Estudo demonstra a importância da Associação de Pais e Mestres em Juazeiro

Responsável por mobilizar a educação e cultura de Juazeiro, a Associação de Pais e Mestres (APM) reuniu educadores e pais para articulação de um novo ambiente educacional. Entre os anos de 1954 e 1974, a associação liderada por professoras primárias desenvolveu novas metodologias de ensino e tecnologias que facilitavam o cotidiano escolar.


Foto: Ingryd Santos

A Associação de Pais e Mestres na esteira do tempo de Juazeiro (BA): representações sobre infância, educação e cultura foi o resultado da pesquisa feita pelo pesquisador Luís Osete Ribeiro Carvalho, através do Programa de Pós Graduação Mestrado em Educação, Cultura e Territórios Semi Áridos (PPGESA).

A partir de uma revisitação histórica, a pesquisa documentou as ações desenvolvidas pelos agentes que participaram da APM. Além disso, a dissertação certifica o pioneirismo das professoras primárias que estavam à frente da associação, destacando a presença da professora Maria Franca Pires.

“Uma das contribuições desse trabalho é colocar a associação no mapa da história de Juazeiro, pois até então ela não tinha lugar nem na história da educação. Então, esse trabalho desperta a atenção para o papel das professoras primárias e pais de alunos que durante vinte anos agiram ativamente na associação”, declara Luís Osete.

O interesse em retratar a APM começou com o projeto de iniciação ainda na graduação, em Comunicação Social, com a pesquisa "O arquivo de Maria Franca Pires: memória e história cultural em pesquisa na região de Juazeiro-BA", orientado pela professora Odomaria Bandeira.  “Quando eu entrei no mestrado, eu quis trazer uma questão de pesquisa que relacionasse o arquivo de Maria Pires com a educação, cultura e território de Juazeiro”, afirma.

Foto Ingryd Santos
Para fazer análise histórica da associação, Luís Osete enfrentou alguns problemas devido a falta de referências documentais a respeito da entidade nos livros de história de Juazeiro. Foi preciso recorrer às memórias de professoras que participaram da APM e aos materiais didáticos reunidos pela professora e pesquisadora Maria Pires que, atualmente, compõem um acervo na UNEB, como atas da associação e crônicas radiofônicas.  

Os materiais do arquivo pessoal de Maria Pires são objetos de análise desde que foram doados pela família, em 2004. “O pioneirismo de Maria Franca Pires foi o que salvou parte da memória da cidade”, afirma a historiadora Odomaria Bandeira, que ficou responsável pela guarda da documentação.

Maria Franca Pires reuniu materiais fundamentais para uma consulta histórica, como parte da iniciativa de registrar a “história que vive na cabeça do povo”, como ela dizia. Os materiais revelam aspectos sociais, culturais e educacionais sobre o território semiárido, especialmente, o município de Juazeiro. São diversos documentos que compõe o “Museu de tudo”, entre eles: jornais, fotografias, depoimentos gravados em fitas cassetes, livros, entrevistas e entre outros.

 “O acervo é muito importante para a pesquisa da história cultural da cidade. Nele, existem outras possibilidades de conhecimento sobre outros aspectos, como a própria imprensa, a história dos meios tecnológicos de educação, o movimento cultural, conhecimentos sobre literatura e a produção literária. Existe uma diversidade de materiais ”, relata Odomaria.

Atualmente, o acervo está em processo de digitalização para a formar um catálogo digital. O objetivo da plataforma online é facilitar o acesso do público aos documentos históricos. Cerca de 80% do material está digitalizado.

Para conhecer outras pesquisas produzidas pelo programa de pós graduação, acesse o site do PPGESA. 

Por Ingryd Santos, repórter da Agência MultiCiência.

Programa Mais Educação e os desafios da educação integral

Aprofundar os conhecimentos sobre políticas públicas educacionais e as medidas socioeducativas contemporâneas na educação integral. Este foi o tema da dissertação "O Programa Mais Educação nas Escolas Municipais professor Laurita Coelho Leda Ferreira e José  Cícero de Amorim em Petrolina -PE no período de 2010 a 2015, defendida pela mestranda Rosymarilethe Ribeiro de Amorim,  no Programa de Pós - Graduação Mestranda em Educação  Cultural e Território Semiárido (PPGESA), da Universidade do Estado da Bahia, campus III, em Juazeiro, Bahia.

