Laíse Almeida é a “moça bonita” que na sua rotina transita entre o comércio informal e o sonho em ser advogada”

Foto: Arquivo Pessoal

Laíse Adriana Almeida, 38 anos, é uma trabalhadora autônoma que não foge à luta da rotina de trabalho para se manter e realizar seus sonhos. Há poucos anos, ela viu na venda informal de “bala baiana” – um bombom de coco caramelizado de dar água na boca - uma fonte de renda para custear sua estadia em Petrolina, Sertão do São Francisco. Na maior cidade da região que liga Pernambuco à Bahia, sua missão é cursar Direito em uma faculdade particular. Natural de Curaçá (BA), sua inspiração e garra já vem dos ensinamentos dos pais, que mesmo em meio a criação dos filhos e a batalha da mãe contra um câncer terminal, nunca desistiu.

“Eu quero o melhor, eu posso ter o melhor e vou ter o melhor”, repete Laíse como num mantra de fé, pontuando seu lema de ir atrás do sonho para se tornar advogada criminalista. Ele sabe que nada é difícil quando se persiste com dedicação e estudos, quebrando as trincheiras dos desafios que é cursar nível superior.

A virada de chave da empreendedora iniciante veio em março de 2025, quando Laíse foi vender salada de frutas em meio à multidão eufórica no carnaval de Salvador. Literalmente, atrás do trio elétrico do cantor de axé, Saulo Fernandes, ela enfrentou o empurra-empurra  para fisgar os foliões da pipoca — trio sem cordas, gratuito e aberto ao público. Para chamar a atenção do artista, a vendedora improvisou seu marketing e anexou na tampa de seu isopor um cartaz, com o seguinte slogan de forma apelativa: “Saulo, me ajude a virar advogada” para chamar a atenção do artista.

De cima do trio, o cantor viu a cena, parou o show e autorizou à sua produção para que a vendedora subisse no carro. E, assim, foi feito para surpresa e emoção de Laíse.  O cantor respondeu com total empatia possível e comprou toda a mercadoria se comprometendo a custear toda a sua graduação.
“Foi inacreditável, ele foi um anjo na minha vida, como a própria música dele diz”, ressaltou a futura advogada que atualmente, cursa direito na rede UniFTC. Pouco antes do carnaval, ela estava no 4º semestre, mas sem condições financeiras de continuar pagando as mensalidades. Agora, apesar de estar com o curso integralmente pago, ela gasta muito com a estadia e deslocamento entre Curaçá e Petrolina, que ficam a cerca de 94 km de distância uma da outra.

Sua alternativa para garantir o sustento foi empreender mais uma vez. Hoje, ela vende “bala de moça” ou como costuma chamar a bala baiana, em uma das esquinas da movimentada avenida Souza Filho, no centro de Petrolina. Por lá, a vendedora já é uma figura marcante pelo seu alto astral, lábia e carisma, apelidada carinhosamente pelos clientes e colegas ambulantes de “moça bonita”.

Mas, as necessidades dela não se limitam aos custos básicos em Petrolina. Além de custear a faculdade, Laíse sustenta seus três filhos que residem em sua cidade de origem. “Eu quero dar orgulho aos meus filhos, a meu esposo, que eles possam dizer que tem uma mãe/esposa advogada”. Enquanto isso, ela vai vendendo seus doces e mergulhando nos livros para além de leis e códigos, sem esconder sua ética, responsabilidade e simpatia. Uma advogada em construção acadêmica. 
Foto: Arquivo Pessoal

Por Gabriel Santiago, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III.

Railene Borges: “Tornei-me manicure pelo olho e um dom que Deus me deu"


Foto: Arquivo Pessoal


Vermelho clássico, nude, preto, branco, rosa vibrante, azul royal, verde menta e roxo metálico. Essa aquarela moderna de cores de esmaltes que dão vida às unhas das mulheres já prendia o olhar da menina Railene Vieira Borges naquela transição da infância para a adolescência. Ela ficava de olhos brilhando quando via uma manicure em atividade no ciclo familiar ou entre amigas. E, foi esse cenário da vida real, que a fez abraçar a profissão a partir do final dos anos 1990.
 
