A midiatização e as transformações das dinâmicas socioculturais


Os estudos de midiatização começaram com pesquisadores das Ciências Sociais analisando a influência da mídia na vida social. No contexto latino-americano, Jesús Martín-Barbero, García Canclini e Guilherme Orozco ampliaram as pesquisas a partir do conceito de mediações culturais e a relação da comunicação centralizada na cultura. No Brasil, pesquisadores como o professor da Universidade de São Paulo (USP), Eneus Trindade, se dedica a estudar a midiatização em um paralelo com mediações culturais com ênfase nos estudos sobre as relações de consumo.

Nessa entrevista a ComSertões, o professor analisa como as mídias estão presentes na vida cotidiana e como essa presença transforma as dinâmicas socioculturais. Ele discute também a tendência da publicidade em disseminar temas sociais com combate à opressão das minorias. Para Eneus, o consumo pode ser um lugar de inclusão, de tolerância e de respeito à diversidade na sociedade.

Com sólida formação acadêmica em Comunicação pela USP, Eneus é coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) e defende que as universidades públicas invistam na institucionalização da pesquisa, incentivando parceria entre centros de excelências e universidades de todo país. O professor participa do Programa de Pós-Graduação Interinstitucional em Comunicação (Dinter), parceria da USP e a Universidade do Estado da Bahia (UNEB), e tem visitado a região do Vale do São Francisco para socializar os seus estudos com doutorandos em comunicação, estudantes e professores de Jornalismo em Multimeios e Pedagogia, da Universidade do Estado da Bahia, campus Juazeiro.
Foto: Divulgação/NAC-Uneb


Professor, seus estudos estão relacionados ao tema midiatização e consumo. Como o conceito de midiatização tem sido analisado?
Eneus Trindade (ET): Estudo a midiatização em um paralelo com mediações culturais com destaque às mediações comunicacionais. A midiatização é o operador ou um mecanismo de difusão desses aspectos da cultura via comunicação. A partir disso, entende-se que o consumo é alterado pela midiatização de marcas, que funcionam com um elemento da mediação cultural para identidade do indivíduo. Por isso, a relação mediações culturais e midiatização, porque a marca operacionaliza uma dimensão de consumo comunicativo e, ao mesmo tempo, materializa uma série de mediações culturais e comunicacionais relacionadas à identidade do sujeito.

Quais mudanças surgiram nos estudos de midiatização da sua origem para os dias atuais?
ET: A midiatização é uma tendência fora do contexto brasileiro hegemonicamente, não que não exista no Brasil, existem pesquisadores brasileiros trabalhando esse conceito. A midiatização é um conceito contemporâneo das Ciências Sociais nos estudos de mídia que procuram estudar a influência da mídia na vida social e nas transformações sociais. Nos estudos de tradição latino-americana, existem as mediações culturais propostas por autores como Martin Barbero, García Canclini e Guilherme Orosco que trabalham perspectivas de entendimento da comunicação na centralidade da cultura. Essa mediação reflete uma série de mediações culturais e que explicam a constituição do indivíduo e o modo como as pessoas se apropriam das realidades. É interessante entender que a midiatização é um conceito amplo da presença da mídia na transformação social, mas as mediações culturais procuram explicar de forma mais detalhada esse conceito e a tradição latino-americana é mais adequada para nós.

O senhor tem realizado pesquisas relacionadas ao consumo e ao padrão alimentar. É possível comprovar mudanças de hábitos de consumo a partir da influencia da mídia?
ET: Quando estudamos essa questão dos alimentos e das práticas alimentares, queríamos identificar  em que medida as tendências se manifestavam como uma interferência na construção do sentido das marcas para o estabelecimento de vínculo, a partir de tendências como conveniência, facilidade, prazer, saúde, ética e sustentabilidade. Procuramos entender o que é que acontece com essas tendências e percebemos que elas se apropriam, às vezes combinando mais de uma delas.  Determina marca se apropria do discurso de saúde, mas a prática alimentar não é adequada, não é saudável. Fica só na prática discursiva da marca. Por outro lado, as pessoas querem ser sustentáveis e querem ser saudáveis, mas consomem produtos industrializados e produtos processados.

Além da questão do consumo, como o tema midiatização tem estimulado novos estudos científicos e pesquisas universitárias?
ET: Com uma perspectiva de valorizar o sujeito receptor e a sua relação de usos e consumos midiáticos, isso tem sido muito importante e fundamental no empreendimento da midiatização e no entendimento da comunicação como um processo sociocultural. Essa contribuição cria uma preocupação com objetos da comunicação e não só estudar comunicação relacionada a qualquer coisa perdendo de vista o objeto comunicacional. A grande contribuição dessa perspectiva teórica é tentar entender um lugar possível de compreensão do objeto comunicacional na sua presença na vida social.

Como podemos perceber a influência da midiatização no cotidiano?
ET: É relevante perceber como as mídias estão presentes na vida cotidiana e como essa presença transforma as dinâmicas socioculturais. Essa é uma característica do conceito de midiatização entender a presença da mídia e como essa presença transforma o sentido da existência. Um exemplo é a interação interpessoal que acontecia por telefone e hoje é substituída pelo whatsapp com os smartphones. Quase ninguém mais telefona, então o smartphone quase não é usado para essa perspectiva e sim para a interação através de aplicativos. Isso é uma transformação da cultura de relações interpessoais e essa subutilização do telefone transforma os modos de interação das pessoas.

