Seminário discute contribuição do Ginásio Ruy Barbosa


Desde os anos 1950, o Ginásio Ruy Barbosa exerce importância na região como uma das primeiras escolas de ensino técnico a formar vários profissionais da área administrativa e da contabilidade. A contribuição do colégio é o tema do seminário História da Educação e Pesquisa, que acontece neste sábado dia (16/06) a partir das 15h no Auditório Multimídia do Departamento de Ciências Humanas, da Universidade do Estado da Bahia.

Coordenado pelo professor José Roberto Gomes Rodrigues, o seminário visa debater e analisar aspectos históricos, sociais, culturais e políticos que condicionaram no processo de criação, instalação e desenvolvimento do Ginásio Ruy Barbosa para a compreensão e o significado dessa instituição escolar. Esta temática
foi desenvolvida na tese de doutorado apresentada ao programa de pós-graduação em educação da faculdade de educação da Universidade de São Paulo (USP).

Projeto discute as práticas socioambientais



Gestão do lixo e a preservação ambiental foram os temas abordados na roda de conversas sobre o meio ambiente que ocorreu neste terça-feira (5/6), na Universidade do Estado da Bahia. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Educação e Estatística (IBGE), em 2017, a destinação incorreta  do lixo e a desinformação sobre a coleta seletiva são fatores que contribuem para a degradação do meio ambiente.

Conscientizar a sociedade através de medidas socioeducativas tem sido o objetivo do projeto ECuSS - Estudo dos Modos Contemporâneos de Existência em Educação, Cultura, Sustentabilidade e Subjetividade -, desenvolvido pelo professor Josemar Martins (Pinzoh). O professor já tinha desenvolvido projeto do mestrado sobre as paisagens regionais e decidiu desenvolver novo projeto sobre educação, cultura e sustentabilidade.

Ano passado, ele coletou imagens intituladas como registros Primaveris Urbanos do Semiárido Urbano, que ajudaram a romper com os estereótipos de que no sertão não há primavera. Um outro problema ambiental tem sido a poda de árvores e a o planejamento urbano relacionado à arborização. Na cidade baiana de Chororó, é comum encontrar ruas com o plantio de árvores exóticas e que não são nativas. Para o professor, as comunidades devem aprender a reconhecer a beleza de ter ruas arborizadas, e não compreender como empecilhos. “A sociedade veem as flores no chão como sujeiras, empecilhos, sendo que são as árvores que nos fornecem sombra”, defendeu Pinzoh. A gestão dos gestão dos resíduos sólidos também deve ser priorizada no planejamento urbano. A França adotou a solução de ter contêineres para cada tipo de lixo, e cada morador tem o dever de separar o lixo. Para o professor, não há como discutir sustentabilidade sem refletir a respeito de práticas culturais. 

A professora Luzineide Dourado Carvalho, que coordena o projeto Conviverde: Processo participativo de ações contextualizadas para a convivência com o semiárido urbano, fala da importância de construir redes ambientais que possam conscientizar a todos sobre a percepção do que é ecologia. “Desenvolvemos também uma maquete virtual que permite fazer uma análise ambiental sobre as condições semiáridas urbanas”.

A organização do espaço urbano, mobilidade, microclima em condições semiáridas e enquetes estão sendo discutidos nas escolas para conscientizar a população sobre os impactos ambientais. O professor Clóvis Nascimento acredita que as ações como estas devem acontecer para evitar a poluição, degradação e desmatamento. Para o professor, a gestão ambiental deve ser discutida em sala de aula nos aspectos culturais, ambientais e econômico.

Professores e estudantes têm procurado identificar e contemplar ações metodológicas como os estudos de caso com a abordagem qualitativa, visando desenvolver conhecimentos e promover uma visão crítica para sensibilizar para a prática ambiental Os estudantes desenvolveram um diagnóstico para identificar as demandas como a necessidade de acompanhamento do consumo da água com anotações leituras mensais e estimular o plantio de árvores da mata ciliar. 




“As antinomias do Direito”: uma proposta de jurisdição para a descentralização do poder


Para quem não conhece o significado de política e de direito, é comum associar suas definições e confiança somente a quem compõe os cargos dos sistemas Executivo (presidente, governadores, ministros, prefeitos), Legislativo (Câmara dos deputados e Senado Federal) e Judiciário (Supremos Tribunais).

