Da Ideia ao Mercado: Como a Agência Uneb de Inovação fortalece o desenvolvimento social

Foto: Núcleo de Comunicação DCH3

Em tempos de constantes mudanças tecnológicas, a maior aposta do futuro reside nos novos processos de inovação. Desde alterações rotineiras até grandes aparatos tecnológicos, a inovação consiste em descobrir novas tecnologias e otimizar as existentes, viabilizando o aprimoramento da forma que vivemos. É pensando neste contexto que surgiu a Agência Uneb de Inovação (AUI), que atua também na difusão de conhecimento sobre empreendedorismo e proteção da propriedade intelectual. Para um melhor entendimento sobre esta temática, o Multiciência entrevistou Paloma Bastos e Warlen Alves, advogados e membros da AUI.

 

Multiciência- Como a Agência de Inovação pode contribuir para o desenvolvimento social e econômico da região do Vale do São Francisco?

 

Warlen Alves - Quando a gente tem uma universidade pública que está comprometida com a realidade social, que produz ciência a partir da demanda das sociedades, das demandas regionais. E quando a gente tem essa universidade que está atenta a esse olhar regional, o diferencial da AUI é esse. A gente está cobrindo quase todos os territórios de identidade do nosso estado. Então, a gente consegue mapear uma produção de conhecimento que está atenta à comunidade e ao mesmo tempo pensar em formas de levar essa produção de conhecimento até o mercado, até a sociedade. Formas de retribuir mesmo o investimento estatal.

 

Paloma Bastos- A gente consegue devolver isso para a sociedade através de instituições de tecnologia, da proteção de ativos de propriedade intelectual, porque através da proteção e do registro desses ativos, você consegue criar caminhos para transferir essa tecnologia para a sociedade, pode ser para o governo, para uma empresa. Assim, você pode escalar esse produto, esse serviço, para alcançar o maior número possível de pessoas. A universidade está preocupada com o interesse social, com desenvolvimento econômico regional, ela capacita seus estudantes. Eles começam a ter esse conhecimento e essa consciência de que a gente precisa devolver e ajudar as pessoas, começam a olhar para essas necessidades, dificuldades. Eles podem sair da universidade e criar uma startup, por exemplo, criar uma empresa de base tecnológica. E, a partir daí, a gente consegue criar novos negócios e aí a roda da economia começa a girar.

 

Multiciência- Qual é o papel da Agência Uneb de Inovação nesse processo?   



Paloma Bastos- O papel da Agência Uneb de Inovação é justamente compartilhar e disseminar conhecimento sobre propriedade intelectual, de fazer as pessoas conhecerem esses termos que, infelizmente, não são todas as pessoas que conhecem, aí elas começam a compreender. Por exemplo, vocês aqui da Comunicação e Direito, conseguem também fazer inovação. Às vezes, as pessoas não têm esse pensamento, então nosso objetivo é justamente mostrar que existe inovação na parte das tecnologias sociais também para elas começarem a nos procurar para proteger a produção da universidade.

A gente consegue proteger a nossa produção, viabilizar uma transcendência de tecnologia, fazer a união entre os pesquisadores e parceiros do mercado, quando a gente fala mercado, não só o mercado empresas, mas com organizações sociais, representantes do poder público, e também deixar claro, tá?! A transcendência de tecnologia que a gente comenta aqui não necessariamente é algo oneroso, que alguém vai ter que pagar algo para usar, a gente pode transferir esse conhecimento de forma gratuita. Por exemplo, o governo do estado para transmitir um determinado ativo de IPI para as escolas públicas, por exemplo.

 

Multiciência- O que pode acontecer quando uma pesquisa, projeto ou produto não recebe a proteção adequada?

 

Paloma Bastos - Ela pode ser utilizada indevidamente por outros atores. Universidades às vezes desenvolvem determinado projeto e alguém de fora descobre que o pessoal está fazendo esse desenvolvimento, começa a desenvolver fora e registra fora. E aí, para você conseguir desconstituir isso, é difícil, demora bastante. Às vezes, a pessoa nem consegue, porque como ela não registrou, a legislação diz que o titular da marca tem a obrigação de cuidar desse ativo. Você tem que estar ali cuidando da sua marca, para saber se não tem ninguém usando indevidamente. Porque no direito brasileiro, o titular da marca é dono da marca quem primeiro registra. É diferente nos Estados Unidos, que para você registrar uma marca, é quem primeiro usou. Se você não se proteger, a probabilidade de alguém usar indevidamente e registrar por fora é alta.