Muitas empresas têm construído campanhas midiáticas com conteúdos alusivos a temáticas sociais, como homofobia, racismo, pautando muitas vezes discussões na rede. Como entender essas tendências no mercado publicitário?
ET: É preciso estudar cada plataforma para entender isso, porque as marcas têm uma proposta de vinculação com os consumidores. A empresa tem que estabelecer um vínculo de credibilidade e de confiança. Não adianta ser um vínculo afetivo, deve ser um vínculo de credibilidade e confiança com o consumidor. Esse tipo de credibilidade e de confiança tem que permear todas as plataformas, só que essas plataformas não agem na mesma intensidade. No twitter são 140 caracteres, ou seja, uma perspectiva de interação com limite. A página do facebook pode ter outras características, então dependendo da plataforma posso ter a possibilidade de criar esse vínculo com maior ou menor intensidade em função dos artifícios técnicos que a plataforma permite na interação.

Como entender esse tipo de consumo?
ET: É um consumo responsável, ético e que busca lutar para agregar o consumo de mercadorias a uma postura civilizatória que leva emancipação e a inclusão social. É lógico que essa inclusão social pode ser associada ao consumo, a aquisição de produtos passa ser a porta de entrada de aceitação do indivíduo. Logo, a interpretação negativa que a gente pode ter dessas estratégias é que eu só vou aceitar o negro, eu só vou aceitar o homossexual se ele for consumidor. Por outro lado, consumir é uma condição da existência humana, a gente nasce para consumir. Então, não podemos ser tão extremistas em dizer que o consumo não é um lugar de inclusão. Mas junto com esse lugar de inclusão você tem que ter os aspectos de tolerância e de respeito à diversidade na sociedade.

Ao mesmo tempo em que as empresas investem em campanhas sociais, muitas peças publicitárias ainda reproduzem aquele modelo de associação da mulher como objeto de desejo sexual, como campanhas de bebidas, algumas marcas de roupas. Como publicitário e pesquisador da área o senhor identifica implicações éticas nesse tipo de propaganda?
ET: Isso é um processo civilizatório, enquanto houver preconceito existente na sociedade existirá a publicidade que revela os estereótipos do preconceito, à medida que a publicidade e a sociedade vão ganhando outro estatuto de processo civilizatório isso pode ser combatido. Antigamente, o cigarro era recomendado para atenuar o estresse das pessoas, hoje a propagando do cigarro é proibida. No futuro, todas essas questões que consideramos antiéticas, mas que vem acontecendo estarão extintas num lugar folclórico de lembrança de uma sociedade em uma outra etapa do processo civilizatório. É preciso ver a evolução civilizatória da sociedade e o que cabe e não cabe nessa sociedade. De repente, o movimento das mulheres vai inviabilizar a representação delas de um modo machista no futuro. Agora, isso ainda não acontece porque existe ainda a presença da cultura machista na mídia. Enquanto houver essa presença, haverá quem faça publicidade nesses moldes.

O senhor estudou na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e é professor da USP, atualmente também participa do Dinter em Comunicação, parceria entre a UNEB e USP, como o senhor analisa o crescimento da pesquisa nas universidades da região nordeste?
ET: Houve uma grande evolução. Quando eu saí para fazer o mestrado e o doutorado na USP, não existia pesquisa na região apenas a graduação e hoje as universidades públicas do Nordeste estão preocupadas com a pesquisa e estão surgindo programas de pós-graduação. A UFPE onde estudei não tinha mestrado e doutorado em Comunicação e hoje já tem um programa na área. Se me formasse hoje, não sairia de Recife. De um modo geral, as pesquisas refletem temas importantes para o desenvolvimento das regiões, portanto não há como comparar com as pesquisas de São Paulo. Os assuntos discutidos em Recife, discutidos em Juazeiro são pertinentes à região. Não posso dizer que a pesquisa realizada em São Paulo é superior a de outras regiões. Talvez as universidades de São Paulo tenham uma tradição, tenham uma prática de pesquisa consolidada, mais madura e isso coloque institucionalmente a pesquisa em comunicação em um patamar superior. Mas percebo grandes avanços, tenho grandes colegas interlocutores e não vejo com demérito as abordagens temáticas ou o método. O que eu acho é que o Nordeste precisa lutar, cada vez mais, para institucionalizar a pesquisa no ensino superior sobretudo as universidades públicas.

A região nordeste tem sido pautada pela mídia através de novelas como Velho Chico e filmes que são produzidos na região, como esse processo de midiatização contribui para construir novas referências sobre o Nordeste, que não seja a de uma visão estigmatizada?
ET: O Nordeste vai ganhando a sua midiatização a partir de seus conflitos locais na medida em que a região tem aspectos que correspondem à dimensão do poder instituído, como também possuem aspectos das condições de desigualdade, da miséria, pobreza e esquecimento de uma população que vive o paradoxo de ter o desenvolvimento no agronegócio, na produção de energia do país e, ao mesmo tempo, tem uma parte da população esquecida ou alijada desse processo. A mídia ajuda a problematizar isso, acho que inclusive as representações do Rio São Francisco e da sua região são representações que traduzem na medida do possível essas polêmicas muito melhor do que a representação hegemônica que se tem da politica na mídia.

