A escola deve discutir relações de gênero



Nos últimos anos, a discussão sobre gênero têm ganhado força, com o crescimento de núcleos de estudo sobre a temática nas universidades em todo país. Porém, há uma forte oposição ao debate deste tema em sala de aula por grupos políticos conservadores que lutam contra o que acreditam ser uma questão ideológica a discussão sobre gênero. O Projeto de Lei "Escola Sem Partido" (PLS 193/2016), em tramitação no Senado Federal, pretende incluir entre as diretrizes e bases da educação nacional (Lei 9.394/16), resoluções como a de que professores e escolas não devem interferir na opção sexual dos alunos nem devem direcionar “o desenvolvimento de sua personalidade, em harmonia com a respectiva identidade biológica de sexo, sendo vedada, especialmente, a aplicação dos postulados da teoria ou ideologia de gênero".

Para a historiadora e professora da Universidade Estadual de Pernambuco (UPE), Janaína Guimarães, a escola deve cumprir o papel de discutir as relações desiguais entre homens e mulheres que se manifestam na sociedade desde a desigualdade salarial à violência contra a mulher. ´"Os grupos que defendem o Projeto de Lei dizem que querem uma escola neutra sem partido, mas, na verdade, é uma escola de partido único. A educação pública tem como obrigação desenvolver e promover uma sociedade mais igualitária, sem intolerância religiosa, desigualdades de gênero ou imposição dos pais em relação aos seus filhos", afirma. 

Em entrevista ao MultiCiência, a professora conversou sobre as pesquisas desenvolvidas em escolas públicas em Petrolina com a temática de gênero e as estratégias para construir uma sociedade menos violenta e mais justa e igualitária.



MultiCiência: Qual a importância de discutir questões de gênero com a sociedade?

Janaína Guimarães: A nossa sociedade é formada por relações de poder determinantemente desiguais que se constituem nas relações de gênero.  A ideia da construção de uma sociedade mais justa é o que amedronta os conservadores porque teríamos que reformular toda sociedade. Uma das intenções do projeto Escola Sem Partido é retirar essas discussões de sala de aula. Você retira essas discussões da sala de aula, a menina apanha, a mãe dela apanha, ela sofre uma violência em casa o tempo todo. Quem é que vai dizer a ela que aquilo é errado? A escola! A escola tem que se posicionar a respeito do que são os direitos do cidadão garantidos na Constituição. Não podemos deixar de discutir gênero porque vamos estar deixando de criar possibilidades de liberdade e de autonomia para esses homens e mulheres.


MultiCiência: Qual sua avaliação de movimentos como o Escola Sem Partido e grupos religiosos que procuram deslegitimar essa discussão na sociedade?
Janaína Guimarães: Esse grupo conservador formado não só pela bancada evangélica, mas pela bancada católica, tem lutado dentro do legislativo para tentar impedir que se discuta questões de gênero na sala de aula. Eles dizem que querem uma escola neutra sem partido, mas, na verdade, é uma escola de partido único. A educação pública tem como obrigação desenvolver e promover uma sociedade mais igualitária, sem intolerância religiosa, desigualdades de gênero ou imposição dos pais em relação aos seus filhos. Um dos projetos de lei que o movimento Escola Sem Partido tentou desenvolver foi declarado inconstitucional porque pretendia modificar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) assegurada na Constituição. Na verdade, eles querem modificar isso para impor uma educação acrítica, uma educação que não esteja ligada a processos educativos, mas sim a repasse de conteúdo.


MultiCiência: Nos últimos anos, cresceu o número de estudos a respeito de gênero? Quais foram as mudanças mais significativas?

Janaína Guimarães: Até a década de 1990, não havia estudos que pensassem essa relação do feminino e do masculino dentro da sociedade a partir do conceito de gênero que implica relações de poder. Já, nos últimos anos, aumentou o número desses estudos. Nós tivemos um incentivo por parte das políticas públicas como a criação da Secretária das Mulheres e isso foi um incentivo para esses estudos nas universidades.  Nos anos 2000, essas questões começaram a ser pontuadas no âmbito da educação básica e da educação continuada, mas com as tentativas do legislativo de barrar os avanços desses estudos essas questões foram retiradas do planos nacionais  de educação.

MultiCiência: Professora, você desenvolve o Projeto Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) sobre gênero. Quais resultados têm alcançado? 

Janaína Guimarães: Atuamos em duas escolas no primeiro e no segundo ano do ensino médio, desenvolvendo microprojetos que já geraram histórias em quadrinho, gincanas, redações, vídeos e documentários. Esses alunos discutem o conceito de gênero e pensam a sociedade a partir desses conceitos presentes na literatura, pensam o sertão e os estereótipos que reproduzem essas visões de gênero. A gente tem tido uma resposta muito boa dos alunos e das alunas e não tão boas dos professores supervisores das escolas. Eu sempre penso o seguinte, será que são os alunos que não estão preparados para discutir gênero ou será que são os professores e professoras que não foram bem formados para discutir essa temática? A nossa formação, e eu digo isso enquanto professora das licenciaturas, não discute como deveria essas questões de gênero. Logo, os professores que saem das universidades não estão formados para trabalhar essas questões.


MultiCiência: De que forma o professor deve discutir gênero em sala de aula? Existe uma didática especifica?
Janaína Guimarães: É preciso explicar para eles um pouquinho o conceito de gênero. Depois, a gente trabalha com oficinas, contação de história, cada um vai contando uma história e, no final, começamos a observar como as questões de gênero estão presentes nessas histórias. Conseguimos a partir de tentativas lúdicas trabalhar com eles essas questões. Estamos trabalhado com dois materiais que são muito bons, como o Gênero e Educação para uma organização toda voltada para essa questão; e o Gênero Fora da Caixa, com material de oficinas: de estêncil, camiseta, brincadeira. São várias as formas de você trabalhar essas questões de gênero dentro da educação básica a partir dessas dinâmicas diferenciadas.


