Projeto Conhecimento em Lives

Multiciência 08 outubro 2020



Reflexões Discentes


        Um vírus, invisível e algumas vezes, até mortal, fez o mundo parar. Talvez, a crise atual, causada pela Covid-19, seja a mais grave da história recente do planeta, fazendo o ano de 2020 marcante, pelas tensões que temos vivenciado. Os impactos provocados pela pandemia afetaram e, ainda afetam, diversos setores da sociedade, aumentando o índice de desemprego, acentuando as desigualdades econômicas e sociais, provocando alta demanda no sistema de saúde, dentre tantas outras consequências para a população global.

Nesse cenário, a educação no Brasil e no mundo vem sofrendo implicações com o distanciamento social, que até o momento é a medida de segurança efetiva contra o vírus. O fechamento repentino de instituições de ensino, desde março, trouxe um novo paradigma para a educação, exigindo a adaptação de professores, pais e alunos, acostumados com o formato de ensino presencial.

Ao contrário do que aconteceu com muitas escolas de educação básica, que tiveram que se adaptar à nova realidade de ensino remoto, a Universidade do Estado da Bahia(UNEB), diante do cenário atípico, sofreu um tipo de blackout, o que ocasionou o adiamento do início do semestre 2020.1, agora, felizmente com previsão de retorno. Assim, foi nesse contexto de apatia do ensino superior na universidade pública e como uma tentativa de ressignificação do momento atual, que surgiu o projeto “Conhecimento em Lives”, com a utilização de recursos entendidos como viáveis ao acesso da comunidade naquele momento, uma vez que, concordamos com Lupinacci (2020, p.2), que

Ao bagunçar o estado de normalidade e livre circulação de pessoas, a pandemia acaba tornando ainda mais complexas as nossas possibilidades de ‘estar no mundo’ através das tecnologias de comunicação, trazendo então as experiências ‘ao vivo’ digitalmente mediadas para o epicentro das nossas rotinas agora primordialmente caseiras. Uma vez em que você se encontra em uma situação de confinamento, qualquer coisa para além da porta de casa vira ‘remota’ ou ‘distante’, e acessível apenas através de tecnologias de comunicação.


Nesse sentido, o projeto nasce com o objetivo de tornar as experiências do isolamento significativas quanto aos saberes, proporcionando ‘novos’ diálogos. Assim, começa a emergir a ideia de algo que pudesse suprir a carência deixada pela ausência dessas trocas proporcionadas nas aulas presenciais, a partir do uso de um recurso que começava a se destacar nas redes sociais durante a pandemia, as lives, as quais possibilitaram transmissões em tempo real por meio de plataformas.

Para os idealizadores do projeto, a manutenção do vínculo era muito importante e, para isso foi escolhido o aplicativo Instagram, na página estudantil @_uneblf, atuando de forma bastante interativa e simplificada com aqueles que assistiam, ou ao vivo, “melhor solução para conectar pessoas e deixa-las fazer parte daquilo que importa para elas pessoalmente, instantaneamente, e independente de distâncias geográficas” (LUPINACCI, 2020, p. 6) ou gravado, em outro momento. Além do Instagram, onde era realizada a transmissão, a divulgação do projeto acontecia em diversas redes sociais (Facebook, WhatsApp, Instagram, Sites).

A partir dos estudos e da experiência prática, pudemos identificar os tipos performáticos das Lives como “musical, conversacional, instrutivo, de pronunciamento, e de companhia” (LUPINACCI, 2020, p.7) e relacioná-los com o projeto, que entendemos ser por vezes ‘lives de companhia’, com a intencionalidade de um laço afetivo claro, a partir de atividades cotidianas e da vontade de estar junto com aquele que está assistindo, além de conversacionais, 


[...] o foco encontra-se em uma interação dialógica entre dois ou mais participantes. Tais conteúdos por vezes se assemelham a uma entrevista informal, em que um convidado apresenta questões sobre um tema, tópico ou problema específico, e o(s) outro(s) respondem. Em outras ocasiões, o caráter fático é mais preponderante do que a informação ou troca de ideias, e o importante é a manutenção do vínculo comunicativo por si mesmo, mais até do que qualquer que seja o tópico ou assunto discutido (LUPINACCI, 2020, p.7-8).


Em um primeiro momento pensamos em fortalecer os laços dos discentes com a Universidade, propondo à coordenação e professores dos cursos, um diálogo sobre temáticas voltadas à infância e saúde mental. Porém, não era suficiente às demandas dos estudantes e equipe organizadora que sugeriam músicas, contação de histórias, literatura, meio ambiente, saúde física, economia e projetos de todo o Brasil, que entendíamos fazer a diferença em situações críticas como o feminicídio e violência infantil. Nesse sentido, a proposta se caracterizava pela autonomia estudantil, idealizado por discentes do curso de Pedagogia e contando com a participação de outros estudantes para as mediações.