O Senhor avalia que houve mudanças nesse discurso hegemônico?
Existe um imaginário do nordeste já consolidado, mas os produtos midiáticos têm mostrado que houve uma mudança. Por exemplo, o filme cearense Boi Neon,  do diretor Gabriel Mascaro,  trabalha uma perspectiva do nordestino que não quer migrar, mas que quer viver na região, porque houve mudanças. Há um novo horizonte de representação das mídias sobre o Nordeste que está ganhando uma certa amplificação e mostra uma outra estética uma outra lógica, o que é importante e legítimo. Talvez essa questão hegemônica do Nordeste como lugar pobre permaneça em um grande imaginário coletivo porque essas produções são em menor frequência do que outras, mas por outro lado já existe uma produção constante ainda que menor comparado a produções de lógica hegemônica. Há produções que demonstram que existe vida cultural e negócios prósperos no nordeste. Na região do São Francisco, existe uma representação que, para mim, corresponde ao justo, ainda que às vezes recaía em alguns aspectos, mas a gente também não tem como fugir disso totalmente.



Brasil: rumos da economia são incertos para próxima década

Pesquisadores baianos defendem uma nova reformulação econômica com participação efetiva da sociedade civil

POR MARINA ARAGÃO*
marinaaragaosilva@gmail.com
Agência de Notícias em CT&I – Ciência e Cultura UFBA



Estagnação, instabilidade econômica e três anos seguidos de taxas de crescimento negativas são algumas das dificuldades enfrentadas pela economia brasileira. Aliada a isso, a incerteza dos seus rumos para a próxima década prejudica uma tentativa de saída da recessão. Segundo dados divulgados na Carta de Conjuntura – número 33, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o resultado primário acumulado das contas públicas até outubro de 2016 totalizou um déficit de R$ 45,9 bilhões e, no acumulado em 12 meses, registrou-se saldo primário negativo de R$137,2 bilhões (2,33% do Produto Interno Bruto – PIB).

A economia brasileira é fundamentada no modelo de tripé macroeconômico, o qual se baseia na meta da inflação, na meta fiscal e no câmbio flutuante. Segundo o regime cambial adotado no Brasil, o preço de uma moeda em relação à outra varia de acordo com sua oferta e procura. A meta fiscal ou de superávit, resultado da receita arrecadada subtraídos os gastos do governo, é definida todo ano pelo Congresso Nacional, através da Lei Orçamentária Anual (LOA). Já para a inflação brasileira, a meta anual é de 4,5%, com piso de 3% e teto de 6%.

Esse modelo foi flexibilizado no segundo mandato do governo Lula, ao ser adotada uma política de caráter mais expansionista, com estímulo ao crédito, às políticas sociais e habitacionais, e à redução dos juros. Entretanto, no governo Dilma, o cenário internacional começou a desacelerar, gerando uma restrição ao desenvolvimento. No seu segundo mandato, as propostas governamentais não sustentaram o crescimento, a economia exterior não se recuperou como esperado e o país deparou-se com um agravamento da crise.
Segundo dados do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (CODACE), de 2015, o segundo trimestre de 2014 representou o fim de uma expansão econômica que durou 20 trimestres e sinalizou a entrada do país em recessão. O crescimento médio trimestral, de 4,2%, havia sofrido uma contração de 1,1% até o primeiro trimestre de 2015.



Projeções – Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), segundo o relatório Fiscal Monitor de outubro de 2016, o Brasil só atingirá um superávit primário em 2020. A receita precisa superar as despesas do governo, para então pagar os juros da dívida pública. Entretanto, segundo os economistas, é difícil fazer projeções estruturais para o país nos próximos anos.

“O economista que fizer qualquer projeção estará seriamente afetado pelo mal conhecido como ‘futurologia’. Mas se raciocinar com hipóteses, ele pode fazer a profecia de que, se a situação continuar como está, o cenário econômico não mudará nos próximos dez anos”, enfatiza o economista e doutor em Teoria Econômica Luiz Filgueiras.

Já o economista e especialista em Financeirização, Ricardo Caffé, acrescenta um agravante para as próximas décadas. “O envelhecimento da população é uma evidência demográfica brasileira e, recompor um novo espaço fiscal, uma nova capacidade para a economia financiar o seu estado e a sua população, é de fato um problema que sempre foi adiado e não pode mais. Se o Brasil não resolver os seus problemas fiscais terá problemas de longo prazo”, sustenta.

Percentual da população idosa brasileira ao longo de décadas (1990-2050)

Reformas – O governo atual tem instituído como alternativas para a saída da recessão e para um possível crescimento econômico, reformas institucionais. As iniciativas envolvem a Proposta de Emenda Constitucional do teto dos gastos públicos (PEC 55), promulgada em dezembro do ano passado, a reforma da Previdência, tendo como principal mudança o estabelecimento de 65 anos como idade mínima única para a aposentadoria e a reforma trabalhista, que envolve empregos temporários e direitos do trabalho.

