"Atravessando o Inferno" e a experiência extensionista


O Pedagogo, professor e poeta Álamo Pimentel tem o dom da palavra e a ousadia inventiva de fazer da prática como pesquisador um ato críativo, poético, uma busca incessante para produzir conhecimento a partir do encontro com o outro e junto com o outro. Uma prática pedagógica e, sobretudo, extensionista. Neste encontro, está a temática central do livro  Atravessando o Inferno: Aprendizagem e Alteridade na Extensão Universitária, de autoria do professor Álamo Pimentel, que apresenta a experiência extensionista na Estação da Lapa, em Salvador, no período de 2005 a 2006.

Álamo expõe essa experiência a partir de narrativas do vivido, e recompõe as paisagens urbanas na estação de transbordo. Para conhecer essa prática extensionista, o projeto de extensão, Literatura e Vida, coordenado pela professora Maisa Antunes @lins.maisa , do Departamento de Ciências Humanas (DCH3-UNEB), convida a comunidade para o pré-lançamento da obra.

A atividade será hoje, sexta-feira (7/8), das 15h às 18h, por meio de videconferência no aplicativo Microsoft Teams. Os interessados em participar devem fazer a inscrição prévia no e-mail psbrandao@uneb.br.

Nascido em Juazeiro,. Álamo Pimentel construiu sua formação no Departamento de Ciências Humanas, com  formação em Pedagogia e é doutor em Educação (UFRGS). Atualmente, ele é docente na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), e lidera o grupo de pesquisa Sociedade Educação e Universidade (SEU).  Participe! 

Redação MultiCiência

É possível afirmar que estamos a construir os caminhos para um ensino mais democrático?

Ensino Remoto


Não é uma novidade que a educação precisa incluir em seu enfoque teórico-metodológico, mais entendimentos dialogicamente construídos sobre os usos e consumos das tecnologias da comunicação e informação (TCI’s). Assim como, a aproximação imbricada da interface com a Comunicação, que se coloca no centro das relações pessoais, científicas, econômicas e domésticas, aliada à formação nos diversos segmentos de ensino nas instituições, embora ainda exista uma grande parte de profissionais que optaram por “não utilizar” tais meios no cotidiano de suas aulas. Ou melhor, não utilizavam! Pois, a realização das ações laborais neste período de distanciamento social têm demonstrado um movimento que corrobora com uma (re)tomada de sua importância, para o desenvolvimento e continuidade no campo educacional. 

Nesse sentido, pode-se afirmar que as aprendizagens são diversas, sustentadas nas elaborações autorais de muitos docentes, por vezes, em contraposição às investidas do mercado que atua com tecnologias, sobre as quais insiste em destacar como orientação conceitual e metodológica de “tecnologias educacionais”. Assim questionamos: seriam essas tecnologias centradas e/ou criadas para os processos educacionais, por isso, o termo? A pergunta, entre outras em igual mensura, emergem das mídias e discursos da sociedade como necessários, ao passo que elabora-se as estratégias de realização das práticas pedagógicas no modo remoto. Sobre as quais pode-se ponderar que a transferência dos conteúdos da modalidade presencial para as plataformas digitais, não são suficientes para a tão desejada inclusão das TCI’s e mídias nos currículos e educação, este processo é mais complexo do que simplesmente usar como meio, é principalmente espaço-tempo de criação, mas para isso é preciso repensar as formações e práticas instituídas. 

Atualmente, esta aproximação é forçosamente direcionada aos usos das tecnologias, em face da pandemia do novo coronavírus. Talvez o fato de o “mundo ter parado”, exigiu de cada um, renegociar seus posicionamentos, muito mais fortemente os docentes, que têm nos recursos tecnológicos as possibilidades de realização da sua força de trabalho.

Nessa onda avassaladora de apps de comidas, supermercados, delivery dos mais variados, nos perguntamos como fazer com a educação. Um delivery mais sofisticado, contudo, também mediado pelas tecnologias? Ou mediado pelas/com as pessoas protagonistas de suas próprias ações com a transversalidade das TCI’s?

As indagações acima servem de tensionamento necessário para incluirmos nas pesquisas no campo, os diversos modos de atuação que perpassam por este “novo” formato. Pois, se não está organizado e/ou definido numa perspectiva democrática e de alcance à maioria, sua elaboração formada paulatinamente, a partir de decisões aligeiradas nos contextos, configura-se como uma orientação no mínimo confusa, na qual cada segmento realiza ao próprio modo. Apesar disso, é possível perceber um processo rico de criações, não pensadas anteriormente, nos fazendo incluir nos contextos de formação e atuação docente, ações que nos permitem (re)pensar sobre os “destempos” vividos entre a evolução das tecnologias e das mídias, com as práticas de ensino, em período anterior ao que vivemos agora. Outro aspecto a ser enfatizado e observado com mais cuidado são as investidas que aparecem nos discursos relacionados aos usos, como uma saída à problemática que veio para “ficar”. De fato, a principio, as TCI’s sempre estiveram mais relegadas a pequenos grupos de especialistas, cada um fazendo como vemos agora, com orientações que pautam os próprios construtos. 

A crítica se faz necessária, pois na educação as abordagens são construídas e ganham sentido com as experiências implementadas, todas elas provisórias, nunca determinadas e, assim é que são. Não podemos definir ‘seguramente’ as melhores formas de inclusão e usos, mas podemos observar e compreender os modos como realizamos, fundamentando com as tentativas ‘legítimas’ de respostas dos vários segmentos: educação infantil, ensino fundamental I (anos iniciais), ensino fundamental II (anos finais) e ensino médio, como aqueles que formam as bases elementares da educação das maiorias. 

