Jogos virtuais permitem interação com o espaço urbano



Ao caminhar pelas praças e parques, você já deve ter visto alguém concentrado na tela de um smartphone interagindo com um personagem de um jogo virtual. Pode ser a busca por bichinhos virtuais, como Pokémons, ou se deslocando por bairros na cidade à procura de pontos que liberam dicas em áudio ou imagem para responder a enigmas e palavras cruzadas.

Para o Doutor em Comunicação e professor do curso de Jornalismo em Multimeios, da Universidade do Estado da Bahia, Luis Adolfo de Paiva Andrade, esse tipo de comportamento é motivado pelos jogos de realidade alternativa (alternative reality games), também chamados de jogos locativos ou pervasivos, que permitem a interação entre o personagem de um jogo, o usuário e o espaço urbano. Além de ser uma prática educativa que envolve aprendizado, é também uma das diversões dos apaixonados por games.



Em entrevista à Agência MultiCiência, Luiz Adolfo esclarece como as experiências com games podem ser aplicadas no ensino, aponta desafios como os editais para financiamento público para desenvolvimento de games e aborda novas perspectivas dos jogos aplicados ao jornalismo. “Existe uma categoria chamada newsgame, que são jogos feitos com base em notícias, uma categoria diretamente ligada ao jornalismo. Esse é um dos caminhos, são os jogos que se aproveitam de um fato divulgado na mídia, como o do Ronaldo, com um problema de peso”, afirma Andrade.


MultiCiência: Qual a especificidade dos jogos pervasivos ou locativos relacionados aos de primeira geração, que foram os primeiros a serem desenvolvidos?
Luiz Adolfo: A minha classificação de games são de dois tipos. São os jogos que eu chamo de videogames, quando o jogo acontece no monitor, e eu uso o espaço para pensar esses jogos. O espaço não interfere em nada na disputa. O usuário pode, inclusive, jogar em qualquer espaço, isso não altera. É possível, durante o jogo, trocar de espaço e não ter problema nenhum, são os videogames, dentro dos jogos digitais. E os outros são os jogos locativos, exatamente a especificidade dele. O espaço que você escolhe para jogar tem que permanecer o mesmo. Então, se eu estou com o Pokémon Go ligado, pegando pokémons, e no meio dessa briga eu quiser parar e escolher outro espaço para jogar,  perco totalmente o progresso que estava tendo ali. No caso do videogame, não, eu aperto o botão de pausa e posso mudar de lugar.

MultiCiência: Diante da possibilidade que as pessoas têm de interagir entre o espaço virtual e a cidade através dos jogos locativos, quais mudanças de comportamento podem ser percebidas numa comunidade na sociedade?
Luiz Adolfo: Às vezes, percebemos que alguém está agindo de maneira estranha, no sentido de ficar apontando o celular para as coisas e olhando, e verificamos que ele está jogando. Ficava jogando na Praça da Misericórdia, em Juazeiro, caçando fantasmas, com um jogo de caça fantasmas e as pessoas me viam com o celular para cima e pra baixo. Acho que é importante ter consciência de que a gente está se deslocando no espaço, que a dinâmica do espaço interfere no jogo. A gente teve um caso de um cara que foi atropelado por um ônibus, mas não foi o jogo que fez isso, ele que não prestou atenção.

MultiCiência: Educadores têm estimulado o uso dos jogos nas escolas. De que forma eles podem contribuir como ferramenta de ensino?
Luiz Adolfo: O jogo por si só já implica num tipo de aprendizado, você tem que aprender as regras, para jogar. Dessa forma, o jogo sempre vai estar relacionado a um tipo de aprendizado. Então, se a gente está falando de educação, falamos de aprendizado, se a gente fala de jogo a gente fala de aprendizado.

MultiCiência: Ainda existe resistência para incluir os jogos como uma prática de ensino? O que falta nas escolas para usar os jogos de forma apropriada?
Luiz Adolfo: Não acho que exista resistência. Existem professores que não são preparados, não entendem, não mergulham no objeto e a função mais fácil que eles encontram é impedir que o jogo seja utilizado em sala de aula. A gente vê isso, por exemplo, com os celulares. Existem professores que às vezes não têm o mesmo conhecimento do aparelho que o aluno. Então, para ele é muito mais fácil falar que é proibido entrar com o celular, ao invés de tentar usá-lo como ferramenta dentro da sala de aula.

MultiCiência.  O Senhor realizou um jogo relacionado aos acontecimentos da história da Bahia, que foram aprovados em editais públicos. Como avalia que o Estado e/ou secretarias de educação têm buscado desenvolver projetos que estimulem o uso dos jogos em sala de aula?

Luiz Adolfo: Fiz o jogo A Fórmula do Conhecimento, patrocinado pelo Centro Universitário Jorge Amado – UNIJORGE, em 2009, que ganhou prêmio de melhor jogo daquele ano em Salvador; e, em 2011, o Capitães de Areia, com recursos do Faz Cultura e da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult), sobre centenário de Jorge Amado. Ano passado, fiz o GPS coquetel musical em Petrolina - PE, que foi premiado entre os cinco melhores jogos do Brasil ano passado. Acho que a Bahia, diferente de outros estados, tem uma abertura muito grande para editais pra fazer jogos. O estado investe muito em jogos. Ano passado, segundo levantamento de pesquisas que fiz, a Bahia foi o estado que mais produziu jogos em 2015. Aqui, tem um potencial enorme, porém, existem algumas burocracias. Falta pessoal da área de games para pensar os editais. Hoje os editais são pensados por pessoas de cinema, produção cultural, mas ninguém na área de games. Então você encontra algumas ocasiões que são absurdas. Houve edital que disponibilizou 1 milhão e meio para fazer jogos, só que as condições não são boas. Um exemplo, é o funcionário público não poder concorrer a editais de órgãos como a Secult, tanto que nesse edital ninguém concorreu. Então, falta isso, têm as políticas, iniciativas e recursos, o que falta é deixar a gestão desses recursos na mão de pessoas acostumadas com games.