Para o economista e doutor em Desenvolvimento Econômico, Uallace Moreira, as reformas devem ser oportunidades de se promover um crescimento que inclua a população. “O país pode ter crescimento, mas se não for inclusivo, não há desenvolvimento. Dessa forma, as reformas: tributária, agrária, política e institucional são fundamentais para se pensar em um crescimento inclusivo”, defende.

Segundo Caffé, as reformas devem acontecer, mas não da maneira como estão sendo instituídas pelo governo. “A situação realmente não está adequada, mas as formas de transformação propostas estão aliadas à ausência de um debate mais amplo, mais sincero e franco e ao próprio desinteresse da sociedade. As nossas soluções não têm, neste momento, uma legitimidade grande e não estão sendo levadas por um projeto maior”, critica.

Entretanto, para o técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea, Marco Aurélio Mendonça, as mudanças surtirão efeito na economia do país. “Uma vez que a reforma [da Previdência] seja aprovada, as prioridades, provavelmente, serão as discussões acerca de alternativas para aperfeiçoamentos microeconômicos da economia nacional que incluem uma reforma trabalhista, a fim de flexibilizar o mercado de trabalho e promover o crescimento econômico”, afirma na Carta de Conjuntura do Ipea, número 33.

Mercado de trabalho – Segundo o boletim “Mercado de Trabalho” divulgado pelo Ipea, em outubro do ano passado, no primeiro semestre de 2016, a taxa de desemprego apresentou um valor médio de 11,1%, ficando 3 pontos percentuais (p.p.) acima do verificado para o primeiro semestre de 2015, quando registrou 8,1%.

Diante dos dados e das reformas atuais, Moreira atesta que o cenário do mercado de trabalho brasileiro é desfavorável. “Os trabalhadores podem esperar um momento de grande retrocesso, do ponto de vista de direitos trabalhistas e de direitos previdenciários. A não ser que esse cenário mude com novas propostas ou com a atuação da própria sociedade civil”, alerta.
Entretanto, para Caffé, é possível manter um certo otimismo em relação à reestruturação do país. “A sociedade brasileira sempre foi criativa, sempre encontrou arranjos para se expandir e combinar avanços em muitos campos. Essa sociedade que consegue se refazer é o grande valor do Brasil. A juventude possui também um papel muito importante nessa realidade, os jovens precisam se sentir mobilizados a construir e dar o melhor de si”, conclui.


*Estudante do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação e repórter da Agência de Notícias em CT&I – Ciência e Cultura UFBA

Mídias locativas e arte urbana no semiárido




Gerar concepções que fomentem os espaços educativos e examinar o papel de dinâmicas não humanas, por meio das mídias locativas, foi o tema da dissertação "Cartografia Urbanográfica no Sertão do São Francisco: uma proposta infocomunicacional a favor da articulação de novos espaços de arte e educação" do professor Cecílio Ricardo de Carvalho Bastos, defendida na segunda-feira (13/02) no Programa de Pós-Graduação Mestrado em Educação, Cultura e Territórios Semiáridos (PPGESA), da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), campus Juazeiro-Bahia.

O professor do curso de Jornalismo em Multimeios utilizou a metodologia da Teoria Ator-rede para analisar as mídias locativas e a interface da geolocalização. O resultado da pesquisa foi a criação de um mapeamento da urbanografia do Sertão do São Francisco. Narrativas orais e visuais concebidas foram realizadas, visando potencializar os fluxos do conhecimento em espaços livres.

A partir das particularidades culturais existentes, a pesquisa produziu um estudo sobre a arte urbana, averiguando parte do alcance das associações dos contextos criativos, das experimentações e criticidades, inclusive as que se referiram aos comportamentos transgressivos nas cidades.

A dissertação "Cartografia Urbanográfica no Sertão do São Francisco: uma proposta infocomunicacional a favor da articulação de novos espaços de arte e educação" foi orientada pelo professor Luiz Adolfo de Paiva Andrade.

Por Andressa Silva, da Agência MultiCiência 


Bahia: Trajetórias e enfrentamentos das pessoas com anemia falciforme


30% dos casos de anemia falciforme diagnosticados no Brasil estão na Bahia. Salvador é a cidade brasileira com o maior número de pessoas com a patologia. Como as políticas públicas e as pesquisas científicas têm contemplado a doença?



POR LARISSA SILVA*
silva.larissa1@outlook.com
Agência de Notícias em CT&I – Ciência e Cultura UFBA


“A médica me deu sete anos de vida. Depois disse que eu não passaria dos 14. Por fim, falou que eu viveria até os 21”. Estas foram as estimativas de vida que André Gomes, 32, recebeu da médica que o atendia, após ser diagnosticado com anemia falciforme. Essa doença hereditária ocorre quando a hemoglobina, proteína presente nas hemácias (glóbulos vermelhos) e responsável pelo transporte de oxigênio nas células, sofre mutação. Esta mudança gera dificuldade de oxigenação do sangue, o que faz com que as hemácias percam flexibilidade e adquiram formato de foice. Com essas células mais rígidas, a circulação sanguínea se torna difícil e as chances de oclusão celular e de obstrução dos vasos aumentam.