 

Multiciência- Quais oportunidades podem surgir a partir da proteção da propriedade intelectual?


Paloma Bastos - Você evita que terceiros usem indevidamente aquele ativo que você produziu. Tem as oportunidades acadêmicas também, porque conta no currículo, se é patente, conta, é uma pontuação alta, claro, vai depender também do contexto, da análise do seu currículo. Mas ter ativos no currículo, conta. Oportunidades econômico-financeiras também. 

Para uma pessoa, pensando numa pessoa física, que tem um ativo. Para uma startup, isso é super importante, porque é um diferencial que consegue atrair investidores. Os investidores ficam interessados numa empresa, numa startup, numa empresa de base tecnológica que tem patente, que tem proteção de ativo, porque, como eu falei, é um ativo intelectual. Você pode usar patente para conseguir recurso financeiro, as pessoas não sabem disso.

  

 Warlen Alves - E quando a gente pensa a ação empreendedora nas universidades, é muito importante para o pesquisador e para o estudante a possibilidade de, se eu desenvolvi durante a graduação, durante o mestrado ou durante o doutorado, um ativo que é registrado, e eu termino o meu ciclo de formação, eu decido abrir uma empresa, a proteção desse ativo dentro da universidade já é uma garantia de que eu consigo negociar com a universidade, por exemplo, a abertura de startups, abertura de spin-offs acadêmicas. Tem todo esse movimento também de proteção da pessoa que desenvolveu. Eu acho que dentro da universidade a gente precisa fomentar ainda mais o debate da proteção desses ativos que são produzidos pelos estudantes.

Na pós-graduação tem uma maior incidência, porque a pesquisa já está num estágio mais avançado. Às vezes, esse tipo de graduação desenvolveu um programa de computador durante a graduação, não registrou, esse ativo é da universidade porque foi produzido durante a vigência do curso. E aí, lá na frente, ele resolve montar uma empresa e utilizar esse ativo para comercializar. Enfim, estando protegido pela universidade dá uma maior segurança jurídica para o negócio. Não há o risco de lá na frente, ele descobrir que copiaram esse ativo, que estão utilizando indevidamente, ou ele estrutura todo o negócio sem registrar para que a universidade não tenha titularidade. Lá na frente, se descobre que a titularidade é da universidade. Então, tem todo o imbróglio jurídico que é gerado aí.

 

Multiciência- O ambiente digital trouxe novos desafios para os direitos autorais?

 

Paloma Bastos - Com certeza. Essa questão de pagamento dos royalties nas plataformas de streaming é um grande debate entre os artistas. Eu não vou me aprofundar aqui, porque a gente atua mais na propriedade industrial, mas eu sei que tem muita discussão também com relação a direitos autorais no uso da inteligência artificial (IA). Às vezes também essa questão de uso indevido, né?! No ambiente digital, a pessoa tem acesso ao que vocês publicam e pode copiar e disseminar em um outro local que você não tem a menor ideia, sem creditar a informação e passar como se a informação fosse deles. Então, sim, é desafiador. Com a realidade mudando, novas tecnologias vão surgindo e novos tipos de proteções vão surgindo. Antigamente nem precisava proteger a minha voz, mas agora é extremamente necessário você proteger a sua voz e proteger a sua imagem, porque alguém pode usar indevidamente.

 


Warlen Alves - Essa questão da IA é realmente muito perigosa para o direito autoral, muito espinhosa. Porque, assim, no Brasil não tem como pensar direito autoral produzido por um IA. Então, o que a IA produz, como não é uma produção humana, do intelecto humano, não está protegido. Não é pelo campo do direito autoral. Só que ao mesmo tempo, se pergunta, quem é a titularidade dessas obras? Tem IA hoje que consegue clonar a voz do sujeito.

Eu consigo colocar qualquer artista para cantar a música que eu quiser. E aí, como é que a gente pensa e regula esses caminhos jurídicos de eu tenho uma titularidade sobre a minha voz? E aí, de repente, estou cantando uma música que não é minha. Ou então, eu coloco um artista X para cantar uma versão em português do artista Y. Isso gera um problema em um imóvel jurídico de quem é a titularidade dessa música? Desse ativo, desse valor?