Impulsionada pelo sonho e vaidade de menina, algo comum dentre toda geração de adolescentes, ela sempre quis fazer as próprias unhas. Mas, percebeu que podia trabalhar profissionalmente, ganhar dinheiro e ajudar a família. Aos poucos, foi descobrindo seu dom natural e ainda buscou se aperfeiçoar para dar o melhor na profissão de manicure/ pedicure, que no Brasil remonta à década de 1920, impulsionada pela influência da moda europeia e pela expansão dos salões de beleza, popularizando-se intensamente nos anos 50.
 
Natural de Fumaça, comunidade de Pindobaçu, norte da Bahia, ela nasceu no berço de uma família simples e trabalhadora. Ela é filha de José Vieira Borges e da dona de casa Joseni Vieira Borges, primos carnais. Os pais sempre lhe deram liberdade para pensar a profissão pela qual se dedicou.

No meio do caminho, uma curiosidade que comprova o talento natural. "Nunca fiz curso, foi no olho e um dom que Deus me deu", afirma Railene, que aos 44 anos já tem muita história para contar. Ela lembra que suas primeiras experiências profissionais aconteceram logo que chegou a Juazeiro, numa  fase em que cobrava R$ 8 para fazer as unhas dos pés e das mãos.
 
Não demorou muito para conseguir a primeira cliente, uma vizinha chamada Fátima, que passou a frequentar seu salão constantemente. A partir disso, o negócio cresceu organicamente, e Railene passou a atender a filha de Fátima, depois a irmã e as outras vizinhas. “ Desde o início e até hoje em dia, a maioria das clientes que eu conquistei foi por causa da propaganda boca a boca, até porque eu não tinha condições de investir em publicidade”, conta.
 
Foto: Arquivo Pessoal

Se no início ela cobrava R$ 4 por serviço e dependia de ligações telefônicas. Hoje, ela é uma nail designer e cobra R$ 50 para fazer mãos e pés. O WhatsApp é sua principal ferramenta de comunicação e trabalho. É  através do aparelho celular que ela gerencia uma agenda lotada de trabalho ao longo da semana. Muitos dos novos clientes a encontram por lá, veem as fotos, entram em contato.
 
Empreendedora antenada com as novidades do mercado, ela dispõe de um estoque de mais de 150 esmaltes e está sempre se atualizando através das redes sociais. Para ir até à clientela, Raislene se desloca em sua moto para atender famílias inteiras, chegando a cuidar de seis pessoas em uma única residência. “Sempre foco na qualidade do meu serviço e na relação com as clientes em vez de desperdiçar tempo observando o que minhas concorrentes estão fazendo”, argumenta.
 
Mais do que técnica, o trabalho dela se comporta como pilar de sua independência. Na condição de mãe solo, foi através das unhas que ela criou as duas filhas, Raíla e Pâmela. Hoje, com as meninas crescidas, seus objetivos mudaram de patamar. "Antes minha renda era para sustentar a casa, agora trabalho pelo propósito de novas conquistas", enfatizou.

Por Guilherme Passos, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III.

Djalma, um marceneiro movido pela curiosidade , dedicação e amor à sua arte

Em um mundo em constante transformação, principalmente no campo do trabalho, e diante dos avanços tecnológicos, cada vez mais, presente em nosso dia a dia, o serviço manual ainda segue ocupando um lugar de destaque na sociedade. Não faltam profissionais atuantes em vários segmentos e muitos menos consumidores atrás de seus serviços. Isso se deve, sobretudo, ao cuidado, dedicação e à precisão que muitos profissionais exercem com talento e resultado.
Foto: Arquivo Pessoal

Natural de Valença, município localizado no litoral baiano, Djalma Oliveira, 44, atua há cerca de cinco anos no ramo da marcenaria. Em seu espaço de trabalho, produz móveis planejados com precisão, para melhor atender às encomendas. No entanto, nem sempre essa foi a realidade de Djalma.
Durante 22 anos, ele trabalhou como montador de móveis - atividade distinta ou até mesmo paralela em meio à rotina prudutiva propriamente dita. “Eu só fazia montar móveis de loja na casa dos clientes”, relembra.
 
