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| Foto:Reprodução |
Fabiano Nunes da Silva é daqueles nordestinos criados no Sertão que se firmam na frase literária “o sertanejo é antes de tudo um forte”, principalmente para quem trabalha com arte. É mais que um oficio, geração de renda e amor pelo que se faz. Basta entrar em seu ateliê repleto de peças de madeira, pó para todos os lados e olhar suas mãos sujas de verniz e cola. Daí, perceber o talento que se revelam nos traços de suas peças. Por outro lado, o corpo com marcas de cicatriz que foram surgindo no dia a dia do trabalho árduo da marcenaria – o que para muitos parece ser simples, mas nem tanto assim.
Aos 37 anos, Fabiano já carrega em sua trajetória, os desafios, dores e glórias de um artesão que sabe bem responsabilidade e os desafios de manter e valorizar seu trabalho manual. No dia a dia, ele abraça sua missão de dar vida e características diversas às suas peças como obra de arte. Tudo isso manualmente. Natural de Serra Talhada, Sertão de Pernambuco, aos 19 anos, o artesão migrou para o Vale do São Francisco, em busca de oportunidades de trabalhos na cidade de Petrolina.
Com escolaridade até a quinta série, antes de conhecer o mundo da arte, Fabiano trabalhou com agricultura em uma roça de sua cidade natal. Com a morte do pai, decidiu migrar com família para Petrolina, pois as coisas não estavam boas para garantir o sustento da família. Ainda na infância, ao observar o pai trabalhar com gesso, despertou seu interesse pelo artesanato, chegando a aprender um pouco da arte. Mais tarde encontrou na madeira sua principal forma de expressão.
Autodidata, Fabiano diz ter produzido sua primeira peça em um momento especial de sua vida ao saber que a esposa, Rayane de Moraes Leonardo, estava grávida. O presente para o filho que ainda não havia nascido, foi um carrinho de madeira, idealizado e produzido manualmente. Aos poucos, o que começou de forma natural como um gesto de afeto, sem grandes pretensões, tornou-se sua principal fonte de renda.
“A marcenaria para mim abriu oportunidades e se tornou tudo. É daqui que eu sustento minha família, compro alimentos, roupa, calçado e pago as contas. Aqui é como se fosse parte da nossa vida, nossa rotina”, afirma o artesão, enquanto molda suas peças. Entre as suas criações, Fabiano sempre despertou maior interesse em produzir peças diversificadas em formato de peixes – pois os animais aquáticos são uma de suas paixões e ocupam lugar especial em sua galeria.
Apaixonado pela pesca, ele esculpe seu artesanato na linha da inspiração, como memoria recente a partir das lembranças das últimas pescarias realizadas com amigos. Sem moldes ou desenhos prévios, apenas a memória e a experiência guiam seu processo criativo. De acordo com Fabiano, nem todo consumidor compreende o valor do trabalho manual. Muitos clientes acabam optando por peças industrializadas de menor qualidade. “O vendedor mostra uma mesa bonita, faz a cabeça do cliente, mas não explica que o material mdf é papelão prensado. A pessoa compra pela aparência, mas quando molha ou dá qualquer problema, acabou, a peça foi perdida”, observa.
Para ele, há sinais de desvalorização do artesanato, o que está diretamente ligada à lógica do menor preço. “O povo quer botar o valor lá embaixo. Tem vontade de comprar, mas quer levar por um preço baratinho. Parece que o artesão é obrigado a vender barato. E não é só comigo, é com todo mundo que trabalha com arte”, argumenta.
PRAZER E DOR
O ofício de fazer arte, muitas vezes conecta prazer e dor. Às vezes deixa marcas no artista que muitos consumidores sequer conseguem perceber. Fabiano, por exemplo, que trabalha diariamente em seu pequeno ateliê, ao lado de sua casa, não esconde marcas de cicatrizes que lhe acompanharão na vida. “Isso aqui foi semana passada. O disco da lixadeira estourou na minha mão que ficou uma semana inteira. Só comecei a mexer o dedo no sábado”, diz ele ao exibir os ferimentos.
A perna esquerda também carrega uma cicatriz profunda, resultado de um acidente que ocasionou um corte profundo e doze pontos. Outros incidentes resultaram em cortes nos dedos e choques elétricos. Certa vez, acabou sendo internado. “Uns três meses depois que feri os dedos, acabei levando um choque e passei três dias internado. Agora a lixadeira estourou na mão de novo”, conta.
As marcas e conquistas através do artesanato não estão visíveis apenas no corpo, mas também na vida familiar e na possibilidade de herança do ofício. Seu filho, Felipe Juan Nunes de Moraes, 5 anos, o mesmo que motivou a criação da primeira peça, demonstra curiosidade pelo ofício do pai. “Eu acredito que meu menino vai querer trabalhar com isso. Ele mexe nas minhas coisas, vive pegando furadeira, lixadeira. Só entra aqui para ‘malinar’”, relata com palavreado de raízes nordestinas.
Talvez seja por isso também que Fabiano acredite que seu legado não terminará quando suas mãos não puderem mais segurar uma lixadeira. Ele espera que o ofício continue com o filho, agora com mais oportunidades que ele próprio não teve. “Tem gente que acha o mundo hoje ruim, mas eu acredito que está bom e vai melhorar. Pode ser que mais na frente, ele seja melhor do que eu, com estudo e um pouco mais de habilidade, consiga fazer coisas melhores”, aponta o artesão, para quem arte é oficio, amor, dedicação e muito trabalho.
Por Mellyssa Cavalcanti, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III.