Quem ganha com esse valor? Quem ganha com o uso da minha voz, se não eu? Eu acho que, para quem trabalha com arte e com direito autoral, o mundo digital traz muitas possibilidades, claro. Democratiza o acesso. A gente tem muitas formas mais fáceis de produção do audiovisual, mas, ao mesmo tempo, tem essa questão criativa de gestão desse patrimônio, do uso dos algoritmos e o mundo da inteligência artificial que tem se descortinado, né?! É um mundo um tanto perigoso, porque a gente ainda não tem um marco regulatório no Brasil e esse marco regulatório tem caminhado de forma muito lenta.

Ao mesmo tempo que a gente tem uma legislação de proteção dos dados, a LGPD, que é a Lei Geral de Proteção de Dados, que não funciona. O que a gente fica pensando no Brasil é: será que a gente tem um marco regulatório da inteligência artificial? Vamos reproduzir o que aconteceu com a LGPD, que é um marco legislativo, que amplia a proteção dos direitos digitais, dos dados das pessoas, mas que não funciona. Será que, efetivamente, a gente está caminhando para a proteção do direito autoral, para entender como regular essa questão da produção de arte no Brasil e dar uma maior visibilidade e autonomia para os artistas? Ou a gente vai seguir nessa produção massificada desses conteúdos vazios, genéricos?


Reportagem por Pedro Henrique Dourado, produzida por Meiwa Magalhães, estudantes de Jornalismo em Multimeios e colaboradores da Agência MultiCiência.


Fora das Capitais: Os desafios e as trajetórias de artistas independentes no semiárido baiano

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, já cantava Caetano Veloso. No Semiárido baiano, essa máxima ganha ainda mais sentido. Para os artistas independentes da região, criar é sinônimo de resistir. São eles que transformam o território, tantas vezes estigmatizado, em um espaço de orgulho e luta, provando que existe arte pulsando fora dos grandes centros urbanos.

Em Senhor do Bonfim (BA), o ator Felipe Anunciação, 23 anos, utiliza o teatro como ferramenta de transformação social e conscientização através de seus espetáculos. Já em Castro Alves (BA), o cantor e compositor Thassio Cunha, 21 anos, traduz o cotidiano e a vivência local em melodia, compondo e cantando o orgulho de suas raízes.

A conexão de Anunciação com a dramaticidade começou na infância, acompanhando as rezas de sua avó. Mas foi em 2019, no grupo Mutum Encantado, em Mutuípe, sua cidade natal, que ele iniciou a trajetória oficial nos palcos, baseada no improviso. Em 2022, expandiu fronteiras ao fundar a Cia de Teatro Anunciação para estudar as diversas formas de expressão. Hoje, estudante de licenciatura em Teatro na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), onde também se dedica ao aprendizado da Libras, ele encontra sua verdadeira vocação na docência. Essa missão ganha vida em Antônio Gonçalves, onde atua como professor voluntário da rede estadual pelo programa EducaMais. Ali, trabalha junto à juventude do ensino médio, sempre atrelando a criação artística à realidade e à identidade do território.

Foto: Arquivo pessoal 

“Ser artista é comunicar. E cada um escolhe a sua forma. Com as vivências, temos atravessamentos, seja de gênero, de raça ou de cultura, e as pessoas se expressam. Embora a gente, enquanto artista, enfrente o problema da falta de valorização, eu acredito que a nossa missão é passar uma mensagem.” Para Felipe, a arte é uma linguagem universal tão vital quanto a palavra falada ou sinalizada, funcionando como uma semente de transformação que ele planta e deixa germinar por cada comunidade por onde passa. 

Ele destaca que o fazer artístico é instável e que o período dedicado à pesquisa muitas vezes é interpretado como ociosidade, embora seja crucial para o resultado final. “Confesso que o maior desafio hoje é a subsistência. Todo artista independente enfrenta a dificuldade de se manter, pois não temos a garantia de que haverá comida na mesa todo mês. A produção é muito instável, sobretudo na Bahia e no Semiárido. Quando pensamos no artista, pensamos em alguém que está produzindo algo ou pesquisando para produzir. Neste ato, você parece parado e isso, de certa maneira, não gera captação imediata de recursos”, explica.