Este é apenas um texto introdutório para salientar que os ensinos remotos que observamos e implementamos nas tentativas do fazer cotidiano, servem também de inspiração para o entendimento da educação em tempos tão inseguros, que nos convidam a repensar não apenas a práxis docente, bem como, as abordagens pedagógicas e, juntos, num construto polifônico, democrático e inventivo, as referências para o “depois”, que não sabemos se será uma outra “normalidade”. Sobre isso é preciso relembrar que não tínhamos um “normal” na educação, pois esta vinha sofrendo ataques ideológicos e políticos contínuos que direcionavam cada vez mais a educação à privilegiados, como vemos agora, parte fazem o ensino remoto, outros não. Ou ainda, o ENEM, por exemplo, precisou de uma campanha nacional para ser adiado, entretanto, já tem data marcada, apesar da Pandemia não ter data prevista de finalização ou redução do contágio. Ou seja, não vivíamos um normal na educação e tampouco agora, assim, é preciso que não nos acostumemos com o chamado momentaneamente de “novo normal”, para quem? Quem é incluído e/ou protegido? E os jovens da periferia e das escolas públicas que farão o ENEM e/ou seleções para adentrar à universidade, são incluídos neste formato? Ou este fica restrito apenas para os alunos das instituições privadas com seus laptops e internet em casa? 

Não podemos deixar estes argumentos chegarem a um normalidade que não existe, a resistência e reinvidicação por uma educação de qualidade e garantida a todos, precisa ser a “normalidade”! É com vistas a refletir e compartilhar os tópicos acima, presentes na educação, que passamos aqui a descrever uma experiência executada através do Projeto Universidade para Todos (UPT), proposta de extensão da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), como um dos exemplos, se assim podemos afirmar, de invenção neste período, como um dos elementos na perspectiva e um futuro para um ensino além dos muros das instituições.   

Apresentamos a ação intitulada: Estude em Casa durante o Distanciamento Social.  Que tem como objetivo central promover a discussão de temas necessários para minimizar os efeitos da coronavírus na Bahia, bem como, antecipar as revisões dos conteúdos indispensáveis aos exames do ENEM e vestibular da UNEB. A ideia é mobilizar e manter as redes de contato entre os alunos/as egressos/as, assim como, os alunos/as aprovados/as na seleção UPT/2020, gestores, monitores e a coordenação geral. Num entendimento que reverbera no seguinte enunciado: “Não podemos perder tempo quando a matéria é educação!”

A metodologia é desenvolvida através de videoaulas produzidas a partir da home office de monitores das 11 disciplinas (do ensino médio) e demais convidados. Os vídeos seguem um roteiro previamente estruturado pela coordenação pedagógica e pela ASCOM/UPT(Assessoria de Comunicação) que direciona a produção dos videoaula e podcasts e, posteriormente, organizará o material nas mídias oficiais do UPT/UNEB. Isso garante que os estudantes possam acessar o conteúdo de suas casas, se resguardando em isolamento. Os referidos videoaulas e podcasts são disponibilizados na rede (Plataforma Estude em Casa e Youtube) para serem visualizados em momento mais oportuno pelos estudantes que poderão acessá-los diretamente de seus celulares ou de acordo com suas rotinas virtuais de usos e consumos das tecnologias. Com a proposta temos clareza que existe a limitação das conexões e acessos, entretanto, é uma alternativa na impossibilidade presencial. 

Além disso, a cada final de disciplina, é produzida uma live, no sentido de realizar o feedback entre os/as estudantes que acessaram o conteúdo, e monitores/as convidados/as, mantendo o fluxo de entendimento e aprendizagens. Também é divulgado endereço de e-mail, para que todas as dúvidas possam ser dirimidas.

Imagem 1: Print de tela – Plataforma Estude em Casa durante o distanciamento social

Fonte1


A plataforma, ainda conta com um repositório de conteúdo e ações desenvolvidos em 2019, acervos de bibliografias, bibliotecas virtuais, museus on-line, guias práticos, com a finalidade de propiciar um estudo integral aos internautas, que se interessam em realizar o ENEM e o vestibular da UNEB.

Imagem 2: Print de tela- Plataforma Estude em Casa durante o distanciamento social


Fonte2

As imagens 1 e 2 apresentam a página inicial da plataforma, bem como o Papo Reto (vídeo temático) da semana, que corresponde ao tema Racismo.

Portanto, Estude em Casa durante o Distanciamento Social, convida os estudantes da capital e do interior ao fortalecimento dos vínculos, ao conhecimento de temas que emergem do mundo atual, no sentido de impulsionar os estudos, a participação coletiva, mediante aos usos de metodologias ativas na educação, onde serão mobilizados profissionais e as tecnologias de comunicação e informação, para que juntos possam garantir que jovens da Bahia consigam, apesar da crise planetária, garantir a inserção no ensino superior.

Alguns entendimentos a partir da experiência acima: 

  • É preciso investigar como as demandas de agora com o ensino remoto e o uso das TCI’s podem influenciar as decisões sobre as abordagens pedagógicas futuras;
  • Refletir e agir sobre o não acesso de muitos estudantes ao ensino remoto, os quais aguardam uma decisão do estado de dissolução do problema, portanto, um tema que carece de uma política para uma grande parcela da população de estudantes;
  •  Conhecer as diversas proposições teórico-metodológicas com as tecnologias e mídias, compreendendo as conceituações que emergem com os diversos usos;
  • Compreender que a ação aparece como uma alternativa, entre tantas outras, para a “resolução” dos problemas da educação, alguns até apresentando-se como saídas “seguras”; vale destacar que precisa ser uma construção compartilhada pelos coletivos, incluindo a diversidade que lhe representa, no conflito dialógico e respeito às diferenças; 
  • Aproveitar das experiências construídas nos diversos segmentos de ensino, para promover mudanças na melhoria das práticas com as tecnologias e mídias, numa perspectiva cada vez mais crítica, inclusiva e de inovação. 