MultiCiência:  Como você analisa a rejeição por parte de alguns pais e mesmo professores em discutir questões de gênero com crianças?
Janaína Guimarães: Existem os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) para a educação infantil, dentre esses parâmetros estão presentes as questões de gênero. Mas como que elas estão presentes? Por exemplo, você manda o menino pintar um desenho ele se recusa a pegar o lápis rosa porque menino não usa rosa. Trabalhar as relações de gênero na educação infantil é permitir que não se constituam esses primeiros preconceitos ou esses primeiras marcas de gênero dentro do ambiente escolar. As pressões dos estereótipos de gênero nos primeiros anos são muito mais para os meninos do que para as meninas, os meninos são cobrados para não serem femininos, para não serem carinhosos, para não serem chorões. É uma falta de conhecimento muito grande as pessoas dizerem que trabalhar gênero na educação infantil é discutir sexualidade ou incitar as crianças a fazerem coisas que elas não têm idade para fazer. Discutir gênero é discutir relações de poder. É isso que precisa ficar claro.


MultiCiência: De que forma a falta de diálogo sobre esse assunto pode influenciar no comportamento dessas crianças/ adolescentes futuramente?

Janaína Guimarães: A falta de uma educação que problematiza as relações de gênero permite que se reproduzam relações violentas tanto no âmbito doméstico quanto no público, assim como as desigualdades tanto no mercado de trabalho como nos meios de acesso a eles. Se você não discutir gênero, vamos continuar tendo o número alto de meninas nas faculdade de licenciaturas para serem professoras e meninos nas engenharias. A desigualdades salarial nessas duas carreiras é imensa, logo as relações de poder também vão ser diferentes. A educação precisa problematizar essas questões pra ter uma sociedade mais justa e igualitária.


MultiCiência: Trazer essa discussão para as salas de aula é uma forma de diminuir o índice de violência doméstica?

Janaína Guimarães: Não existem medidas que mudem a condição da sociedade que não seja a educação, as pessoas precisam ser educadas para pensar e para agir. Não adianta você criar uma série de leis restritivas se dentro do ambiente escolar, dentro de casa, dentro da sociedade essas relações não são problematizadas. Os números do mapa da violência de 2015 são um reflexo dessas relações de gênero. O número de assassinatos de mulheres é enorme e cresce de acordo com os indicadores negativos relacionados à falta de educação dessas regiões.


MultiCiência: Quando se fala em violência contra a mulher automaticamente nos lembramos da lei Maria da Penha. A Lei vem obtendo resultados significativos?

Janaína Guimarães: Sim, alguns estados tiveram uma redução drásticas da violência a partir da implementação da lei, o que acontece é que a lei em si é boa e tem funcionado, mas para que ela seja eficaz precisa do apoio da rede formada pelos centros de atendimento psicológico, centros jurídicos e que haja a garantia das condições materiais de existência.  O que não funciona são essas redes que serviriam para tirar a mulher da situação de violência. A lei Maria da Penha age contra os sujeitos, ela coloca essa mulher ou esse homem para fora de casa, mas feito isso a lei em si não tem condições de dá uma continuidade e, muitas vezes, essa mulher acaba voltado para casa. Não é um problema da lei é um problema da rede que deveria funcionar.


MultiCiência: Os profissionais de segurança estão preparados para receber vítimas de estupro ou violência doméstica?

Janaína Guimarães: A violência institucional existe também no âmbito das delegacias, independentemente de ser homem ou mulher. A maioria das delegacias não está preparada para receber essas vítimas. O nosso grande problema pelo menos aqui na região é o fato da Delegacia da Mulher fechar nos finais de semana, justamente no momento em que os maridos estão em casa quando eles bebem e praticam o maior número de violência. Então, essa mulher tem que ir para uma delegacia comum, onde ela não tem o tratamento adequado. Dois problemas fundamentais: as outras delegacias não estão reparadas para lidar com as questões das mulheres e a delegacia das mulheres não funciona todos os dias.

Reportagem Maria Eduarda Abreu

Terapias alternativas promovem qualidade de vida


Biomagnetismo, massagens terapêuticas, yoga e cromoterapia são práticas alternativas utilizada por estudantes e professores para amenizar o estresse e lidar com os padrões de exigência acadêmica, como produtividade, que podem conduzir a situações extremas e o surgimento de transtornos comportamentais. 

Professor do Departamento de Ciências Humanas, da Universidade do Estado da Bahia, João José Borges identifica que existe um processo de adoecimento, que não se manifesta exatamente como doenças, mas como um mal-estar generalizado por meios de discursos que demonstram insatisfação ou problemas emocionais. “Muitas vezes, a aparência é de normalidade, as pessoas não percebem esse adoecimento. Mas, de vez em quando, acontecem casos extremos como de um estudante que precisou de internamento médico,” afirma o pesquisador da área de Comunicação e Saúde.

Ainda não há dados sobre doenças que atingem alunos, professores e técnicos. Contudo, João Borges considera necessário ter informações sobre o estado de saúde da comunidade acadêmica. “Temos verificado alguns trajetos preocupantes e isso se reflete na saúde mental. É algo que a gente precisa chamar atenção a respeito de como estamos conduzindo as nossas vidas, estudos e os desafios”, explica.