Essa realidade de equilibrar a balança entre a criação e o sustento não é exclusividade das artes cênicas e cruza o sertão até chegar a Castro Alves. Thassio Cunha, conhecido no município pelo bordão "Chama na Bota", conta que sua trajetória na música começou de forma despretensiosa, dentro de casa, e foi impulsionada pelo olhar atento de quem convivia com ele. "Um vizinho, amigo, um dia me perguntou se eu tinha vontade de gravar uma música, ele me escutava cantando em casa e viu uma vocação", lembra o cantor. 

Foto: Divulgação 

Quando o assunto é viver exclusivamente de música no interior baiano, Thassio enfrenta o mesmo cenário de instabilidade. Segundo ele, as plataformas digitais, o engajamento no Instagram e a agenda de shows ainda não garantem o sustento, o que o obriga a dividir o tempo dos palcos com o comércio local. “Hoje ainda não consigo me manter somente da música. Possuo uma loja na minha cidade e tenho que conciliar”, explica. 

Ao ser questionado sobre as cidades onde tem atuado e o sentimento de produzir na região, Felipe desconstrói a ideia de que o sucesso depende dos grandes centros e defende o olhar para o interior. “Eu acho brilhante o Semiárido brasileiro. O Brasil precisa conhecer mais as nossas produções. E construir minha carreira aqui está sendo um prazer, porque é um lugar riquíssimo de cultura, de imagens, de imaginários.” Ele pondera que, embora as metrópoles possuam seus atrativos, é preciso valorizar as próprias raízes: “Claro que nas grandes cidades tem coisas bonitas, mas temos que olhar para dentro, aqui tem muita coisa boa. Respeitando o que tem aqui, é possível construir uma carreira bonita e sólida”.

Por outro lado, Thassio vive o dilema de, futuramente, precisar deixar sua base para expandir o alcance do trabalho. Atualmente, além de Castro Alves, ele tem shows em outras cidades da região, alcançando municípios como Milagres, Rafael Jambeiro, Conceição do Almeida, Santo Antônio de Jesus, Cabaceiras do Paraguaçu, Sapeaçu e Cruz das Almas. Essa logística lhe permite conciliar as apresentações com o descanso em casa nos dias úteis, enquanto lida com as oscilações do mercado e com o desafio de crescer nas redes sociais. No entanto, ele reconhece o peso que os grandes centros exercem sobre o seu gênero musical. “Eu tenho um carinho enorme pela minha cidade, se pudesse não sairia, mas creio que um dia precisarei ir para outro centro para conseguir evoluir, ainda mais por conta do meu estilo, que é o forró”, conta o cantor. 

Sobre o público que o acompanha no interior, ele descreve, entre risos e com visível alegria, a diversidade de reações na plateia: “Existem vários tipos: aqueles parados, os que animam, e os que parecem que estão no show de um artista grande mesmo!”. O artista destaca que ao descer do palco traz um sentimento de dever cumprido e gratidão: “Sei que vou alcançar muitas coisas através da música, e o forró me toca muito”. É essa determinação que o move a continuar cantando e compondo pelo Semiárido, uma motivação que ele resume de forma direta como o motor de sua carreira “Sonhos a serem realizados”.

Histórias como as de Felipe Anunciação e Thassio Cunha se cruzam na teimosia de continuar criando onde muitos enxergam escassez. Eles são a prova de que a identidade do Semiárido baiano não está presa ao passado, mas sendo reescrita agora, na voz, no forró, nos espetáculos e demais manifestações de uma juventude que faz da arte o seu maior manifesto de permanência.

Reportagem produzida na disciplina de Redação III, sob orientação do professor Emanuel Andrade

Por: Amy Ferreira,  estudante de Jornalismo em Multimeios


A força do algodão: produção, emprego e renda no campo

Em meio as extensas da lavouras do oeste da Bahia, o algodão se destaca não apenas pela dimensão de sua produção, mas também pelo o impacto que provoca na economia de Luís Eduardo Magalhães.

Foto: Júlia Moura (Assessoria de Comunicação da ABAPA)

Conhecida pela força do agronegócio, a cidade transformou a atividade agrícola em um dos principais pilares do seu desenvolvimento movimentando setores que vão muito além das propriedades rurais.

Segundo o governo da Bahia, o estado é atualmente o segundo maior produtor de algodão do Brasil, o que acaba gerando fontes de renda na cidade.

 Na safra 2024/2025, o estado alcançou aproximadamente 843 mil toneladas de pluma, cultivadas em cerca de 413 mil hectares, segundo dados divulgados pela Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa). A produtividade média chegou a aproximadamente 2.041 quilos de algodão beneficiado por hectare, acima da média nacional de 1.958 quilos por hectare.