Mas, a política – que se subdivide em políticas (de segurança, educação, saúde, etc.) – e se torna possível através de direitos – benefícios garantidos às pessoas através de leis da Constituição Federal –, deve ser construída pelo povo. E é dever de todas as pessoas, conhecer, debater e agir, ao invés de deixar que os governantes controlem o Estado.

Diante disso, e de todo o cenário político nacional atual, se faz cada vez mais necessário entender o conceito de direito enquanto ciência política, social e filosófica. Assim, será possível entender como funcionam os julgamentos e condenações do Supremo Tribunal Federal – STF, por exemplo, sem se deixar manipular pelos discursos que a grande mídia impõe.

É o que propõe Luís Eduardo Gomes do Nascimento, professor do curso de Direito do Departamento de Ciências Sociais (DTCS), da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Campus III, em seu livro: As Antinomias do Direito na Modernidade Periférica. Segundo ele, existem conflitos de interpretação das leis, já que elas não abrangem as minorias sociais.


Para entender como a obra foi idealizada, os temas centrais, as relações abordadas e o sentido do direito no Brasil a partir da escrita de Luiz Eduardo, confira a entrevista.


MultiCiência: Em que consiste a modernidade periférica?

Luís Eduardo: A modernidade periférica é um termo que trata do fato da centralidade do pensamento europeu, considerado predominante e que não dá lugar de fala às minorias, como a América Latina. A Europa só se consolidou como centro do mundo depois que a América foi descoberta e subjugada como periferia, desde então, vivemos sob um pensamento colonizador em que padrões e teorias não abarcam o Brasil. O que proponho é pensar o direito feito pelo e para o povo num processo de descolonização.

MultiCiência: Como o livro foi planejado e a partir de quais concepções os temas foram escolhidos?
Luís Eduardo: Existe, por trás de todos esses temas, um eixo comum que é a ideia de antinomia, cuja obra se restringe a da antinomia do direito. Antinomia do direito está relacionada ao conflito entre duas normas válidas que transcrevem comportamentos diferentes. Para essa definição, usei o conceito de Fredric Jameson, que diz que a antinomia é o sintoma de uma contradição. Então, em cada texto do primeiro capítulo, há sintomas de contrações, como o conflito entre a faculdade de filosofia e a faculdade de direito. Mais adiante, descrevo as contradições entre o uso público da razão e a apropriação privada da linguagem. Outro exemplo é baseado no conceito de Ferrajoli, que fala das antinomias entre os direitos do homem, enquanto ser individual, e do cidadão, enquanto ser coletivo. Já de acordo com Marx, há uma contradição, no plano material; é a busca por atender seus próprios fins enquanto indivíduo, e como cidadão, buscar agir de forma mais altruísta.  Então, apesar das diversidades, há antinomias em vários aspectos.

MultiCiência: Nas primeira e segunda partes o senhor aborda o conceito de Hermenêutica (Filosófica e Jurídica Analógica). Qual o significado desse termo?  
Luís Eduardo: A hermenêutica é a arte da interpretação. No livro, trato de um problema de uma apropriação privada da linguagem. Que é baseada na filosofia alemã que traz o conceito, não no sentido metafísico, mas sim, da representação. A representação é individual, então, quando um juiz toma suas conclusões, ele está se apropriando privadamente da linguagem. E, essa posse gera justamente essas distorções, porque é a interpretação da lei em detrimento de determinados setores mais marginalizados.

MultiCiência: E do que trata a Hermenêutica analógica?
Luís Eduardo: Essa é uma construção nova, que não é notada no Brasil. Inclusive, fico contente por ela ser estudada aqui na UNEB.
Ela inicia com Paul Ricœur, que refaz a ideia de Aristóteles em que o ser diz de várias maneiras, defendendo, assim, a plurivocidade. Assim, ele remete ao conceito de analogia, cuja interpretação é correta dentro desse campo, pois é criado um novo texto ao invés de se adequar a moldura do texto. Portanto, não se trata apenas de uma voz, nesse caso, a do Estado, no conceito de univocidade e nem voz nenhuma, excluindo, assim o Estado, na equivocidade. Esse termo não quer dizer que haja uma só resposta e nem que qualquer resposta possa ser abarcada pelo texto. A analogia no direito é vista como expansão de significado, só que nesse caso, ela é colocada num processo de interpretação, na medida em que estabelecemos qual o campo de ação possível, sendo, assim, uma forma de controle racional das decisões judiciais.