A professora da Rede Municipal de Petrolina utilizou pesquisa qualitativa para fundamentar a sua análise, descrevendo a contextualização do programa em localidades que foram aplicadas. Além de demonstrar as vertentes teóricas direcionadas à  educação em tempo integral, a professora discutiu o pensamento educacional nas diferentes períodos históricos e os caminhos percorrido até  a implementação do Programa Mais Educação em Pernambuco e o diálogo com os saberes e costumes locais.

A pesquisadora coletou dados com 150 estudantes do primeiro ao quinto ano divido em três turnos. “A maior dificuldades encontrada para continuar com a nossa análise na zona Rural foi o transporte, pois os alunos do turno vespertino teriam que dividir o transporte com os alunos do turno matutino e isso provocou evasão de alguns alunos", explica  Rosymarilethe.

A dissertação teve como resultado promover um olhar reflexivo sobre possíveis mudanças sobre o programa e incentiva a participação de outros pesquisadores a investigarem  temas relacionados, além incentivar instituições privadas a participarem  do programa.

Programa Mais Educação

O Programa Mais Educação foi criado pela Portaria Interministerial nº 17/2007 e regulamentado pelo Decreto 7.083/10, constituindo-se como estratégia do Ministério da Educação para indução da construção da agenda de educação integral nas redes estaduais e municipais de ensino. O programa amplia a jornada escolar nas escolas públicas, para, no mínimo, sete horas diárias, por meio de atividades optativas direcionadas a temas como educação ambiental; esporte e lazer; direitos humanos em educação; cultura e artes; cultura digital; promoção da saúde; comunicação e uso de mídias; investigação no campo das ciências da natureza e educação econômica e acompanhamento pedagógico.
O programa mais educação envolve 25 programas Federais formulados pelos ministérios participantes como Ministério de Ciência  e Tecnologia, Ministério da Educação, Ministério do Desenvolvimento Social  e Combate à  fome , Ministério do Meio ambiental.

Para conhecer a produção científica do PPGESA, clique em . A dissertação de Rosymarilethe Ribeiro de Amorim foi aprovada no dia 3 de março e estará disponível nos próximos seis meses no site.

por Ylanna Santos

A midiatização e as transformações das dinâmicas socioculturais

Os estudos de midiatização começaram com pesquisadores das Ciências Sociais analisando a influência da mídia na vida social. No contexto latino-americano, Jesús Martín-Barbero, García Canclini e Guilherme Orozco ampliaram as pesquisas a partir do conceito de mediações culturais e a relação da comunicação centralizada na cultura. No Brasil, pesquisadores como o professor da Universidade de São Paulo (USP), Eneus Trindade, se dedica a estudar a midiatização em um paralelo com mediações culturais com ênfase nos estudos sobre as relações de consumo.

Nessa entrevista a ComSertões, o professor analisa como as mídias estão presentes na vida cotidiana e como essa presença transforma as dinâmicas socioculturais. Ele discute também a tendência da publicidade em disseminar temas sociais com combate à opressão das minorias. Para Eneus, o consumo pode ser um lugar de inclusão, de tolerância e de respeito à diversidade na sociedade.

Com sólida formação acadêmica em Comunicação pela USP, Eneus é coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) e defende que as universidades públicas invistam na institucionalização da pesquisa, incentivando parceria entre centros de excelências e universidades de todo país. O professor participa do Programa de Pós-Graduação Interinstitucional em Comunicação (Dinter), parceria da USP e a Universidade do Estado da Bahia (UNEB), e tem visitado a região do Vale do São Francisco para socializar os seus estudos com doutorandos em comunicação, estudantes e professores de Jornalismo em Multimeios e Pedagogia, da Universidade do Estado da Bahia, campus Juazeiro.
Foto: Divulgação/NAC-Uneb




MultiCiência: Professor, seus estudos estão relacionados ao tema midiatização e consumo. Como o conceito de midiatização tem sido analisado?
Eneus Trindade (ET): Estudo a midiatização em um paralelo com mediações culturais com destaque às mediações comunicacionais. A midiatização é o operador ou um mecanismo de difusão desses aspectos da cultura via comunicação. A partir disso, entende-se que o consumo é alterado pela midiatização de marcas, que funcionam com um elemento da mediação cultural para identidade do indivíduo. Por isso, a relação mediações culturais e midiatização, porque a marca operacionaliza uma dimensão de consumo comunicativo e, ao mesmo tempo, materializa uma série de mediações culturais e comunicacionais relacionadas à identidade do sujeito.