MultiCiência: O Senhor é design de jogos e tem se dedicado aos estudos de jogos, quais são os seus projetos atuais?
Luiz Adolfo: Trabalhei com todos os tipos de jogos que você possa imaginar, mas atualmente trabalho com jogos locativos, criados com mídias locativas. A diversão desse jogo é que ele é utilizado com tablets e celulares, com as funções georreferenciadas nesses equipamentos, e ele nos obriga a se deslocar pelo espaço físico enquanto joga. Atualmente, pretendo entender a relação dos jogos digitais com o espaço geográfico. A área de games está crescendo muito. A UNEB tem o curso Tecnólogo em Desenvolvimento de Jogos Digitais cuja primeira turma começará em 2017.1 pelo Sistema de Seleção Unificada  (SISU).  É um mercado hoje que movimenta muito dinheiro no Brasil. No mundo, a primeira indústria que mais vende é a bélica, a segunda é automobilística, e a terceira é a de games [dados do instituto SuperData indicam que o mercado de games movimentou US$ 65 bilhões em2015].

MultiCiencia: Quais as mudanças mais significativas ocorreram e o que esperar do futuro nessa área?
Luiz Adolfo: Sinto que daqui a pouco vai começar a esgotar as possibilidades de criação dos jogos locativos. É possível que esses games acompanhem o paradigma computacional que está em vigência. Hoje, a computação ubíqua, que consiste na associação de um usuário a várias máquinas, é um meio de disseminar computadores no ambiente. Os computadores seriam menos visíveis, porém mais presentes em nossa vida, como: porta que a gente se aproxima e ela abre sozinha; um ar condicionado que a gente chega e ele liga; o smartphone que é um telefone com funções muito ampliadas; um tablet; rede sem fio, como wi-fi. Vários jogos surgiram acompanhando a computação pessoal, mas agora surgiram os jogos locativos que acompanham a computação ubíqua. Desde que haja paradigma computacional, vão surgir novos jogos para ele. Ainda não posso te dizer qual é esse paradigma, a ideia é que a gente use a computação ubíqua, segundo o que tenho acompanhado pelo menos até 2030. A partir daí, poderá ter um novo modelo, talvez a brain computer – conexão de cérebro com as máquinas – seja um caminho.

MultiCiência. O Senhor foi aprovado para fazer um pós-doutorado em Copenhague. Entre os seus projetos nessa pesquisa, poderemos esperar novos produtos voltados à realidade regional?
Luiz Adolfo: A partir dessa relação entre jogos e espaço geográfico, vou investigar como eles podem contribuir para a otimização da vida urbana, ou seja, ajudando a gente a solucionar alguns problemas de mobilidade, violência urbana, o próprio assoreamento do rio são Francisco. Entre os jogos locativos, os mais populares são o Pokémon GO, o Ingress que é um jogo da Google, e vários outros. Tenho uma ideia de fazer uma adaptação do Pokémon Go aqui para a região, seria algo tipo Velho Chico Go, mas é apenas uma ideia inicial. No ano passado, foi premiado o GPS Coquetel musical, que desenvolvi em Petrolina. Pretendo fazer algo novo, principalmente voltado para a questão do rio, questão hídrica.

MultiCiência: De que forma os jornalistas e estudantes podem se apropriar dos jogos na prática do jornalismo? Quais as tendências?
Luiz Adolfo: Existe uma categoria, chamada newsgame, que são jogos feitos com base em notícias, uma categoria diretamente ligada ao jornalismo. Recentemente, participei da banca de doutorado associada a essa temática, intitulada "Newsgame e Aprendizagem: possibilidades de construção de conhecimento a partir da interação com jogos digitais", da professora Janaína Nunes, da Universidade Federal de Juiz Federal (UFJF), em Minas Gerais. Esse é um dos caminhos, são os jogos que se aproveitam de um fato jornalístico, como o do Ronaldo com um problema de peso, o do José Serra quando ele tomou uma bolada de papel, das eleições presidenciais nos Estados unidos, são vários jogos surgindo dessa temática. Isso é claramente uma aplicação do jornalismo no mundo dos games.

MultiCiência: Como você entende os novos ambientes de convergência midiática para atuação do jornalista?
Luiz Adolfo: É o futuro da profissão. Esse mercado que a gente pensa só rádio, TV, impresso, já está mais do que saturado. Então, temos que pensar nos novos ambientes, pensar no jornalista enquanto self employed, enquanto prestador de serviço, não um profissional vinculado a uma mídia, mas um profissional capaz de atender várias demandas de serviço. A gente precisa oferecer os nossos serviços para as empresas e tentar crescer.

Reportagem de Andressa Silva
Fotos: Ilana Ingrid

A luta pela certificação das comunidades quilombolas



Com 73% da população identificada como negra, pretos e pardos segundo último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estática (IBGE), Juazeiro não tinha nenhuma área remanescente de quilombo certificada pelo estado brasileiro. Somente no mês de maio, a comunidade do Alagadiço recebeu a certidão da Fundação Cultural Palmares, conforme portaria 103 publicada no Diário Oficial da União. Situada a 18 km do centro de Juazeiro, a comunidade formada por 42 famílias desenvolveu, durante três anos, atividades de conscientização dos direitos sociais e de reconhecimento da identidade afro-brasileira até obter a certificação. Palestras, cursos de formação e exposições foram realizadas pelo grupo de pesquisa Perfil Fotoetnográfico das Populações Quilombolas da região do Submédio do São Francisco: Identidades em Movimento”, coordenado pela professora e Doutora em História, Márcia Guena, do Departamento de Ciências Humanas, da Universidade do Estado da Bahia, em Juazeiro. Segundo Márcia, o processo de certificação iniciou a partir do envolvimento da comunidade nas atividades para reafirmar a ancestralidade negra e africana. Com a certidão, as famílias podem solicitar a titularidade das terras em que estão localizadas e garantir a proteção dos territórios para as práticas culturais e religiosas. Em Juazeiro, outras 16 comunidades têm características similares às áreas remanescentes de quilombo. Na Bahia, 300 comunidades já receberam a certidão.