A mudança de trajetória ocorreu quando o profissional começou a prestar serviços para uma loja de móveis planejados. Inicialmente, trabalhava para ajudar um amigo. Foi nesse momento que surgiu a transição de carreira, feita, como ele próprio define, “com a cara e a coragem”.
 
Algum tempo mais tarde, ao decidir abrir a própria loja de móveis planejados, o marceneiro enfrentou diversos desafios, a começar pela necessidade de investimentos. À época, destaca ele, uma das barreiras era o alto custo do maquinário e a falta de experiência técnica para a nova jornada de trabalho.
 
“O maquinário sempre está caro e, além disso, tem a questão do desempenho profissional. Como eu estava entrando em uma outra área, muita coisa eu nem sabia direito ainda, eu fazia na curiosidade mesmo”, explica Djalma, evidenciando uma característica que se tornou fundamental em sua trajetória que é a curiosidade.
 
Djalma explica que não teve quem o ensinasse diretamente na profissão. “Não foi um pai, um irmão, um tio, não. Aprendi com os colegas. Muita coisa eu aprendi na curiosidade. De vez em quando, ia no YouTube e pesquisava uma coisa e outra”, relata. O uso das plataformas digitais como aliadas no processo de aprendizado também tem reforçado o desempenho de Djaima que pretende expandir seu trabalho.
 
Em relação à concorrência, o marceneiro afirma não enxergá-la como um problema. Para ele, o diferencial está na qualidade do serviço prestado. “Quando a pessoa faz o trabalho correto e cumpre os prazos, não tem problema. Há concorrência quando você deixa te colocarem para trás”, afirma.
 
Diante de um setor que se reinventa constantemente, Djalma acompanha as transformações da marcenaria e reconhece a necessidade de atualização contínua. “Tem que ir na curiosidade, acompanhar as mudanças e as novidades do setor, comprar e ver como é que usa. Tem que se virar”, completa ele com a convicção e postura de quem construiu sua trajetória profissional com iniciativa, aprendizado contínuo e dedicação ao ofício que garante o sustento da família. Um trabalho digno e apaixonante para ele que após concluir cada serviço, o enxerga também como arte. 

 
Por Wanny Karen Andrade, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III. 

A arte das tranças afro que brota das mãos de Israiane Brito

Foto: Divulgação 
Ser uma trancista é ser uma contadora de histórias que soam há anos, literalmente, na cabeça das pessoas como instrumento de beleza e resistência. Com seus significados cultural e histórico, as tranças de cabelo afro têm uma origem milenar na África Subsaariana e possuem um significado cultural que vai muito além da estética, identidade, status social, etnia, resistência e ancestralidade. 
 
Imagine que todos os fios de uma trança nagô são acordes de uma canção com objetivo de fazer com que aquela história fosse escutada. Tudo isso se sobressai das mãos hábeis de Israiane Brito - uma jovem baiana que conseguiu o talento de mover os dedos e projetar autoestima em pessoas que tiveram esse direito retirados por conta dos preconceitos da vida. Estudante de pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), em Juazeiro, ela tem ganhado a vida “escrevendo” o que ela chama de arte no couro cabeludo de suas clientes. Cada divisão é um parágrafo de uma história que começou muito antes dela nascer.
 
Foto: Luan Barros 

Israiane conta que as tranças surgiram em sua vida durante a adolescência. Aos 5 anos de idade, ela começou alisar as madeixas, repetindo os movimentos da mãe que tinha cabelos crespos, mas optava por alisá-los frequentemente. “Sempre que precisava me arrumar, já na adolescência, eu ia até o salão e alisava os cabelos, influenciada por minha mãe”, lembra Israiane. Aos 12 anos, a garota passou por uma situação desconfortável quando foi a um salão fazer um penteado, a sua cabelereira usou bastante gel. “Na hora do procedimento, ela apertou bastante meu cabelo que acabou ferindo o couro cabeludo”, recorda.
 