  • Por fim, a pergunta que abre esta breve discussão continua em aberto, a espera que tomemos em nossas ações, a construção (sempre provisória) de uma educação mais democrática e inclusiva.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNC C_20dez_site.pdf. Acesso em: 22 de dezembro de 2017.


Autoras do texto:

Edilane Carvalho Teles é Doutora em Comunicação pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade de São Paulo (PPGCOM – USP); Docente da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Departamento de Ciências Humanas, Campus III. Coordenadora do Projeto Polifonia e do Observatório de Educação Midiática e Tecnológica na formação docente. E-mail: edilaneteles@hotmail.com

Elis Rejane Santana Silva, Dra. Em Ciências da Comunicação da ECA/USP. Professora Assistente – Campus III - UNEB. ​Coordenadora Pedagógica UPT. Educomunicadora e Ecóloga Humana.


Videoartes contra o Coronavírus


A pandemia da Covid-19 tem afetado a cena artística, principalmente os trabalhadores do campo das artes e do mundo circense. Professores e alunos do curso de Licenciatura em Teatro, localizado no campus VII,  Senhor do Bonfim, da Universidade do Estado da Bahia, realizam produções audiovisuais que narram um pouco do cotidiano destes artistas e o impacto social e cultural em decorrência da Covid-19. O projeto é coordenado pelos professores Felipe Dias  e Michel Guimarães, com a monitora Tatá Barbosa e estudantes voluntários do projeto.
Conheça os vídeos no Canal Videoartes contra o Coronavírus, na plataforma Youtube.
Confira aqui.
Informações confira o Instagram de Felipe Dias @filipe.arte.

PRÓ, AGORA A GENTE SÓ VAI TER AULA PELO CELULAR?


Adriana Maria Santos de Almeida Campana
Edilane Carvalho Teles

O texto de hoje tem como objetivo colocar o tema da ‘Educação para a Infância’ no centro das discussões, numa tentativa de diálogo para perpassar por considerações apresentadas anteriormente na Coluna Polifonia, sobre este importante segmento formativo no cotidiano das escolas e famílias. Assim, percorre através de construções realizadas em tempos de pandemia, elencados a seguir, sobre os modos como têm sido propostas as atividades às crianças, além do desafio contínuo da elaboração de práticas pedagógicas diversas, e assim retomar uma caminhada que nos faça pensar sobre o ensino remoto (se e quando possível) para a educação Infantil.  
A primeira investida foi quando escrevemos Pensando a Educação Infantil nos tempos de pandemia, nossas primeiras linhas, dia 27 de abril. De lá para cá a pesquisa foi se embasando, escutando pais, professores, alunos e se consolidando nesse processo. Loris Malaguzzi, em entrevista, trouxe o tema mudanças sociais e como as crianças lidam com as realidades da vida. Disse que as mudanças “[…] determinam o surgimento, tanto em níveis gerais quanto locais, de novos métodos de conteúdos e de novas práticas educacionais, assim como novos problemas e novas perguntas a serem respondidas” (p. 56). Nesses quase três meses fomos observando com mais atenção os detalhes que constroem essa etapa e as novas práticas, sobre as quais algumas perguntas estão sendo respondidas, inclusive para o segmento que contempla a primeira infância.
A princípio, em reflexões elementares abordamos a importância da interação das crianças com seus pares e sua ausência no distanciamento social, ou seja, naquele momento, corroborávamos com a espera para entendermos o que vivenciávamos, inclusive não propondo o ensino remoto como alternativa. Entretanto, o que temos experienciado é que esta interação ‘crianças-tecnologias-professores-escolas’ foi se fortalecendo, ou ganhando formatos a serem discutidos sobre os usos das telas (smartphone, tablets, computadores). Professores ressignificaram suas aulas e vão experimentando cada possibilidade de intercâmbio com seus alunos. Esse movimento de fazer e experimentar na prática é o que percebemos estar pulsando o coração da Educação Infantil. 
Importante ressaltar que nossas reflexões iniciais vieram dos diálogos que alçamos com pais e mães preocupados e inseguros com o novo formato temporário do ensino-aprendizagem no Brasil. Tais percepções estão no texto de 21 de maio, Educação e distanciamento social: O que dizem os pais sobre o ensino remoto? Destacamos duas falas que direcionaram as reflexões:
“Meu filho é do grupo 3, assim, as atividades inicialmente propostas pela escola, a partir de encontros on-line não funcionaram, tendo sido esse relato coletivo, entre as mães de crianças dessa faixa. […] Optei por cancelar a escola este ano” (R5, EI).
Em contraposição à afirmação acima, outra destaca:
“[…] vejo que é importante para a minha filha ver os professores […] é algo que está sendo positivo para a manutenção do vínculo”. (R11, EI)
Estes relatos trazem a disparidade de entendimentos sobre a importância da escola para este grupo, uma vez que, enquanto uns acreditam na insipiência do ensino-aprendizagem, outros pensam na interação e manutenção de um mínimo de ‘normalidade’ com o distanciamento imposto às escolas e a realidade que iniciava a fazer parte de suas rotinas. A observação e a escuta, no momento possibilitaram aprofundar certas compreensões sobre a Educação Infantil nesse período, indo além da interação presencial com seus pares. Tais aspectos são refletidos e sistematizados em parte, para que possamos criar uma memória sobre o que é possível com as alternativas ‘inventadas' sobre outros modos de fazer.