MultiCiência: Quais mudanças surgiram nos estudos de midiatização da sua origem para os dias atuais?
Eneus Trindade: A midiatização é uma tendência fora do contexto brasileiro hegemonicamente, não que não exista no Brasil, existem pesquisadores brasileiros trabalhando esse conceito. A midiatização é um conceito contemporâneo das Ciências Sociais nos estudos de mídia que procuram estudar a influência da mídia na vida social e nas transformações sociais. Nos estudos de tradição latino-americana, existem as mediações culturais propostas por autores como Martin Barbero, García Canclini e Guilherme Orosco que trabalham perspectivas de entendimento da comunicação na centralidade da cultura. Essa mediação reflete uma série de mediações culturais e que explicam a constituição do indivíduo e o modo como as pessoas se apropriam das realidades. É interessante entender que a midiatização é um conceito amplo da presença da mídia na transformação social, mas as mediações culturais procuram explicar de forma mais detalhada esse conceito e a tradição latino-americana é mais adequada para nós.

MultiCiência: O senhor tem realizado pesquisas relacionadas ao consumo e ao padrão alimentar. É possível comprovar mudanças de hábitos de consumo a partir da influencia da mídia?
Eneus Trindade: Quando estudamos essa questão dos alimentos e das práticas alimentares, queríamos identificar  em que medida as tendências se manifestavam como uma interferência na construção do sentido das marcas para o estabelecimento de vínculo, a partir de tendências como conveniência, facilidade, prazer, saúde, ética e sustentabilidade. Procuramos entender o que é que acontece com essas tendências e percebemos que elas se apropriam, às vezes combinando mais de uma delas.  Determina marca se apropria do discurso de saúde, mas a prática alimentar não é adequada, não é saudável. Fica só na prática discursiva da marca. Por outro lado, as pessoas querem ser sustentáveis e querem ser saudáveis, mas consomem produtos industrializados e produtos processados.

MultiCiência: Além da questão do consumo, como o tema midiatização tem estimulado novos estudos científicos e pesquisas universitárias?
Eneus Trindade: Com uma perspectiva de valorizar o sujeito receptor e a sua relação de usos e consumos midiáticos, isso tem sido muito importante e fundamental no empreendimento da midiatização e no entendimento da comunicação como um processo sociocultural. Essa contribuição cria uma preocupação com objetos da comunicação e não só estudar comunicação relacionada a qualquer coisa perdendo de vista o objeto comunicacional. A grande contribuição dessa perspectiva teórica é tentar entender um lugar possível de compreensão do objeto comunicacional na sua presença na vida social.

MultiCiência: Como podemos perceber a influência da midiatização no cotidiano?
Eneus Trindade: É relevante perceber como as mídias estão presentes na vida cotidiana e como essa presença transforma as dinâmicas socioculturais. Essa é uma característica do conceito de midiatização entender a presença da mídia e como essa presença transforma o sentido da existência. Um exemplo é a interação interpessoal que acontecia por telefone e hoje é substituída pelo whatsapp com os smartphones. Quase ninguém mais telefona, então o smartphone quase não é usado para essa perspectiva e sim para a interação através de aplicativos. Isso é uma transformação da cultura de relações interpessoais e essa subutilização do telefone transforma os modos de interação das pessoas.

MultiCiência: Muitas empresas têm construído campanhas midiáticas com conteúdos alusivos a temáticas sociais, como homofobia, racismo, pautando muitas vezes discussões na rede. Como entender essas tendências no mercado publicitário?
Eneus Trindade: É preciso estudar cada plataforma para entender isso, porque as marcas têm uma proposta de vinculação com os consumidores. A empresa tem que estabelecer um vínculo de credibilidade e de confiança. Não adianta ser um vínculo afetivo, deve ser um vínculo de credibilidade e confiança com o consumidor. Esse tipo de credibilidade e de confiança tem que permear todas as plataformas, só que essas plataformas não agem na mesma intensidade. No twitter são 140 caracteres, ou seja, uma perspectiva de interação com limite. A página do facebook pode ter outras características, então dependendo da plataforma posso ter a possibilidade de criar esse vínculo com maior ou menor intensidade em função dos artifícios técnicos que a plataforma permite na interação.