MultiCiência (M): Como foi realizada a pesquisa nas comunidades que podem ser certificadas como quilombolas?
Márcia Guena (MG): A pesquisa primeiro faz o levantamento da comunidade apontada como quilombola e apresenta a questão dos direitos que possui como área remanescente de quilombo. Se a comunidade tiver interesse em se autodefinir, auxiliamos no processo juntos com outras organizações como Associação dos Advogados de Trabalhadores Rurais (AATR), Comissão Pastoral da Terra e Secretaria de Desenvolvimento e Igualdade Social de Juazeiro. A pesquisa é um processo lento, porque é necessário que a comunidade se reconheça como negra e quilombola. A pesquisa procurar despertar para o reconhecimento dos direitos das áreas quilombolas. Visitamos as famílias e fizemos trabalho de campo no Alagadiço há três anos, e só agora pode sair a certificação.  

M: Quais as dificuldades na certificação?
MG: Existem hoje pelo menos 300 comunidades quilombolas no estado com certidão. Dessas, poucas conseguiram os títulos da terra, em função das disputas, seja devido a existência de famílias coronelistas que têm controle da terra, seja pela expansão do agronegócio. As comunidades certificadas recebem uma série de benefícios, mantidos por programas de auxílio à moradia, educação, cidadania, eletrificação rural, entre outros. Só que muita coisa que foi conquistada está sendo perdida pelo governo interino de Michel Temer. Por exemplo, a articulação pela titularidade da área quem fazia era o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), depois a titulação foi para o Ministério da Educação. O Ministro da Educação é comandado pelo Partido Democrata (DEM) que, junto com outros partidos, pediu o fim da certificação das terras quilombolas. Então, todo o processo de conquista está por um fio nesse governo interino. [No dia 27 de maio, o Decreto 8.780 transferiu a competência para regularizar as terras quilombolas para a Casa Civil].


M: Essas conquistas começaram quando? 
MG: Tem cerca de 15 anos a partir da criação da Fundação Cultural Palmares. Primeiro, é a certificação; depois, é o título da terra. Temos cerca de 2.660 comunidades quilombolas certificadas no Brasil. A certificação do território é a garantia de que elas não tenham o direito à terra usurpado e ninguém pode invadir aquele espaço porque tem o título da terra. Uma área certificada é uma área protegida, não pode ser invadida, pois qualquer intervenção é mediada pela polícia federal e não pode ser resolvida pela polícia local. A certificação representa um direito para essas populações negras que se mudaram há 200 anos. Elas estão ali, desde o pós-abolição, final do século XIX. 

M: Como as comunidades começaram a se formar?
MG: Muitos africanos escravizados na pós-abolição permaneceram nas fazendas ainda com uma relação escravocrata com os seus donos, outros saíram. Mas onde eles iam morar? Se eles não tinham terra, trabalho, eles não tinham nada. Eles foram ficando em alguns lugares, onde eles sofriam muito preconceito, racismo. Então, eles buscaram áreas para morar, plantar e sobreviver.  Assim, foram se formando os quilombos. Hoje, o que se chama de quilombola são áreas de terra de “Preto Santo”, onde as pessoas vivem por solidariedade, laços familiares e conseguem sobreviver.

M: Por quê é necessária a certificação?
MG: Essa certificação de terra quilombola foi uma vantagem para as populações que vivem de forma tradicional há muitos anos e não têm o título da terra. Foi uma forma de reconhecer os direitos dessas populações que foram negados, como a titularidade da terra. O Estado brasileiro reconheceu direito à terra para a população estrangeira que migrou para o país, mas não deu para a população negra saída da escravidão.
 

M: Quais seriam as dificuldades encontradas para a certificação?
MG: Hoje, uma das dificuldades encontradas é a informação dos direitos da comunidade.  A certificação é um processo relativamente simples. A questão principal das comunidades quilombolas é ter acesso à informação. As comunidades de Juazeiro não conheciam os seus direitos, sabiam de forma muito incipiente, mas não tinham a dimensão política desse direito. O Ministério do Desenvolvimento Agrário tinha uma relação de 17 comunidades quilombolas juazeirenses, mas elas não se auto-afirmavam como quilombolas. São todas comunidades de origem negra, com memórias da cultura afrodescendente e que mantém manifestações culturais como O Samba de Véio, o samba de lata e os resquícios de religião afro-brasileira. São comunidades formado por negros, indígenas. Uma ou outra tinha tentado a certidão, mas quase nenhuma tinha procurado garantir o direito à certificação. Já em Senhor do Bonfim, existem 16 comunidades certificadas. Em Juazeiro, agora tem o Alagadiço. Mas foi um processo lento durantes esses três anos, com palestras, cursos de formação, oficinas de fotografia, reuniões em outras comunidades, exposições fotográficas. Todas essas ações foram feitas para a comunidade implementar seus projetos para as 42 famílias que vivem na comunidade 

M: As comunidades recebem algum tipo de ajuda do governo brasileiro?

MG: Quando a comunidade é certificada, ela passa ter um série de incentivos, a exemplo do programa Brasil Quilombola. Agora, com essa nova administração do governo não sei como irá ficar. Existem programas para a pequena agricultura familiar, pequeno agricultor, para construção de casas, escolas, posto de saúde. A área quilombola é uma área protegida pelo estado, no sentido da subvenção com o auxílio dos ministérios. Com essa nova configuração política, isso tudo pode mudar e não se sabe como vai ficar.
  