Nesse cenário, o algodão se apresenta não apenas como uma importante commodity agrícola, mas também como parte de uma cadeia capaz de gerar oportunidades de trabalho e renda. Para Luís Eduardo Magalhães, a expansão do agronegócio significa também maior circulação de pessoas, serviços e recursos, reforçando a relação entre produção agrícola, emprego e desenvolvimento econômico local.

Para além dos números e da produção nas lavouras, o algodão também representa oportunidades de trabalho e mudança na vida de quem vive em Luiz Eduardo Magalhães. É o caso de Jonatas de Oliveira, que trabalha como garçom e conta que o setor transformou sua trajetória profissional. Segundo ele, o algodão possibilitou oportunidades em diferentes áreas ligadas ao ramo e contribuiu diretamente para sua evolução econômica e profissional. Atualmente, Jonatas também estuda para se qualificar e atuar na operação de máquinas utilizadas no setor. Para ele, o crescimento da cadeia produtiva do algodão não apenas gerou novas oportunidades de trabalho, mas também mudou sua vida e abriu caminhos para construir um futuro profissional diferente.

Quem também destaca a importância do setor é Jailton Soares de Souza, de 48 anos, que trabalha há 15 anos na Icofort. Para ele, atuar em uma empresa ligada à cadeia do algodão tem sido uma oportunidade de aprendizado e crescimento profissional. Ao longo desse período, Jailton afirma ter adquirido uma grande experiência, além de reconhecer que o trabalho contribuiu para seu desenvolvimento.

“Trabalhar em uma empresa como essa é um bom aprendizado. Ela me ajudou muito no meu desenvolvimento e, ao longo desses 15 anos, adquiri uma experiência enorme”, relata Jailton.

A história do algodão em Luís Eduardo Magalhães vai muito além das lavouras. A atividade movimenta a economia, gera empregos, abre oportunidades e contribui para a transformação profissional de trabalhadores que encontram no setor novas possibilidades de crescimento. De quem atua diretamente no campo aos profissionais que trabalham nas empresas ligadas à cadeia produtiva, o algodão se consolidou como um dos principais motores do desenvolvimento da região.

Em cada safra, os resultados aparecem não apenas na produção, mas também na vida de quem depende dessa cadeia para trabalhar e construir novas perspectivas. Em Luís Eduardo Magalhães, o algodão representa desenvolvimento, oportunidades e uma história que continua sendo construída diariamente por milhares de trabalhadores.

Por Laila Michelle, estudante de Jornalismo em Multimeios, Campus III - Juazeiro

Prêmio ABAPA de Jornalismo 2026

Do laboratório a Colheitadeira: Onde estão as Mulheres do Algodão Baiano

No oeste baiano, mulheres ocupam o controle de qualidade, a formação técnica e a gestão das empresas de algodão, mas ainda são minorias em outros espaços.

Eyshila Brito, atua no controle de qualidade do algodão / Foto: Vick Silva

Eyshila Brito caminha pela Zanotto Cotton, Unidade de beneficiamento de algodão de Luís Eduardo Magalhães, e decide qual lote de fibra segue para cada etapa da produção. Engenheira agrícola e ambiental de 26 anos, saiu de Recife a um ano e três meses para assumir o controle de qualidade da empresa. Faz o recebimento do algodão, separa os lotes no pátio por variedade e produtor, “Para que não haja nenhum tipo de mistura e afete a qualidade do algodão” explica. Eyshila programa o beneficiamento cruzando o resultado do laboratório com a inspeção visual para “Eu sou a única mulher que trabalha nesse cargo aqui no maquinário”, diz.


O algodão que passa pelas mãos de Eyshila percorreu um caminho técnico antes de chegar ali. Depois de colhido, ele segue para a fábrica de beneficiamento, processo industrial que separa a fibra do caroço da semente. A fibra, chamada de pluma, é o que vai virar tecido, o caroço alimenta outra cadeia, a de óleo e ração animal. Antes de ser vendida, a pluma passa por um equipamento de análise (HVI) que mede comprimento, resistência, uniformidade e cor. Esse resultado é o que define o preço e o destino de cada lote, e é também o que orienta o trabalho diário de Eyshila. Cada fardo de algodão carrega ainda um código que permite rastrear sua origem - Qual fazenda, fábrica e laboratório foi analisado - até chegar ao comprador final.