MultiCiência: Como entender esse tipo de consumo?
Eneus Trindade: É um consumo responsável, ético e que busca lutar para agregar o consumo de mercadorias a uma postura civilizatória que leva emancipação e a inclusão social. É lógico que essa inclusão social pode ser associada ao consumo, a aquisição de produtos passa ser a porta de entrada de aceitação do indivíduo. Logo, a interpretação negativa que a gente pode ter dessas estratégias é que eu só vou aceitar o negro, eu só vou aceitar o homossexual se ele for consumidor. Por outro lado, consumir é uma condição da existência humana, a gente nasce para consumir. Então, não podemos ser tão extremistas em dizer que o consumo não é um lugar de inclusão. Mas junto com esse lugar de inclusão você tem que ter os aspectos de tolerância e de respeito à diversidade na sociedade.

MultiCiência: Ao mesmo tempo em que as empresas investem em campanhas sociais, muitas peças publicitárias ainda reproduzem aquele modelo de associação da mulher como objeto de desejo sexual, como campanhas de bebidas, algumas marcas de roupas. Como publicitário e pesquisador da área o senhor identifica implicações éticas nesse tipo de propaganda?
Eneus Trindade: Isso é um processo civilizatório, enquanto houver preconceito existente na sociedade existirá a publicidade que revela os estereótipos do preconceito, à medida que a publicidade e a sociedade vão ganhando outro estatuto de processo civilizatório isso pode ser combatido. Antigamente, o cigarro era recomendado para atenuar o estresse das pessoas, hoje a propagando do cigarro é proibida. No futuro, todas essas questões que consideramos antiéticas, mas que vem acontecendo estarão extintas num lugar folclórico de lembrança de uma sociedade em uma outra etapa do processo civilizatório. É preciso ver a evolução civilizatória da sociedade e o que cabe e não cabe nessa sociedade. De repente, o movimento das mulheres vai inviabilizar a representação delas de um modo machista no futuro. Agora, isso ainda não acontece porque existe ainda a presença da cultura machista na mídia. Enquanto houver essa presença, haverá quem faça publicidade nesses moldes.

MultiCiência: O senhor estudou na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e é professor da USP, atualmente também participa do Dinter em Comunicação, parceria entre a UNEB e USP, como o senhor analisa o crescimento da pesquisa nas universidades da região nordeste?
Eneus Trindade: Houve uma grande evolução. Quando eu saí para fazer o mestrado e o doutorado na USP, não existia pesquisa na região apenas a graduação e hoje as universidades públicas do Nordeste estão preocupadas com a pesquisa e estão surgindo programas de pós-graduação. A UFPE onde estudei não tinha mestrado e doutorado em Comunicação e hoje já tem um programa na área. Se me formasse hoje, não sairia de Recife. De um modo geral, as pesquisas refletem temas importantes para o desenvolvimento das regiões, portanto não há como comparar com as pesquisas de São Paulo. Os assuntos discutidos em Recife, discutidos em Juazeiro são pertinentes à região. Não posso dizer que a pesquisa realizada em São Paulo é superior a de outras regiões. Talvez as universidades de São Paulo tenham uma tradição, tenham uma prática de pesquisa consolidada, mais madura e isso coloque institucionalmente a pesquisa em comunicação em um patamar superior. Mas percebo grandes avanços, tenho grandes colegas interlocutores e não vejo com demérito as abordagens temáticas ou o método. O que eu acho é que o Nordeste precisa lutar, cada vez mais, para institucionalizar a pesquisa no ensino superior sobretudo as universidades públicas.

MultiCiência: A região nordeste tem sido pautada pela mídia através de novelas como Velho Chico e filmes que são produzidos na região, como esse processo de midiatização contribui para construir novas referências sobre o Nordeste, que não seja a de uma visão estigmatizada?
Eneus Trindade: O Nordeste vai ganhando a sua midiatização a partir de seus conflitos locais na medida em que a região tem aspectos que correspondem à dimensão do poder instituído, como também possuem aspectos das condições de desigualdade, da miséria, pobreza e esquecimento de uma população que vive o paradoxo de ter o desenvolvimento no agronegócio, na produção de energia do país e, ao mesmo tempo, tem uma parte da população esquecida ou alijada desse processo. A mídia ajuda a problematizar isso, acho que inclusive as representações do Rio São Francisco e da sua região são representações que traduzem na medida do possível essas polêmicas muito melhor do que a representação hegemônica que se tem da politica na mídia.