 M: O juazeirense se reconhece como quilombola?
 MG: O juazeirese não é um quilombola, são as comunidades apontadas com quilombolas que temos pesquisado. Algumas se reconhecem outras não, mais isso é um processo de autorreconhecimento, muitas comunidades desconheciam a legislação. Então, é um problema do poder público apresentar o direito para essas comunidades, ao conhecer o direito elas passam a despertar interesse para essa discussão. A pesquisa na verdade só se aprofunda no processo de certificação, se a comunidade tiver interesse nisso.  

M:  Quais são as etapas para a certificação?
MG: Para a certificação formal, é preciso formalizar um documento e depende do envolvimento e consciência da população negra de origem quilombola. Algumas comunidades formadas por negros não são puras, são de origem indígenas e existem lutas internas que eles travam. Quando a comunidade quer ser reconhecida, percebo que é um processo de consciência de ter o seu espaço.  Um processo que demora anos. O grupo de pesquisa não procura as comunidades. Elas nos procuram para obter informação. Fazemos a apresentação, o panorama da legislação e palestras sobre essa conceituação. Elas devem ir em busca dos seus direitos, é um processo de amadurecimento.
 
M: Quais são os legados dessas comunidades quilombolas?
MG: O primeiro legado é a origem negra, o passado de origem africana; o segundo é a resistência de várias expressões culturais, como o Samba de Véio, samba de lata, as rodas de são Gonçalo.  O samba está presente nas festas católicas, nas cantorias, nas expressões miscigenadas de origem portuguesa e africana. A linguagem, a memória e a religiosidade afro brasileira também são legados, apesar do catolicismo e das religiões neopentecostais. São as grandes forças desse legado.


Para informações sobre a pesquisa, acesse o blog Quilombos e Sertões.

Entrevista publicada com exclusividade no jornal Gazzeta do São Francisco, na edição de 9 de Julho de 2016.


Por Ilana Ingrid (Texto)
Maria Eduarda Abreu (Foto),
da Agência MultiCiência



Arte e experiências educomunicativas com o uso do celular



As jornalistas Débora Sousa e Eliane Simões reuniram nove jovens de Petrolina e quatro idosos de Juazeiro, que estudam na Universidade Aberta a Terceira Idade, para retratar 40 pontos históricos da cidade. O resultado foi a exposição Educomunicando com Olhar, desenvolvido como projeto de conclusão do curso de Jornalismo em Multimeios, da UNEB. 
Segundo Débora Sousa, o celular é uma ferramenta acessível e que pode ser usada no ambiente escolar para educar o olhar para questões sobre o cotidiano. Ela conta que experimentou o uso do aparelho celular com alunos da Escola Estadual Professor Simão Amorim, em Petrolina. "Vimos que a turma possuía aparelhos de celular e a gente pensou: por quê não trabalhar com uma ferramenta que eles já possuem? Fizemos o projeto, a escola aprovou e começamos a ministrar as oficinas. Fizemos uma saída fotográfica e eles decidiram que gostariam de retratar idosos", afirma.
Idosos e jovens na praça 21 de Setembro, Petrolina. Foto Débora Souza
Débora relata que muitos idosos tinham desejo de aprender a usar o celular para registrar as suas experiências, mas não tinham quem os ensinasse. Juntos, jovens e idosos, resolveram apostar na experiência de registrar imagens do cotidiano. O projeto para a exposição permitiu que muitos idosos compartilhassem histórias vividas naqueles locais.



Exposição Travessia
A fotografa Lizandra Martins também utilizou o celular para registrar as idas e vindas de passageiros da barquinha de Petrolina a Juazeiro. Lizandra fazia a travessia diariamente durante o trajeto de sua residência para a Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e passou a fotografar todos os dias o que lhe chamava a atenção nesse percurso. O resultado foi a exposição Travessias, aberta ao público até 1 de julho no SESC, em Petrolina. 
Foto: Lizandra Martins

Para a fotógrafa, o uso de celular durante a produção das fotografias foi uma questão de praticidade, por ser mais leve que uma câmera profissional e chamar menos atenção. "O celular termina sendo algo mais acessível e está ali na nossa bolsa. Sou fotógrafa profissional, mas não tenho como me locomover com minha câmera o tempo todo. O celular termina sendo um recuso muito poderoso nesse sentido de você estar ali, registrar e, imediatamente, publicar", explica.
Além da praticidade, o celular causa menos interferência no momento de capturar imagens e permite registrar cenas espontâneas das pessoas nas ruas. "Como eu gosto de fotografar cenas do cotidiano, dou prioridade a questão do espontâneo. Então, o celular é perfeito, às vezes você está fotografando as pessoas e elas nem percebem. Se eu estivesse com uma câmera não teria feito algumas fotos que estão na exposição", afirma.
A pedagoga e fotógrafa Lizandra Martins
Foto: Chico Egídio



O dispositivo móvel tem algumas limitações de recursos que são prejudiciais para a qualidade da imagem, como a falta de flash e mecanismo que possibilitam um controle maior sobre a produção fotográfica. Lizandra ressalta, contudo, que o mais importante do que o equipamento é a sensibilidade do olhar para permitir que as pessoas possam vivenciar uma experiência estética.


                                                             Texto: Maria Eduarda Abreu

Jornalismo e Literatura devem caminhar juntos


Mesmo com a rotina apressada das redações, é possível adotar um texto jornalístico que se utilize de técnicas literárias para atrair o interesse do leitor. Narrativas envolventes, observação e reportagens aprofundadas podem ser algumas das estratégias usadas pelos repórteres.