A metodologia de planejamento se dava a partir de reuniões com a equipe organizadora, para a escolha dos colaboradores a serem convidados. Muitos indicavam as lives como primeira a participar, assim, o roteiro era uma construção entre mediador e convidado. Os mediadores eram escolhidos a partir dos temas com maior interesse e disponibilidade nas datas escolhidas.

Estes momentos mobilizavam pensar sobre o protagonismo discente, importante alicerce em todo o projeto, pois, entendemos que, a partir das práticas desenvolvidas nos ‘bastidores’ ou nas mediações, fortalecemos laços com a comunidade acadêmica e afins, além de construir sentimento de pertencimento. 

Os encontros resultaram em reflexões férteis, intensas e inspiradoras sobre os mais diversos temas, vinculando a ação e trocas significativas. Nesse sentido, acreditamos que a nossa formação está no caminho certo, pois, como traz Paulo Freire (2000, p. 47) “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou sua construção.”

Linley Martins, uma das mediadoras do projeto, traz um depoimento sobre aprendizagens e sentimentos despertados no decorrer do processo:  


“Quando recebi o convite para ser mediadora, foi um misto de felicidade e medo. Eu estaria conversando com convidados diversos, sobre temas diversos em um projeto de duas queridas, que queriam diminuir a saudade em meio ao distanciamento social que estávamos vivendo. […] foi um projeto lindo, que tenho orgulho de ter feito parte. Aprendi muito, conheci pessoas, conversei sobre temas relevantes em um momento de dificuldade, uma pandemia. Saber que muitas pessoas estariam assistindo me dava um "frio na barriga", porém perceber que pelo menos durante 1h aproximadamente estaria conversando com colegas, professores e que poderia diminuir esse distanciamento matando um pouquinho a saudade, me dava a segurança que precisava para fazer. Tenho muito a agradecer […] pelo convite, aos profissionais com quem conversei pelo aprendizado compartilhado e a todos que assistiram e ainda assistem às lives gravadas. Foi uma experiência ímpar!”


Ao todo foram mais de cinquenta temas abordados no projeto envolvendo profissionais de diversas áreas entre elas, educação, saúde, direito, contabilidade, jornalismo, dentre outros. Foram realizadas dez edições com convidados de diferentes regiões do Brasil e até mesmo fora dele, mostrando que o conhecimento atravessa fronteiras e liga pessoas. Segue abaixo quadro com os temas abordados.


CONHECIMENTO EM LIVES


Ed.

Tema

Convidado

Data

A importância da UNEB em Lauro de Freitas

Maria Helena Amorim

04/05/2020

A Saúde Mental dos Universitários

Andreza Mendes

05/05/2020

Conhecendo a Brinquedoteca Cora Coralina

Marta Pereira

06/05/2020

A importância do DCE para os estudantes

Gustavo Mascarenhas

06/05/2020

A minha experiência de monitoria na brinquedoteca Cora Coralina

Linley Martins

07/05/2020

Filtro do momento da Saúde Mental

Emily Brandão

08/05/2020

Momento Musical

Nadine Braga

08/05/2020

A importância da mediação no autismo

Maria Carolina Silva

18/05/2020

As implicações da pandemia no trabalho da gestão escolar

Cláudia Dias

19/05/2020

O retrato holográfico da educação escolar e universitária em tempos de pandemia

Antônio Amorim

20/05/2020

Ansiedade em tempos de isolamento social e na vida universitária

Marivaldina Bulcão

21/05/2020

Novas tecnologias e redes sociais como ferramenta pedagógica

Hugo Ricardo Silva

22/05/2020

Live show: Sábado à noite voz e violão

Drica Neves

22/05/2020

Oficina: ludicidade Corporal

Marta Pereira

01/06/2020

Competências de professores para a educação durante e pós a  pandemia

Gabriella Santana

02/06/2020

Educação inclusiva em tempos de pandemia

Mamary Lopes

03/06/2020

Transformação e Resistência: A atuação do educador social em projetos

Liliane Rocha

04/06/2020

Momento Musical

Eduardo Conceição

05/06/2020

Conversa da tarde

Carlos Correia

15/06/2020

Pandemia e vivências contemporâneas: Vidas negras importam?