MultiCiência: Qual a relação entre a linguagem e o direito?
Luís Eduardo: Habermas, por exemplo, tem uma visão sobre a “intersubjetividade”, em que dois sujeitos isolados se encontram por meio dela própria. Essa mesma visão, Marx chamava de “robinsonada”, que é quando a pessoa tem uma situação muito complexa, por exemplo, economia, política e até ideologia, e isso pode se reduzir a dois indivíduos isolados. Na verdade, o indivíduo já é comunitário e a linguagem tem esse mesmo caráter, inclusive em sua apropriação como bem comum.

MultiCiência: E, qual a associação entre as faculdade de filosofia e faculdade de direito?
Luís Eduardo: O direito e a filosofia vivem em um confronto ativo, porque uma instância transmite aos órgãos soberanos e outra vive a questionar se essa instância é ou não favorável à razão comum.
Em meu livro, essa definição é baseada em um dos últimos textos de Kant. Ele percebeu que possivelmente haverá um conflito entre a faculdade de direito e a faculdade filosofia, porque o direito estuda as regras, que são anunciadas por uma autoridade, e um jurista não vai buscar a gênese dessas normas, ele simplesmente as acata. O que se questiona é se essas normas são justas, compatíveis com a razão comum e o papel da filosofia é fazer esse controle, exercer o uso da razão e lutar contra o poder estabelecido.

MultiCiência: Esse poder estabelecido seria outorgado pela própria legislatura?
Luís Eduardo: Isso é um grande problema, por que essa questão me remete ao limo do poder. Porque aceitamos os órgãos que exercem o poder? Isso é um processo muito complexo. Como um poder se impõe a ponto de ele se colocar como instância soberana e começar a estabelecer normas? Então, até nisso a filosofia pode questionar as instâncias do poder.

MultiCiência: Qual o papel da filosofia e quais as relações entre a Psicanálise e as leis?
Luís Eduardo: Kant coloca a filosofia como exterior ao Estado. Porque na verdade são três faculdades que o governo determina seus cânones: direito, medicina e teologia; já a filosofia, é superior. Sobre Psicanálise e as leis, cito Lacan especificamente, que associa as leis ao superego, instância que determina comandos que o indivíduo não consegue simbolizar e acaba traumatizando a ele mesmo, e, consequentemente deteriorando-o e alarmando a sociedade. Porque não é só o crime que cria alarme social. Quando leis sancionadoras em relação à norma são criadas, acaba gerando o temor.  

MultiCiência: Outras relações que o senhor estabelece são entre a Semiótica e o direito. Como elas interagem?
Luís Eduardo: Como um texto estrutura a própria leitura dele mesmo? Essa é uma pergunta complexa, mas muito importante que eu trago no capítulo “Hermenêutica jurídica analógica” e o sentido literal possível. Essa ideia pode ser respondida a partir da ideia de interpretante, da semiótica, e da ideia de valor. Então, aprofundei algumas noções, como a de valor, que é dada por Saussure e que é fundamental para definir qual é o campo de ação e qual o sentido possível das palavras. A ideia de valor já remete à de estrutura. E, o direito, sendo linguagem, tem total relação com a semiótica. A linguagem do direito tem que expressar o que está dizendo. Pode ser ela a jurista, do legislador, mas também tem que ser a linguagem do povo, porque é uma linguagem comunitária, portanto guarda sentidos que têm que ser comuns.
                                                                           
MultiCiência: “Em nome da lei, quem se vinga”? O que leitores podem esperar desse capítulo?
Luís Eduardo: A lei sempre esteve associada ao sentido de razão. Aristóteles dizia que a lei é a razão e não a paixão. Essa é uma visão cômoda, porque a lei pode ser usada como instrumento de vingança. A própria psicanálise diz que a lei pode ser utilizada para perseguir pessoas. A norma não surge em um mundo atemporal, mas na sociedade dentro de um contexto de lutas de classe, e, foi feita para segregar mulheres, negros e minorias que estavam se organizando em busca de direitos. Então é importante analisar a mensagem e o seu contexto até porque a mensagem da lei só pode ser entendida através dele.