Essa exigência de precisão tem um motivo comercial concreto: cerca de 80% da produção baiana de algodão é destinada ao mercado externo, como China, Paquistão, Vietnã, Turquia, e Bangladesh entre os principais compradores, países que abastecem grandes polos da indústria têxtil mundial. Cada ponto percentual de uniformidade ou resistência medido pelo HVI pode significar a diferença entre vender para esses mercados ou perder competitividade para outros produtores.


Uma Cadeia que exige qualificação


A Bahia é o segundo maior produtor de algodão do Brasil, atrás apenas do Mato Grosso, e o oeste baiano concentra uma produção altamente mecanizada, com uso de tecnologia de precisão em praticamente todas as etapas, da lavoura à fábrica. Segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), o estado plantou 417 mil hectares de algodão na safra 2025/2026, com expectativa de colher cerca de 925 mil toneladas de pluma. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que a Bahia responde por pouco mais de 20% da produção nacional de algodão, enquanto Mato Grosso concentra cerca de 69%. 


Segundo a Abrapa, mais de 3 milhões de toneladas de algodão brasileiro foram certificadas como socialmente responsáveis na safra 2023/2024, foi essa escala que colocou o país, em 2024, na liderança mundial de exportação de algodão certificado como socialmente responsável, um selo que só existe porque cada fardo pode ser rastreado do campo até o comprador, como o que passa pelas mãos de Eyshila todos os dias.

  

Capacitar gente para essa cadeia cada vez mais técnica é o trabalho do Centro de Treinamento e Tecnologia da Abapa, a associação dos produtores de algodão da Bahia, em funcionamento desde 2010, em Luís Eduardo Magalhães. Já são mais de 160 mil pessoas formadas em quase 16 anos, somando 6400 cursos, de segurança do trabalho a operação de máquinas, drone e colheitadeira. Cerca de 25% dos formandos atualmente são mulheres, e desde 2021 o centro oferece turmas exclusivas para elas. “Todos os anos a gente forma em torno de 25% aqui de mulheres, então dos 100% que passam por aqui, 25% são mulheres”, relata Deibi Soares, Coordenador Administrativo do Centro de Treinamento. Nenhuma função ali é reservada por gênero, diz ele “Mulheres estão na parte da segurança, operação de máquina, o mercado de trabalho aqui na nossa região acolhe todo mundo.”. O centro também estreia neste ano, em parceria com o Senai e a Coelba, a primeira escola de eletricistas da região, gratuita e pensada desde o início para incluir mulheres.


Mulheres da Fibra


A cadeia do algodão soma 1,3 milhão de empregos formais no Brasil, dos quais 60% são ocupados por mulheres, esse número, no entanto, refere-se à indústria têxtil, que transforma a fibra em tecido e roupa, não à produção agrícola em si. Direto nas fazendas, o retrato muda: das 41 mil vagas geradas na safra 2023/2024 pelas propriedades certificadas pelo programa Algodão Brasileiro Responsável, apenas 4891, cerca de 12%, foram ocupadas por mulheres, segundo o levantamento da Abrapa. “No campo, a gente ainda tem um número majoritariamente masculino”, resume a presidente da Abapa, Alessandra Zanotto Costa, que também é sócia-diretora da Zanotto Cotton.

Alessandra Zanotto, Presidente da Abapa / Foto: Assessoria da Abapa

Dentro da Zanotto Cotton, essa divisão tem nome e função. Fundada em 2012, a fábrica tinha cerca de 45 funcionários em 2022, hoje emprega cerca de 92 pessoas durante a safra, número que cai para 40 no restante do ano. É na linha de produção que o núcleo emprega a maior parte dessa equipe, em trabalho pesado e sazonal, que nenhuma mulher trabalha até hoje. "É por questões de trabalho mesmo e por mão de obra", diz a diretora Fernanda Zanotto, irmã de Alessandra, que administra o dia a dia da fábrica ao lado dela. Mulheres ocupam a recepção, o setor administrativo e o controle de qualidade, a função de Eyshila, que Fernanda descreve como uma das mais estratégicas da operação, por acompanhar o produto desde a chegada do campo até a formação do lote final. 


