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| Foto: André Amorim |
Em um futuro distópico na cidade fictícia Nova Califórnia, Cris, uma jovem recém-formada, retorna à comunidade onde vivem sua mãe Cleide e sua avó Tereza, após a família receber uma ordem de desapropriação de suas terras. Essa é a sinopse do média-metragem ‘Inóspito’, exibido no Teatro Dona Amélia, no Sesc Petrolina. Dirigido por Iale Lima, a trama aborda temáticas como o crescimento desenfreado do agronegócio e poluição ambiental no Semiárido.
O filme foi viabilizado pelo fomento do Governo de Pernambuco, articulado através do Edital de Ações Criativas para o Audiovisual, no âmbito da Lei Paulo Gustavo PE 2023. Para trazer mais detalhes sobre a produção do projeto, Camila Rodrigues, produtora executiva, e Iale Lima, diretora, conversaram com a equipe do Multiciência sobre a criação do universo fictício de “Nova Califórnia” e sobre a relevância de se produzir audiovisual na região.
Iale Lima (Diretora): A ideia inicial surgiu de várias questões que a gente queria falar sobre temáticas sociais dentro do núcleo audiovisual do SESC. A gente já vinha fazendo documentários sobre esses temas e queríamos fazer uma obra de ficção com essa mesma base. Passamos um ano estudando o filme e pesquisando sobre o "Pó Preto", que é algo que acontece diariamente na região. Também pesquisamos acidentes locais e referências de artistas da região que trataram desses temas, que muitas vezes sofrem censura. Mesmo assim, decidimos desenvolver o projeto até o final.
Camila Rodrigues (Produtora): Quando abriram as inscrições para a Lei Paulo Gustavo, vimos o potencial no roteiro que tinha sido criado junto e fizemos a inscrição. Para escrever o roteiro, a gente começou em 2021 e terminou em 2022, mas para gravar foram dez diárias de produção, com mais dez de pré-produção. Com essa aprovação pela Lei Paulo Gustavo de Pernambuco, a gente conseguiu contratar e pagar toda a equipe. Só esse filme envolveu quase 60 pessoas, gerando postos de trabalho diretos, e agora a gente também tá conseguindo realizar exibições com mobilização de público e divulgação.
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| Foto: André Amorim |
Iale Lima (Diretora): Inicialmente, pensei em uma ideia mais afrofuturista, mas os desafios financeiros de uma produção audiovisual nos levaram a desenhar essa Petrolina de "Nova Califórnia" de outra forma. Focamos em detalhes como cores quentes e elementos que sofremos aqui, como o calor, a poluição do pó preto e a falta de saneamento em alguns bairros.
Camila Rodrigues (Produtora): A temática em si, sobre a cultura do capitalismo, onde o poder e o dinheiro são sempre mais importantes do que as pessoas e do que a terra, que é muito forte e muito presente em Petrolina. A gente ficava se deparando, por exemplo, com as queimadas, o pó preto que ficava nas nossas calçadas. Então, não queríamos ser tão panfletário de forma direta, mas é aí onde a arte permite a gente criar essas possibilidades. Embora seja uma Nova Califórnia, que se assemelha à nossa cidade real, ela não existe; os personagens não são reais, não é um documentário, mas a temática ainda é muito atual, por isso que a gente se identifica. A identificação acontece nesse sentido, mas foi também um cuidado nosso pensar esse lugar fictício devido à importância da temática.
MultiCiência: Existiram desafios durante a produção de Inóspito?
Iale Lima (Diretora): Existiram vários, um que me marcou foi a cena após a morte da personagem Teresa. No roteiro, ela iria para um tipo de altar em uma cena externa, mas não encontrei nada tão poético quanto eu desejava fora da casa. Acabei adaptando a cena para ser dentro do quarto dela, de forma mais sentimental. Passei uma hora no set pensando em como realizar essa cena, o que é muito tempo. Também tivemos desafios de som, pois gravamos em um bar e o barulho de pessoas passando ou telefones tocando atrapalhava o que estava sendo captado, mas o resultado deu certo.
Camila Rodrigues (Produtora): Acho que a primeira e maior dificuldade é conseguir alinhar o cronograma com toda a equipe. Porque do dia que a gente teve o resultado da aprovação até o dia da filmagem, levou-se anos, então, desde quando a gente conversou até o momento de realizar, as pessoas já tinham outros projetos, outros trabalhos, outras demandas, então tivemos que fazer substituições e trocas. Além disso, apesar de existir um recurso que viabilizou tudo, ele ainda não reflete totalmente a realidade e isso é uma questão que a gente discute até hoje: as políticas públicas são fundamentais, precisam existir, mas também precisam acompanhar o mercado como ele está hoje.
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| Foto: André Amorim |
MultiCiência: Quando o filme será exibido novamente?
Iale Lima (Diretora): Como o filme "nasceu" recentemente, ainda vamos conseguir mais informações sobre onde ele será exibido e distribuído. Eu tenho escrito algumas histórias, mas de trabalho concreto com a mesma equipe, vou ser assistente de direção de um curta-metragem do Fernando Pereira no mês que vem. Particularmente, continuo no processo de escrita para realizar outros filmes no futuro.
Camila Rodrigues (Produtora): O “Inóspito” ainda vai rodar, ele precisa ter esse tempinho ainda de circular em festivais, em mostras e em outros projetos de cinema. Muitos desses projetos dependem que o filme não seja público, pois precisam da questão do ineditismo. Então, muito possivelmente, a gente ainda vai segurá-lo por um ou dois anos para fazê-lo circular mesmo. Mas, isso não quer dizer que a gente não vá realizar exibições, que não vamos convidar o público ou que não vá ter exibições gratuitas. A gente, na verdade, quer fazer o filme rodar para que as pessoas vejam mesmo.
A Abajur Soluções Artísticas, produtora do filme, ainda vai realizar outros filmes este ano, como o curta-metragem “Alimentadeiras de Alma” e o documentário “Juventudes da Periferia”.
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| Foto: André Amorim |
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