Professora do curso de Pedagogia há 19 anos, Adeílda Ana da Silva Martins convive com sintomas de ansiedade há alguns anos e percebeu que o problema se agravou durante o mestrado, que está cursando. “Fico muita ansiosa por causa dos estudos. É a minha primeira seção de massoterapia, mas já me sinto mais leve. Acredito que com as sessões de massagens possam diminuir a ansiedade”, conta a professora.


Foto: Andressa Silva



João José Borges desenvolve no projeto de pesquisa Corpoética aulas de yoga como prática integrativa que auxilia a saúde das pessoas, tanto nas questões físicas como psíquica. “Várias pesquisas médicas revelam a importância e os efeitos do yoga no biopsiquismo do individuo, no melhoramento dos órgãos internos, no estado geral da saúde e bem estar do praticante, no funcionamento cardiovascular, psicomotor, a concentração e o equilíbrio psicossomático”, explica.

O estudante de comunicação Robson Gomes iniciou as sessões de yoga e acredita que a prática está melhorando a concentração e diminuindo a ansiedade. “Tento manter as técnicas de concentração que aprendi no yoga nas questões pessoais. Quando estou dirigindo ou na sala de aula, deixo todo barulho ao redor de lado e tento manter o foco no meu objetivo”.  
Foto: Maria Eduarda Abreu



Para o estudante, o yoga é importante não só para quem demonstra sintomas de ansiedade, mas para todos que procuram por concentração, flexibilidade e, principalmente, qualidade de vida e equilíbrio físico e mental.


Saiba mais 

Biomagnetismo -  O  Biomagnetismo é um sistema terapêutico desenvolvido em 1988 pelo médico Isaac Goiz Duran. O sistema identifica os pontos de energia do corpo e procura o equilíbrio bioenergético da célula, uma vez reconhecidas as áreas de energia o terapeuta aplica um conjunto de imãs sobre esses pontos durante 1 a 15 minutos, cada sessão dura cerca de uma hora. O tratamento não é recomendado em pacientes que usam marca-passo, grávidas e pacientes que passaram por procedimentos de quimioterapia ou radioterapia.

Yoga - O yoga é uma pratica da medicina alternativa que serve,  entre outras coisas, para diminuir o estresse, desenvolver a flexibilidade e manter corpo  e mente saudáveis. A prática surgiu na India e as técnicas tem bastante influência da filosofia do budismo  e do hinduísmo.

Massoterapia - A massoterapia é um tratamento de saúde feito através de diferentes técnicas de massagem. O tratamento é indicado para a redução de dores musculares, dores associadas a parto, câncer e fibromialgia. Além disso, é cientificamente comprovado os benefícios da massoterapia para auxiliar na cura de lesões, melhorar o sono e conter o estress.



Reportagem: Maria Eduarda Abreu 

Trilha é utilizada como área de replantio da mata ciliar

                                                                        Reportagem: Maria Eduarda (texto) e Lívia Santos (foto)

Dividindo espaço com as construções do Campus III, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), a trilha ecológica José Theodomiro Araújo é um meio de descobrir a importância da mata ciliar para a preservação do rio São Francisco. A trilha tem aproximadamente um quilometro e tem 21 espécies de plantas nativas, que são essenciais para conter a erosão do solo e minimizar o assoreamento das margens do rio.
Entre as espécies, estão a ingazeira, localizada na faixa transitória entre o solo e o rio, cujas raízes servem para proteção, abrigo e alimentação dos peixes; a lantana com potencial para o paisagismo e plantas medicinais como o pau-ferro e a aroeira.
Ingazeira. Foto: Lívia Santos

Para identificar essas espécies nativas, a professora e pesquisadora do Departamento de Tecnologias e Ciências Sociais (DTCS), da UNEB, Maria Herbênia Cruz realiza um trabalho de mapeamento, seleção e coleta de flores e sementes, através do projeto de pesquisa  Produção de plantas nativas para recomposição da mata ciliar no Submédio São Francisco.

Nesse trabalho, que conta com o auxílio de estudantes de Engenharia Agronômica e da servidora Lucília, as sementes são recolhidas do ambiente natural para serem analisadas no laboratório do Herbário da Embrapa Semiárido. As sementes que apresentam boa germinação são utilizadas para produzir novas mudas em viveiro, já que são espécies encontradas apenas nas margens do rio São Francisco. “A mata ciliar está para o rio, como os cílios para os nossos olhos. Elas mantêm as margens protegidas de fatores como erosão e do assoreamento que têm levado, cada vez mais, resíduos e areia para dentro do rio”, explica a pesquisadora.
Sementes de Pau-Ferro. Foto: Lívia Santos

Atualmente, é feito replantio das mudas em áreas de comunidades ribeirinhas e na trilha ecológica que sofre constantemente com a retirada indevida de plantas nativas e queimadas. Maria Herbênia explica ainda que, mesmo em áreas que ocorreram incêndios, plantas - como a ingazeira - possuem grande capacidade de regeneração, muitas delas brotando a partir das sementes que caíram no solo e das raízes que resistiram ao fogo. Confira no video

Plantio de mudas. Foto: Livia Santos

Apesar da pequena extensão, a trilha ecológica representa um importante ecossistema entre o rio e as espécies da caatinga que convivem de forma integrada, como as plantas nativas, aroeira, baraúnas, cactáceas e bromélias encontradas ao longo da trilha e que resistem à degradação externa provocada pelo homem e pela presença de plantas invasoras como algarobas e Nim. 
Feijão Brabo. Foto: Livia Santos



Conheça as Plantas Nativas

As 21 espécies da mata ciliar encontrada na trilha ecológica colaboram para preservar o ecossistema, evitando a erosão do solo, como atestam pesquisas com as mudas das plantas realizadas pela professora Maria Herbênia Lima Cruz, em desenvolvimento no DTCS/UNEB. 
Contudo, essas plantas também são conhecidas pela população que faz uso medicinal de algumas delas. Conheça algumas propriedades dessas plantas nativas. 
Pesquisa e texto: Mônica Santos

Angico (Anadenanthera colubrina) - Utilizada na construção civil e tem propriedades medicinais, prevenindo problemas respiratórios, como asma, tosse, bronquite, gripes, resfriados e inflamações como a faringite, e diarreia, disenteria e raquitismo.