Nos diálogos com os profissionais da educação, ouvimos relatos de atividades que não pensávamos antes do distanciamento e vamos aqui destacá-los e compartilhar. Vislumbrando para além das telas e com ajuda delas, ouvimos experiências incríveis, como, por exemplo, um programa de rádio no formato podcast realizado por três professoras. Transcrevemos um pequeno trecho inicial para dar uma ideia do gênero oral utilizando o celular.


O celular tornou-se ‘indispensável’ para as atividades remotas, visto ser dispositivo/tecnologia mais utilizado por quase todos os responsáveis. Não podemos esquecer que nos referimos a crianças das escolas particulares e públicas, que infelizmente têm acessos diversificados. Nessa amplitude, além do celular pudemos observar o uso de plataformas com aulas ao vivo, aplicativos como Zoom e Google Meet, por exemplo, e vídeos gravados. Mas importante lembrar, e abordaremos isso mais adiante, que o celular e/ou qualquer outro dispositivo como possibilidade para aula remota só terá êxito com professores qualificados, planejamentos e objetivos claros de aprendizagem.

Percebemos, portanto, que a presença de atividades remotas, mesmo que pontuais em alguns casos, facilitaram além da interação, a implementação de rotinas na vida da família, trazendo por vezes, mais segurança e autonomia para as crianças. Tais questões e importância foram abordadas no dia 7 de maio, Por que pensar sobre a rotina das crianças e adolescentes, inclusive com possibilidades de construção de uma rotina individualizada, que tenha a participação da própria criança. Relacionado a este aspecto, obtivemos um relato de uma mãe da Educação Infantil.

Porém, além de aplicativos e modos de como fazer, a diversidade e qualidade das atividades pensadas pelos profissionais para as crianças pequenas são fundamentais. Cada possibilidade propõe uma amplitude de experiências possíveis, mesmo que pessoas que não são da área da educação pensem: ‘só’ estão brincando! Na coluna da semana do Brincar, do dia 28 de maio, refletimos tal importância, onde expomos que o brincar relaciona-se diretamente com as aprendizagens e suas elaborações. 

Outro conteúdo bastante difundido nesse momento e que exige cuidados é a contação de histórias. Encontramos inúmeras experiências apresentadas no youtube e várias professoras contando histórias em suas videoaulas. Na coluna Polifonia do dia 14 de maio nos aproximamos do tema em Leitura e infância: Por que ler para as crianças desde o nascimento? e pontuamos os benefícios da literatura infantil, da contação e da mediação de histórias. Como perguntamos, achamos importante a intencionalidade da leitura ou contação, e ainda que seja para o deleite da criança, deve ter planejamento e objetivos. Importante salientar que o simples fato de ver uma contadora lendo/contando histórias na televisão, dependendo de como o faça e, da escolha do texto literário, pode não haver estímulo à imaginação, transposição para outros lugares ou mesmo reconhecimento de emoções, identidade, cultura e sim um estímulo imagético que as crianças não estão conseguindo compreender, ‘digerir’, deixando-as ansiosas, agitadas e desconcentradas.

Como possibilidade para uma contação podemos trazer o exemplo de uma professora que contou em vídeo a história da Chapeuzinho Vermelho, com palitoches colados, em desenhos que eles já haviam feito em sala, antes do distanciamento e ela havia guardado. O cenário dos palitoches era uma caixa de papelão e os materiais reciclados. Depois da história, ela questionou em um vídeo, dentro da sala de aula dos pequenos:
Como percebemos na atividade acima, a professora possuía uma intencionalidade de diálogo e de conhecimentos com os alunos, a partir da história. Além disso, o fato de relacionar à própria sala, estreita o vínculo que a criança possui com a professora e com sua escola, proporcionando segurança. Outras várias possibilidades podem e devem permear a Educação Infantil envolvendo a literatura. Podemos iniciar com uma motivação, um desafio, uma adivinhação, chamando a atenção para capa, escondendo o título e/ou questionando qual título dariam, lendo o título e pedindo que desenhem a capa, sem terem observado anteriormente, perguntando o que eles acham que acontece na história. Dependendo da obra podemos abordar inúmeros temas. Isso irá depender, mais uma vez, da finalidade dos objetivos de aprendizagem. Podemos, por exemplo, citar um trabalho remoto com o livro Bruna e a galinha d’Angola de Gercilga de Almeida (apesar da indicação do vídeo no link, sugerimos veemente que não substituam o livro pela tela!); mostrar a capa em imagem e contar em áudio vídeo. Isso pode ocorrer durante a semana, trabalhando este livro como leitura geradora. Algumas ideias, a seguir:


  1. Explorar o título (quem vocês acham que é a personagem principal desta história? O que mais vocês estão observando na capa do livro? 
  2. Fazer a contação ou leitura do livro;
  3. Vocês sabem o que é Angola? Pedir que as crianças procurem o que é Angola (o retorno pode ser em áudio);
  4. Dependendo da tecnologia que estiver usando, mostrar o mapa do Brasil para as crianças e o mapa do continente africano e Angola destacada. Reafirmar que a história está falando deste país. Se tiver possibilidade, mostrar fotos, como, por exemplo, uma visita ao Google Maps e ao Google Earth, para iniciar o processo de conhecimento espacial do mundo, imagético em movimento como propõe o último recurso;  
  5. Enviar para as crianças a música África da Palavra Cantada (audio ou Youtube);
  6. Podemos sugerir que as crianças criem um coreografia com a música, gravar no celular realizando com os pais; façam um desenho sobre como imaginam a Angola; fazer uma pesquisa com os pais e buscar fotografias, comparar com o desenho, entre outras possibilidades; 
  7. Alguém sabe como é a galinha d’angola? O que ela tem de diferente? Vamos desenhá-la com o material que vocês quiserem, (também pode sugerir que façam de massinha, inclusive com a receita para fazer com os pais em casa);
  8. Importante salientar que a cada ação que compartilhamos, a presença dos pais é uma constante, as crianças deste segmento precisam de acompanhamento para realizar muitas das atividades propostas. Neste aspecto, os laços e parcerias para o fortalecimento e desenvolvimento da educação estreitam ainda mais, crianças-pais-professores.

Ao longo desse processo de pesquisa sobre o ensino remoto nas escolas, pudemos constatar com as diversas experiências, que também é possível trabalhar com aprendizagens significativas remotamente, com as crianças da Educação Infantil. Sabemos que a pergunta da criança que colocamos no título é um real pedido de calor humano, de abraço na pró, de conversa com os amigos, mas infelizmente, devemos ficar em casa e cuidar uns dos outros. Não podemos esquecer da importante atuação dos pais, que apesar de toda dificuldade, precisam orientar seus filhos, não como professores, mas como pais, que nunca deixarão de ser. 

Nossa luta e reivindicação para que a educação seja um direito para todas as crianças e não de alguns privilegiados com acesso a internet, computadores e celulares, contudo, chamamos a atenção para não deixá-los muito tempo diante dos dispositivos. Para este segmento são necessárias interações com linguagens diversificadas, as pessoas e o mundo (neste momento, a distância) são muito importantes, e a tela do smartphone não é o lugar onde irão acontecer, uma vez que não têm os mesmos significados aos construtos reais, são experiências ‘filtradas’ e nossas crianças precisam e merecem mais que isso. 

Referência: 


EDWARDS, Carolyn; GRANDINI, Lella; FORMAN, George. As cem linguagens das crianças. A abordagem de Reggio Emilia na Educação da Primeira Infância. Porto Alegre: Editora Artes Médicas Sul, 1999.


Adriana Campana é mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Educação, Cultura e Territórios da Universidade do Estado da Bahia (PPGESA/DCH III/UNEB. Membro do Grupo Polifonia e Vice-Líder do Grupo de Pesquisa em Educação Contextualizada, Cultura e Território - EDUCERE. E-mail:didacampana@yahoo.com.br





Edilane Teles é Doutora em Comunicação pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade de São Paulo (PPGCOM – USP); Docente da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Departamento de Ciências Humanas, Campus III. Coordenadora do Projeto Polifonia e do Observatório de Educação Midiática e Tecnológica na formação docente. E-mail: edilaneteles@hotmail.com

As crônicas radiofônicas e a MPB no caminho de Dom Helder

De abril de 1974 a abril de 1983, na Rádio Olinda, emissora da rede católica, o arcebispo Dom Helder Camara bateu ponto todos os dias da semana, exceto aos domingos, para dialogar com seus ouvintes assíduos do programa  "Um olhar sobre a cidade". Comedido, diante dos microfones, não chegou a externar todas as suas opiniões, temendo que este único espaço midiático que lhe restava também  fosse confiscado pelos censores. Ainda assim,  havia rigorosa censura do SNI e do Dops, que em vários momentos, após o programa, requisitavam cópias em fita cassete das edições para avaliar o conteúdo, ameaçando fechar a emissora, caso não se cumprissem as ordens expressas.

A cada edição, o arcebispo - no papel de comunicador- abria o programa com uma crônica. Sua voz mansa começava a ganhar  repercussão no programa que ia ao ar durante as manhãs, dando seu bom dia com o bordão "Meus queridos amigos". Ao longo dos nove anos ininterruptos de programa, foram 2.549 crônicas produzidas e lidas no ar, a maioria, com temáticas voltadas para injustiças sociais, política, religião, sentimentos e reflexões. Além de servir de material  para a memória do rádio, as crônicas revelam um Dom Helder familiarizado com os fatos da época por meio do noticiário e com a MPB politizada.

Ao longo dos programas, o religioso também abordou temáticas como arte sacra, natureza,  ecologia, poesia, tecnologias, infância e juventude. Composições clássicas da MPB, deram o mote para algumas das crônicas. Ele não  só tocou, como leu parte dos versos e teceu comentários fazendo analogia à realidade das pessoas no cotidiano, sem deixar de exprimir  referências sobre política, injustiças sociais e até mesmo observações poéticas e sentimentais.
Dom Helder e Elis Regina
Apaixonado por música clássica e brasileira autêntica, Helder tinha bom gosto. Apreciava os compositores e intérpretes da geração que eclodiu nos festivais de música do final dos anos 60, a exemplo de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Geraldo Vandré, Luiz Gonzaga, além de outros artistas que surgiram nas décadas  seguintes como Zé Geraldo e Osvaldo Montenegro que no esboço de sua arte, também lapidavam o discurso de contestação ao sistema e os problemas sociais. "Se eu perder contato com os artistas, não serei eu", costumava dizer.