Ao chegar em casa, insatisfeita com o serviço, Israiane acabou desfazendo o penteado. De imediato, redefiniu a forma como iria usar o novo penteado desde que lhe fizesse sentir-se bem consigo mesma. Desde a adolescência, a menina vaidosa, teve de encarar diversas situações de racismo por conta de seu cabelo. “Por conta do volume, os colegas de escola chegaram a esconder coisas até o couro cabeludo, insinuando que eu já poderia roubar”, comenta Israiane. Só que ela desprezava a brincadeira de mau gosto e rebatia as ofensas em grande estilo, fazendo penteados ao mesmo tempo que aprendia a fazer tranças “descoladas” que acabam sendo elogiadas por outros amigos.
 
Foto: Luan Barros 

O primeiro contato com uma trancista foi com a amiga Vitória Nascimento, com quem passou a fazer tranças em seus cabelos, utilizando linhas de crochê. Em frente ao espelho, Israiane prestava total atenção, contando cada fio, observando a praticidade até a finalização do trabalho. Já o segundo penteado, foi por manipulado por ela mesma, aplicando o aprendizado diante a vasta experiência que adquiriu com a colega. Aos poucos, foi se aperfeiçoando nas ideias de penteados indo de tranças nagô (raiz) a box braids com cachos, a estilos mais elaborados como coques com tranças.
 
DEDICAÇÃO E PROFISSIONALISMO
 
Quando cursava o terceiro ano do Ensino Médio, Israiane se viu presa por uma pandemia da Covid-19, sem poder trabalhar. Naquele período, se sentiu perdida sem saber que caminho profissional seguir em meio tantos problemas que afetavam a humanidade. Foi aí que lhe vieram os questionamentos: Que profissão seguir depois? Que caminho teria sem poder desfrutar do último ano em sua escola? O que seria necessário para abrir portas em sua vida acadêmica e profissional?

De repente, ela recebeu o convite de uma amiga para que trabalhasse em seu cabelo e a ajudasse a passar por sua transição capilar – serviço que levaria 12 horas de trabalho. De certa forma, dolorido e demorado, mas recompensado. Foi o ponto de partida que a fez seguir o caminho do profissionalismo, focando no talento que tinha em mãos. Investiu em materiais básicos, arrumou um lugar para trabalhar e passou a receber suas primeiras clientes, multiplicando a experiência com cuidado e excelência. 

Foto: Luan Barros 

A cada trabalho que faz, Israiane percebe traços de arte e expressividade nas tranças produzidas. “Minhas mãos gritam, elas vertem a minha arte, são minha ferramenta de trabalho, meu meio de condução, comunicação e expressão”, diz ela, agora especialista em tranças artísticas. Conforme o pedido dos clientes, ela houve as sugestões, troca ideias e faz o possível para resgatar a autoestima de cada um/a, reafirmando a beleza que já vem em cada menina e menino negro de cabelos crespos e cacheados.
 
O amor por seu trabalho endossa, na prática, o que a filósofa Djamila Ribeiro teoriza: 'Estética também é política'. Ao trançar em cada cabeça, Israiane está devolvendo a suas clientes uma identidade que, por muito tempo, o padrão de beleza tentou apagar. Para ela, cada fio trançado conta uma história e a verdadeira beleza não está apenas em cabelos lisos, mas também nas curvas dos seus cabelos cacheados e no volume das madeixas crespas.

Por Cledson Ferreira, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III.

Reilde Pereira - Uma costureira antenada com as transições da moda entre revistas tradicionais e plataformas digitais

Foto: Maria Luiza do Nascimento


Um profissional que se preze, no mundo de alta concorrência, sempre deve estar atento aos sinais de mudança no horizonte do consumidor. Imagine quem vive da moda, de vestir o outro. A costureira baiana Reide Pereira sabe bem o que isso significa. Há pouco mais de três décadas, ela vive, diariamente, a rotina de criar em meio uma profissão autônoma e manual, conforme a demanda de serviços.

Dizer que costureira nunca sai de moda, não é lugar comum, é também uma arte. Historicamente, a profissão de costureira no Brasil ganhou força com a industrialização e as máquinas de costura no século XIX, evoluindo de uma arte doméstica para uma atividade econômica que move o setor de confecções.