Ariane Munique

16/06/2020

Novas perspectivas e conjuntura de vida mediante cenário do distanciamento social

Leticia Figueredo

17/06/2020

Live Musical

Rodrigo Metais

18/06/2020

Literatura e relações étnico-raciais

Marcos Aurélio Souza

19/06/2020

Ressignificando os espaços da nossa casa

Gisele Lopes

29/06/2020

A literatura e a formação do leitor

Silvio Carvalho

30/06/2020

Ensino Remoto, Ensino online e EAD – Compreendendo e diferenciando os conceitos e práticas

Kátia Marise Sales

01/07/2020

A criatividade literária na idade escolar

Fabiana Mariano

02/07/2020

A importância da literatura infantil na Bahia e seu papel em tempos de pandemia

Palmira Heine

03/07/2020

A vivência do Yoga na infância

Luiza Moura

13/07/2020

COVID-19: Como e quando diagnosticar, mitos e desafios na saúde pública

Tereza Rocha

14/07/2020

Conhecendo o Portal do trabalhador (in) formal (Educação Contábil Custos; Educação Contábil Fiscal/Trabalhista; Projeto Abaê Motô; Educação financeira e a RBE para trabalhadores informais; Educação Empreendedora;

Gisele Gomes; Júlia Mariana; Viviane Barbosa; Milena Costa; Amanda Polidade; Clayton Rocha

15/07/2020

Meio Ambiente e Pandemia: Como será daqui pra frente?

Luan Lessa

16/07/2020

Momento Musical

Banda Brisas

17/07/2020

Memórias afetivas dentro da educação

Winnie Lorena

27/07/2020

Ressignificando o luto no contexto da pandemia COVID-19

Leticia Figueiredo

28/07/2020

O desafio da inclusão no ambiente escolar

Jadson Santos

29/07/2020

Nós por Elas

Emily Brandão

30/07/2020

As experiências estéticas em tempos de pandemia

Mônica Bitencourt


31/07/2020

Agosto é o mês das Marias

Celina de Almeida

10/08/2020

Reeducação alimentar e pandemia

Vanessa Santos

11/08/2020

O brincar da criança com deficiência

Verena Ballalai

12/08/2020

Live Musical

Rodrigo Metais

13/08/2020

A invisibilidade da mulher na historiografia brasileira

Tainara Moraes

14/08/2020

Afinal...O que é autismo?

Maria Carolina Silva

24/08/2020

Imagem na Educação Infantil

Adriana Campana

25/08/2020

Reforma Tributária

Ricardo Xavier

26/08/2020

Educação Afrocentrada

Taisa de Sousa Ferreira

27/08/2020

Sextando com a Braga

Nadine Braga

28/08/2020

10ª

Direito Trabalhista

Joelma Boaventura

07/09/2020

10ª

Eu me protejo: Educação acessível e inclusiva contra a violência

Patrícia Almeida

08/09/2020

10ª

Suicídio: Perspectivas para além do setembro amarelo

Leticia Figueiredo

09/09/2020

10ª

Conhecendo o projeto Setembro Expressões

Marta Pereira e Maiara Santos

10/09/2020

10ª

Live Musical

Rodrigo Metais

11/09/2020


O Conhecimento em Lives possibilitou aprendizados únicos, a cada dificuldade tínhamos a oportunidade de exercitar a resiliência, paciência, foco, empatia (antes, durante e após). A cada nova edição, percebemos no decorrer do processo a evolução profissional em formação de cada mediador. Os conhecimentos adquiridos foram além dos temas discutidos durante os encontros e tivemos que aprender coisas novas para estruturar no projeto desde a organização, contato com convidados e imprensa, produção de flyer de divulgação, gerenciamento de redes sociais, até chegar aos estudos dos temas mediados, um processo de construção diária que pode ser percebido a cada nova edição.

Em meio a pandemia, foi possível conhecer novos “rostos”, ouvir seus amores e dores acerca do momento vivenciado, e fortalecer um movimento em prol de uma educação que permita ao sujeito agir com criticidade e reflexão sobre a ação; o distanciamento físico não poderia ser uma barreira na luta por uma educação de qualidade e de trocas entre os sujeitos, pois, sem diálogo, sem as várias vozes, nada acontece, nada muda. Nós, Ana Bárbara Vieira e Carina Ribeiro acreditamos em uma educação autônoma e de constante trocas por todos e para todos.

       Colaboradores e mediadores do projeto: Daniela Jacó, Linley Martins, Mario Omar, Saul Queiroz e Gisele Gomes.


Referências 


FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 50. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.


LUPINACCI, Ludmila. "Da minha sala pra sua": Teorizando o fenômeno das lives em mídias sociais. Disponível em: file:///C:/Users/didaa/Downloads/960-Preprint%20Text-1433-2-10-20200714.pdf. Acesso em 05 out. 2020.



Autoras e idealizadoras do projeto:



Ana Barbara Santos Vieira


Estudante de Pedagogia, Universidade do Estado da Bahia - DEDC I / CALFRE

Monitora voluntária da Brinquedoteca Cora Coralina

Membro participante do Projeto Polifonia 

Faz parte da equipe de gestão das redes sociais dos estudantes da UNEB LF




Carina Rosa Alves Ribeiro

Estudante de Pedagogia, Universidade do Estado da Bahia - DEDC I / CALFRE

Monitora voluntária da Brinquedoteca Cora Coralina

Membro participante do Projeto Polifonia

Responsável pela administração das redes sociais dos estudantes no Instagram e Facebook da UNEB CALFRE