Aroeira-do-sertão (Myracridruon urundeuva): A madeira é usada na construção civil e ornamentação. A sabedoria popular atribui propriedades medicinas no tratamento de fraqueza muscular, distensão de tendões, artrite e fraqueza dos órgãos digestivos, reumatismo e tumores linfáticos. Suas folhas são usadas para tratar úlceras, já sua casca tem efeito adstringente, utilizada contra hemoptises e diarreia, além disso, serve para tratar inflamações ciáticas, gota e reumatismo.

Braúna ( Schinopsis brasiliensis)  Usada para fins medicinais pelos índios Kariri-xoco e xoco, a sua casca triturada e cozida serve para aliviar dores de dentes, o chá de sua casca alivia dores de ouvido, já seus brotos, quando macerados em álcool, tem propriedade anti-histéricas.

Cambará (Lantana camará) Além de sua capacidade ornamental, tem efeito no tratamento de dores abdominais e pode ser usado para baixar febre, tratar dores de ouvido, coqueluche, além de expectorante, infecções e alergias respiratórias.

Feijão bravo (Caparis cynophallophora L; Caparis flexuosa). Quando inalado, ajuda no combate a sinusite, além disso, segundo a crença popular, é possível tratar picadas de cobra quando suas cascas são raspadas e deixadas em água 

Ingazeio (Inga vera subsp. affinis (DC.) T.D. Penn.) Tem propriedades adstringentes, antiartríticas, antirreumáticas e desintéricas. Além disso, o ingá, fruto do ingazeiro combate dores de cabeça e dores em geral, diarreia e diminui problemas intestinais

Ipê amarelo (Tabebuia alba) - Sua casca e folha são utilizadas para infecções como amidalites, estomatites, infecções renais e dermatites,  varizes, coceiras e eczemas, também são conhecidas para prevenção de infecções, diarreias, tumores, além de analgésicas e cicatrizantes. A raíz é utilizada contra gripe e seus brotos utilizados como antisseptico. As flores picadas combate inflamações na gengiva e na garganta.

Jatobá (Hymenaea courbaril) O chá de jatobá colabora para o fortalecimento do sistema imunológico, é eficaz no tratamento de infecções provocadas por fungos, ação anti-inflamatória e alivia problemas nas articulações e respiratórios.

Juazeiro (Ziziphus joazeiro) Indicada para tratar caspa, gengivite, febre, má digestão, dores estomacais, placa bacteriana, vias urinárias e queda de cabelo. Porém, contraindicada para uso pediátrico e durante a gestação e amamentação, por conter saponina, substância que em grande quantidade é toxica. 

Juazeirinho (Ziziphus cotinifolia) - planta nativa.

Jurema (Mimosa tenuiflora) É utilizada para fins medicinais e religiosos. Serve como defumados, no combate a dor de dente, de doenças sexualmente transmíssiveis, no tratamento de insônia, dos nervos e de dores de cabeça. Nas religiões de matriz africana tem muita importância, suas folhas são usadas em banhos e para fazer rezas.

Macambira (Bromelia laciniosa) Utilizada para cobrir telhados e em tempos de seca, servia como alimento, de sua fibra se faz farinha e pão ricos em proteínas, e com o farelo do caule os sertanejos alimentam os seus animais, podendo ser utilizada todas as suas partes, essa bromélia é um grande aliado dos sertanejos em tempos de escassez.

Marizeiro (Geoffroea spinosa) Seus frutos são comestíveis, além de retirar deles uma massa que serve como vermífuga, já suas folhas servem de ração para gado e o chá funciona como antidiarreico e emenagogo

Mulungu (Erythrina velutina) Estudos mostram que esta planta possui propriedade sedativas, ansiolíticas, ou seja, calmantes,  e age também na prevenção e tratamento de convulsões

Muquém (Albizia inundata)

Paineira – barriguda (Ceiba speciosa) Considerada uma das árvores mais lindas do mundo, a paineira ou barriguda, é utilizada no tratamento de hernias, ínguas e queimaduras, a partir do cozimento de sua rezina e de sua casca, fazendo-se um emplasto. 

Pau-ferro (Libidia  férrea) Suas folhas vem sendo utilizadas no tratamento de ulceras gástricas, já sua casca serve para tratar problemas, como  diabetes, problemas nas amidalas, cólica intestinal, diarreia, gota, hemorragias, reumatismo, sífilis, tosse, hemorroidas, complicações cardíacas, febre, afecções pulmonares e fraqueza em geral  

Pinhão bravo (Jatropha mollíssima) Possui efeito antimicrobiano e cicatrizante. Pode ser utilizada como planta ornamental, e a partir do óleo extraído de sua semente pode-se fazer tintas e sabão, além ser importante no combate a aerosão do solo e para a polinização. 

Jogos virtuais permitem interação com o espaço urbano

Ao caminhar pelas praças e parques, você já deve ter visto alguém concentrado na tela de um smartphone interagindo com um personagem de um jogo virtual. Pode ser a busca por bichinhos virtuais, como Pokémons, ou se deslocando por bairros na cidade à procura de pontos que liberam dicas em áudio ou imagem para responder a enigmas e palavras cruzadas.