A trajetória de Reilde é cheia de nuances que lhe competem o título de mulher aguerrida, sempre pronta para o trabalho. Rebobinando sua história de vida, nada foi fácil até aqui. Nascida no município de Sento Sé, no Norte da Bahia, no ano de 1974, ainda na infância, aos 12 anos, a garota mudou-se para Juazeiro com a família. Não muito longe da sua terra natal, ela já tinha consciência de que a nova cidade podia lhe oferecer um futuro melhor.

 Na adolescência, passou a trabalhar como babá e empregada doméstica para ajudar nas despesas da casa, onde vivia com a matriarca e cinco irmãos. A mãe já era costureira e exercia o ofício dentro de casa, aos olhos dos filhos e da clientela. Nessa fase, a menina Reilde não demonstrava nenhum interesse pela profissão, mas admirava o talento da mãe na arte da costura.

Dedicada aos estudos, após concluir o Ensino Médio, aos 18 anos, formou-se no curso técnico de Contabilidade. Seu objetivo, no entanto, era entrar para faculdade e cursar Direito. Naquele momento, o sonho se via inviável diante a ausência do curso em instituições públicas da cidade e pela falta de recursos financeiros para estudar em uma faculdade particular.

Ao perceber que a remuneração na área contábil era insuficiente, Reilde buscou oportunidades em outros setores. Foi nesse contexto que, de forma inesperada, ingressou em uma fábrica de costura. Ali, aos 17 anos, aprendeu o ofício que havia acompanhado de perto durante a infância e jamais imaginaria seguir a rotina debruçada em uma máquina de costura.

A nova experiência lhe marcou o início definitivo de sua carreira como costureira. Durante a década de 1990 e início dos anos 2000, ela deu um novo salto na profissão que herdou da mãe.
“Tive a experiência importante que foi trabalhar em fábricas de confecção na cidade vizinha de Petrolina (PE), o que me trouxe novos conhecimentos. Em 2005, veio o nascimento de minha filha e tive que deixar o trabalho industrial para a atuar de forma autônoma em casa, produzindo roupas de moda feminina sob encomenda”, conta.

O cenário do ateliê de Reilde é ocupado por tecidos, linha, botões, zíper e máquinas de costura industriais. A rotina é intensa: ela trabalha das 7h às 19h, dividindo o tempo entre a produção das peças e o atendimento aos clientes. Para ela, o maior prazer da profissão está na satisfação de quem encomenda as roupas. “O que mais gosto é ver o cliente feliz com o resultado e receber os feedbacks do meu trabalho”, afirmou.

Anos depois, em 2021, a costureira transferiu o ateliê para a residência da mãe que passou a ter problemas de saúde após ser diagnosticada com complicações de saúde decorrentes da COVID-19 - o que lhe permitiu conciliar o trabalho com os cuidados familiares. Literalmente os ideais do passado ficaram para traz. Reilde agora olha para frente quando o assunto é a profissão que acabou abraçando. “As pessoas gostam de saber que sou costureira. Sempre que conto, logo pedem uma vaga na minha agenda. Defino o preço do meu trabalho conforme a serviço e sou paga de forma justa”, relata a costureira.

Segundo ela, o diferencial da costura sob medida está na exclusividade. “As pessoas gostam de encomendar porque podem pedir exatamente do jeito que querem. É uma peça única, não existe outra igual”, explica. 

Ela aponta que um dos desafios do exercício da profissão em Juazeiro, é a dificuldade de encontrar aviamentos variados e compatíveis com as cores dos tecidos. Ainda assim, ela reconhece que a popularização das redes sociais facilitou o processo criativo. “Antes, as referências vinham das revistas de moda. Hoje, os clientes trazem inspirações do Instagram, Pinterest, Google Imagens e até da televisão. Isso ajuda muito na construção da ideia da roupa”, conclui.
Com uma trajetória profissional construída entre a necessidade e a descoberta, Reilde Pereira agora expande suas habilidades de “costureira antenada” com a modernidade.  Ela transformou o que antes parecia improvável em sustento, identidade e reconhecimento profissional. É uma costureira que transita no corredor da memória afetiva da mãe, a carga de empatia para com sua clientela que lhe depositam confiança.

Por Maria Luiza do Nascimento, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III.