MultiCiência: O Senhor avalia que houve mudanças nesse discurso hegemônico?
Eneus Trindade: Existe um imaginário do nordeste já consolidado, mas os produtos midiáticos têm mostrado que houve uma mudança. Por exemplo, o filme cearense Boi Neon,  do diretor Gabriel Mascaro,  trabalha uma perspectiva do nordestino que não quer migrar, mas que quer viver na região, porque houve mudanças. Há um novo horizonte de representação das mídias sobre o Nordeste que está ganhando uma certa amplificação e mostra uma outra estética uma outra lógica, o que é importante e legítimo. Talvez essa questão hegemônica do Nordeste como lugar pobre permaneça em um grande imaginário coletivo porque essas produções são em menor frequência do que outras, mas por outro lado já existe uma produção constante ainda que menor comparado a produções de lógica hegemônica. Há produções que demonstram que existe vida cultural e negócios prósperos no nordeste. Na região do São Francisco, existe uma representação que, para mim, corresponde ao justo, ainda que às vezes recaía em alguns aspectos, mas a gente também não tem como fugir disso totalmente.

Essa entrevista foi publicada na Revista ComSertões, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Disponível em: http://www.revistas.uneb.br/index.php/comsertoes/issue/view/175


Brasil: rumos da economia são incertos para próxima década

Pesquisadores baianos defendem uma nova reformulação econômica com participação efetiva da sociedade civil

POR MARINA ARAGÃO*
marinaaragaosilva@gmail.com
Agência de Notícias em CT&I – Ciência e Cultura UFBA



Estagnação, instabilidade econômica e três anos seguidos de taxas de crescimento negativas são algumas das dificuldades enfrentadas pela economia brasileira. Aliada a isso, a incerteza dos seus rumos para a próxima década prejudica uma tentativa de saída da recessão. Segundo dados divulgados na Carta de Conjuntura – número 33, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o resultado primário acumulado das contas públicas até outubro de 2016 totalizou um déficit de R$ 45,9 bilhões e, no acumulado em 12 meses, registrou-se saldo primário negativo de R$137,2 bilhões (2,33% do Produto Interno Bruto – PIB).

A economia brasileira é fundamentada no modelo de tripé macroeconômico, o qual se baseia na meta da inflação, na meta fiscal e no câmbio flutuante. Segundo o regime cambial adotado no Brasil, o preço de uma moeda em relação à outra varia de acordo com sua oferta e procura. A meta fiscal ou de superávit, resultado da receita arrecadada subtraídos os gastos do governo, é definida todo ano pelo Congresso Nacional, através da Lei Orçamentária Anual (LOA). Já para a inflação brasileira, a meta anual é de 4,5%, com piso de 3% e teto de 6%.

Esse modelo foi flexibilizado no segundo mandato do governo Lula, ao ser adotada uma política de caráter mais expansionista, com estímulo ao crédito, às políticas sociais e habitacionais, e à redução dos juros. Entretanto, no governo Dilma, o cenário internacional começou a desacelerar, gerando uma restrição ao desenvolvimento. No seu segundo mandato, as propostas governamentais não sustentaram o crescimento, a economia exterior não se recuperou como esperado e o país deparou-se com um agravamento da crise.
Segundo dados do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (CODACE), de 2015, o segundo trimestre de 2014 representou o fim de uma expansão econômica que durou 20 trimestres e sinalizou a entrada do país em recessão. O crescimento médio trimestral, de 4,2%, havia sofrido uma contração de 1,1% até o primeiro trimestre de 2015.



Projeções – Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), segundo o relatório Fiscal Monitor de outubro de 2016, o Brasil só atingirá um superávit primário em 2020. A receita precisa superar as despesas do governo, para então pagar os juros da dívida pública. Entretanto, segundo os economistas, é difícil fazer projeções estruturais para o país nos próximos anos.

“O economista que fizer qualquer projeção estará seriamente afetado pelo mal conhecido como ‘futurologia’. Mas se raciocinar com hipóteses, ele pode fazer a profecia de que, se a situação continuar como está, o cenário econômico não mudará nos próximos dez anos”, enfatiza o economista e doutor em Teoria Econômica Luiz Filgueiras.

Já o economista e especialista em Financeirização, Ricardo Caffé, acrescenta um agravante para as próximas décadas. “O envelhecimento da população é uma evidência demográfica brasileira e, recompor um novo espaço fiscal, uma nova capacidade para a economia financiar o seu estado e a sua população, é de fato um problema que sempre foi adiado e não pode mais. Se o Brasil não resolver os seus problemas fiscais terá problemas de longo prazo”, sustenta.

