão:

A mão não faz planos
Mas transforma o ser humano em um guerreiro
Pois é com a mão que o guerreiro batalha
E quando ela não falha ele vence tudo

Por Nilzete Brito (texto)
Foto Arquivo Pessoal J.Martins

DTCS abre pré-inscrição para curso de capacitação em Meliponicultura

O Departamento de Tecnologia e Ciências Sociais (DTCS), da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em Juazeiro, promove pré-inscrições para o Curso de Capacitação em Meliponicultura: “Uso Sustentado de Abelhas Sem Ferrão na Região Semiárida do Estado da Bahia”. O curso acontece entre os dias 14 e 16 de janeiro e as vagas são limitadas.

O evento tem como objetivo ampliar os conhecimentos a respeito da meliponicultura, atividade de criação racional de abelhas sem ferrão, na região semiárida. Também oferecem técnicas que tornem mais viáveis e mais prática a criação dessas abelhas.


Criadores, técnicos e estudantes da região podem se inscrever no curso. A taxa de inscrição é de R$ 40 e deve ser feito no DTCS, na Avenida Edgard Chastinet S/N, Bairro São Geraldo, CEP: 48905-680 Juazeiro – BA ou através de depósito identificado no Banco do Brasil em nome de COOPERFAJ. Agencia: 4264-1 Conta Corrente: 14350-2.

A taxa pode ser substituída pela doação de um cortiço/enxame de qualquer uma espécie de abelha sem ferrão: mandaçaia, moça-branca, Irai, Jandaíra, Jataí, Mosquito, Munduri, Tubi, Cupira, etc. As doações serão utilizadas para meliponário em construção no DTCS.

Para mais informações, os interessados podem entrar em contato com Márcio Pires de Oliveira, estagiário do setor de produção animal, pelos telefones: (74)88031683/ (74)3611-7363 ramal 227.

Por Emerson Rocha

A escrita como uma prática para a vida


Envolver-se em atividades lúdicas, prazerosas é o caminho para ser atraído para o mundo da escrita. É o que defende a especialista em Línguística, Angela Kleiman, que esteve em Juazeiro para acompanhar estudos de letramento, no Departamento de Ciências Humanas, da Universidade do Estado da Bahia, e visitar algumas escolas. Em entrevista, a professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) discute o uso social da escrita.

Agência MultiCiência (AM): Qual a sua concepção de letramento?

Angela Kleiman: Refiro-me aos impactos que a língua escrita tem no mundo atual na vida de um cidadão comum. Antes de começar os estudos de letramento no Brasil há quinze anos, sempre se pensava a escrita no âmbito da escola. Agora, estuda-se a escrita no contexto do movimento hip hop, das associações quilombolas, no contexto de diversos movimentos sociais, no cotidiano. A escrita não se reduz ao ambiente escolar. Pensa-se o uso da escrita todo dia. Caminho pela rua, vejo uma placa para me orientar, uma propaganda. A toda hora, nós nos defrontamos com a língua escrita, e os estudos de letramento procuram averiguar o impacto que isso causa na vida do homem comum.

AM: Como os estudos de letramento contribuem para que crianças e jovens construam significados positivos da experiência escolar?


Angela Kleiman:
A criança que estabelece uma relação prazerosa com a escrita, que tem um papel escrito para rabiscar, brincar, como se fosse uma boneca, nestes casos a escrita tem um lugar na sua vida. Nas creches onde há experiências com a escrita em ambiente gostoso, as crianças desenvolvem uma boa relação, e, às vezes, são alfabetizadas em menos de um ano. Já as crianças que começam a ser alfabetizadas sem antes desenvolver relações lúdicas, de brincar com a língua escrita, enfrentam problemas. A escola pode fazer projetos de letramento que permitam que a criança reencontre o interesse pela escrita ao longo de sua vida.

AM: Como a senhora avalia a inserção do letramento nas instituições de ensino?
Angela Kleiman:
Em geral, o enfoque é voltado para atividades analíticas, quando deveria estar voltado para os resultados. As pesquisas, o ENEM, mostram que os alunos não sabem ler. Mesmo sabendo ler, não conseguem interpretar um texto. 75% dos alunos só decodificam, e não são capazes de dizer o que um texto insinua. Não há um bom nível de sucesso hoje em dia. Um aluno que, ao fazer qualquer exposição pública se perde, fica acanhado, na oralidade letrada a escola também deixou a desejar. A produção escrita é a mais notória. Não é questão de ter a ortografia certa, é deixar claro o que se quer com o texto. Frente a estes três dados: não ler com uma interpretação de um sujeito crítico, ter problemas para falar em público e não conseguir comunicar ao escrever, está claríssimo que a escola não está fazendo o seu trabalho, não é um trabalho bom de letramento. Atividades analíticas que estavam conosco há muito tempo tem que ser, na sociedade de hoje, complementadas com outras atividades porque o mundo mudou, as crianças mudaram, as experiências das crianças mudaram, e a escola não faz sentido tal como era naquela época.