Profissões: Multiciência publicará série de perfis de microempreendedores independentes

Foto: Reprodução/Internet

A tecnologia extinguiu algumas profissões antigas e transformou radicalmente muitas outras, exigindo adaptação contínua e novas competências dos profissionais. O embate tecnológico não "acaba" com o trabalho, mas o reinventa, automatizando tarefas repetitivas e criando novas áreas. E o que dizer dos profissionais que seguem nadando contra à maré, usando os caminhos das tecnologias ou não, porém, cada um tem seus “artifícios”, para mantém sua clientela fiel.

Ao longo deste mês de janeiro, a Multiciência vai trazer uma série de reportagens no formato perfil de profissionais que atuam em diversas profissões na região do Vale do São Francisco. Os textos, que serão publicados às quintas-feiras, endossam as estatísticas de pequenos empreendedores que se mantém fiel ao seu ofício, além de se dedicar diariamente ao trabalho que lhe garante renda e necessidade de ampliar o negócio no mapa do comércio informal.

 O conjunto de perfis foram produzidos através da disciplina de Redação Jornalística III, sob a coordenação e edição do professor Emanuel Andrade. Os textos focam na rotina individual de profissionais – homens e mulheres – que concederam entrevistas aos alunos-repórteres sobre a paixão e os desafios diante da rotina de seu trabalho, seja como artesão, pintor, manicure, marceneiro, cabelereira, relojoeiro, costureira, benzedeira, churrasqueiro, além de comerciantes que atuam a labuta da informalidade vendendo de bombons à acarajé. São simples cidadãos que pagam impostos como todos e mostram como ser profissional atento independente de crise econômica.


EMANUEL ANDRADE: A LEITURA DE MUNDO QUE COMEÇA NO “QUINTAL”

Foto: Arquivo Pessoal

Natural de Salgueiro, no Sertão de Pernambuco, a cerca de 270 quilômetros de Juazeiro-BA, Emanuel de Andrade Freire construiu sua trajetória no jornalismo a partir de uma relação com a comunicação, a escrita e a escuta atenta do mundo ao redor. Ainda jovem, em sua cidade natal, encontrou nos livros e nas artes os primeiros estímulos para o exercício da palavra.

Antes  de ingressar na universidade, Emanuel colaborava, de forma voluntária, na Emissora Asa Branca, primeira rádio local de Salgueiro, produzindo programas especiais dedicados à música e à literatura brasileira. Ele assumiu todas as etapas do processo: pesquisa, roteiro e produção de texto. A comunicação, desde então, deixou de ser     apenas interesse para se tornar uma prática.

O passo seguinte foi o ingresso no curso de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), no Recife, onde aprofundou a formação e ampliou os horizontes profissionais. Durante a graduação, viveu experiências fundamentais para a formação jornalística, atuando como estagiário no Cedoc e na produção da Rede Globo Nordeste, e como repórter do Diário Oficial do Estado

A partir da sua formação, sua trajetória se expandiu por diferentes frentes do jornalismo profissional: assessorias de imprensa em organizações públicas e privadas, editoria de revistas e coordenação de projetos de comunicação política e cultural, com reportagens produzidas em diversos municípios do Sertão pernambucano e em áreas da Bahia.

Nesse período, as  coberturas investigativas e policiais lhe deram contato direto com as contradições sociais e os desafios éticos da profissão. Entre as experiências mais simbólicas no exercício de sua profissão, Emanuel destaca a passagem pelo Jornal do Commercio, em Recife (1997-2008), onde integrou equipes responsáveis pela produção de cadernos especiais. Um deles abordou o centenário do fim da Guerra de Canudos que o levou a esse município, no interior baiano, no ano de 1997, para acompanhar de perto como a comunidade ainda percebe os rastros do conflito e a figura de Antônio Conselheiro.

 Foto: Emerson Rocha / g1 Petrolina
A relação com a escrita, no entanto, nunca se limitou à urgência da pauta. Emanuel também é escritor e encontra na literatura um espaço de elaboração sensível da memória, do território e da experiência humana. Publicou livros de poesia, participou de coletâneas e assina a biografia “A Dama do Barro”(2006), dedicada à trajetória de Ana das Carrancas. Esse último livro surgiu do interesse de Emanuel em registrar e preservar a memória de Ana das Carrancas, reconhecendo a importância cultural, simbólica e histórica de sua trajetória para o Vale do São Francisco.