Para o Doutor em Comunicação e professor do curso de Jornalismo em Multimeios, da Universidade do Estado da Bahia, Luis Adolfo de Paiva Andrade, esse tipo de comportamento é motivado pelos jogos de realidade alternativa (alternative reality games), também chamados de jogos locativos ou pervasivos, que permitem a interação entre o personagem de um jogo, o usuário e o espaço urbano. Além de ser uma prática educativa que envolve aprendizado, é também uma das diversões dos apaixonados por games.
Foto: Ilana Yngrid
Em entrevista à Agência MultiCiência, Luiz Adolfo esclarece como as experiências com games podem ser aplicadas no ensino, aponta desafios como os editais para financiamento público para desenvolvimento de games e aborda novas perspectivas dos jogos aplicados ao jornalismo. “Existe uma categoria chamada newsgame, que são jogos feitos com base em notícias, uma categoria diretamente ligada ao jornalismo. Esse é um dos caminhos, são os jogos que se aproveitam de um fato divulgado na mídia, como o do Ronaldo, com um problema de peso”, afirma Andrade.


MultiCiência: Qual a especificidade dos jogos pervasivos ou locativos relacionados aos de primeira geração, que foram os primeiros a serem desenvolvidos?
Luiz Adolfo: A minha classificação de games são de dois tipos. São os jogos que eu chamo de videogames, quando o jogo acontece no monitor, e eu uso o espaço para pensar esses jogos. O espaço não interfere em nada na disputa. O usuário pode, inclusive, jogar em qualquer espaço, isso não altera. É possível, durante o jogo, trocar de espaço e não ter problema nenhum, são os videogames, dentro dos jogos digitais. E os outros são os jogos locativos, exatamente a especificidade dele. O espaço que você escolhe para jogar tem que permanecer o mesmo. Então, se eu estou com o Pokémon Go ligado, pegando pokémons, e no meio dessa briga eu quiser parar e escolher outro espaço para jogar,  perco totalmente o progresso que estava tendo ali. No caso do videogame, não, eu aperto o botão de pausa e posso mudar de lugar.

MultiCiência: Diante da possibilidade que as pessoas têm de interagir entre o espaço virtual e a cidade através dos jogos locativos, quais mudanças de comportamento podem ser percebidas numa comunidade na sociedade?
Luiz Adolfo: Às vezes, percebemos que alguém está agindo de maneira estranha, no sentido de ficar apontando o celular para as coisas e olhando, e verificamos que ele está jogando. Ficava jogando na Praça da Misericórdia, em Juazeiro, caçando fantasmas, com um jogo de caça fantasmas e as pessoas me viam com o celular para cima e pra baixo. Acho que é importante ter consciência de que a gente está se deslocando no espaço, que a dinâmica do espaço interfere no jogo. A gente teve um caso de um cara que foi atropelado por um ônibus, mas não foi o jogo que fez isso, ele que não prestou atenção.

MultiCiência: Educadores têm estimulado o uso dos jogos nas escolas. De que forma eles podem contribuir como ferramenta de ensino?
Luiz Adolfo: O jogo por si só já implica num tipo de aprendizado, você tem que aprender as regras, para jogar. Dessa forma, o jogo sempre vai estar relacionado a um tipo de aprendizado. Então, se a gente está falando de educação, falamos de aprendizado, se a gente fala de jogo a gente fala de aprendizado.

Foto: Ilana Yngrid
MultiCiência: Ainda existe resistência para incluir os jogos como uma prática de ensino? O que falta nas escolas para usar os jogos de forma apropriada?
Luiz Adolfo: Não acho que exista resistência. Existem professores que não são preparados, não entendem, não mergulham no objeto e a função mais fácil que eles encontram é impedir que o jogo seja utilizado em sala de aula. A gente vê isso, por exemplo, com os celulares. Existem professores que às vezes não têm o mesmo conhecimento do aparelho que o aluno. Então, para ele é muito mais fácil falar que é proibido entrar com o celular, ao invés de tentar usá-lo como ferramenta dentro da sala de aula.

MultiCiência.  O Senhor realizou um jogo relacionado aos acontecimentos da história da Bahia, que foram aprovados em editais públicos. Como avalia que o Estado e/ou secretarias de educação têm buscado desenvolver projetos que estimulem o uso dos jogos em sala de aula?
Luiz Adolfo: Fiz o jogo A Fórmula do Conhecimento, patrocinado pelo Centro Universitário Jorge Amado – UNIJORGE, em 2009, que ganhou prêmio de melhor jogo daquele ano em Salvador; e, em 2011, o Capitães de Areia, com recursos do Faz Cultura e da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult), sobre centenário de Jorge Amado. Ano passado, fiz o GPS coquetel musical em Petrolina - PE, que foi premiado entre os cinco melhores jogos do Brasil ano passado. Acho que a Bahia, diferente de outros estados, tem uma abertura muito grande para editais pra fazer jogos. O estado investe muito em jogos. Ano passado, segundo levantamento de pesquisas que fiz, a Bahia foi o estado que mais produziu jogos em 2015. Aqui, tem um potencial enorme, porém, existem algumas burocracias. Falta pessoal da área de games para pensar os editais. Hoje os editais são pensados por pessoas de cinema, produção cultural, mas ninguém na área de games. Então você encontra algumas ocasiões que são absurdas. Houve edital que disponibilizou 1 milhão e meio para fazer jogos, só que as condições não são boas. Um exemplo, é o funcionário público não poder concorrer a editais de órgãos como a Secult, tanto que nesse edital ninguém concorreu. Então, falta isso, têm as políticas, iniciativas e recursos, o que falta é deixar a gestão desses recursos na mão de pessoas acostumadas com games.


