Palestra traz informações para intercâmbio estudantil com a França



Incentivar a mobilidade de estudantes brasileiros para a França e possibilitar o crescimento profissional do discente. Foi com este objetivo que foi realizada a palestra sobre intercâmbio estudantil com a representante do Campus France Recife, Letícia Pontes, no VIII Workshop Nacional de Educação Contextualizada para a Convivência com o Semiárido. O programa atende estudantes de toda região Nordeste interessados em informações sobre os estudos e procedimento pré-consular obrigatório para solicitar o visto de estudante.

Na palestra, foram abordados a estrutura do ensino superior francês, oportunidades nos níveis da graduação, mestrado e doutorado, procedimentos de candidaturas, concessão de bolsas, cursos de francês e programa de intercâmbio Au Pair. Os cursos são oferecidos para todos os níveis, sendo realizados de forma intensiva ou extensiva durante as férias ou ao longo do semestre.



Também são incentivadas atividades como conhecimento da gastronomia, fotografia, surf, estudos de cultura, civilização francesa ou desenvolvimento sustentável. “Na França não há nenhum tipo de distinção entre brasileiros franceses e estrangeiros. Quem se interessar há oportunidades de fazer curso na França na graduação ou uma pós- graduação”, afirmou Letícia.



Ela ainda esclarece que o Campus France é uma agência governamental criada para fazer a promoção do ensino superior e criar uma mobilidade estudantil internacional.   Vinculada aos ministérios da Educação e das Relações Exteriores, a agência é o canal privilegiado de comunicação entre os estudantes brasileiros e as instituições francesas de ensino superior e está presente em mais de 110 países com diversos escritórios, os quais são responsáveis por fazer as candidaturas do processo seletivo. Para mais informações, acesse o site: www.brasil.campusfrance.org.

Repórteres: Patrícia Rodrigues/Susana Alves
Fotos: Mayane Santos

A Educação contextualizada reinventa os sujeitos do sertão




O despertador toca cedo. É hora de levantar e começar a rotina do dia. Atividades para desenvolver, leituras para atualizar o conhecimento, busca de novas metodologias. Todas essas tarefas se encaixam no cotidiano de um pesquisador, mas essas práticas também retratam produtores rurais que dedicam parte de seu dia para a otimização do trabalho no campo.

Esse é o perfil da professora, doutora em Geografia, Luzineide Carvalho. Membro permanente dos Programas de Pós-Graduação: Educação, Cultura e Territórios Semiáridos do Campus III da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) - Juazeiro, ela descobriu, a partir da observação do seu contexto, que era possível realizar um antigo sonho: produzir o próprio alimento, livre de produtos químicos.

E o fato que deu o pontapé para que Luzineide apostasse na agricultura orgânica foi a imersão no conceito da convivência com o Semiárido. Ela elaborou sua tese de doutorado sobre a temática e lançou o livro "Natureza, Território e Convivência", em 2014. As pesquisas fizeram a professora perceber que era preciso rever as relações com a natureza semiárida. "Eu estava inserida em espaços que desenvolviam produtos com frutas típicas da região. Foi aí que me interessei e comecei a procurar leituras que permitissem uma nova possibilidade de conhecimento", comenta.

Com o tempo, Luzineide percebeu as potencialidades que o bioma Caatinga oferece e resolveu colocar em prática o antigo desejo. A ideia inicial era atender apenas às necessidades de consumo próprio, mas a capacidade produtiva de sua chácara ultrapassou as expectativas e foi possível comercializar parte do estoque.

A proposta, então, foi criar um eco-sítio, aproveitando o máximo dos alimentos, desde a sementes até as cascas, e trabalhar na perspectiva da permacultura - que entende os aspectos sociais como parte integrante de um sistema agrícola sustentável -, da convivência com o semiárido e da educação ambiental.

"Quando a gente entende o contexto da Caatinga, respeita sua produtividade e preserva seus recursos, acabamos construindo um sistema sustentável. Os produtos são apenas uma parte dos resultados de um projeto que busca valorizar o nosso território", destaca.