MultiCiência: Qual a relação entre o Direito, as relações de poder e a manutenção do status Quo?
Luís Eduardo: Se fizermos a genealogia, o papel do jurista é de legitimar o poder. A história conta, mas, no livro, trago a ideia de Muller, cujo lugar do jurista não é ao lado do poder, mas estar ao lado do povo. E, as constituições modernas, de alguma forma, incorporaram o ideário originado das classes mais subalternas, mas eles são negados, o que não quer dizer que o direito não seja também um lugar de confronto.


Para o professor, adepto da oratória, escrever é uma tragédia. Mas, durante o ano passado, em função da importância de alcançar outros públicos, se entregou à escrita de um conteúdo que reflete 20 anos de pesquisa. De acordo com ele, a teoria precisa ser capaz de enxergar a realidade local, e de todas as pessoas, não apenas da minoria privilegiada para quem as leis são escritas.

O livro, já disponível online, será lançado na versão física no dia 13 de abril, às 19h, no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em Juazeiro. Reúne temas que relacionam psicanálise e semiótica, por exemplo, com uma abordagem marxista característica do autor, propondo aos juristas, estudantes de direito e população geral, que o direito não é privilégio de um grupo, e sim, para todas as pessoas.

Texto: Mônica Santos
Edição: Andressa Silva
Fotografia: Ilana Santos

Antidepressivos não são única solução

Especialistas não priorizam medicamentos convencionais para tratar depressão e apresentam novos métodos

Segundo relatório divulgado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em fevereiro do ano passado, mais de 320 milhões de pessoas sofreram com a depressão, quase 5% da população mundial. No Brasil, já são 17 milhões. Diante do expressivo número, uma recorrente solução usada pelos profissionais de saúde é tratar os pacientes com antidepressivos. Porém, nem sempre eles são tão eficazes quanto parecem - varia de acordo com a pessoa - e já existem outros métodos de tratamento que também podem auxiliar o sujeito no quadro depressivo.


O que é - “A depressão, ao meu ver, é quando se enxerga tudo tão cinzento que se perde o prazer até pelas coisas que mais gostava. Nos tornamos pessimistas”, relata Lily Menezes, que sofre de depressão desde a adolescência. A estudante já fez terapia e hoje faz uso de antidepressivos. Apesar de ter ajudado, Lily confessa que ainda apresenta recaídas e oscilações de humor. “A saída é focar num objetivo quando as ideias ruins aparecem. Isso me dá um norte” desabafa.

A fim de tentar entender a doença, a psicóloga e psicanalista Antônia Vieira diz que é preciso estudar a relação de quem está sofrendo com o objeto, ou seja, o que ocasionou a situação de melancolia. “Na depressão, com a perda do objeto, o que o sujeito deseja se torna insatisfeito ou impossível. Quando preso a esse impossível, ele se deprime e esmorece”, esclarece Antônia.

Já a psicóloga Ana Bárbara Neves prefere não usar o termo depressão ou transtorno depressivo, e sim sofrimento. “Depressão é um termo que usamos para falar entre nós. Não busco classificações. Tento ouvir e respeitar a individualidade de cada um”, explica Ana. Em seus atendimentos clínicos, admite que há uma causa comum dentre seus pacientes: a dificuldade de estar e sentir o presente, como se recusassem a viver a realidade.

A causa - O médico endocrinologista e psicanalista clínico, Ricardo Sinay, aponta que a causa da depressão também está ligada a carga genética da pessoa. Na depressão, o indivíduo consegue mudar sua estrutura genética, seja por um fator interno ou pelo próprio ambiente em que vive. A ciência que estuda a capacidade do fatores externos alterarem a expressão dos genes chama-se epigenética.

“A pessoa transforma a estrutura genética e o funcionamento dos hormônios do cérebro. A mudança também pode ser feita pelo ambiente, quando, após um trauma, você modifica sua estrutura cerebral”, explica Sinay. Diante disso, o ambiente social, a cultura em que se está inserido e a história familiar tem muita importância no acarretamento de um quadro depressivo, pois o estilo de vida pode mudar, em termos genéticos, o ser humano.