Os sintomas mais frequentes são cor amarelada nos olhos e pele (icterícia), graves crises de dor, tendência a infecções e ao aparecimento de úlceras (feridas), sobretudo nas pernas. É importante ressaltar que esses sinais podem se manifestar de maneira diferente em cada indivíduo.

Apesar de ser uma enfermidade crônica, ela não precisa ser associada à morte da forma que André ouviu da sua médica, porque pode ser cuidada. Segundo Clarice Mota, mestre em Saúde Coletiva e doutora em Ciências Sociais, o comportamento dos especialistas em saúde nos casos como o de André é causado, em parte, pela deficiência na formação desses profissionais. “Os currículos acadêmicos não contemplam estudos sobre a doença falciforme”, completa. Além disso, também atribui esse mau atendimento ao racismo institucional, já que essa patologia é predominante em negros.

Políticas públicas - A doença, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um grave problema de saúde pública mundial, pode ser atenuada com diagnóstico precoce e tratamento adequado. Um dos cuidados necessários é o uso contínuo de Hidroxiureia, remédio fornecido pela Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab). A medicação atualmente é importada, mas, até 2018, a demanda do Sistema Único de Saúde (SUS) deverá começar a ser atendida pela produção local. O medicamento será produzido na cidade de Vitória da Conquista, através de uma parceria entre os laboratórios Bahiafarma e Cristália.

Segundo levantamento do Ministério da Saúde, a cada 650 nascidos vivos na Bahia, um possui anemia falciforme e, a cada 17, um nasce com o traço falciforme. Os números são os mais elevados do Brasil, onde a incidência é mais concentrada nas regiões Norte e Nordeste. As pessoas que têm o traço falciforme não apresentam os sintomas de quem possui a enfermidade, mas é importante que elas tenham consciência de sua condição genética para que possam decidir sobre seu futuro reprodutivo.


A identificação da anemia falciforme é feita em recém-nascidos com até uma semana de vida através do teste do pezinho. Após esse prazo, o diagnóstico é dado pelo exame chamado eletroforese de hemoglobina. Ambos são realizados nos postos de saúde e, desde 2009, a patologia é de notificação obrigatória em Salvador.

Essas ações de distribuição de medicamentos básicos e diagnóstico são asseguradas pela Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doença Falciforme, desenvolvida em 2005 - quase cem anos depois do primeiro diagnóstico - e implementada em Salvador através do Programa de Atenção às Pessoas com Doença Falciforme (PAPDF). O principal objetivo do programa é reduzir a mortalidade, melhorando a qualidade de vida das pessoas com a enfermidade. Para isso, também preconiza a assistência médica integral e orientação aos familiares. A capital baiana possui 12 centros de referência e 2 ambulatórios para tratamento da doença.


Apesar desses avanços, ainda há muito a ser feito. Segundo a especialista em Saúde Coletiva Clarice Mota, como a detecção de anemia falciforme através do teste do pezinho só foi implantada na Bahia em 2001, pessoas que nasceram antes dessa data não foram examinadas e podem não estar inseridas nas redes de cuidado. E a assistência integral à saúde é fundamental para garantir a redução de crises e sequelas, aumentar a expectativa e a qualidade de vida. O Ministério da Saúde considera que atenção integral é o conjunto de ações de promoção, proteção, assistência e recuperação da saúde.

Clarice afirma que para a saúde da população negra entrar na agenda política foi necessária muita pressão dos movimentos sociais. “Se hoje ainda precisamos falar de racismo, estamos atrasados”, critica. Um dos indicadores do racismo ao lidar com essa enfermidade além do tratamento inadequado oferecido nos centros de saúde é a invisibilidade dela no meio acadêmico. 

Pesquisas - Apesar de ainda não serem muitas, existem pesquisas científicas que têm o enfoque na anemia falciforme. Um exemplo disso é o estudo coordenado pelo professor e ortopedista Gildásio Daltro, em parceria com a Universidade de Paris XII, com o desenvolvimento de um tratamento alternativo para pacientes que possuem uma complicação da doença, a necrose nos ossos. O método consiste na aplicação de uma espécie de massa feita a partir de fosfato de cálcio, substância compatível com os ossos naturais, e células-tronco do próprio paciente. O procedimento é menos invasivo do que a colocação de prótese no local afetado, e também o indicado com mais frequência no Brasil. Os testes feitos até hoje obtiveram 93% de sucesso, conforme apontam os exames clínicos.

Outro estudo analisou o impacto da anemia falciforme nas trajetórias escolares de estudantes baianos afetados pela doença. Na pesquisa realizada pela pedagoga Alessandra Barros, quase 90% dos entrevistados, 15 crianças e adolescentes em idade escolar, afirmaram que têm faltado às aulas graças às dores causadas pela enfermidade. Com a análise, ela concluiu que há a necessidade de um projeto político-pedagógico mais inclusivo nos colégios e de mais programas de escolarização para pessoas hospitalizadas.