No sítio, Luzineide produz frutas como acerola, goiaba, manga e umbu, que podem servir para a fabricação posterior de geleias e polpas. Esses produtos são levados para pequenas feiras, como a que acontece no VIII Workshop Nacional de Educação para Convivência com o Semiárido Brasileiro, realizado na Uneb de Juazeiro, nos dias 03 a 05 de outubro. Seguindo o viés da contextualização, os demais expositores do evento também disponibilizam outros itens, como peças do artesanato local e obras artísticas que revelam as riquezas culturais do sertão.



Desafio de contextualizar a educação local
De acordo com a pesquisadora, a aplicação metodológica da temática da contextualização no ambiente escolar ainda encontra muitas dificuldades. "É complicado porque é um processo formativo que vai além dos muros das escolas e universidades. É preciso despertar no aluno o fato de que ele é um sujeito pertencente àquele espaço específico e que ele pode transformar o meio, aproveitando todas as possibilidades disponíveis".

Ainda segundo Luzineide, é preciso estruturar uma rede colaborativa para cuidar dessa natureza semiárida. Para isso, se faz necessário  lidar com a perspectiva de pensar as ações e as práticas contextualizadas de convivência e produzir conhecimento nesse processo, seja nas áreas de pesquisa, ensino ou extensão. 

"O desafio é trabalhar as teorias, fortalecer as metodologias e fazer o aluno sentir a necessidade de colocar isso em prática no seu viver. Precisamos experimentar mesmo, colocar a 'mão na massa'. Particularmente, me divirto com isso tudo. E, no final das contas, posso afirmar, com certeza, que é sempre possível estabelecer o diálogo entre academia e a contextualização, para desenvolver todos os potenciais que o Semiárido nos oferece", completa.

TEXTO: Giúllian Rodrigues
FOTOS: Wagner Queiroz/Tárcila Felix

Do Semiárido Urbano ao uso de tecnologias no sertão


 “As pessoas acham que flor no chão é sujeira”. Com essa provocação e questionamentos acerca da necessidade de um estudo das mentalidades, o professor do Programa de Pós-Graduação Mestrado em Educação, Cultura e Territórios Semiáridos (PPGESA), Doutor em Educação, Josemar Martins Pinzoh abriu a Sessão Coordenada do segundo dia (04/10) do VIII WECSAB, realizada no auditório multimídia do Departamento de Ciências Humanas (DCH III), da UNEB em Juazeiro. A sessão teve a participação de pesquisadores com temas relacionados ao Semiárido Brasileiro; da professora Luzineide Carvalho e o engenheiro ambiental Frederico Santos.

O eixo motivador das discussões foi a proposição do grupo de Estudos dos Modos Contemporâneos de Existência em Educação, Cultura, Sustentabilidade e Subjetividade (ECUSS). A poesia se fez presente através das explicações de Pinzoh, que destacou, por exemplo, a importância e beleza da floração dos Ipês, do quanto as pessoas precisam ser educadas para compreenderem a importância da natureza. “Todo lugar que você vai tem lixo, as pessoas estão preocupadas em varrer as flores. Pra mim, serve para fazer um estudo de mentalidade”, declara.
  

Mestre pelo PPGESA, Enos André de Farias apresentou a pesquisa sobre o uso de Tecnologias no Sertão Pernambucano a partir do reuso das águas cinzas. Ele percorreu 2,2 mil/km com uma motocicleta de 150 cilindradas, denominada de Berenice. Isso porque, passou tanto tempo com o veículo que chegava a “conversar” com ela [entre risos, ele diz que pensava alto e fazia de conta que a moto estava ouvindo]. Percorrer os municípios da área atendida pelo Núcleo de Comunicadores Populares do sertão de Pernambuco proporcionou a Enos um conhecimento, na prática, de tudo o que eles apresentam na teoria, como por exemplo, o reuso e tratamento das águas cinzas das casas e o biodigestor sertanejo.

Segundo o pesquisador, o biodigestor ainda não é uma tecnologia muito visível, mas é de custo acessível. Na comunidade de Baixio, de Santa Cruz da Venerada, produtor chega a economizar dois botijões de gás por mês na produção de doces, faz e comercializa os produtos que são resultados do manejo adequado da terra e da preservação da caatinga. “As famílias  produzem doce de leite, de abóbora, de batata e toda essa produção é feita com o combustível do biodigestor”, afirma. Também destacou o processo de desertificação causado na região pela extração de Gipsita e fornos das cerâmicas produtoras de bloco/telhas e a capacidade de articulação e mobilização das comunidades.