AM:Como a senhora avalia o investimento na pesquisa em letramento?


Angela Kleiman: Hoje, praticamente em todo o Brasil, há muitas pessoas interessadas, não há problema de financiamento. O MEC tem o programa Pró-Letramento que chega às cidades do Brasil que têm os piores índices de aprendizagem na língua escrita e trabalha com a formação de professores na escola para melhorar o ensino da língua escrita. O MEC investiu também no Centro de Formação do Professor, e a ênfase era o letramento, na conscientização de que os usos da língua escrita abrangem muito mais que os usos tradicionalmente visados pela escola que era o literário, o científico e o jornalístico, usos que a sociedade reconhece. Hoje em dia, o governo indica trazer outros usos que não são só os legitimados para através deles chegar aos legitimados. A escola tem o papel de fazer com que todos os alunos tenham acesso a esses usos culturais mais legítimos para desfrutar do teatro, fazer discussões literárias, lançamentos de livros, vernissages. A escola pode fazer com que o aluno se interesse em um projeto que tem a ver com ele, com a vida social. A escola para a vida através da escrita, essa é a função primordial da escola.


Entrevista publicada na 18ª edição do jornal Folha do São Francisco

Por Naiara Soares, texto e foto

Os Caminhos de Odó


Ela chegou apressada com alguns trabalhos para entregar aos alunos. Sempre muito solicitada, durante esse percurso foi parada algumas vezes e, para que a nossa entrevista não atrasasse, disse:

- Vamos logo, Emerson, antes que eu desvie de novo.

Assim, cheia de caminhos, é a vida de Odomaria Rosa Bandeira Macedo ou simplesmente Odó, juazeirense desde o dia 17 de março de 1951, data em que nasceu na rua Esmeraldo Aragão.

Filha de uma professora de música e de pai que também fora músico, Odomaria encontrou na família a ligação com a arte. Desde criança, era obrigada pela mãe a seguir o dom musical. “Minha mãe achava que uma moça tinha que aprender música”.

A vontade de sua mãe era que aprendesse violino. Embora tenha aprendido a usar o instrumento, sentia vergonha por causa da posição que deve ser seguro, apoiado firmemente. O pai, vendo a aflição da filha, que, na época tinha apenas nove anos, e para que a mesma não abandonasse os conhecimentos musicais adquiridos, deu-lhe de presente um acordeom, o que a agradou muito. “Eu não perdi o conhecimento que minha mãe tinha me obrigado, mas também não toquei o violino que ela queria”, disse, apresentando uma das suas principais características, o sorriso.

Desde então a arte, mesmo que de forma amadora, se tornaria a primeira estrada construída na vida de Odó, que durante o Ginásio virou a cantora do colégio em que estudava. Anos mais tarde, atuou no teatro, onde também escrevia. “Toda a oportunidade que vinha eu procurava me aperfeiçoar”.

Usando vermelho por recomendação de um Pai-de-Santo, que a informou da sua regência no orixá Iansã, aconselhando-a a usar essa cor toda quarta-feira, Odó mostra sinais de um dos caminhos que a vida lhe permitiu traçar. “Desde quando ele me disse isso eu não consigo abrir mão de vestir o vermelho. Mas eu não sou iniciada no candomblé, é mais uma curiosidade por causa da antropologia”, observou Odomaria, que é Historiadora e Antropóloga.

Em 1970, Odomaria foi para Salvador estudar na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Na capital baiana a jovem juazeirense, que queria ser historiadora, viveu de perto um dos principais momentos da história política do país.

Mesmo sem conhecer bem a sua nova cidade, Odomaria participou de atos de resistência contra a ditadura militar. “Eu participei de várias coisas altamente arriscadas. Eu não conhecia nada, se me pegassem nem sabia me situar naquelas avenidas todas”, conta.

Seu jeito de menina do interior, com fala, visual diferente e as opiniões na sala de aula fizeram com que os colegas identificassem o seu potencial político e a envolvesse no movimento, mesmo que nem a própria Odomaria tivesse percebido essa sua característica. “Eu não sacava nada. Estava porque era amiga das pessoas”. Alguns dos seus colegas acabaram sendo presos por tais atos contra os militares.