O recorte de gênero aparece em alguns trabalhos. Um exemplo é o da pesquisadora e doutora em enfermagem, Sílvia Ferreira. Na obra “Qualidade de vida e cuidados às pessoas com doença falciforme”, coordenada por ela, é feita uma análise das experiências das mulheres com a doença e as implicações do diagnóstico tardio para elas. Para a autora, as condições de mulheres e homens na área da saúde são desiguais. 

Nesse sentido, Clarice Mota afirma que o direito reprodutivo das mulheres com a doença deve ser garantido. Ela denuncia que muitas escutam de profissionais que elas não podem ter filhos e aponta que esses casos podem ser de racismo institucional. “Estamos em um processo de tomada de consciência que só vai realmente acontecer se ficarmos ligados nessas sutilezas”, conclui. A saída apontada por ela é não se omitir nessas situações, denunciando e intervindo sempre que necessário.  

*Estudante do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA e repórter da Agência de Notícias em CT&I – Ciência e Cultura UFBA

Mais sobre o tema:

MOTA, Clarice; TRAD, Leny; et al. Os desafios do cuidado integral à doença falciforme sob os diversos olhares: o olhar da gestão, o olhar das famílias e usuários e o olhar do serviço e seus profissionais. In: Cronicidade: Experiência de adoecimento e cuidado sob a ótica das Ciências Sociais. Ceará: UECE, 2015. Disponível em:
https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/18432/1/LIVRO.%20CRONICIDADE%20-%20EXPERIENCIA%20DE%20%20ADOECIMENTO%20E%20CUIDADO%20SOB%20A%20OTICA%20DAS%20CIENCIAS%20SOCIAIS.pdf. 

ALVES, Ana Margareth; et al. Doença Falciforme: Conhecer para cuidar. Ministério da Saúde, 2015. Disponível em: <http://telelab.aids.gov.br/moodle/pluginfile.php/39506/mod_resource/content/3/Doenca%20Falciforme.pdf>. 
Brasil.Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada. Manual da anemia falciforme para a população / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Especializada. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2007.
Disponível em: 
<http://www.saude.sp.gov.br/resources/ses/perfil/cidadao/orientacao/manual_da_anemia_falciforme_para_a_populacao.pdf>.

BARROS, Alessandra; et al. O impacto da anemia falciforme nas trajetórias escolares de estudantes brasileiros afetados pela doença: diálogos com os temas da Educação Especial.
Disponível em: <https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/8849/1/EDUCARE%20lecture%20-%20Alessandra%20Barros.pdf>. 

PESQUISA de Ortopedia aplica células tronco no tratamento para pacientes com Anemia Falciforme
Disponível em: <http://www.complexohupes.ufba.br/noticias/pesquisa-de-ortopedia-aplica-celulas-tronco-no-tratamento-para-pacientes-com-anemia-falciforme/>. Acesso em: 6 fev. 2017.

Exposição Recordar é Viver relembra os antigos carnavais de Juazeiro



O desfile de carros alegóricos trazia foliões animados, enchendo as ruas de confetes e serpentina. O festejo a Baco, o deus da alegria e da folia na mitologia romana, tinha chegado a Juazeiro.  Carnaval das fantasias, das marchinhas e da disputa dos clubes carnavalescos das sociedades Apollo, 28 de Setembro e Zero. A cidade era invadida por homens, mulheres e crianças que compartilhavam a alegria do carnaval e faziam das ruas uma grande brincadeira coletiva.
Em reverência a esse espírito carnavalesco, a exposição “Recordar é Viver- Carnavais da década de 10 – Década de 70” revive os antigos carnavais de Juazeiro através de uma linha do tempo que apresenta os blocos tradicionais, os principais clubes e até as marchinhas de rua passadas de geração em geração. Exposta na Fundação Museu Regional do São Francisco, em Juazeiro, a mostra é uma oportunidade única para os jovens e turistas conhecerem a historia do carnaval da cidade.
As fantasias e fotografias da exposição remetem a variedade de cores e formas que davam pluralidade ao carnaval. “Colombinas, pierrôs, anjos e demônios tinha de tudo, a rua era bastante colorida pela diversidade de fantasias e manifestações. As casas viviam de portas abertas os mascarados entravam, comiam e bebiam de graça, ninguém ligava” explica a professora de história Rosy Luciane Costa, curadora da exposição e diretora do Museu.



A exposição promove reflexão a respeito das transformações na festa carnavalesca e as diferentes formas de diversão e a criação dos concursos dos mais diversos. “O carnaval tinha mais variedade, não existiam os abadás para uniformizar e deixar todo mundo igual. Cada um dentro das suas condições usava da criatividade e construía suas fantasias,” explica Rosy Costa.



A diversidade do carnaval não estava apenas nas fantasias, mas na forma de interagir com os espaços e os foliões. “Hoje, você vai atrás do trio ou fica na calçada esperando o trio passar. Antigamente, quem não saia de casa participava porque recebia quem ia chegando. O povo ficava sentando na porta e os mascarados passavam jogando água. As músicas eram feitas pelo compositor especificamente para a festa”, relembra.
A exposição não se sustenta apenas da nostalgia de relembrar os antigos carnavais, mas da importância de pensar a memória da cidade e as suas mudanças históricas.O jovem vem para conhecer as historias e quem viveu essas experiências interage com a exposição. As pessoas podem reconhecem quem está na fotografia ou conhecem alguém que está nelas, trazem a família explicam cada cenário, as ruas e os rostos de cada foto. Eles se integram à exposição”, afirma.