Os cientistas sociais Guilherme Ernesto Neto e Kleyton Gualter Silva  abordaram a festa do Vaqueiro, no município baiano de Sobradinho, pensando o campo semântico do conceito de descartável. Kleyton destacou que utilizaram o festejo para analisar as relações sociais das pessoas com o lugar, com outras pessoas e com a festa e constataram a grande quantidade de lixos descartáveis e a perda da tradicionalidade. "Os vaqueiros tiveram até o percurso da procissão deles interrompido pelo evento que ocorre simultaneamente e que o poder público diz que é parte da festa. Por acaso, a gente percebeu que o conceito de descartável não está somente no olhar do poder público em relação ao vaqueiro, ele está, inclusive, nas relações que ocorrem alí. Na quantidade de paredões, na musicalidade e no contexto geral", declara.

Ainda sobre a temática dos resíduos, Carla Fabiana Silva e Mábio Dutra, mestres em Educação, partilharam as ideias da pesquisa: “A Iniquidade Humana e a Estética do Lixo”. Durante a Sessão, abordaram a necessidade de pensar uma educação para a cidadania, dentro de uma perspectiva contextualizada. “A gente não pode simplesmente aceitar um currículo engessado, a escola que é feita somente pelas paredes e as pessoas passam despercebidas. A escola é necessária e é importante nesse momento de crise à qual estamos passando”, defende Carla.

O engenheiro ambiental Frederico Costa Santos falou sobre sustentabilidade das práticas ambientais e problematizou a questão do descarte de resíduos. “O descartável em si é algo que foi feito para ser jogado fora. Não tem outra coisa. E aí vem o desafio: será que a gente está indo no caminho certo agindo com práticas, teorias e tecnologias fim de tudo? Por que a gente não inverte e vamos começar a se perguntar: por que jogar fora?”.

  


As discussões também adentraram a temática do semiárido urbana. A  pesquisadora Luzineide Carvalho destacou a importância de olhar para a cidade como um sistema vivo e complexo, que, com o passar do tempo, a cidade de Juazeiro alterou a rede hidrográfica e não diversificou as espécies da paisagem no urbano. E isso afeta o microclima e a mobilidade. “A circulação da cidade quase toda é paralela cortando riachos. Que se a gente perguntar para alguém, vai responder: riacho não, é um valão, esgoto”, observa.

Durante a pesquisa, foram mapeados os riachos que cortam a cidade e associando a isso um trabalho com relatos de que a Juazeiro antiga tinha variedade de espécies, de verde. Também foram realizadas oficinas de percepção ambiental nas escolas com crianças do segundo ao quinto ano para demonstrar os conhecimentos vivenciados pelos alunos. 

 Após as discussões, o professor Pinzoh trouxe novamente o tom poético para encerrar o debate com a leitura de um trecho que fala sobre o lixo, do livro "Cidades Invisíveis”, de Ítalo Calvino. "A gente precisa fazer um exercício de argumentação sobre o que significa a experiência humana”. Um exemplo é como descartar o lixo de forma sustentável e ser uma realidade para todos.

A pedagoga e pós-graduanda em Desenvolvimento Infantil Liliane Barros, avaliou de forma positiva as discussões. “Tudo o que foi falado a gente tem que praticar no nosso cotidiano e passar as informações para outras pessoas também”.

Diversos temas serão abordados no último dia do Workshop, nesta sexta-feira (05/10), além da página do PPGESA no Facebook, você pode acompanhar tudo sobre o evento através do canal da WebTV Uneb, núcleo Juazeiro no YouTube.


Texto: Vagner Gonçalves
Fotos: Mayane Santos

Pesquisas discutem a Convivência com o Semiárido



Discussões que retratam a convivência com o semiárido marcaram a manhã desta quinta-feira (04/10), durante o VIII Workshop WECSAB, no Departamento de Ciências Humanas-DCH, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), campus III, em Juazeiro-BA. Educação, cultura e semiárido foram alguns dos temas apresentados nos Grupos de Trabalhos – GTs, no período de 8h às 10h, reunindo pesquisadores, profissionais e estudantes.