Patologização do sofrimento - Para a socióloga especialista em psicanálise, Soleni Fressato, algumas pessoas são erroneamente diagnosticadas, havendo um exagero do que seria somente um momento de tristeza ou luto. “Existe um grande número de pessoas que não estão depressivas, e sim tristes ou em processo de luto, mas são diagnosticadas como tais para que a indústria farmacêutica continue vendendo antidepressivos”, denuncia. Fressato faz parte do grupo de pesquisa “crise da modernidade: objetividade e subjetividade dos processos sociais” do programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

A psicóloga Ana Bárbara Neves confirma a tendência do uso de medicamentos para lidar com o sofrimento. Nos Estados Unidos, onde fez seu mestrado em Análise do Comportamento pela University of North Texas (UNT - EUA), ela observa que era uma prática muito comum e está cada vez mais frequente no Brasil. “Há uma pressa e uma imposição para negar o sofrimento e estar sempre bem”, explica.

De acordo com um levantamento feito pela empresa americana IMS Health, a venda de antidepressivos e estabilizadores de humor cresceu 18,2% no Brasil em 2016, gerando uma movimentação de 3,4 bilhões de reais. Porém, é importante lembrar que o aumento da venda destes medicamentos não significa aumento da ocorrência da doença, e sim de seu diagnóstico.

O problema não é prescrever antidepressivos para os pacientes, e sim apresentá-los como única forma de tratamento. Para Fressato, o acompanhamento profissional é em alguns casos mais eficiente do que o uso de substâncias. “Não há o conforto pela fala, que é a base do trabalho psicoterapêutico. Por isso, os sujeitos acabam sendo direcionados para o tratamento farmacológico, que surge como a única forma de enfrentar a dor”, explica.


Tratamentos alternativos - Existem diferentes tipos de depressão, a depender da causa, duração e dos sintomas. Portanto, a psicanalista e especialista em Saúde Mental, Antônia Vieira, afirma que não se pode pensar a doença de modo generalista. “São mais de dez classificações para a depressão na literatura. Não existe um padrão, cada um elege sua causa. Por isso, os sujeitos precisam ser pensados em suas singularidades e escutados em seu sofrimento”, relata Antônia.

É nessa lógica de tratamento especializado que trabalha a psicóloga Ana Neves, que exerce a profissão desde 2004. Segundo ela, não existe uma receita para todos os pacientes. “As pessoas são diferentes e as ferramentas utilizadas com uma não necessariamente funcionam com outra”, explica.

Em sua experiência clínica, Ana Bárbara admite que a utilização de medicamentos pode sim ser benéfica, porém, quando aliada a outras práticas, a exemplo, o uso de esportes, respiração, massagens, acupuntura, meditação, yoga, dança e outros. A escolha do tratamento é feita pelo próprio paciente. “Meu trabalho é pensar junto, nunca escolher por ele. Avalio junto os efeitos colaterais da utilização de cada uma dessas ferramentas, considerando as consequências a curto e longo prazo”, afirma.

POR MARCELA VILAR*
Estudante de jornalismo da Facudade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia  - UFBA e repórter na Agência de Notícias em CT&I – Ciência e Cultura
Cedido por Agência de Notícias em CT&I – Ciência e Cultura UFBA

Por uma memória verde no Semiárido Brasileiro

Diante dos desafios que envolvem o desenvolvimento urbano e a preservação ambiental, é necessário construir cenários de discussão sobre esta temática, unindo várias áreas de conhecimento em prol de uma educação contextualizada. Com este objetivo, a Universidade do Estado da Bahia (UNEB) Campus III, em Juazeiro, realizou o Seminário Regional Verde Urbano no Semiárido Brasileiro, nos dias 23 e 24 de outubro.
Foto: Beatriz Braga
A programação começou com uma expedição ao Riacho do Mulungu e com a discussão sobre a importância das lagoas e do microclima que elas proporcionam no Semiárido. Já no período da tarde, houve a mesa de abertura “Convivência e Cidade: Um olhar a partir da Universidade”, que contou com a presença do professor do Colegiado de Pedagogia da UNEB Paulo Soares e com o coordenador do Programa Escola Verde, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), Paulo Ramos, sob a mediação da coordenadora do Projeto Conviverde e organizadora do evento, professora Luzineide Dourado.