Uma das canções emblemáticas dos anos 70 que Helder levou para refletir na intertextualidade do programa foi Maria, Maria (Milton Nascimento/Fernando Brant),  na crônica  "É preciso ter raça". Após os versos finais,  lembrou o Papa João Paulo II quando visitou o Recife, na década de 80: "Quando  João de Deus esteve aqui olhando nossa gente sofrida, disse: sua gente tem pouca ideologia na cabeça, mas tem muita fé no coração! Ter fé e nos transmitir coragem, esperança. e alegria de viver.

Na crônica Quem não sabe dar,  dialogou com a música "Fica Mal com Deus", de autoria do compositor paraibano Geraldo Vandré, um dos artistas perseguidos pelo regime militar que chegou a ser torturado e exilado após o AI-5. "Os poetas verdadeiros, os autênticos criadores de canção, acabam nos dando a impressão de que os poemas que eles criam e as canções que ele nos ensinam a cantar, acabam sendo um bocado nosso".

Ao final da leitura, mandou um recado no ar para o compositor:  "Geraldo, Deus gosta de quem sabe dar. Quem não sabe se tem desejo sincero de saber dar, esteja certo da ajuda de Deus. Ele chega a perfeição de ensinar a dar do modo belíssimo do ensino de Cristo: dar sem que a mão esquerda saiba o que faz a direita. Fica mal comigo quem não sabe amar? Sei que é tão infeliz quem não sabe amar, que longe de eu ficar mal com quem não sabe amar, entra de cheio nas minhas preces: que Deus que é amor, faça com que todas e todos aprendam a amar"

Na mesma época embalou uma crônica com "Agonia" de Oswaldo Montenegro. "Repare-se de início que o título já é sugestivo: Agonia". E leu os versos da canção.  "A grande agonia é ir morrendo um pouco a cada dia, a grande agonia é mesmo  fazendo de conta  que é festa, dançando e cantando, mesmo tentando contagiar diversos corações com a aparente euforia,  a amargura e o tempo vão deixando a alma vazia. A grande agonia é que mesmo anunciando sem que se perceba, a gente se encontra pra outra folia, é folia para esconder uma invencível agonia".
Chico e Helder: "Meus Queridos Amigos"
Chico Buarque foi um dos artistas que despertou o interesse do religioso por suas canções já no final dos anos 60. As canções líricas e de protesto do artista e o engajamento do arcebispo em defesa dos Direito Humanos,  aproximou os dois numa amizade que fez Buarque visitar o religioso em várias de suas turné pelo Nordeste, quando passava por Recife. Em um dos programas de rádio de abril de 1982,  Helder pescou do fundo do baú, a canção Roda Viva, classificada em terceiro lugar no III Festival de Música Popular Brasileira, ocorrido entre setembro e outubro do ano de 1967.

Na crônica, mostrou-se na intimidade ao dialogar com o cantor: "Querido Chico, em tua Roda Viva, que a gente não consegue esquecer, levanta no meio da alta poesia o problema grave e dificílimo do destino", como sugere os versos da canção: Tem dias que a gente se sente/Como quem partiu ou morreu/ A gente estancou de repente/Ou foi o mundo então que cresceu/A gente quer ter voz ativa/No nosso destino mandar(...)./

Diante da expressividade política de Roda Viva,  ele fez o desfecho  observando que "na casa do Pai não há rotina. A gente vê, ouve, vive tudo pela primeira vez".  Segundo a jornalista Tereza  Rozowykiwat,  que organizou o livro  Meus queridos amigos -  As Crônicas de Dom Helder, "havia crônicas que funcionaram como conselhos aos ouvintes quanto a situações do dia a dia, além da análise de sentimentos que podiam  engrandecer ou amesquinhar os indivíduos, bem como ele expressava seu jeito de ser, seus sonhos e sua interpretação da realidade e da natureza".

Coluna Do Texto ao Texto (Letras e sons) por Emanuel Andrade, jornalista, professor do curso de Jornalismo em Multimeios e Doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Trabalhou como Repórter no Jornal do Comércio e foi pioneiro no jornalismo cultural na região, ao assinar a coluna de Literatura e Música  para o Gazzeta do São Francisco na década de 1990 e para rádios do Vale do São Francisco.

Metodologias, experiências e aprendizagens com o ensino remoto

Edilane Carvalho Teles; Suéller Costa
Iniciamos com a pergunta para transpor às experiências docentes na realização das práticas pedagógicas com este formato, que encontra-se por entender-se. Sobre o qual ouvimos sistematizações que apontam como saída para um ‘futuro próximo’, o ensino híbrido, considerado um ‘novo normal’ na educação. Assim questionamos: as exclusões e problemas da educação podem ser considerados um ‘normal’? Esperamos, sinceramente, que não. A princípio, pedimos cautela e estudos sistemáticos para compreender seus significados na educação de ‘todos’, e não apenas para a ‘parcela’ que teve acesso neste período. Corroboramos que a melhor maneira para conhecer é realizar nas ações do cotidiano e nos modos do fazer em movimento, o imbricamento com a realidade, para isso, a observação, a escuta, o planejamento, a experimentação e o acompanhamento reflexivo e avaliativo contínuos, como posicionamentos profissional e estratégico conscientes, que nos ajudem no processo de criação e ressignificação de uma práxis pedagógica mais inclusiva.     

      Com o início do ano letivo, em meados de fevereiro, mal sabíamos o que estava por vir. Materiais didáticos recebidos, planejamentos bimestrais concluídos, aulas atribuídas, turmas definidas, metas traçadas, objetivos transcritos e uma série de atividades organizadas, além de projetos sendo construídos para a sua elaboração ao longo dos 200 dias letivos e as 800 horas de efetivo trabalho escolar, determinados pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB). Tudo, devidamente, programado, conforme determina a dinâmica dos espaços educativos formais. A chegada de um vírus, inicialmente, desconhecido; logo depois, assustador; e, atualmente, em constante estado de alerta, desconstruiu um formato metodológico que há anos conduz o sistema de ensino brasileiro. A pandemia gerada pelo Covid-19 trouxe uma transformação nas práticas, condutas e reflexões, além de uma outra idealização sobre o processo educativo.