Em seguida, no auditório Multimídia, de 10h15min às 12h, foram ministradas Sessões Coordenadas, que discutiram os desafios da educação contextualizada. A Sessão “Projetos Reflexões”, coordenada pelo professor Edmerson dos Santos Reis e pelas professoras Francisca de Assis de Sá e Edilane Carvalho Teles, trouxe os resultados das Pesquisas desenvolvidas nos Projetos de Extensão, Iniciação Científica e Mestrado, do DCH III.

A socialização das produções ajuda na promoção das reflexões a respeito da visão equivocada do semiárido, dos estereótipos e apresenta possibilidade de uma educação contextualizada que contribua para formação na forma de perceber e reconhecer o semiárido.

Pesquisadores da área de Educação Contextualizada com o Semiárido Brasileiro compreendem que a construção da realidade do semiárido, existente há anos, transmite a ideia de nordeste brasileiro em detrimento da singularidade do semiárido, utilizando a ideia de seca como algo que fortalece os projetos das elites.



O colaborador Edmerson dos Santos Reis afirma que "essa ideia foi disseminada pela literatura, música, escola, livro didático e pela imprensa, que construíram uma imagem negativada do semiárido brasileiro. Não é fácil desconstruir esse conceito e percepção histórica. Isso está presente nos livros didáticos que temos acesso, reportando um semiárido como um lugar de miséria e de impossibilidade. 

O pesquisador destaca que as pesquisas promovem discussão acerca dessas mentalidades, que vão incidir na mudança das concepções que se constroem. "Quando realizamos um workshop, a gente está discutindo na pesquisa, nas experiências concretas como é que essa ação na escola, na universidade, vem sendo desconstruída. Quais são os caminhos possíveis de construir uma nova concepção por nós, e não como foi feita até então por outros falando por nós”.



Eventos como o Workshop permitem reavaliar as políticas de comunicação na divulgação do semiárido. As reportagens que transmitem a ideia de seca no semiárido brasileiro comumente trazem elementos caracterizados por chão rachado, música fúnebre, imagens de animais mortos, estereotipando a realidade do semiárido, criando um cenário de miséria e negatividade. O desafio de iniciativas como o WECSAB é reformular o pensamento das compreensões construídas em torno do semiárido brasileiro, a partir do próprio local de realização do evento, como o município de Juazeiro-BA.


TEXTO: Camila Santana/ Lidiane Ribeiro
FOTOS: Patricia Rodrigues

Convivência, Educação e Gênero são temas de livros lançados no WECSAB


      A primeira noite (03/10) do VIII Workshop Nacional de Educação Contextualizada para a Convivência com o Semiárido Brasileiro foi marcada pela apresentação do espetáculo Batuques, da Cia Balançarte, e o lançamento de livros com temas vinculados à convivência e pertencimento com o semiárido, formas de educar e ideologia de gênero.
            O espetáculo Batuques foi criado a partir de pesquisas sobre as identidades do povo negro, trazendo a dança como forma de conhecimento e a arte dentro do ambiente acadêmico. O grupo Balançarte, do diretor-geral Marcos Aurélio, está na estrada há dois anos e vai estar presente durante todo o Wecsab.
           Já os livros lançados abordaram experiências e inquietações de diversos pesquisadores que discutem a convivência com o semiárido, educação e ideologia de gênero, como “Paradigma Cultural II: Gênero, Educação, Trabalho e Etnias”, de autoria de Carla Conceição da Silva Paiva e Edonilce da Rocha Barros; “Educação” e o “Gênero e Diversidade Sexual: Fabricação das Diferenças no Espaço Escola”, de Pedro Paulo Souza Rios e Alane Martins Mendes.