Percentual da população idosa brasileira ao longo de décadas (1990-2050)

Reformas – O governo atual tem instituído como alternativas para a saída da recessão e para um possível crescimento econômico, reformas institucionais. As iniciativas envolvem a Proposta de Emenda Constitucional do teto dos gastos públicos (PEC 55), promulgada em dezembro do ano passado, a reforma da Previdência, tendo como principal mudança o estabelecimento de 65 anos como idade mínima única para a aposentadoria e a reforma trabalhista, que envolve empregos temporários e direitos do trabalho.

Para o economista e doutor em Desenvolvimento Econômico, Uallace Moreira, as reformas devem ser oportunidades de se promover um crescimento que inclua a população. “O país pode ter crescimento, mas se não for inclusivo, não há desenvolvimento. Dessa forma, as reformas: tributária, agrária, política e institucional são fundamentais para se pensar em um crescimento inclusivo”, defende.

Segundo Caffé, as reformas devem acontecer, mas não da maneira como estão sendo instituídas pelo governo. “A situação realmente não está adequada, mas as formas de transformação propostas estão aliadas à ausência de um debate mais amplo, mais sincero e franco e ao próprio desinteresse da sociedade. As nossas soluções não têm, neste momento, uma legitimidade grande e não estão sendo levadas por um projeto maior”, critica.

Entretanto, para o técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea, Marco Aurélio Mendonça, as mudanças surtirão efeito na economia do país. “Uma vez que a reforma [da Previdência] seja aprovada, as prioridades, provavelmente, serão as discussões acerca de alternativas para aperfeiçoamentos microeconômicos da economia nacional que incluem uma reforma trabalhista, a fim de flexibilizar o mercado de trabalho e promover o crescimento econômico”, afirma na Carta de Conjuntura do Ipea, número 33.

Mercado de trabalho – Segundo o boletim “Mercado de Trabalho” divulgado pelo Ipea, em outubro do ano passado, no primeiro semestre de 2016, a taxa de desemprego apresentou um valor médio de 11,1%, ficando 3 pontos percentuais (p.p.) acima do verificado para o primeiro semestre de 2015, quando registrou 8,1%.

Diante dos dados e das reformas atuais, Moreira atesta que o cenário do mercado de trabalho brasileiro é desfavorável. “Os trabalhadores podem esperar um momento de grande retrocesso, do ponto de vista de direitos trabalhistas e de direitos previdenciários. A não ser que esse cenário mude com novas propostas ou com a atuação da própria sociedade civil”, alerta.
Entretanto, para Caffé, é possível manter um certo otimismo em relação à reestruturação do país. “A sociedade brasileira sempre foi criativa, sempre encontrou arranjos para se expandir e combinar avanços em muitos campos. Essa sociedade que consegue se refazer é o grande valor do Brasil. A juventude possui também um papel muito importante nessa realidade, os jovens precisam se sentir mobilizados a construir e dar o melhor de si”, conclui.


*Estudante do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação e repórter da Agência de Notícias em CT&I – Ciência e Cultura UFBA

Mídias locativas e arte urbana no semiárido




Gerar concepções que fomentem os espaços educativos e examinar o papel de dinâmicas não humanas, por meio das mídias locativas, foi o tema da dissertação "Cartografia Urbanográfica no Sertão do São Francisco: uma proposta infocomunicacional a favor da articulação de novos espaços de arte e educação" do professor Cecílio Ricardo de Carvalho Bastos, defendida na segunda-feira (13/02) no Programa de Pós-Graduação Mestrado em Educação, Cultura e Territórios Semiáridos (PPGESA), da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), campus Juazeiro-Bahia.

O professor do curso de Jornalismo em Multimeios utilizou a metodologia da Teoria Ator-rede para analisar as mídias locativas e a interface da geolocalização. O resultado da pesquisa foi a criação de um mapeamento da urbanografia do Sertão do São Francisco. Narrativas orais e visuais concebidas foram realizadas, visando potencializar os fluxos do conhecimento em espaços livres.

A partir das particularidades culturais existentes, a pesquisa produziu um estudo sobre a arte urbana, averiguando parte do alcance das associações dos contextos criativos, das experimentações e criticidades, inclusive as que se referiram aos comportamentos transgressivos nas cidades.

A dissertação "Cartografia Urbanográfica no Sertão do São Francisco: uma proposta infocomunicacional a favor da articulação de novos espaços de arte e educação" foi orientada pelo professor Luiz Adolfo de Paiva Andrade.