      Apesar disso, passados os primeiros meses de experiências com o ensino remoto, ainda é frequente as confusões entre a modalidade EaD (Educação a Distância) e o que se configura como remoto, equívoco que provavelmente esteja relacionado à sua realização em distanciamento entre os pares e espaços com as atividades, além de este ser um tópico ausente na formação inicial e continuada docente. 

      O ensino remoto e emergencial, porque não foi planejado e estruturado com data marcada para o seu início e a sua finalização, está em desenvolvimento no Brasil. Aliás, esta metodologia foi a alternativa adotada ao redor do mundo. Ao todo, 191 países fecharam escolas, afetando 1,5 bilhão de estudantes. Cada nação, com a sua realidade, estruturou as suas dinâmicas, e, assim, como em terras brasileiras, também enfrentou dificuldades, nos âmbitos social e inclusivo. Em alguns países, as aulas estão retornando aos poucos, com os devidos protocolos de segurança. Por aqui, este processo se mantém, e os cerca de 48 milhões de estudantes da Educação Básica, espalhados pelas 181,9 mil escolas, entre públicas e privadas, estão condicionados ao novo formato de ensino. 


      Destes milhões, acredita-se que nem a metade está tendo acesso à nova dinâmica. Para se ter uma ideia, 4,8 milhões de estudantes do ciclo básico não têm acesso à internet, segundo a pesquisa TIC Kids Online 2019, divulgada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).  E este tem sido o principal impeditivo para as práticas remotas serem democráticas, e, de fato, inclusivas. Ainda não é possível mensurar quantas crianças e quantos jovens da Educação Básica, de fato, foram excluídos do processo educativo. Cada Estado tem feito o monitoramento em sua região, e, apesar das inúmeras estratégias adotadas, não podemos considerar que todos os matriculados estão sendo atendidos, e os motivos são inúmeros, muito além da conectividade e da falta de dispositivos comunicacionais.


      Por outro lado, para aqueles, que possuem condições de dar continuidade ao processo, o desafio foi lançado, educadores e educandos estão se apropriando de inúmeros suportes para manter as conexões, tanto virtuais quanto emotivas. A distância física existe, mas o contato para os que têm acesso é contínuo. Em muitas turmas, a aproximação se tornou mais evidente e a relação foi além do aspecto cognitivo. Aulas síncronas e assíncronas, ou seja, ao vivo ou gravadas; atividades diversas, tanto escritas quanto digitais, e, de preferência, interativas; experiências gamificadas; interatividade por meio de fóruns, lives, videochamadas, audioaulas em diversas plataformas. Os inúmeros gêneros digitais são explorados e possibilitam a sincronia entre as ações, fortificando, em especial, o vínculo entre professor e aluno.


Fotos 1 e 2 -  Jogo de cartas on-line construído com base na contação de uma história sobre o Covid-19, com destaque aos sintomas e aos hábitos de higiene. Professora Sueller Costa

Para aqueles que atuam com alunos nas faixas iniciais, no Ensino Infantil ao Fundamental I, pôde-se construir uma aproximação com as famílias, que se tornaram mais parceiras na continuidade do processo educacional; para os estudantes maiores, dos ensinos Fundamental II e Médio, uma aproximação com os jovens, entrando em suas rotinas e atentando-se não apenas aos aspectos cognitivos, mas, também, comportamentais, emocionais e familiares.

A seguir, são elencados alguns aspectos para a condução do ensino remoto, com base nas experiências observadas ao longo dos últimos cem dias, e, em especial, com alunos do Fundamental I. Em primeiro lugar, a família é essencial em todo o processo; em segundo, as possibilidades de acesso aos recursos tecnológicos e comunicativos e, em especial, à conectividade; e, em terceiro, o compromisso do educador em construir, neste momento, a fortificação da tríade professor-aluno-família. Estes três pontos, quando alcançados, possibilitam a continuidade das ações e a certeza de que o educar se mantem presente ao longo desta jornada. Para a sua condução, destaca-se os elementos mais desafiadores: envolvimento, atenção, proximidade e parceria. 

  • Envolvimento e interação no processo ensino-aprendizagem

Envolver o aluno numa estratégia totalmente diferente da que ele estava acostumado foi desafiador. Primeiramente, novas formas de contato, uma plataforma, um canal de comunicação e, em seguida, a conduta dos estudos. Métodos que se tornaram eficazes porque, por meio deles, o professor passou a demonstrar ao estudante que continua presente. Os encontros se mantêm e, com eles, o vínculo é restabelecido, e, por sua vez, fortificado. Estar ‘à disposição’ tem possibilitado o envolvimento nas aulas, mas, principalmente, as estratégias de aprendizagem, que, além de aulas expositivas, envolvem dinâmicas, como uma dança para aquecer o corpo antes de uma aula ao vivo; um jogo com uma roleta para relembrar tópicos da aula anterior; um exercício coletivo para despertar a interação; um feedback de um trabalho entregue para motivar o interesse; uma música no final para transmitir boas energias, e, ainda, uns minutinhos para alguém compartilhar uma dica de filme para assistirmos no final de semana. Aproximar-se para que eles se sintam ouvidos, próximos, atendidos e queridos. 