A obra “Paradigma Cultural II: Gênero, Educação, Trabalho e Etnias” aborda a formação de profissionais da educação quanto a temáticas sobre relações de gênero, etnias, sexualidade e formas de pensar como a nossa sociedade tem se portado em relação a essas questões. Na mesma linha “Educação, Gênero e Diversidade Sexual: Fabricação das Diferenças no Espaço Escolar” propõe uma reflexão acerca das questões de gênero e temas relacionados à educação, sexualidade, currículo, feminismo e semiárido.
Já o livro “O Sertão que a TV não Vê: o jornalismo contextualizado com o semiárido brasileiro”, de Fabíola Moura Reis Santos, é fruto de 13 anos de vivência e discussão sobre como a mídia representa o semiárido. A autora propõe uma reflexão do exercício do jornalismo e uma representação mais próxima da realidade multicultural da região. Essa diversidade de olhares sobre o semiárido também foi abordada na obra “Convivência e Cidade: Questões do Verde Urbano no Semiárido Brasileiro”, de Luzineide Dourado Carvalho, que volta o olhar para a recente constituição do cenário semiárido urbano.
     “Território Tradicional de Fundo de Pasto de Bruteiro e Traíra: Territorialidades Contemporâneas e as Lutas pela Reapropriação Social da Natureza”, de Adriana Olívia da Silva, é resultado de uma pesquisa do mestrado com foco na necessidade da reapropriação social da natureza junto com os povos para proteger o Território e as territorialidades das comunidades de fundo de pasto.

     Os livros “Nas EntreLinhas da Educação: Reflexão, Dilemas e Perspectivas”, de Rosiane Rocha Oliveira Santos e o “Designare: Pontos Artístico / Educativas”, de Flávia Maria de Brito Pedroza Vasconcelos, mostram a importância do aprendizado. No “Designare: Pontos Artistico/Educativas”, é construído um olhar critico sobre o saber desenhar na contemporaneidade em pontes do Brasil a Portugal. Já “Nas EntreLinhas da Educação: Reflexão, Dilemas e Perpesctivas”, foi uma elaboração de programa de mestrado e produções de artigos que mostra a educação dos povos do estado do Piauí.
        A obra “Educação e Contextualização: Reflexões de um Saber-Fazer Coletivo”, de Edmerson dos Santos Reis, Adma Hermenegildo Rocha, Edilane Carvalho Teles, Francisca de Assis de Sá, destaca o protagonismo infantil nos assentamentos dos trabalhadores rurais sem terra e a necessidade de construir e utilizar livros didáticos mais contextualizados com a realidade dos sujeitos do processo educativo.
            A noite foi encerrada com o lançamento do E-Book, “Rio São Francisco: Viagem às Cidades Ressurgidas (Pilão Arcado, Casa Nova, Remanso e Sobradinho)”, de Márcia Guena do Santos, fruto de um trabalho na disciplina Fotojornalismo, com os estudantes de pedagogia da Uneb-Campus III. O livro mostra a realidade das cidades alagadas de Casa Nova, Sobradinho, Pilão Arcado e Remanso, localizadas no Norte da Bahia, e como ressurgiram com a forte seca que assolou a região.

              Os livros que foram lançados estarão à venda durante todo o Workshop e podem ser comprados na sala do PPGESA, no Campus III da Uneb, em Juazeiro.
Mais informações disponível no site:https://wecsab.wixsite.com/2018

TEXTO: Kassia Emanuela
FOTOS: Renilson da Silva

A importância da contextualização no aspecto educacional


Princípios, hipóteses, fundamentos teóricos e a prática da educação contextualizada. Essas foram as questões que abriram a primeira tarde de discussões do VIII Workshop Nacional de Educação para Convivência com o Semiárido Brasileiro (Wecsab), no auditório multimídia do DCH III da Universidade do Estado da Bahia (Uneb). Com a participação dos professores Maria Cândida Moraes, da Universidade de Brasília (UNB), Helinando Pequeno de Oliveira, da Universidade do Vale do São Francisco (Univasf) e Josemar Martins Pinzoh, da Uneb, a mesa redonda desta quarta (03) promoveu debate sobre as questões epistemológicas da contextualização para um público de estudantes de graduação, pós-graduação e docentes. 

Partindo de estudos como os do sociólogo, filósofo e antropólogo francês Edgar Morin sobre a existência do sujeito em uma realidade complexa, os professores abordaram o papel fundamental do contexto na construção do conhecimento. Eles ressaltaram que, quando esse sujeito é compreendido como multidimensional, com seus diferentes níveis de percepção do mundo, é possível estabelecer um diálogo mais profundo com a realidade, o que pode contribuir para um melhor entendimento dos processos educacionais.