Por Andressa Silva, da Agência MultiCiência 


Bahia: Trajetórias e enfrentamentos das pessoas com anemia falciforme


30% dos casos de anemia falciforme diagnosticados no Brasil estão na Bahia. Salvador é a cidade brasileira com o maior número de pessoas com a patologia. Como as políticas públicas e as pesquisas científicas têm contemplado a doença?



POR LARISSA SILVA*
silva.larissa1@outlook.com
Agência de Notícias em CT&I – Ciência e Cultura UFBA


“A médica me deu sete anos de vida. Depois disse que eu não passaria dos 14. Por fim, falou que eu viveria até os 21”. Estas foram as estimativas de vida que André Gomes, 32, recebeu da médica que o atendia, após ser diagnosticado com anemia falciforme. Essa doença hereditária ocorre quando a hemoglobina, proteína presente nas hemácias (glóbulos vermelhos) e responsável pelo transporte de oxigênio nas células, sofre mutação. Esta mudança gera dificuldade de oxigenação do sangue, o que faz com que as hemácias percam flexibilidade e adquiram formato de foice. Com essas células mais rígidas, a circulação sanguínea se torna difícil e as chances de oclusão celular e de obstrução dos vasos aumentam.

Os sintomas mais frequentes são cor amarelada nos olhos e pele (icterícia), graves crises de dor, tendência a infecções e ao aparecimento de úlceras (feridas), sobretudo nas pernas. É importante ressaltar que esses sinais podem se manifestar de maneira diferente em cada indivíduo.

Apesar de ser uma enfermidade crônica, ela não precisa ser associada à morte da forma que André ouviu da sua médica, porque pode ser cuidada. Segundo Clarice Mota, mestre em Saúde Coletiva e doutora em Ciências Sociais, o comportamento dos especialistas em saúde nos casos como o de André é causado, em parte, pela deficiência na formação desses profissionais. “Os currículos acadêmicos não contemplam estudos sobre a doença falciforme”, completa. Além disso, também atribui esse mau atendimento ao racismo institucional, já que essa patologia é predominante em negros.

Políticas públicas - A doença, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um grave problema de saúde pública mundial, pode ser atenuada com diagnóstico precoce e tratamento adequado. Um dos cuidados necessários é o uso contínuo de Hidroxiureia, remédio fornecido pela Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab). A medicação atualmente é importada, mas, até 2018, a demanda do Sistema Único de Saúde (SUS) deverá começar a ser atendida pela produção local. O medicamento será produzido na cidade de Vitória da Conquista, através de uma parceria entre os laboratórios Bahiafarma e Cristália.

Segundo levantamento do Ministério da Saúde, a cada 650 nascidos vivos na Bahia, um possui anemia falciforme e, a cada 17, um nasce com o traço falciforme. Os números são os mais elevados do Brasil, onde a incidência é mais concentrada nas regiões Norte e Nordeste. As pessoas que têm o traço falciforme não apresentam os sintomas de quem possui a enfermidade, mas é importante que elas tenham consciência de sua condição genética para que possam decidir sobre seu futuro reprodutivo.


A identificação da anemia falciforme é feita em recém-nascidos com até uma semana de vida através do teste do pezinho. Após esse prazo, o diagnóstico é dado pelo exame chamado eletroforese de hemoglobina. Ambos são realizados nos postos de saúde e, desde 2009, a patologia é de notificação obrigatória em Salvador.

Essas ações de distribuição de medicamentos básicos e diagnóstico são asseguradas pela Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doença Falciforme, desenvolvida em 2005 - quase cem anos depois do primeiro diagnóstico - e implementada em Salvador através do Programa de Atenção às Pessoas com Doença Falciforme (PAPDF). O principal objetivo do programa é reduzir a mortalidade, melhorando a qualidade de vida das pessoas com a enfermidade. Para isso, também preconiza a assistência médica integral e orientação aos familiares. A capital baiana possui 12 centros de referência e 2 ambulatórios para tratamento da doença.


Apesar desses avanços, ainda há muito a ser feito. Segundo a especialista em Saúde Coletiva Clarice Mota, como a detecção de anemia falciforme através do teste do pezinho só foi implantada na Bahia em 2001, pessoas que nasceram antes dessa data não foram examinadas e podem não estar inseridas nas redes de cuidado. E a assistência integral à saúde é fundamental para garantir a redução de crises e sequelas, aumentar a expectativa e a qualidade de vida. O Ministério da Saúde considera que atenção integral é o conjunto de ações de promoção, proteção, assistência e recuperação da saúde.

