A arte das tranças afro que brota das mãos de Israiane Brito

MultiCiência 15 janeiro 2026
Foto: Divulgação 
Ser uma trancista é ser uma contadora de histórias que soam há anos, literalmente, na cabeça das pessoas como instrumento de beleza e resistência. Com seus significados cultural e histórico, as tranças de cabelo afro têm uma origem milenar na África Subsaariana e possuem um significado cultural que vai muito além da estética, identidade, status social, etnia, resistência e ancestralidade. 
 
Imagine que todos os fios de uma trança nagô são acordes de uma canção com objetivo de fazer com que aquela história fosse escutada. Tudo isso se sobressai das mãos hábeis de Israiane Brito - uma jovem baiana que conseguiu o talento de mover os dedos e projetar autoestima em pessoas que tiveram esse direito retirados por conta dos preconceitos da vida. Estudante de pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), em Juazeiro, ela tem ganhado a vida “escrevendo” o que ela chama de arte no couro cabeludo de suas clientes. Cada divisão é um parágrafo de uma história que começou muito antes dela nascer.
 
Foto: Luan Barros 

Israiane conta que as tranças surgiram em sua vida durante a adolescência. Aos 5 anos de idade, ela começou alisar as madeixas, repetindo os movimentos da mãe que tinha cabelos crespos, mas optava por alisá-los frequentemente. “Sempre que precisava me arrumar, já na adolescência, eu ia até o salão e alisava os cabelos, influenciada por minha mãe”, lembra Israiane. Aos 12 anos, a garota passou por uma situação desconfortável quando foi a um salão fazer um penteado, a sua cabelereira usou bastante gel. “Na hora do procedimento, ela apertou bastante meu cabelo que acabou ferindo o couro cabeludo”, recorda.
 
Ao chegar em casa, insatisfeita com o serviço, Israiane acabou desfazendo o penteado. De imediato, redefiniu a forma como iria usar o novo penteado desde que lhe fizesse sentir-se bem consigo mesma. Desde a adolescência, a menina vaidosa, teve de encarar diversas situações de racismo por conta de seu cabelo. “Por conta do volume, os colegas de escola chegaram a esconder coisas até o couro cabeludo, insinuando que eu já poderia roubar”, comenta Israiane. Só que ela desprezava a brincadeira de mau gosto e rebatia as ofensas em grande estilo, fazendo penteados ao mesmo tempo que aprendia a fazer tranças “descoladas” que acabam sendo elogiadas por outros amigos.
 
Foto: Luan Barros 

O primeiro contato com uma trancista foi com a amiga Vitória Nascimento, com quem passou a fazer tranças em seus cabelos, utilizando linhas de crochê. Em frente ao espelho, Israiane prestava total atenção, contando cada fio, observando a praticidade até a finalização do trabalho. Já o segundo penteado, foi por manipulado por ela mesma, aplicando o aprendizado diante a vasta experiência que adquiriu com a colega. Aos poucos, foi se aperfeiçoando nas ideias de penteados indo de tranças nagô (raiz) a box braids com cachos, a estilos mais elaborados como coques com tranças.
 
DEDICAÇÃO E PROFISSIONALISMO
 
Quando cursava o terceiro ano do Ensino Médio, Israiane se viu presa por uma pandemia da Covid-19, sem poder trabalhar. Naquele período, se sentiu perdida sem saber que caminho profissional seguir em meio tantos problemas que afetavam a humanidade. Foi aí que lhe vieram os questionamentos: Que profissão seguir depois? Que caminho teria sem poder desfrutar do último ano em sua escola? O que seria necessário para abrir portas em sua vida acadêmica e profissional?

De repente, ela recebeu o convite de uma amiga para que trabalhasse em seu cabelo e a ajudasse a passar por sua transição capilar – serviço que levaria 12 horas de trabalho. De certa forma, dolorido e demorado, mas recompensado. Foi o ponto de partida que a fez seguir o caminho do profissionalismo, focando no talento que tinha em mãos. Investiu em materiais básicos, arrumou um lugar para trabalhar e passou a receber suas primeiras clientes, multiplicando a experiência com cuidado e excelência. 

Foto: Luan Barros 

A cada trabalho que faz, Israiane percebe traços de arte e expressividade nas tranças produzidas. “Minhas mãos gritam, elas vertem a minha arte, são minha ferramenta de trabalho, meu meio de condução, comunicação e expressão”, diz ela, agora especialista em tranças artísticas. Conforme o pedido dos clientes, ela houve as sugestões, troca ideias e faz o possível para resgatar a autoestima de cada um/a, reafirmando a beleza que já vem em cada menina e menino negro de cabelos crespos e cacheados.
 
O amor por seu trabalho endossa, na prática, o que a filósofa Djamila Ribeiro teoriza: 'Estética também é política'. Ao trançar em cada cabeça, Israiane está devolvendo a suas clientes uma identidade que, por muito tempo, o padrão de beleza tentou apagar. Para ela, cada fio trançado conta uma história e a verdadeira beleza não está apenas em cabelos lisos, mas também nas curvas dos seus cabelos cacheados e no volume das madeixas crespas.

Por Cledson Ferreira, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III.