De volta a Juazeiro, no ano de 1974, Odomaria começava a trilhar mais um caminho em sua vida. Desta vez, ela passou a se dedicar à profissão que a acompanha até hoje: professora. O seu primeiro emprego foi na Escola Dr. Edson Ribeiro.

Seis meses depois, retornou a Salvador, para fazer um curso de especialização em Antropologia, com a finalidade de ensinar na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Juazeiro (FFCLJ). Ao fim da especialização, ela retornou à cidade natal e, para sua surpresa, a faculdade ainda não havia sido ativada. Mais uma vez, os caminhos da vida de Odó seguiam para Capital. Em Salvador, passou um ano e, nesse período, ensinou no Colégio Maristas, um dos mais tradicionais da cidade.

Finalmente, em 1985, a Faculdade de Filosofia foi implantada e Odomaria pode assumir o seu posto. Sem as mínimas condições de trabalho, ela e outros professores comprometidos com a instituição, driblaram as dificuldades e tentaram oferecer o melhor aos estudantes. “A gente entrou em uma faculdade que era mais pra fazer números para o governo da época do que pra dar certo”, lembra.

Mesmo sendo criada dentro da recém inaugurada Universidade do Estado da Bahia (UNEB), a FFCLJ não proporcionou aos professores da instituição uma melhor condição de trabalho. Mas nem essas dificuldades fizeram-na abandonar a Universidade. “A nossa batalha ia desde encontrar uma sala para dar aula até conseguir papel para mimeógrafo. Tudo a gente tinha que fazer, era tudo uma guerra”, recorda.

Odó viveu todos os momentos da UNEB em Juazeiro, especialmente no Departamento de Ciências Humanas (DCH), do qual foi diretora em três oportunidades. Em 1996, saiu vitoriosa na eleição para dirigir o DCH por quatro anos, porém em decorrência da mudança do estatuto da Universidade, teve que dirigir o departamento como interina. “Ser diretor interino é super incômodo, ainda mais quando você já foi eleito”, disse.

A segunda gestão veio após a abertura de novas eleições, agora com o mandato de dois anos. Em 1999, com a ausência de alguns nomes importantes do DCH para concorrer ao cargo de diretor, Odó mais uma vez candidatou-se e partiu para sua terceira gestão como diretora. No final de seu terceiro mandato, o curso de Pedagogia, até então o único do departamento, ganhou um prédio próprio que hoje também abriga o curso de Comunicação Social.

Por sua vasta história na UNEB, pelo respeito dos professores, estudantes e funcionários, Odó é considerada por alguns como acervo da instituição. “A gente sabe das normas, das pedras todas do caminho, aí acaba virando referência. A história do acervo deve vir daí”.

Ajudar a preservar a história de Juazeiro também é um percurso da vida de Odomaria. Ela coordena o projeto de pesquisa responsável por arquivar e preservar o acervo de jornais, revista e anotações guardados por uma das figuras marcantes da história dessa cidade: a Professora Maria Franca Pires.

O projeto é o ânimo a mais para Odó continuar a sua trajetória na UNEB. “Apesar de me dar muito desgaste, é um trabalho que tem me feito muito bem academicamente”, revela.

Ao fim da nossa conversa, com a elegância que lhe é peculiar, Odó perguntou quanto tempo tinha durado a entrevista.

- 56 minutos, respondi.
- Isso tudo? Eu devo ter falado muito, brincou.

Mas, o que seria 56 minutos perto de uma vida cheia de caminhos, iniciada em um dia de sábado, há 58 anos, na estreita Rua Esmeraldo Aragão?



Por Emerson Rocha

Lançamento de exposição e livro-reportagem no DCH


A equipe do Arquivo da Professora Maria Franca Pires, projeto de pesquisa e extensão da Universidade do Estado da Bahia Campus III, coordenado pela docente Odomaria Macedo, lançará hoje, a partir das 19h, no Departamento de Ciências Humanas a exposição Espelho, espelho meu: de que modo a Educação aconteceu? Na ocasião, haverá o lançamento do livro Maria Franca Pires: entre papéis e vozes, de autoria da jornalista Juliana Pires Machado.

Esta é a quarta exposição realizada com materiais reunidos pela professora primária em seu acervo pessoal. Nas anteriores, foram apresentadas fotografias, publicidade e imprensa, respectivamente. Desta vez, a educação será o destaque. Documentos, cadernos, revistas, entre outros poderão ser apreciados pelos visitantes. Será uma oportunidade de professores, estudantes e comunidade em geral conhecerem um pouco mais a memória da educação escolar na cidade em diferentes períodos.