                                                                                         Foto: Eduarda Abreu
Essa linha tênue do campo jornalístico e literário foi tema do debate "Um dedo de prosa: Entre o Jornalismo e a Literatura", organizado pela professora Andréa Cristiana e a turma de Laboratório de Criação Jornalística, do curso Jornalismo em Multimeios, da UNEB, campus Juazeiro, na última terça-feira (14/06). Jornalistas e escritores discutiram o processo de criação desses conteúdos e as formas como os profissionais podem se apropriar do viés literário na construção de reportagens.

O livro-reportagem é um exemplo de inter-relação dessas duas linguagens. A jornalista Lícia Loltran, que lançou o livro 'Famílias Homoafetivas: a insistência em ser feliz´, afirma que o repórter deve buscar entender a complexidade de cada entrevistado e garimpar informações que, muitas vezes, passam despercebidas para priorizar um texto narrativo e envolvente.

A coleta de informação e a realização da entrevista foram destacados como aspectos essenciais para uma boa prática jornalística. A jornalista Inês Guimarães defende um jornalismo preocupado em ouvir o que entrevistado tem a dizer. Para ela, muitos profissionais não se interessam no relato do entrevistado, por isso, muitas vezes, os textos se tornam superficiais.  

Segundo o jornalista esportivo Emerson Rocha, no jornalismo especializado é preciso se reinventar a cada dia para trazer novos conteúdos e buscar histórias de personagens que possam despertar o interesse do leitor. Um pequeno detalhe que o repórter observa pode tornar o texto muito mais atraente.

Para o escritor e diretor do Círculo Literário Alternativo Experimental, João Gilberto, todo processo de criação requer conhecimento, leitura e referências culturais. Tanto jornalistas como poetas devem priorizar a construção do texto e observar o uso das palavras, a sintaxe. Ele reconhece, contudo, ausência de uma linguagem poética tanto no jornalismo como na literatura atual. “Falta poesia”, afirma.

por Maria Eduarda Abreu


"O Fantástico Mundo das Sanfonas"

A memória da música brasileira no Sertão, também faz história entre sanfoneiros de várias partes do Brasil e do exterior que desbravam a região puxando o fole. A exposição fotográfica  'O Fantástico Mundo das Sanfonas, que está em cartaz até o dia 20 de maio, na Casa da Cultura, em Salgueiro, Sertão de Pernambuco, revela encontros memoráveis realizados na última década. O projeto faz parte de uma pesquisa de extensão universitária organizada pelo professor e jornalista Emanuel Andrade através da Hemeroteca, pertencente ao DCH III, no curso de Jornalismo. Em junho exposição chegará a Petrolina e Juazeiro.
O professor reuniu o trabalho de cinco fotógrafos sertanejos de Pernambuco e Bahia, com registros de shows em festivais do gênero, rodas de sanfona além de músicos na intimidade do palco e de casa. São cerca de 80 imagens em policromia e em preto e branco assinadas pelos fotógrafos Ivan Cruz, Héliton Araújo, Gilson Pereira, Diego Fernandes e Regina Lima.
Com uma proposta pedagógica, a exposição focar a trajetória da sanfona desde a criação do Sheng, na China por volta de 2.700, a. C, que originou o harmônio, a gaita de boca até chegar à sanfona que se popularizou no Brasil, principalmente no Nordeste. São seis expositores no espaço que além de destacar a evolução do instrumento, conta com textos poéticos sobre a temática, xilogravuras e letras de canções clássicas que evocam a sanfona.
“A ideia é reverenciar o talento dos músicos de várias gerações que tocam o ano inteiro contrariando os que pensam a sanfona só nos festejos juninos. Até no carnaval sertanejo o instrumento inspirou a criação de um bloco”, explica Andrade.
Os registros fotográficos traduzem apresentações de grandes músicos do Nordeste e do Sul, puxando o fole no sertão. Lá, o visitante vai poder apreciar feras a exemplo de Dominguinhos, Oswaldinho, Toninho Ferragutti, Hermeto Pascoal, Camarão, Renato Borghetii, Pinto do Acordeon, Cesinha, Waldonys, artistas da região como Nêgo do Mestre, Danilo Pernambucano e Teresinha do Acordeon entre outros talentos. Como será itinerante, a exposição depois passará por Petrolina e Juazeiro(BA). 
JOVENS TALENTOS - Uma ala da exposição também, registra momentos de apresentação de crianças e mulheres, especificamente, no festival de Salgueiro, em momentos tensos da disputa por prêmios durante o evento que acontece há 8 anos.
“Mais do que nunca a sanfona domina as grandes festas no interior o ano inteiro, revelando bons músicos que vivem na roça e nas pequenas cidades. Nenhum chegou a frequentar uma escola para estudar partitura, mas se inspiram em Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Sivuca”, aponta o curador da exposição.
O Fantástico Mundo das Sanfonas, tem uma decoração focada em elementos domésticos como o bule de café e o candeeiro além de cordéis. Outra novidade é a interação com os artistas que tenham interesse em divulgar seu trabalho na decorrer da amostra.
por Cinara Marques especial para Agência Multiciência