A empresa só construiu um alojamento para mulheres no ano passado, motivada por um problema prático: boa parte da mão de obra da fábrica vem de fora da região durante a safra, e não havia onde hospedar trabalhadoras. "A gente vem tentando fomentar mulheres da região para vir fazer essa atividade aqui", diz Fernanda. A Zanotto Cotton é uma empresa comandada por mulheres, Fernanda e Alessandra assumiram a gestão que antes era do pai, Dionísio Zanotto, que fundou a empresa depois de migrar do Rio Grande do Sul. Perguntada sobre o que mudou desde que ela e Alessandra assumiram a gestão, Fernanda aponta para a administração, não para a fábrica: "A gente trouxe um cuidado maior, um profissionalismo, uma preocupação com a qualidade, não que nosso patriarca não tivesse, mas a gente foi buscar o que o mercado tá querendo lá fora."


Mulheres no topo

Ana Paula Franciosi 2° secretaria da Abapa e da 2° Geração da Família Franciosi / Foto: Assessoria da Abapa

Antes da mecanização, colher algodão exigia seis ou sete pessoas trabalhando juntas com cestos prensando o algodão à mão. Hoje, uma colheitadeira faz esse trabalho sozinha, operada por uma ou duas pessoas, Uma máquina do tamanho de um caminhão grande, que avança pela lavoura colhendo, limpando e enrolando o algodão em fardos cilíndricos ao mesmo tempo. No Grupo Franciosi, uma das maiores produtoras de algodão e soja da região, com mais de 82 mil hectares plantados, uma mulher operou pela primeira vez uma colheitadeira. "Foi bem significativo, é pela primeira vez que a gente tem uma operadora", diz Ana Paula Franciosi, gestora do grupo e também da segunda geração à frente do negócio da família. "Quando você tem uma quebra de paradigma, se torna um exemplo e é estimulante para que outras mulheres também se sintam à vontade."

Colheitadeira de Algodão / Foto: Vick Silva

O mesmo padrão de sucessão que levou Fernanda e Alessandra à gestão da Zanotto se repete no Grupo Franciosi, e também na diretoria da Abapa, que hoje reúne cinco mulheres em cargos executivos: Alessandra na presidência; Ana Paula e Patrícia Kyoko Portolese Morinaga nas secretarias; Elisa Zancanaro Zanella e Liliana de Oliveira Zempulski nas tesourarias; e Isabel da Cunha no conselho consultivo. Alessandra não é a primeira mulher no cargo, Isabel da Cunha, primeira mulher a integrar uma diretoria estadual de produtores de algodão no Brasil, presidiu a Abapa em 2011/2012 e 2013/2014, depois de ter sido a primeira tesoureira mulher da entidade, em 2002 , mas se apresenta como a primeira presidente nascida na Bahia, o que ela relata ser um motivo de muito orgulho. Para ela, a sucessão de homens em empresas familiares do agro costuma ser tratada como natural, enquanto mulheres em posição semelhante precisam demonstrar conhecimento técnico para serem reconhecidas, o que, segundo ela, exige "muita coragem".

Eyshila Brito segue, por enquanto, sozinha na função que ocupa dentro da Zanotto Cotton. Mas ela não é mais um caso isolado na cadeia do algodão baiano: no Centro de Treinamento, uma em cada quatro pessoas formadas hoje é mulher; no Grupo Franciosi, uma colheitadeira já foi operada por uma mulher pela primeira vez; na diretoria da Abapa, cinco das principais cadeiras são ocupadas por mulheres. No algodão baiano, elas já chegaram ao laboratório, à gestão e à colheitadeira. O próximo passo é deixar de serem exceção.


Por Vick Silva, estudante de Jornalismo em Multimeios, Campus III - Juazeiro

Prêmio ABAPA de Jornalismo 2026

A crise provocada pelo bicudo do algodoeiro na década de 80 transformou a cotonicultura brasileira

Ascensão de um modelo marcado por tecnologia, inovação, produtividade em grande escala e sustentabilidade no Oeste baiano

Foto: Sara Freire

  O algodão, que hoje coloca a Bahia entre os principais produtores da fibra no país, é também herdeiro de uma cultura que sofreu uma das maiores crises da história no Nordeste. Décadas atrás, a região era referência na produção do algodão mocó, fibra conhecida por sua resistência e qualidade. Mas, nos anos 80, algo inesperado pelos produtores aconteceu: uma praga trazida de países estrangeiros dizimou quase toda a produção. O grande “tapete branco” se tornou refém do bicudo do algodoeiro, um pequeno besouro que come o algodão antes mesmo dele desabrochar, se espalhou pelas lavouras e transformou o que parecia ser uma atividade consolidada em um cenário de perdas. 