  • Atenção constante

A atenção tem sido essencial em todo o processo, apesar de ser um dos motivos do excesso da carga horária do trabalho docente, pois com o acréscimo das elaborações para o formato remoto, que é diverso das atividades realizadas para o modo presencial, tem requerido um tempo maior de planejamento e disposição diante das telas dos aparatos tecnológicos. Nesse percurso, os construtos e sucessos do ensino-aprendizagem também dependem do professor atender o seu aluno, em especial, de forma individualizada, para esclarecer, acompanhar e orientar. É neste momento que ele dirime as dúvidas, ajuda nas dificuldades em alguma questão que vai além dos conteúdos que estão sendo explorados. Este é um compromisso que integra a profissão de um educador. E, neste momento, muitos alunos o vê como um amigo, um confidente. Por mensagens escritas, auditivas e visuais, a sensação de ser atendido desperta uma relação de companheirismo, aumentando a confiabilidade e ultrapassando a linha do ensino, adentrando na complexidade do humano que encontra-se em distanciamento social. 

  • Proximidade 

Este período ampliou a proximidade entre professores e alunos, em especial, entre os profissionais especialistas, que, no geral, atuam com muitas turmas ao mesmo tempo. O contato individual, mesmo filtrado pelas telas, para o envio dos registros das atividades, a solicitação de ajuda e o atendimento, reaproximou, aumentando, por sua vez, as relações. No caso dos alunos dos anos iniciais, esta aproximação ocorreu junto às famílias, que viram no professor mais que um parceiro, um importante e essencial orientador da sua rotina, na conduta do ensino com seus filhos. Mostrar que os conhece, que se esforça para garantir o seu aprendizado, preocupar-se com o que a criança tem dificuldades, atentar-se às suas necessidades. Este olhar especial aos educandos, mesmo no ensino remoto, fortificou esta relação.

  • Parceria

Ser parceiro representa estar disposto a colaborar, agregar, ajudar e ampliar. Com o objetivo de manter a sincronia entre os sujeitos da aprendizagem, a parceria entre alunos, professores e familiares foi essencial para a condução das atividades. As aulas ao vivo, embora voltadas aos alunos, não impedem que os demais membros da família, inclusive, os animais de estimação, estejam presentes; que as dinâmicas incluam participações especiais; que os conteúdos sejam associados a aspectos relacionados ao cotidiano das famílias; que as brincadeiras para fixação de conteúdo ganhem uma torcida organizada (família que assiste in loco), que os jogos, on-line e/ou pedagógicos, sejam elaborados com base nos conteúdos, mas também em aspectos culturais que permeiam a vida das crianças, como, por exemplo, a construção de uma pipa com as cores que aprendeu; a escolha dos seus brinquedos preferidos e apresentá-los num novo idioma; a sugestão de uma música que fala sobre um assunto abordado; uma amarelinha feita em família para treinar os números; a construção de um dado de palavras para treinar o vocabulário, dentre tantas outras possibilidades.



Foto 3 -  Cartaz fotográfico ilustrando atitudes "Green", ou seja, ações de conscientização ao meio ambiente. Professora Suéller Costa

As atividades são planejadas pelo educador, transmitidas pelo familiar, compreendidas e realizadas pelo aluno, conduzidas através dos meios tecnológicos. Mas a assimilação, o envolvimento, a compreensão e a significação do porquê realizar esta ou aquela tarefa se constrói com esta tríade. Inicialmente, muitos ficaram perdidos, com horários descontrolados, prioridades indefinidas, atividades acumuladas e sem saber como reorganizá-las. Com o passar dos meses, foi se criando uma rotina, tendo como foco o comprometimento com o aprender! Hoje, para muitos que continuaram este processo, com acompanhamento e constância construiu uma rotina diversa, a escola mudou de lugar,  apesar do sentimento de espera, contando com o retorno o mais rápido possível.
Muitos são os aprendizados, tanto para o professor quanto ao aluno. Todos se reinventaram, descobriram novos suportes tecnológicos, adquiriram novas habilidades, ressignificaram suas abordagens pedagógicas, ampliaram conhecimentos. Houve uma maior sensibilidade às realidades dos diferentes alunos e familiares. Os educadores demonstraram que, mesmo emergencialmente, é possível promover mudanças, e delas extrair aspectos construtivos positivamente. Apesar das tecnologias serem enaltecidas ao longo deste período, o que fica marcado é que a figura do professor supera qualquer recurso. Ele é o protagonista deste processo, o criador das práticas, o idealizador dos projetos; o aluno protagonista do seu aprendizado, da busca pelo conhecimento, do seu constante desenvolvimento. E a família, no papel de mediadora, é protagonista no processo de reorganização espacial e temporal, a responsável para adaptar o seu lar, e, nele, propiciar a continuidade do saber. Ela, no papel de incentivadora ao longo desta jornada, mostrou que também, mais do que nunca, é essencial para a construção cognitiva de seus filhos.


Edilane Teles é Doutora em Comunicação pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade de São Paulo (PPGCOM – USP); Docente da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Departamento de Ciências Humanas, Campus III. Coordenadora do Projeto Polifonia e do Observatório de Educação Midiática e Tecnológica na formação docente. E-mail: edilaneteles@hotmail.com 





Suéller Costa é Jornalista, Educadora, Educomunicadora e Pesquisadora. Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Especialista em Educomunicação, Tecnologias na Aprendizagem e Alfabetização e Letramento Digital. Atua como professora da Educação Básica, colunista especializada em textos voltados a educação e cultura, articuladora de projetos educomunicativos no ensino formal e não-formal. E-mail: sueller.costa@gmail.com