MultiCiência: O Senhor é design de jogos e tem se dedicado aos estudos de jogos, quais são os seus projetos atuais?
Luiz Adolfo: Trabalhei com todos os tipos de jogos que você possa imaginar, mas atualmente trabalho com jogos locativos, criados com mídias locativas. A diversão desse jogo é que ele é utilizado com tablets e celulares, com as funções georreferenciadas nesses equipamentos, e ele nos obriga a se deslocar pelo espaço físico enquanto joga. Atualmente, pretendo entender a relação dos jogos digitais com o espaço geográfico. A área de games está crescendo muito. A UNEB tem o curso Tecnólogo em Desenvolvimento de Jogos Digitais cuja primeira turma começará em 2017.1 pelo Sistema de Seleção Unificada  (SISU).  É um mercado hoje que movimenta muito dinheiro no Brasil. No mundo, a primeira indústria que mais vende é a bélica, a segunda é automobilística, e a terceira é a de games [dados do instituto SuperData indicam que o mercado de games movimentou US$ 65 bilhões em2015].

MultiCiencia: Quais as mudanças mais significativas ocorreram e o que esperar do futuro nessa área?
Luiz Adolfo: Sinto que daqui a pouco vai começar a esgotar as possibilidades de criação dos jogos locativos. É possível que esses games acompanhem o paradigma computacional que está em vigência. Hoje, a computação ubíqua, que consiste na associação de um usuário a várias máquinas, é um meio de disseminar computadores no ambiente. Os computadores seriam menos visíveis, porém mais presentes em nossa vida, como: porta que a gente se aproxima e ela abre sozinha; um ar condicionado que a gente chega e ele liga; o smartphone que é um telefone com funções muito ampliadas; um tablet; rede sem fio, como wi-fi. Vários jogos surgiram acompanhando a computação pessoal, mas agora surgiram os jogos locativos que acompanham a computação ubíqua. Desde que haja paradigma computacional, vão surgir novos jogos para ele. Ainda não posso te dizer qual é esse paradigma, a ideia é que a gente use a computação ubíqua, segundo o que tenho acompanhado pelo menos até 2030. A partir daí, poderá ter um novo modelo, talvez a brain computer – conexão de cérebro com as máquinas – seja um caminho.

MultiCiência. O Senhor foi aprovado para fazer um pós-doutorado em Copenhague. Entre os seus projetos nessa pesquisa, poderemos esperar novos produtos voltados à realidade regional?
Luiz Adolfo: A partir dessa relação entre jogos e espaço geográfico, vou investigar como eles podem contribuir para a otimização da vida urbana, ou seja, ajudando a gente a solucionar alguns problemas de mobilidade, violência urbana, o próprio assoreamento do rio são Francisco. Entre os jogos locativos, os mais populares são o Pokémon GO, o Ingress que é um jogo da Google, e vários outros. Tenho uma ideia de fazer uma adaptação do Pokémon Go aqui para a região, seria algo tipo Velho Chico Go, mas é apenas uma ideia inicial. No ano passado, foi premiado o GPS Coquetel musical, que desenvolvi em Petrolina. Pretendo fazer algo novo, principalmente voltado para a questão do rio, questão hídrica.

MultiCiência: De que forma os jornalistas e estudantes podem se apropriar dos jogos na prática do jornalismo? Quais as tendências?
Luiz Adolfo: Existe uma categoria, chamada newsgame, que são jogos feitos com base em notícias, uma categoria diretamente ligada ao jornalismo. Recentemente, participei da banca de doutorado associada a essa temática, intitulada "Newsgame e Aprendizagem: possibilidades de construção de conhecimento a partir da interação com jogos digitais", da professora Janaína Nunes, da Universidade Federal de Juiz Federal (UFJF), em Minas Gerais. Esse é um dos caminhos, são os jogos que se aproveitam de um fato jornalístico, como o do Ronaldo com um problema de peso, o do José Serra quando ele tomou uma bolada de papel, das eleições presidenciais nos Estados unidos, são vários jogos surgindo dessa temática. Isso é claramente uma aplicação do jornalismo no mundo dos games.

MultiCiência: Como você entende os novos ambientes de convergência midiática para atuação do jornalista?
Luiz Adolfo: É o futuro da profissão. Esse mercado que a gente pensa só rádio, TV, impresso, já está mais do que saturado. Então, temos que pensar nos novos ambientes, pensar no jornalista enquanto self employed, enquanto prestador de serviço, não um profissional vinculado a uma mídia, mas um profissional capaz de atender várias demandas de serviço. A gente precisa oferecer os nossos serviços para as empresas e tentar crescer.

Reportagem de Andressa Silva
Fotos: Ilana Ingrid

A luta pela certificação das comunidades quilombolas



Com 73% da população identificada como negra, pretos e pardos segundo último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estática (IBGE), Juazeiro não tinha nenhuma área remanescente de quilombo certificada pelo estado brasileiro. Somente no mês de maio, a comunidade do Alagadiço recebeu a certidão da Fundação Cultural Palmares, conforme portaria 103 publicada no Diário Oficial da União. Situada a 18 km do centro de Juazeiro, a comunidade formada por 42 famílias desenvolveu, durante três anos, atividades de conscientização dos direitos sociais e de reconhecimento da identidade afro-brasileira até obter a certificação. Palestras, cursos de formação e exposições foram realizadas pelo grupo de pesquisa Perfil Fotoetnográfico das Populações Quilombolas da região do Submédio do São Francisco: Identidades em Movimento”, coordenado pela professora e Doutora em História, Márcia Guena, do Departamento de Ciências Humanas, da Universidade do Estado da Bahia, em Juazeiro. Segundo Márcia, o processo de certificação iniciou a partir do envolvimento da comunidade nas atividades para reafirmar a ancestralidade negra e africana. Com a certidão, as famílias podem solicitar a titularidade das terras em que estão localizadas e garantir a proteção dos territórios para as práticas culturais e religiosas. Em Juazeiro, outras 16 comunidades têm características similares às áreas remanescentes de quilombo. Na Bahia, 300 comunidades já receberam a certidão.