Emanuel ainda integrou o projeto coletivo literário  “Uma Geral do Brasil - Histórias de um menino ribeirinho” (2015), em homenagem à vida e trajetória do cantor e compositor Geraldo Azevedo, com foco em sua origem ribeirinha e sua ligação com o Vale do São Francisco. Durante a pandemia da Covid-19, lançou o livro de poemas “Nada será como antes” (2021), em formato virtual - Ebook, no qual a escrita surge como forma de resistência e cuidado em tempos de incerteza.

A Comunicação Como Formação

Foto: Arquivo Pessoal

Emanuel consolidou uma trajetória acadêmica marcada pela reflexão crítica sobre a comunicação, construída a partir do diálogo entre teoria, prática profissional e território. Desde 2005, é professor do curso de Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Campus III, em Juazeiro, onde ministra disciplinas como Introdução ao Jornalismo e Redação Jornalística I e II.

Para além da sala de aula, Emanuel integra projetos de extensão e pesquisa que articulam educação, comunicação e realidade social. Entre eles, destaca-se o Polifonia, grupo de pesquisa dedicado a investigar as interfaces da comunicação com os contextos culturais, sociais e educativos do Sertão do São Francisco, reafirmando o compromisso com uma produção de conhecimento situada e socialmente referenciada.

Em 2014, esteve à frente da Multiciência, atuando como coordenador da Agência de Notícias. Ainda que breve, essa experiência foi marcada por uma contribuição à formação de novos jornalistas, fortalecendo a produção de conteúdos autorais e o compromisso ético com a comunicação pública. Sua trajetória nesta agência, no entanto, é mais ampla e contínua, marcada pela colaboração frequente com textos autorais voltados à música e à cultura da região, além do trabalho de edição e acompanhamento das produções dos alunos, especialmente no âmbito da disciplina Redação Jornalística II.

Para Emanuel, apesar das profundas transformações tecnológicas e das novas linguagens que atravessam o jornalismo contemporâneo, a essência da profissão permanece inegociável: a busca pela verdade, a verificação rigorosa dos fatos, a ética e o compromisso com o interesse público. Em um cenário marcado pela desinformação e pelas disputas narrativas, ele defende que a credibilidade deve seguir como algo primordial do jornalista.

Ao se dirigir às novas gerações, evita oferecer fórmulas prontas, preferindo estimular a leitura de mundo que começa no “quintal”, assim como o respeito às fontes, a escuta atenta e a clareza quanto ao objetivo real de cada pauta. Entre incertezas e reinvenções, Emanuel Freire aposta na formação sólida, humanística e ética como caminho possível para sustentar o jornalismo, de ontem, hoje e amanhã.


Por Eugênia Cruz, estudante de Jornalismo em Multimeios e colaboradora do MultiCiência.

Do Semiárido baiano para o espaço: conheça o projeto Cactus Rockets Design

Foto: Arquivo do Cactus Rockets Design

O foguetemodelismo pode ser um hobby ou mesmo uma prática educacional, que envolve conceitos de física, química e mecânica das áreas de engenharias que são aplicadas na produção de motores experimentais que são inseridos em miniaturas de foguetes produzidos com diversos materiais como papelão, plástico, madeira, e ao final são lançados de variadas altitudes. No norte baiano, estes experimentos ganham espaço através do projeto de extensão Cactus Rockets Design (CRD), da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), que explora a ciência e a engenharia espacial.


Fundado em 2019, a ideia nasceu a partir de uma aula prática de Introdução à Engenharia Mecânica, onde os calouros tiveram a oportunidade de conhecer o projeto FSAE Carcará (Fórmula Society of Automotive Engineers) que desenvolve protótipos de carros de alto desempenho, semelhantes aos de fórmula 1, essa visita despertou nos estudantes a vontade de desenvolver um novo projeto. “Ficamos entusiasmados com os carros de fórmula 1 desenvolvidos por nossos veteranos e surgiu em nossa turma a vontade de realizar experimentos também. Um dos fundadores se apaixonou pelo foguetemodelismo, que se tornou o primeiro projeto de foguete da Univasf e um dos primeiros aqui do Vale do São Francisco”, acrescentou Bianca Lima, uma das fundadoras do projeto.