 Texto e Fotos: Maria Eduarda Abreu



Serviço

Fundação Museu Regional do São Francisco 
Praça da Imaculada Conceição, 29 - Centro, Juazeiro

Visitação:  segunda  a quinta (8h ás 12h)

A escola deve discutir relações de gênero



Nos últimos anos, a discussão sobre gênero têm ganhado força, com o crescimento de núcleos de estudo sobre a temática nas universidades em todo país. Porém, há uma forte oposição ao debate deste tema em sala de aula por grupos políticos conservadores que lutam contra o que acreditam ser uma questão ideológica a discussão sobre gênero. O Projeto de Lei "Escola Sem Partido" (PLS 193/2016), em tramitação no Senado Federal, pretende incluir entre as diretrizes e bases da educação nacional (Lei 9.394/16), resoluções como a de que professores e escolas não devem interferir na opção sexual dos alunos nem devem direcionar “o desenvolvimento de sua personalidade, em harmonia com a respectiva identidade biológica de sexo, sendo vedada, especialmente, a aplicação dos postulados da teoria ou ideologia de gênero".

Para a historiadora e professora da Universidade Estadual de Pernambuco (UPE), Janaína Guimarães, a escola deve cumprir o papel de discutir as relações desiguais entre homens e mulheres que se manifestam na sociedade desde a desigualdade salarial à violência contra a mulher. ´"Os grupos que defendem o Projeto de Lei dizem que querem uma escola neutra sem partido, mas, na verdade, é uma escola de partido único. A educação pública tem como obrigação desenvolver e promover uma sociedade mais igualitária, sem intolerância religiosa, desigualdades de gênero ou imposição dos pais em relação aos seus filhos", afirma. 

Em entrevista ao MultiCiência, a professora conversou sobre as pesquisas desenvolvidas em escolas públicas em Petrolina com a temática de gênero e as estratégias para construir uma sociedade menos violenta e mais justa e igualitária.



MultiCiência: Qual a importância de discutir questões de gênero com a sociedade?

Janaína Guimarães: A nossa sociedade é formada por relações de poder determinantemente desiguais que se constituem nas relações de gênero.  A ideia da construção de uma sociedade mais justa é o que amedronta os conservadores porque teríamos que reformular toda sociedade. Uma das intenções do projeto Escola Sem Partido é retirar essas discussões de sala de aula. Você retira essas discussões da sala de aula, a menina apanha, a mãe dela apanha, ela sofre uma violência em casa o tempo todo. Quem é que vai dizer a ela que aquilo é errado? A escola! A escola tem que se posicionar a respeito do que são os direitos do cidadão garantidos na Constituição. Não podemos deixar de discutir gênero porque vamos estar deixando de criar possibilidades de liberdade e de autonomia para esses homens e mulheres.


MultiCiência: Qual sua avaliação de movimentos como o Escola Sem Partido e grupos religiosos que procuram deslegitimar essa discussão na sociedade?
Janaína Guimarães: Esse grupo conservador formado não só pela bancada evangélica, mas pela bancada católica, tem lutado dentro do legislativo para tentar impedir que se discuta questões de gênero na sala de aula. Eles dizem que querem uma escola neutra sem partido, mas, na verdade, é uma escola de partido único. A educação pública tem como obrigação desenvolver e promover uma sociedade mais igualitária, sem intolerância religiosa, desigualdades de gênero ou imposição dos pais em relação aos seus filhos. Um dos projetos de lei que o movimento Escola Sem Partido tentou desenvolver foi declarado inconstitucional porque pretendia modificar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) assegurada na Constituição. Na verdade, eles querem modificar isso para impor uma educação acrítica, uma educação que não esteja ligada a processos educativos, mas sim a repasse de conteúdo.


MultiCiência: Nos últimos anos, cresceu o número de estudos a respeito de gênero? Quais foram as mudanças mais significativas?

Janaína Guimarães: Até a década de 1990, não havia estudos que pensassem essa relação do feminino e do masculino dentro da sociedade a partir do conceito de gênero que implica relações de poder. Já, nos últimos anos, aumentou o número desses estudos. Nós tivemos um incentivo por parte das políticas públicas como a criação da Secretária das Mulheres e isso foi um incentivo para esses estudos nas universidades.  Nos anos 2000, essas questões começaram a ser pontuadas no âmbito da educação básica e da educação continuada, mas com as tentativas do legislativo de barrar os avanços desses estudos essas questões foram retiradas do planos nacionais  de educação.

MultiCiência: Professora, você desenvolve o Projeto Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) sobre gênero. Quais resultados têm alcançado? 

Janaína Guimarães: Atuamos em duas escolas no primeiro e no segundo ano do ensino médio, desenvolvendo microprojetos que já geraram histórias em quadrinho, gincanas, redações, vídeos e documentários. Esses alunos discutem o conceito de gênero e pensam a sociedade a partir desses conceitos presentes na literatura, pensam o sertão e os estereótipos que reproduzem essas visões de gênero. A gente tem tido uma resposta muito boa dos alunos e das alunas e não tão boas dos professores supervisores das escolas. Eu sempre penso o seguinte, será que são os alunos que não estão preparados para discutir gênero ou será que são os professores e professoras que não foram bem formados para discutir essa temática? A nossa formação, e eu digo isso enquanto professora das licenciaturas, não discute como deveria essas questões de gênero. Logo, os professores que saem das universidades não estão formados para trabalhar essas questões.