A entrada é gratuita e a exposição ficará aberta ao público até 26 de novembro de 2009, nas salas do PROLAB e PROESP do Departamento de Ciências Humanas.

Por Lidmillie de Castro

Vale Curtir o Vale Curtas!!!

Eu ia andando pela rua meio apressado, eu sabia que estava super atrasado, cheguei ao Centro de Cultura João Gilberto esbaforido, vi um “cabra arretado” chamado Chico Egídio e, como de costume, fui cumprimentá-lo. Desajeitado, fui tomar o vão da escada para chegar ao teatro quando fui surpreendido por uma garota que me perguntou, de soslaio: “Você teve algum vídeo selecionado?”. “Sim”, respondi. E ela: “Será que você poderia dar uma entrevista?”. Claro, pois não, mas o que é que eu fiz, se é documento eu tenho aqui. Ela disse: “Pode sentar aí mesmo que a gente passa para o outro lado”...

E, realmente, passaram para o outro lado. O lado da criação, do enquadramento, das possibilidades infinitas que a luz, a câmera e a ação proporcionam para quem faz do audiovisual um exercício de autoconhecimento e de aprofundamento dialógico com o que constitui a nossa identidade cultural ou os outros de nós mesmos...

Ao meu redor, estudantes de escolas públicas de Petrolina-PE, participantes de uma das cinco oficinas de documentário em curta-metragem que o Ponto de Cultura Cine Raiz já ofereceu em cinco meses de atuação. “Todo mês, a gente escolhe uma escola pública e faz o convite aos alunos. Em média, 15 pessoas participam da oficina”, afirma Chico. Além do Cine Raiz, há o projeto “Curta em Curso”, possibilitado pelo 2º Edital do Programa de Fomento à Produção Audiovisual de Pernambuco. Com a orientação da cineasta Maria Pessoa, quatro curtas em película (16mm) foram produzidos em Petrolina.

Com o suporte teórico e prático, os alunos do “Cine Raiz” se dividem entre as funções cinematográficas e passam a experimentar o olhar nos retratos em comum sobre a própria comunidade em que a escola está inserida. Além do amor eterno, a consciência é convocada para desvendar, por exemplo, as faces do José e Maria - bairro de tradicional resistência cultural em Petrolina. Dentro do samba audiovisual, um domingo no parque ou mesmo o pátio da feira podem ser o mote para a concretização de sonhos de papel. Como o projeto tem três anos de duração, 36 documentários em curta-metragem devem ser produzidos. E haja Inclusão Audiovisual...

Na programação do Vale Curtas - Festival Nacional de Curtas-Metragens do Vale do São Francisco - razão de minha pressa em chegar ao Centro de Cultura, a sexta-feira é dedicada à mostra da oficina cinematográfica “Curta em Curso” e do Ponto de Cultura “Cine Raiz”. Os nove curtas anunciados no parágrafo anterior serão exibidos. Para deleite de Eduardo, um dos destaques da oficina “Cine Raiz – Inclusão Audiovisual”, e que agora dirige o making of do Vale Curtas. Com a maturidade de quem já fez um passeio cinematográfico pelas raízes de sua comunidade, Eduardo (a La Coutinho) foi o responsável por conduzir a minha entrevista. Sábado de manhã o material será editado e, à noite, exibido, no encerramento da terceira edição do Vale Curtas. Um festival que, como Solange faz questão de ressaltar, “a cada ano tem se consolidado a nível nacional”...

E os números não dizem outra coisa. Este ano, 172 curtas foram inscritos para concorrer nacionalmente, 29 a mais do que no ano passado. Chico sabe o porquê: “Os produtores sentem que o festival é sério. Respeita as normas do fórum de festivais”. E, por isso mesmo, têm confiança em inscrever o curta para ser avaliado por um grupo seleto, composto pela professora Clara Angélica - da Universidade Federal de Pernambuco, pela coordenadora de audiovisual da Fundarpe, Carla Francine, a cineasta Maria Pessoa e Esmom Primo, coordenador-geral da Mostra Cinema Conquista.

No dia internacional da animação, “O anão que virou gigante”, de Marão, selecionado no festival do ano passado, desfilou por mais de 400 cidades, além de “Silêncios e sombras”, de Murilo Hauser, selecionado este ano. Coincidências como estas indicam que o Vale Curtas, promovido pela Associação Raízes, está trilhando um caminho primoroso, com a fé e a coragem que impulsionam Chico, Solange, Eduardo e tantos outros amantes eternos da sétima arte. É por essas e outras que Vale a pena Curtir o Vale Curtas...


Por Luís Osete