O professor Paulo Soares destacou ações práticas que a Comissão de Cultura e Meio Ambiente da UNEB vem adotando no intuito de trazer para a universidade práticas sustentáveis. Exemplo delas foi a entrega de garrafas de água aos estudantes e professores, para que não usassem mais copos descartáveis;  a exibição de filmes educativos e a discussão sobre este tipo de produção audiovisual; como a mídia vem tratando o semiárido quanto às questões ambientais, além do curso prático de arborização que ainda deve ser implementado.
Foto: Ilana Yngrid Santos

De acordo com Soares, o programa de verde urbano e desenvolvimento sustentável é  importante por contribuir para o conhecimento das especificidades do território. “Quinze por cento do território brasileiro é semiárido e, mesmo que se pense bastante em práticas contextualizadas para o meio rural, a maior parte do Semiárido é urbano. Por isso, precisamos pensar em rede para promovermos cada vez mais ações interdisciplinares para a saúde ambiental”, afirma o professor.

Paulo Ramos trouxe o histórico das ações humanas que acabam interferindo no meio ambiente. Segundo ele, a crise ambiental está arraigada à civilização humana e o homem sempre esteve em conflito com a natureza. E, ainda, que o desafio não é manter o meio ambiente em sua forma natural, mas utilizar seus recursos de forma consciente e sustentável, e é aí que entra o papel da universidade.

“Vivemos em uma espécie de harmonia instável com o meio ambiente e o papel da universidade enquanto espaço de vanguarda é liderar a mudança e romper com o modelo de isolamento da comunidade, utilizando os pilares da educação superior, que é o ensino, a pesquisa e a extensão, para assim, mobilizar a comunidade e desenvolver junto a ela a temática ambiental”, afirma Ramos.


Foto: Ilana Yngrid Santos
A primeira edição do Seminário Regional Verde Urbano no Semiárido Brasileiro é uma organização do Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Educação Contextualizada com o Semiárido Brasileiro (NEPEC-SAB) e do projeto de extensão Conviverde, que têm como objetivo contribuir para o conhecimento das especificidades do território e da territorialidade que podem se encontrar no Semiárido.

Para Luzineide Dourado, organizadora do evento e coordenadora dos projetos, é necessário tratar destes temas, que são pouco pautados na mídia, mas que têm  relevância às comunidades.
Foto: Ilana Yngrid Santos
 “Existem grandes cidades no Semiárido, como Petrolina e Juazeiro, mas é mostrado apenas o lado rural da fruticultura irrigada, por exemplo. Queremos, com o seminário, discutir as memórias que ficam dessas cidades que, com o desenvolvimento econômico e  a migração tem passado por grandes transformações espaciais e populacionais,  a fim de se apresentar o que está sendo produzido”, afirma Luzineide.

Por Mônica Santos
Agência Multiciência

Pesquisa revela situação das lagoas de Juazeiro


O dia vai escurecendo e a Lagoa de Calu recebe a companhia de várias pessoas. Crianças se divertem nos parquinhos, jovens praticam modalidades esportivas nas quadras disponíveis e adultos de todas as idades se exercitam diariamente. Muitos juazeirenses utilizam o entorno da lagoa como espaço de diversão, mas poucas são capazes de perceber a importância da preservação desses locais no ecossistema do semiárido.

Os equipamentos urbanos de lazer de Juazeiro trazem benefícios para a qualidade de vida da população, mas as condições ambientais das lagoas da cidade têm sido motivo de preocupação para especialistas da área. O projeto de extensão Conviverde, do Campus III da Universidade do Estado da Bahia, em parceria com a  pesquisadora do IBGE do Rio de Janeiro, Rosângela Botelho, elaborou um diagnóstico que avalia situação da lagoa do Calu, lagoa Dom José Rodrigues e lagoa Antônio Guilhermino.



O diagnóstico foi realizado com a aplicação de um Protocolo de Avaliação Rápida (PAR), que analisa parâmetros qualitativos e quantitativos para definir o resultado final, classificados por pontos. No  protocolo de avaliação ambiental para açudes urbanos, são observados fatores como as alterações causadas pela ação humana, vegetação dentro e ao redor do leito, cor e odor da água.

De acordo com a pesquisa, entre as lagoas analisadas, a do Calu foi a que apresentou menor incidência dos impactos ambientais, alcançando média de 2,96 pontos numa escala que vai de 0 a 5. Já as lagoas Dom José Rodrigues e Antônio Guilhermino alcançaram uma média de 1,7 e 1,3 pontos, respectivamente.