Toda poesia que se derrama da lavra de Manuca

Desde pequeno, o menino Manuca Almeida gostava de brincar com as letras e já pisava no terreno da poesia, assim, sem influência de qualquer pessoa. As palavras já estavam em suas veias e pensamentos. Ele mesmo recorda que na infância “se via querendo ser poeta”. Nascido em Aracaju (SE), seu envolvimento com os livros começou na capital. Anos depois, se mudou com a família para Juazeiro (BA), onde de fato o mergulho na arte foi completo. Aos 13 anos, com colegas de escola, lançou um jornal mimeografado, cujo formato de impressão era feito a partir de um equipamento chamado mimeógrafo, onde eram rodados trabalhos e provas, à base de álcool e folha de carbono azul. 
Já no Sertão do São Francisco, Manuca começa a se entrosar com artistas da região. Ao conhecer o poeta Jurandir Costa, em Petrolina, juntos, resolveram produzir um jornal com ideias culturais, no qual a poesia era o foco central. Na adolescência, ao entrar em conflito com os pais, Manuca voltou para o litoral e foi morar com um irmão em Salvador. E foi no território da Bahia de todos os santos e tantos artistas que conheceu livros e mais livros de diversos autores.
Quando se aprofundou nas leituras percebeu que seria capaz de produzir algo com as características literárias do que estava lendo. Sempre hiperativo, chegou a criar peças teatrais. “Ai fui desafiado pelo meu irmão que ignorava minhas criações e dizia que eu ia ser um Zé Ninguém”, conta sorrindo.
E foi o mesmo irmão que lhe deu uma enxurrada de livros para que praticasse a leitura mais a fundo. Quando começou o estímulo para escrever com mais criticidade entre autor e produção, Manuca percebeu que os grandes autores escreviam algo que para ele, naquela idade, parecia simples.
Entusiasmado com as novidades da música e literatura, o poeta foi percebendo a efervescência dos grandes centros e pensava em se mudar definitivamente para a capital. Mas o estilo e qualidade de vida do interior lhe dava mais inspiração. “Mas hoje o interior em que vivemos tem aspectos de capital, tudo muito dinâmico, onde acontece muita coisa ao mesmo tempo”, observa.  E é na sua apaixonante Juazeiro que o poeta/compositor desfruta de uma sombra no seu quintal poético onde saboreia uma manga bem doce.
Da poesia o salto para a música também foi veloz. Sempre inspirado, começou a fazer música profissionalmente em 1999 e nunca mais parou. A primeira composição foi bem antes e era um tema de humor para o espetáculo “Baiano Luz”, produzido pelo cantor, compositor e instrumentista baiano Roberto Mendes. A canção se chamava “Dona Eunice” que é o nome da mãe do poeta.
“A primeira mamadeira a gente nunca esquece, foi ai que eu disse: que tolice dona Eunice esquece essa vitamina de banana quero beber Mário Quintana e destilar poesia”, diz o poeta.
PERFORMÁTICO- Na sua trajetória, Manuca se transformou num artista performático. Compôs vários gêneros, fez grandes parcerias e emplacou seus versos em discos de autores consagrados. Seus créditos estão lá em Esperando na Janela (ao lado de Targino Gondim e Raimundinho do Acordeon) que Gilberto Gil e outros intérpretes gravaram. Pop Zen, registrada por Arnaldo Antunes é uma das composições que o poeta tem mais carinho. “Arnaldo é uma tremendo poeta, sempre fui fã e ele tem grande relevância no cenário nacional”.
Para fazer música, observa o compositor, tem que ter muita habilidade. Até a loucura tem que ser dosada. Mas o mercado é a única coisa que não anda tão inspirador. “Fazer música atualmente no Brasil, é complicado porque tem-se que concorrer com o sertanejo universitário”, lamenta.  O imã e a boa relação que o poeta tem com a vida, a natureza e com os artistas, somam na hora das criações.
Sobre a valorização que recebe dos conterrâneos ele não esconde algumas mágoas. “É normal em todo lugar a história que santo de casa não faz milagres”. Sempre em produtividade, Almeida está divulgando um áudio book e um trabalho infantil. A inspiração para crianças surgiu quando preparou um projeto para o Maurício de Sousa. Manuca é assim e sempre será: vai pensando, criando e provocando com arte. Sempre sujeito à pintar na área com novidades.


Por Kleyton Nunes
 Fotos: Arquivo pessoal 

Todos os sabores se espalham nas ruas da cidade

                                                                                                     