MultiCiência: De que forma o professor deve discutir gênero em sala de aula? Existe uma didática especifica?
Janaína Guimarães: É preciso explicar para eles um pouquinho o conceito de gênero. Depois, a gente trabalha com oficinas, contação de história, cada um vai contando uma história e, no final, começamos a observar como as questões de gênero estão presentes nessas histórias. Conseguimos a partir de tentativas lúdicas trabalhar com eles essas questões. Estamos trabalhado com dois materiais que são muito bons, como o Gênero e Educação para uma organização toda voltada para essa questão; e o Gênero Fora da Caixa, com material de oficinas: de estêncil, camiseta, brincadeira. São várias as formas de você trabalhar essas questões de gênero dentro da educação básica a partir dessas dinâmicas diferenciadas.


MultiCiência:  Como você analisa a rejeição por parte de alguns pais e mesmo professores em discutir questões de gênero com crianças?
Janaína Guimarães: Existem os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) para a educação infantil, dentre esses parâmetros estão presentes as questões de gênero. Mas como que elas estão presentes? Por exemplo, você manda o menino pintar um desenho ele se recusa a pegar o lápis rosa porque menino não usa rosa. Trabalhar as relações de gênero na educação infantil é permitir que não se constituam esses primeiros preconceitos ou esses primeiras marcas de gênero dentro do ambiente escolar. As pressões dos estereótipos de gênero nos primeiros anos são muito mais para os meninos do que para as meninas, os meninos são cobrados para não serem femininos, para não serem carinhosos, para não serem chorões. É uma falta de conhecimento muito grande as pessoas dizerem que trabalhar gênero na educação infantil é discutir sexualidade ou incitar as crianças a fazerem coisas que elas não têm idade para fazer. Discutir gênero é discutir relações de poder. É isso que precisa ficar claro.


MultiCiência: De que forma a falta de diálogo sobre esse assunto pode influenciar no comportamento dessas crianças/ adolescentes futuramente?

Janaína Guimarães: A falta de uma educação que problematiza as relações de gênero permite que se reproduzam relações violentas tanto no âmbito doméstico quanto no público, assim como as desigualdades tanto no mercado de trabalho como nos meios de acesso a eles. Se você não discutir gênero, vamos continuar tendo o número alto de meninas nas faculdade de licenciaturas para serem professoras e meninos nas engenharias. A desigualdades salarial nessas duas carreiras é imensa, logo as relações de poder também vão ser diferentes. A educação precisa problematizar essas questões pra ter uma sociedade mais justa e igualitária.


MultiCiência: Trazer essa discussão para as salas de aula é uma forma de diminuir o índice de violência doméstica?

Janaína Guimarães: Não existem medidas que mudem a condição da sociedade que não seja a educação, as pessoas precisam ser educadas para pensar e para agir. Não adianta você criar uma série de leis restritivas se dentro do ambiente escolar, dentro de casa, dentro da sociedade essas relações não são problematizadas. Os números do mapa da violência de 2015 são um reflexo dessas relações de gênero. O número de assassinatos de mulheres é enorme e cresce de acordo com os indicadores negativos relacionados à falta de educação dessas regiões.


MultiCiência: Quando se fala em violência contra a mulher automaticamente nos lembramos da lei Maria da Penha. A Lei vem obtendo resultados significativos?

Janaína Guimarães: Sim, alguns estados tiveram uma redução drásticas da violência a partir da implementação da lei, o que acontece é que a lei em si é boa e tem funcionado, mas para que ela seja eficaz precisa do apoio da rede formada pelos centros de atendimento psicológico, centros jurídicos e que haja a garantia das condições materiais de existência.  O que não funciona são essas redes que serviriam para tirar a mulher da situação de violência. A lei Maria da Penha age contra os sujeitos, ela coloca essa mulher ou esse homem para fora de casa, mas feito isso a lei em si não tem condições de dá uma continuidade e, muitas vezes, essa mulher acaba voltado para casa. Não é um problema da lei é um problema da rede que deveria funcionar.


MultiCiência: Os profissionais de segurança estão preparados para receber vítimas de estupro ou violência doméstica?

Janaína Guimarães: A violência institucional existe também no âmbito das delegacias, independentemente de ser homem ou mulher. A maioria das delegacias não está preparada para receber essas vítimas. O nosso grande problema pelo menos aqui na região é o fato da Delegacia da Mulher fechar nos finais de semana, justamente no momento em que os maridos estão em casa quando eles bebem e praticam o maior número de violência. Então, essa mulher tem que ir para uma delegacia comum, onde ela não tem o tratamento adequado. Dois problemas fundamentais: as outras delegacias não estão reparadas para lidar com as questões das mulheres e a delegacia das mulheres não funciona todos os dias.

Reportagem Maria Eduarda Abreu