Esgoto despejado sem tratamento na lagoa Antônio Guilhermino. Foto: Conviverde

A análise apontou que a lagoa de Calu possui condição entre regular e boa, na visão dos estudantes, técnicos e professores que participaram da avaliação. Apesar de estar inserido num ambiente urbano, o local é, segundo o estudo, protegido pelo projeto paisagístico que preserva as margens e colabora com a preservação do ambiente. Já as outras duas lagoas, que estão localizadas em áreas afastadas do centro de Juazeiro e que mesclam características rurais e urbanas, encontram-se deterioradas, com esgotos despejados sem tratamento e sem nenhum projeto de regeneração. Para a pesquisadora Rosângela Botelho, esses impactos ambientais podem resultar em danos à saúde da população, já que essas lagoas acabam concentrando uma grande quantidade de vetores transmissores de doenças, como mosquitos e ratos.


Análise na lagoa do Calu (esq.), lagoa Dom José Rodrigues (centro) e lagoa Antônio Guilhermino (dir.). Fotos: Conviverde

Por estarem localizadas em propriedades particulares, as lagoas Dom José Rodrigues e Antônio Guilhermino se transformaramo em espaços de uso restrito a uma parcela pequena de pessoas. O estudo apontou ainda que essas lagoas são negligenciadas por conta da falta de preservação e que, caso seja realizado um projeto de recuperação, podem ser transformadas em áreas verdes, destinadas ao lazer, trazendo melhorias para qualidade ambiental e para a vida da população.

De acordo com a pesquisadora Rosângela Botelho, a Lagoa do Calu tem um potencial de melhora. "Com aperfeiçoamento do paisagismo já existente e fazendo tratamento para deixar a tonalidade da água mais clara, é possível  fazer um criatório de peixes, por exemplo. Isso seria interessante principalmente para as crianças", comenta. Sobre as outras duas lagoas, Rosângela ressalta a necessidade da construção de barreiras ao redor  que  protejam do escoamento das chuvas e do esgoto que sai das casas.

O resultado da pesquisa, os métodos de análise e as observações feitas durante o diagnóstico serão apresentados no Seminário Regional Verde Urbano no Semiárido Brasileiro, que será realizado nos dias 23 e 24 de outubro, no DCH III da Uneb. A programação do evento também conta com expedição no Riacho Mulungu, mesas redondas e bate-papos sobre a convivência com o cenário do semiárido.

Comunidade-lagoa

Luzineide Carvalho, coordenadora do projeto Conviverde e uma das responsáveis pela pesquisa, acredita que é preciso ações multidimensionais e intersetoriais para conseguir reverter a realidade das lagoas de Juazeiro. “A Universidade, sozinha, não vai resolver essas questões. Precisamos pensar em ações em rede, que envolvam diferentes instituições e diferentes atores sociais. A comunidade também deve ser envolvida e assumir essa relação de pertencimento”, ressalta.

Ainda segundo Luzineide, o assoreamento e a falta de drenagem podem fazer com que esses ambientes desapareçam em Juazeiro. “Seria uma perda irreparável. As lagoas são bens públicos e o acesso à água é fundamental para qualquer comunidade. Quando pensamos no contexto do semiárido, essa importância é maior ainda, pois são ambientes peculiares, onde encontramos espécies de plantas e animais específicos de outros biomas, já que microclimas são estabelecidos no entorno de uma lagoa”, comenta.

Mais do que espaço de lazer, as lagoas também trazem um equilíbrio para o ecossistema local. O crescimento populacional e econômico de Juazeiro nos últimos anos não tem sido acompanhado pela preservação desses espaços que são patrimônio cultural e histórico de qualquer população. Rosângela ressalta que a relação comunidade-lagoas precisa ser mais efetiva para que a preservação seja uma realidade. “É um bem da comunidade. A população se aproveita do ambiente da lagoa do Calu até pela questão visual, que é atrativa, mas ainda é uma relação superficial. É preciso uma conexão maior dos moradores com esses espaços”, pontua.

A prática de atividades físicas é comum no entorno da lagoa do Calu. (Foto: Giúllian Rodrigues)

Reportagem de Giullian Rodrigues e Maria Eduarda Abreu.
Edição: Giullian Rodrigues