MultiCiência (M): Como foi realizada a pesquisa nas comunidades que podem ser certificadas como quilombolas?
Márcia Guena (MG): A pesquisa primeiro faz o levantamento da comunidade apontada como quilombola e apresenta a questão dos direitos que possui como área remanescente de quilombo. Se a comunidade tiver interesse em se autodefinir, auxiliamos no processo juntos com outras organizações como Associação dos Advogados de Trabalhadores Rurais (AATR), Comissão Pastoral da Terra e Secretaria de Desenvolvimento e Igualdade Social de Juazeiro. A pesquisa é um processo lento, porque é necessário que a comunidade se reconheça como negra e quilombola. A pesquisa procurar despertar para o reconhecimento dos direitos das áreas quilombolas. Visitamos as famílias e fizemos trabalho de campo no Alagadiço há três anos, e só agora pode sair a certificação.  

M: Quais as dificuldades na certificação?
MG: Existem hoje pelo menos 300 comunidades quilombolas no estado com certidão. Dessas, poucas conseguiram os títulos da terra, em função das disputas, seja devido a existência de famílias coronelistas que têm controle da terra, seja pela expansão do agronegócio. As comunidades certificadas recebem uma série de benefícios, mantidos por programas de auxílio à moradia, educação, cidadania, eletrificação rural, entre outros. Só que muita coisa que foi conquistada está sendo perdida pelo governo interino de Michel Temer. Por exemplo, a articulação pela titularidade da área quem fazia era o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), depois a titulação foi para o Ministério da Educação. O Ministro da Educação é comandado pelo Partido Democrata (DEM) que, junto com outros partidos, pediu o fim da certificação das terras quilombolas. Então, todo o processo de conquista está por um fio nesse governo interino. [No dia 27 de maio, o Decreto 8.780 transferiu a competência para regularizar as terras quilombolas para a Casa Civil].


M: Essas conquistas começaram quando? 
MG: Tem cerca de 15 anos a partir da criação da Fundação Cultural Palmares. Primeiro, é a certificação; depois, é o título da terra. Temos cerca de 2.660 comunidades quilombolas certificadas no Brasil. A certificação do território é a garantia de que elas não tenham o direito à terra usurpado e ninguém pode invadir aquele espaço porque tem o título da terra. Uma área certificada é uma área protegida, não pode ser invadida, pois qualquer intervenção é mediada pela polícia federal e não pode ser resolvida pela polícia local. A certificação representa um direito para essas populações negras que se mudaram há 200 anos. Elas estão ali, desde o pós-abolição, final do século XIX. 

M: Como as comunidades começaram a se formar?
MG: Muitos africanos escravizados na pós-abolição permaneceram nas fazendas ainda com uma relação escravocrata com os seus donos, outros saíram. Mas onde eles iam morar? Se eles não tinham terra, trabalho, eles não tinham nada. Eles foram ficando em alguns lugares, onde eles sofriam muito preconceito, racismo. Então, eles buscaram áreas para morar, plantar e sobreviver.  Assim, foram se formando os quilombos. Hoje, o que se chama de quilombola são áreas de terra de “Preto Santo”, onde as pessoas vivem por solidariedade, laços familiares e conseguem sobreviver.

M: Por quê é necessária a certificação?
MG: Essa certificação de terra quilombola foi uma vantagem para as populações que vivem de forma tradicional há muitos anos e não têm o título da terra. Foi uma forma de reconhecer os direitos dessas populações que foram negados, como a titularidade da terra. O Estado brasileiro reconheceu direito à terra para a população estrangeira que migrou para o país, mas não deu para a população negra saída da escravidão.
 

M: Quais seriam as dificuldades encontradas para a certificação?
MG: Hoje, uma das dificuldades encontradas é a informação dos direitos da comunidade.  A certificação é um processo relativamente simples. A questão principal das comunidades quilombolas é ter acesso à informação. As comunidades de Juazeiro não conheciam os seus direitos, sabiam de forma muito incipiente, mas não tinham a dimensão política desse direito. O Ministério do Desenvolvimento Agrário tinha uma relação de 17 comunidades quilombolas juazeirenses, mas elas não se auto-afirmavam como quilombolas. São todas comunidades de origem negra, com memórias da cultura afrodescendente e que mantém manifestações culturais como O Samba de Véio, o samba de lata e os resquícios de religião afro-brasileira. São comunidades formado por negros, indígenas. Uma ou outra tinha tentado a certidão, mas quase nenhuma tinha procurado garantir o direito à certificação. Já em Senhor do Bonfim, existem 16 comunidades certificadas. Em Juazeiro, agora tem o Alagadiço. Mas foi um processo lento durantes esses três anos, com palestras, cursos de formação, oficinas de fotografia, reuniões em outras comunidades, exposições fotográficas. Todas essas ações foram feitas para a comunidade implementar seus projetos para as 42 famílias que vivem na comunidade 

M: As comunidades recebem algum tipo de ajuda do governo brasileiro?