Num passado um pouco distante, comer fora não era pra todo mundo tanto por questão de hábito e de economia no bolso. Hoje, o cenário mudou principalmente nas cidades grandes. Em Juazeiro(BA), os espaços públicos da área central e de alguns bairros expõe vários pontos com a vendas de comidas para aqueles que querem tomar um café da manhã, fazer um simples lanche ou mesmo jantar. Sejam nas bancas padronizadas, veículos adaptados, carrinhos de mão ou até bicicletas os ambulantes ajudam a movimentar a gastronomia sertaneja.
É fato que tem comida de rua qualquer hora do dia e para todos os gostos. Tem tapiocas com uma infinidade de sabores, pastel, coxinhas, churros, milho, espetinho, cachorro-quente, acarajé, saladas de frutas, entre outras guloseimas. As delícias são muitas para saciar a fome de quem tem pressa para ir trabalhar ou depois que larga do batente. De quem busca economia ou simplesmente aproveita um momento de lazer com a família ou amigos.
Carne em pedaços, espetada em um palito longo de bambu e assados na brasa, para dar aquele gostinho de churrasco, o espetinho é o simples que deu certo. E se tornou paixão entre consumidores. Geralmente servido com farinha de mandioca, estão por toda parte. Além da versão de carne, podem ser encontrados opções de camarão, frango, bode, coração, queijo, ou um misto de dois ou mais sabores. Há dois anos quando ficou desempregado, Rinaldo de Souza, 39, viu na venda do espetinho uma chance de voltar a ter uma renda.
Segundo ele, um dos principais atrativos da iguaria para o público é o preço que varia entre R$ 4,00 a R$ 8,00 além de ter um formato prático. “Não precisa de prato, nem de garfo e faca. Você come sentado e até em pé. Dá para comer quando se está com pressa, esperando um ônibus do mesmo jeito que serve de tira-gosto para acompanhar a cerveja com os amigos”, ensina Rinaldo.
No cardápio de Maria Rita da Silva, 43, a receita é mais quente ainda. Pimenta, camarão, vatapá e salada. Essa é apenas uma das várias opções de recheio do quitute mais conhecido da culinária baiana, o acarajé, que pode ser cortado em vários pedaços e servido em um pratinho com os acompanhamentos ao seu lado. O bolinho feito com o feijão fradinho, cebola, sal, e frito no azeite de dendê, é a receita que há 17 anos diverte, dá prazer e complementa a renda da vendedora.
“Gosto de trabalhar com o público. Enquanto recheio um acarajé e outro vou conversando com os meus clientes, hoje alguns até se tornaram amigos”, revela. Maria conta que aprendeu a fazer o acarajé com a mãe, e após o falecimento dela sentiu-se na obrigação de levar o negócio à frente.  A bicicleta foi a opção de Edmilson Marques para se reinventar no mundo do empreendedorismo e sair das estatísticas do desemprego.
Seu ‘veículo’ virou quase uma lanchonete completa. É nela que ele vende água mineral, café, leite e uma grande variedade de salgados: coxinha, pastel, enroladinho de salsicha, rocambole e empada. Antes de decidir apostar na rua, Edmilson abriu uma pequena lanchonete em casa, mas o movimento fraco não lhe garantia rentabilidade. “A rua é um bom negócio. As despesas são mínimas e o preço em conta, faz com que a procura seja maior”, afirma o vendedor. Já se vão três anos incrementando o caixa no centro da cidade onde conquistou boa freguesia.
PATRIMÔNIO IMATERIAL - A tapioca também conhecida como beiju em muitas cidades do Nordeste, tornou-se patrimônio imaterial e cultural da cidade de Olinda (PE). É a queridinha dos brasileiros que também conquistou paladares na Bahia. Em Juazeiro, o uruguaio Heber Antônio Carro, 60, há 10 anos comercializa a iguaria de origem indígena. O prato tradicionalmente preparado apenas com manteiga ganhou novos sabores e recheios.
Vai do presunto ao salame, do queijo à carne de sol, passando até pelas adocicadas com doce de leite, goiabada e até chocolate. Salgado, doce ou as duas coisas juntas, o sabor final vai depender da criatividade para harmonizar a massa com os ingredientes. “Costumo dizer que o essencial é a qualidade. Se o boca-a-boca for positivo demora um ano para fazer efeito. Já o negativo, em um dia você perde toda clientela”, reconhece.
Quem compartilha da opinião do uruguaio é a também comerciante Leila Riter Alves, 40, que depois de perder o emprego viu na tapioca uma oportunidade de ter seu próprio negócio. “Aprendi a fazer tapioca com minha mãe. Hoje trabalho com seis sabores. Ser atenciosa com o cliente é o que faz ele voltar sempre”, salienta Leila  que com quatro meses no ramo já se sente familiarizada.
Na rota de qualquer segmento comercial, o sucesso nas vendas de comida de rua também depende muito de como o vendedor atende o cliente e, claro, os atrativos de um modo geral desde o cardápio a estrutura do espaço que garanta acomodação. “Ainda não tinha experimentado a tapioca recheada e fui convidado. Perguntei logo sobre o atendimento, até porque o que não falta é opção pra gente comer na rua. Vou onde acho legal, além do sabor, escolho o lugar em que sou melhor atendido”, afirma atendente Rodrigo Albuquerque, 18.
E ele não é o único a pensar assim. A manicure Célia Ramalho diz que sempre está comendo alguma coisa na rua. Seja porque não deu tempo ir em casa almoçar ou depois do expediente para um encontro com os amigos. “Tudo vale, a começar da simpatia do vendedor. O convívio quase diário com ele cria uma intimidade que gera confiança no produto que a gente tá comprando”, completa.

Por Vanessa Luz

Banda Philarmônica de Petrolina se renova com projeto Jovem 21

     
Petrolina também é celeiro da diversidade musical que, entre outros nomes, vai de Geraldo Azevedo ao Samba de Véio da Ilha do Massangano, que impressionou o escritor Ariano Suassuna. Nesse território, a música instrumental também ganha espaço pelas mãos dos músicos integrantes da tradicional Banda Philarmônica 21 de Setembro que atravessa um século de história sem perder sua originalidade. Com a missão de revitalizar sua trajetória criou no ano passado, o programa de incentivo educacional Jovem 21, e abriu seleção com mais de 70 vagas entre instrumentistas e técnicos para compor sua estrutura musical e logística.
Ozenir, Maestro da Philarmônica 
As bolsas variam de R$ 200 a R$ 1,2 mil em vários níveis de escolaridade e técnico-musical. Os profissionais poderão desenvolver atividades entre a Philarmônica e a Orquestra Sinfônica do Sertão, pertencente ao IF Sertão Campus Petrolina. Após o processo de seleção que se encerrou no último dia 15, as atividades terão início em 25 de janeiro. Já a temporada de concertos abertos será retomada após o carnaval. Com 105 anos de história, e várias gerações de músicos, a idéia é dar sequência ao projeto da Philarmônica Jovem que já conta com cerca de 30 integrantes jovens que, em sua maioria, surgiram das fanfarras escolares.
Francisco Dias
O passado de apresentações dispersas da Philarmônica máster ficou para trás. Até o final do ano passado, junto com os jovens foram 60 apresentações, em um semestre. Com o mote de que música é para se compartilhar em espaços públicos, seus instrumentistas foram ao encontro do público, em praças e escolas dos bairros da periferia, durante a semana, e aos domingos no amplo Parque Josepha Coelho.
A versatilidade do repertório e o perfil dos músicos de idades distintas acabam mesclando a experiência de uns com as novas idéias dos que chegam. Há 35 anos integrando o elenco da tradicional Philarmônica, Francisco Dias, 72, não esconde a felicidade ao falar sobre seus colegas de sinfonia. “Somos mais que uma família de carinho, respeito e troca de experiências”, argumenta.
Marcos Vinícios 
O mais novo dos integrantes da orquestra é Marcos Vinícius Mangabeira, um jovem de 14 anos que esbanja brilho no olhar e orgulho quando está se apresentando. Ele não pensa em outra coisa a não ser se profissionalizar em música. “O importante é fazer parte da banda Philarmônica máster. Música é o que gosto de fazer, minha paixão. Com perseverança treino todo dia, porque essa deve  ser meta para quem quer chegar a algum lugar”, ensina o garoto.
Maikon Quirino 
Para Maikon Quirino de Souza, 23, também novo integrante da máster, o projeto para iniciantes é referência para os mais novos. “A máster requer maior experiência, o repertório é mais exigente”, reconhece. Um dos precursores responsáveis pela revitalização e modernização da banda, é o professor Ozenir Luciano, que teve a idéia de trazer a banda para as ruas. “Música precisa de público, se o público não conhecer, não tem sentido nenhum a banda existir”, ressalta o maestro.
Curso de Música – O panorama da música na região também invade as salas de aulas com o propósito cada vez mais de profissionalizar aqueles que querem fazer carreira no segmento. A chegada do curso de Licenciatura em Música do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – Sertão Pernambucano (IF Sertão – PE), vai além da teoria. Já são duas turmas funcionando, sendo uma pela manhã e outra à noite e ganhará uma terceira neste primeiro semestre.
Desde o surgimento, o curso foi se adaptando e aprimorado. Para entrar, o aluno precisa fazer uma prova específica de leitura. “Por enquanto não temos alunos desistentes, apesar dos desafios, entre eles, e da dificuldade de se ler partitura”, explica o coordenador do curso, Alan Barbosa, apontando que o curso de Licenciatura em Música como qualquer outro de arte não se ensina do zero.