A professora Maria Cândida, doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), disse que a temática da contextualização no âmbito pedagógico passa, necessariamente, pela dimensão epistemológica e ontológica. "Para entendermos a importância do contexto, precisamos entender a realidade do ser. A realidade é complexa, dinâmica, mutável, indeterminada. Ou seja, é imprevisível. Essa realidade demanda processos que possam se adaptar a ela. Assim, as novas explicações da ciência sobre a realidade - novas bases ontológicas - questionam os pilares antigos relacionados à questão da ordem, da objetividade", comenta.

De acordo com a pesquisadora, a complexidade do ser está configurada em rede - em conjunto com vários elementos sociais, culturais, políticos e econômicos que se relacionam - e o sujeito só pode ser compreendido de acordo com a sua vivência com o meio. "Essa complexidade nos revela que é importante contextualizar os fatos porque, sem um contexto, nada faz sentido. E isso ocasiona mudanças no processo de construção do conhecimento e na aprendizagem. Implica em compreender novas bases epistemológicas, ou seja, novas maneiras de conhecer o ser. É preciso pensar numa reforma do conhecimento para melhor notar e dialogar com a realidade", completa a professora.



Na prática, é possível perceber experiências da inserção de vivências locais sendo aplicadas na metodologia das salas de aula. A caatinga, o rio São Francisco e as particularidades do semiárido são a base de um exercício proposto pelo professor Helinando Pequeno, pós-doutor em Física pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT - Estados Unidos), aos alunos de Engenharia da Univasf. Ao questionar os discentes do curso sobre para quem serve a Ciência, ele desafia os estudantes a buscar soluções que preservem o bioma e que possam contribuir para gerar impactos positivos no contexto regional do Vale do São Francisco.

"A gente percebe, de maneira geral que, infelizmente, não há incentivo das práticas de produção científica, muito menos contextualizadas. A maior parte das escolas não possui laboratórios ou sequer realizam feiras e isso não contribui em nada na internalização dos conceitos. Nós precisamos reinventar não só a Engenharia, mas todas as áreas. Precisamos provar para nossos alunos que eles podem fazer a diferença no meio e transformá-los não apenas em empresários, mas em agentes sociais de transformação, com a capacidade de mudar a vida da mulher e do homem sertanejo", salienta Helinando. 

Ele destaca, ainda, que as formas de convivência levam a novas maneiras de conhecimento e, nesse sentido, se faz necessário o surgimento de novas metodologias. "A leitura da realidade sempre precede a leitura da palavra. Não se pode produzir conhecimento se não entendemos o contexto. A realidade do aluno tem que ser problematizada e, por isso, precisamos criar espaços de diálogos para o intercâmbio de experiências, a fim de estimular práticas metodológicas mais apropriadas".

Mas a educação contextualizada também encontra barreiras. Pinzoh, doutor em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), conta que enfrentou certa incompreensão, inclusive por parte de docentes, ao levar a proposta da contextualização para alguns ambientes. 


"De maneira geral, estamos muito presos a uma realidade de que o que tem valor é aquilo que vem com um emblema universal. Por isso, na maioria das vezes, entendemos que a verdade que buscamos está sempre relacionada a uma matriz distante de nós, produzida em outros lugares, por outras pessoas. Mas nós somos sujeitos ligados a um contexto específico e essa contextualização é essencial para a construção do conhecimento, mesmo que o desafio seja justamente desconstruir alguns conceitos existentes, até mesmo dentro da academia", comenta. 



Contextualizar, de acordo com as experiências dos três professores, significa compreender os processos de construção do conhecimento para melhor dialogar com a realidade, que possui uma natureza complexa. Nesse sentido, Maria Cândida ressalta que a temática do semiárido é de extrema importância atualmente para o cenário da educação. "Quanto mais aprofundadas as questões que circundam esse tema, mais aprofundadas serão as práticas pedagógicas, em todas as áreas".

TEXTO: Giúllian Rodrigues
Supervisão Raiane Sousa 
FOTOS: Tarcila Felix