MG: Quando a comunidade é certificada, ela passa ter um série de incentivos, a exemplo do programa Brasil Quilombola. Agora, com essa nova administração do governo não sei como irá ficar. Existem programas para a pequena agricultura familiar, pequeno agricultor, para construção de casas, escolas, posto de saúde. A área quilombola é uma área protegida pelo estado, no sentido da subvenção com o auxílio dos ministérios. Com essa nova configuração política, isso tudo pode mudar e não se sabe como vai ficar.
  
 M: O juazeirense se reconhece como quilombola?
 MG: O juazeirese não é um quilombola, são as comunidades apontadas com quilombolas que temos pesquisado. Algumas se reconhecem outras não, mais isso é um processo de autorreconhecimento, muitas comunidades desconheciam a legislação. Então, é um problema do poder público apresentar o direito para essas comunidades, ao conhecer o direito elas passam a despertar interesse para essa discussão. A pesquisa na verdade só se aprofunda no processo de certificação, se a comunidade tiver interesse nisso.  

M:  Quais são as etapas para a certificação?
MG: Para a certificação formal, é preciso formalizar um documento e depende do envolvimento e consciência da população negra de origem quilombola. Algumas comunidades formadas por negros não são puras, são de origem indígenas e existem lutas internas que eles travam. Quando a comunidade quer ser reconhecida, percebo que é um processo de consciência de ter o seu espaço.  Um processo que demora anos. O grupo de pesquisa não procura as comunidades. Elas nos procuram para obter informação. Fazemos a apresentação, o panorama da legislação e palestras sobre essa conceituação. Elas devem ir em busca dos seus direitos, é um processo de amadurecimento.
 
M: Quais são os legados dessas comunidades quilombolas?
MG: O primeiro legado é a origem negra, o passado de origem africana; o segundo é a resistência de várias expressões culturais, como o Samba de Véio, samba de lata, as rodas de são Gonçalo.  O samba está presente nas festas católicas, nas cantorias, nas expressões miscigenadas de origem portuguesa e africana. A linguagem, a memória e a religiosidade afro brasileira também são legados, apesar do catolicismo e das religiões neopentecostais. São as grandes forças desse legado.


Para informações sobre a pesquisa, acesse o blog Quilombos e Sertões.

Entrevista publicada com exclusividade no jornal Gazzeta do São Francisco, na edição de 9 de Julho de 2016.


Por Ilana Ingrid (Texto)
Maria Eduarda Abreu (Foto),
da Agência MultiCiência



Arte e experiências educomunicativas com o uso do celular



As jornalistas Débora Sousa e Eliane Simões reuniram nove jovens de Petrolina e quatro idosos de Juazeiro, que estudam na Universidade Aberta a Terceira Idade, para retratar 40 pontos históricos da cidade. O resultado foi a exposição Educomunicando com Olhar, desenvolvido como projeto de conclusão do curso de Jornalismo em Multimeios, da UNEB. 
Segundo Débora Sousa, o celular é uma ferramenta acessível e que pode ser usada no ambiente escolar para educar o olhar para questões sobre o cotidiano. Ela conta que experimentou o uso do aparelho celular com alunos da Escola Estadual Professor Simão Amorim, em Petrolina. "Vimos que a turma possuía aparelhos de celular e a gente pensou: por quê não trabalhar com uma ferramenta que eles já possuem? Fizemos o projeto, a escola aprovou e começamos a ministrar as oficinas. Fizemos uma saída fotográfica e eles decidiram que gostariam de retratar idosos", afirma.
Idosos e jovens na praça 21 de Setembro, Petrolina. Foto Débora Souza
Débora relata que muitos idosos tinham desejo de aprender a usar o celular para registrar as suas experiências, mas não tinham quem os ensinasse. Juntos, jovens e idosos, resolveram apostar na experiência de registrar imagens do cotidiano. O projeto para a exposição permitiu que muitos idosos compartilhassem histórias vividas naqueles locais.



Exposição Travessia
A fotografa Lizandra Martins também utilizou o celular para registrar as idas e vindas de passageiros da barquinha de Petrolina a Juazeiro. Lizandra fazia a travessia diariamente durante o trajeto de sua residência para a Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e passou a fotografar todos os dias o que lhe chamava a atenção nesse percurso. O resultado foi a exposição Travessias, aberta ao público até 1 de julho no SESC, em Petrolina. 
Foto: Lizandra Martins

Para a fotógrafa, o uso de celular durante a produção das fotografias foi uma questão de praticidade, por ser mais leve que uma câmera profissional e chamar menos atenção. "O celular termina sendo algo mais acessível e está ali na nossa bolsa. Sou fotógrafa profissional, mas não tenho como me locomover com minha câmera o tempo todo. O celular termina sendo um recuso muito poderoso nesse sentido de você estar ali, registrar e, imediatamente, publicar", explica.
Além da praticidade, o celular causa menos interferência no momento de capturar imagens e permite registrar cenas espontâneas das pessoas nas ruas. "Como eu gosto de fotografar cenas do cotidiano, dou prioridade a questão do espontâneo. Então, o celular é perfeito, às vezes você está fotografando as pessoas e elas nem percebem. Se eu estivesse com uma câmera não teria feito algumas fotos que estão na exposição", afirma.
A pedagoga e fotógrafa Lizandra Martins
Foto: Chico Egídio



O dispositivo móvel tem algumas limitações de recursos que são prejudiciais para a qualidade da imagem, como a falta de flash e mecanismo que possibilitam um controle maior sobre a produção fotográfica. Lizandra ressalta, contudo, que o mais importante do que o equipamento é a sensibilidade do olhar para permitir que as pessoas possam vivenciar uma experiência estética.


                                                             Texto: Maria Eduarda Abreu