Clarice afirma que para a saúde da população negra entrar na agenda política foi necessária muita pressão dos movimentos sociais. “Se hoje ainda precisamos falar de racismo, estamos atrasados”, critica. Um dos indicadores do racismo ao lidar com essa enfermidade além do tratamento inadequado oferecido nos centros de saúde é a invisibilidade dela no meio acadêmico. 

Pesquisas - Apesar de ainda não serem muitas, existem pesquisas científicas que têm o enfoque na anemia falciforme. Um exemplo disso é o estudo coordenado pelo professor e ortopedista Gildásio Daltro, em parceria com a Universidade de Paris XII, com o desenvolvimento de um tratamento alternativo para pacientes que possuem uma complicação da doença, a necrose nos ossos. O método consiste na aplicação de uma espécie de massa feita a partir de fosfato de cálcio, substância compatível com os ossos naturais, e células-tronco do próprio paciente. O procedimento é menos invasivo do que a colocação de prótese no local afetado, e também o indicado com mais frequência no Brasil. Os testes feitos até hoje obtiveram 93% de sucesso, conforme apontam os exames clínicos.

Outro estudo analisou o impacto da anemia falciforme nas trajetórias escolares de estudantes baianos afetados pela doença. Na pesquisa realizada pela pedagoga Alessandra Barros, quase 90% dos entrevistados, 15 crianças e adolescentes em idade escolar, afirmaram que têm faltado às aulas graças às dores causadas pela enfermidade. Com a análise, ela concluiu que há a necessidade de um projeto político-pedagógico mais inclusivo nos colégios e de mais programas de escolarização para pessoas hospitalizadas.

O recorte de gênero aparece em alguns trabalhos. Um exemplo é o da pesquisadora e doutora em enfermagem, Sílvia Ferreira. Na obra “Qualidade de vida e cuidados às pessoas com doença falciforme”, coordenada por ela, é feita uma análise das experiências das mulheres com a doença e as implicações do diagnóstico tardio para elas. Para a autora, as condições de mulheres e homens na área da saúde são desiguais. 

Nesse sentido, Clarice Mota afirma que o direito reprodutivo das mulheres com a doença deve ser garantido. Ela denuncia que muitas escutam de profissionais que elas não podem ter filhos e aponta que esses casos podem ser de racismo institucional. “Estamos em um processo de tomada de consciência que só vai realmente acontecer se ficarmos ligados nessas sutilezas”, conclui. A saída apontada por ela é não se omitir nessas situações, denunciando e intervindo sempre que necessário.  

*Estudante do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA e repórter da Agência de Notícias em CT&I – Ciência e Cultura UFBA

Mais sobre o tema:

MOTA, Clarice; TRAD, Leny; et al. Os desafios do cuidado integral à doença falciforme sob os diversos olhares: o olhar da gestão, o olhar das famílias e usuários e o olhar do serviço e seus profissionais. In: Cronicidade: Experiência de adoecimento e cuidado sob a ótica das Ciências Sociais. Ceará: UECE, 2015. Disponível em:
https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/18432/1/LIVRO.%20CRONICIDADE%20-%20EXPERIENCIA%20DE%20%20ADOECIMENTO%20E%20CUIDADO%20SOB%20A%20OTICA%20DAS%20CIENCIAS%20SOCIAIS.pdf. 

ALVES, Ana Margareth; et al. Doença Falciforme: Conhecer para cuidar. Ministério da Saúde, 2015. Disponível em: <http://telelab.aids.gov.br/moodle/pluginfile.php/39506/mod_resource/content/3/Doenca%20Falciforme.pdf>. 
Brasil.Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada. Manual da anemia falciforme para a população / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Especializada. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2007.
Disponível em: 
<http://www.saude.sp.gov.br/resources/ses/perfil/cidadao/orientacao/manual_da_anemia_falciforme_para_a_populacao.pdf>.

BARROS, Alessandra; et al. O impacto da anemia falciforme nas trajetórias escolares de estudantes brasileiros afetados pela doença: diálogos com os temas da Educação Especial.
Disponível em: <https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/8849/1/EDUCARE%20lecture%20-%20Alessandra%20Barros.pdf>. 

PESQUISA de Ortopedia aplica células tronco no tratamento para pacientes com Anemia Falciforme
Disponível em: <http://www.complexohupes.ufba.br/noticias/pesquisa-de-ortopedia-aplica-celulas-tronco-no-tratamento-para-pacientes-com-anemia-falciforme/>. Acesso em: 6 fev. 2017.