O maestro da Philarmônica Jovem, Hélio Lima, faz parte da segunda turma do curso de licenciatura e aponta que o projeto musical acadêmico do IF- Sertão, capacita todos os alunos para o mercado. “O embasamento teórico é importante, mas não é tudo, a vivência musical conta muito mais”, afirma. Na região do São Francisco apenas o IF-Sertão possui o curso de Música.

por Christyanne Caldas e José Lucas

Amor pelas artes plásticas e cangaço une casal


A paixão pelas artes plásticas e pela trajetória do cangaço de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, uniu um casal de jovens pernambucanos que estavam bem distantes. Ela no Sertão, ele em São Paulo. E não demoraram muito para se cruzarem seus caminhos, diante das afinidades artísticas que consolidou o romance dos dois. Logo passaram a dividir o mesmo teto e a labuta na produção do artesanato que se tornou o cupido da relação. Carina Lacerda, 38, é natural da região do Araripe e há pouco mais de 20 anos, se mudou para Petrolina com o objetivo de estudar e trabalhar na terra da fruticultura.
A economia criativa do artesanato em barro e madeira que se alinha com o universo ribeirinho foi outra coisa que lhe chamou a atenção. Ao longo desses anos, tornou-se instrumentadora cirúrgica do Hospital Universitário da Univasf e cursou Artes Visuais na mesma instituição de ensino superior. Desde criança já havia percebido seu tino para as artes e começou como pintora, até se apaixonar pela escultura. “Sempre ia à Ofina do Artesão Mestre Quincas, ver as peças dos artistas da região que fazem algo primoroso com a madeira”, comenta Carina.
Há onze anos, através de amigos foi parar na mesma oficina. Enfrentou olhares tortos da comunidade masculina que já trabalhavam no espaço. Com muita ousadia e dedicação, a jovem foi conquistando seu espaço e ampliou o talento. “Hoje sou  a única mulher com seu cantinho fixo na oficina e tenho conquistado o respeito de todos”, assegura.
Distante do Nordeste, em São Paulo, estava o engenheiro de produção Fredson Adjar Lima , natural de Custódia, que foi para a capital paulista também estudar e trabalhar. Fissurado em artes plásticas, conheceu a arte de Carina através do facebook de um amigo em comum. O que lhe chamou mais a atenção foram as obras em madeira, com o tema que sempre gostou: o cangaço.
Fredson logo percebeu a sensibilidade da artesã a partir de um desenho da moça em nanquim retratando Maria Bonita. Depois de meses se correspondendo apenas pelas redes sociais, o casal finalmente se encontrou em frente ao MASP, em São Paulo. Ela estava lá para uma bienal junto com a turma da universidade.
“Foram três dias grudados um no outro, até o ônibus que levava a comitiva de estudantes quebrou para que a despedida fosse adiada”, lembra Carina. No final do mesmo ano, Fredson Adjar resolveu se mudar para Petrolina e construir uma família com Carina que já tinha a filha Sofia, hoje com 11 anos, fruto de outra relação. No começo, a ideia dele era continuar com a profissão de engenheiro de produção.
Só que arte lhe pregou surpresas. A dona do seu coração foi também sua orientadora no ofício de transformar madeira em artesanato. Ele não tinha muita experiência com a matéria prima e já na primeira peça deu forma à um casal de cangaceiros. A mulher percebeu de imediato o talento do aluno. “Em seis meses, ele já fez inúmeras esculturas e chegou a me ultrapassar em produção”, conta Carina.
Os dois diversificaram as temáticas de suas peças abordando fauna e flora. Além do horizonte das artes plásticas, eles tiveram de dar cores ao casamento moldando o plano de aumentar a família. Daí, planejaram a vinda da primeira filha do casal, Safira, que nasceu em outubro deste ano. A menina já dorme no berço de madeira assinado pelos Pais. “Primeiro a arte mudou minha vida, depois veio Carina que mudou minha vida e minha arte de viver”, derrama-se Fredson sem esconder que fez o caminho certo na sua vida.
Por Kelly Cora Macedo (Especial para o Multiciência)