A CRD vem colocando o semiárido no radar da engenharia aeroespacial. Vinculado ao Colegiado de Engenharia Mecânica (CENMEC) da Pró-Reitoria de Extensão (Proex), o grupo é composto por estudantes que unem teoria, prática e inovação no desenvolvimento de foguetes-modelo para competições nacionais e internacionais. 


O projeto de foguetemodelismo tem o objetivo de colocar em prática, os conhecimentos adquiridos pelos estudantes ao longo da graduação. Atualmente, a equipe conta com 40 integrantes oriundos dos cursos de Engenharia Mecânica, Engenharia de Produção, Computação e Engenharia Elétrica, o que garante uma atuação multidisciplinar no desenvolvimento dos protótipos.


‘‘A participação em um projeto como a Cactus contribui para a formação dos integrantes ao nos colocar  em contato com desafios reais, que vão muito além do conteúdo visto em sala de aula. O desenvolvimento dos foguetes exige pesquisa, planejamento, tomada de decisão, trabalho em equipe e responsabilidade técnica, promovendo uma formação mais completa e aplicada.” explicou Fernanda Freire, atual diretora executiva e capitã da equipe. 


A rotina do Cactus Rockets combina pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico e extensão. A equipe é dividida em subsistemas técnicos, como propulsão, estrutura e aerodinâmica, eletrônica, recuperação, satélites payloads (satélite é a parte autônoma do foguete, dentro dele o payload capta informações, acionando e coletando dados),  além dos setores administrativos, gestão, marketing e financeiro. Ao longo do ano, os estudantes realizam projetos, simulações, análises estruturais e aerodinâmicas, testes de bancada, fabricação de peças e elaboração de relatórios técnicos, especialmente voltados para competições como a Latin American Space Challenge (LASC), a maior competição universitária de engenharia de foguetes e satélites experimentais da América Latina.

Os resultados obtidos ao longo dos anos reforçam o crescimento do projeto. Em 2022, com o foguete Galileu-02, a equipe conquistou o 3º lugar na categoria de 0,5 km de apogeu(o ponto mais alto da sua trajetória) e o 12º lugar no ranking geral da LASC. No ano seguinte, o destaque foi o foguete Marie, que garantiu o 1º lugar na categoria de 0,5 km e o 13º lugar geral, entre mais de 145 equipes de 15 países, marcando o melhor desempenho da história do grupo. Ainda em 2023, o foguete Pierre, na categoria de 1 km, alcançou o 17º lugar na categoria e o 35º no geral.
Foto: Arquivo da Cactus Rockets Design | Fim do Primeiro dia de competição da LASC 2025.

Em 2024, o projeto voltou a subir ao lugar mais alto do pódio com o foguete Kepler, vencedor do Festival Regional de Minifoguetes (FRMF), na categoria de 200 metros. Já para 2026, o Cactus se prepara para competir novamente na LASC com dois novos projetos: o Joliot, na categoria de 1 km, e o Bouman, voltado para a categoria de 3 km. Além do apoio institucional da UNIVASF, o Cactus Rockets Design conta com um sistema de patrocínios fundamentais para a manutenção e o avanço das atividades do projeto.


Neste momento, a equipe se encontra no período pós-competição com foco na elaboração de relatórios técnicos e, em momentos de brainstorm(tempestade de ideias),  que irão nortear o próximo ciclo de desenvolvimento, previsto para 2026. A proposta é seguir aprimorando os protótipos e ampliando a presença do Semiárido no cenário da engenharia aeroespacial. “Desenvolver essa tecnologia aqui significa valorizar o território, formar talentos localmente e mostrar que o Semiárido também é um espaço de produção de conhecimento, inovação e futuro”, declarou Fernanda Freire.


Por: Anne Carvalho e Gabriel Matos, estudantes de Jornalismo em Multimeios na UNEB e colaboradores do MultiCiência.