   Produtores e pesquisadores começaram a buscar métodos e melhorias do manejo para enfrentar a praga, com investimentos em estudos tecnológicos capazes de reduzir os danos e evitar que surtos semelhantes viessem à tona novamente. Para algumas regiões do país, como, nos estados de São Paulo, Ceará e Paraná, de fato, foi o fim da produção, no entanto, na Bahia, o acompanhamento do Programa Fitossanitário executado pela Abapa (Associação Baiana dos Produtores de Algodão) tornou-se essencial para garantir a sustentabilidade e a produtividade no campo. Estratégia que funcionou para que os produtores não fossem pegos desprevenidos mais uma vez e responsável pela melhora ainda maior das lavouras de algodão. 

    A coordenadora do programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR) Sustentabilidade, Yanna Costa, explica que  “ Atualmente, dentro do sistema de produção, a gente tem trabalhado com todas as unidades produtivas para melhorar e trabalhar com a agricultura de precisão. O principal método é o preventivo, adotando cultivares com genética e tecnologia à frente, diminuindo a necessidade de uso de produtos químicos. O controle químico não deve e não é usado de forma exclusiva, é sempre uma forma de manejo complementar às outras estratégias, seja em método preventivo, físico ou mecânico.”

        Nesse cenário,  cresce entre os agricultores a busca por alternativas sustentáveis, como a implantação de biofábricas próprias. A iniciativa garante o volume necessário de bioinsumos, organismos como vírus, bactérias e insetos direcionados ao combate de pragas-alvo, e reduz progressivamente a dependência de produtos químicos no campo.

   A gestão sustentável estende-se também ao uso racional e responsável dos recursos hídricos. Embora o cultivo não seja dependente de irrigação, a tecnologia é acionada de forma complementar durante períodos de oscilação hídrica das chuvas no Oeste baiano, garantindo à lavoura o volume de água de que necessita para o seu desenvolvimento.

   As estratégias de prevenção da cadeia produtiva tornam-se cada vez mais cruciais para conter o avanço da praga e evitar novamente prejuízos severos e a atuação conjunta do setor mostra sua força: "Quando você tem uma associação estruturada, especializada e com equipe dedicada a monitorar alertas em relação ao bicudo e a qualquer outro tipo de praga, isso facilita muito o controle. Conseguimos unificar os cuidados de manejo de uma forma única, não em fiscalizar, mas com foco em alertar e instruir", ressalta Ana Paula Franciosi, segunda-secretária da Abapa. 

   A cotonicultura é o principal vetor de crescimento de Luís Eduardo Magalhães e do Oeste da Bahia. O município está no coração do Matopiba (região que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e funciona como um dos principais pólos de desenvolvimento e tecnologia agrícola. Além disso, o bioma Cerrado baiano oferece topografia e clima favoráveis para a produção de uma pluma de alta qualidade.

   "A evolução na tecnologia de sementes e a ausência de chuva no período da colheita são fatores cruciais para garantirmos a qualidade e uma boa produção", afirma o segundo vice-presidente Abapa, Douglas Orth. Completando, a segunda-secretária da instituição, Ana Paula Franciosi, destaca a importância da geografia local "A planície é uma característica que influencia muito para que a gente tenha campos mais extensos e a possibilidade de trabalhar com máquinas maiores, permitindo uma produção em larga escala".

   A atividade, que no passado era marcada pelo trabalho puramente braçal e instintivo, projeta o seu futuro sobre uma agricultura tropical de alta precisão, pautada pelo uso intensivo de dados e inteligência artificial. Essa transformação tecnológica altera profundamente o perfil do campo, substituindo a antiga baixa exigência de escolaridade por uma demanda crítica por mão de obra técnica e altamente especializada. O anterior isolamento tecnológico e urbano cede espaço a uma integração total entre o ecossistema urbano e o produtivo, enquanto a histórica desconexão com pautas ambientais globais dá lugar ao pioneirismo da região na adoção de métricas ESG (Ambiental, Social e Governança) e no alinhamento com as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU).


    Os indicadores da Abapa traduzem em números o destaque do estado no mercado global. Após encerrar a safra 2024/2025 com 843 mil toneladas de pluma extraídas de 413 mil hectares de lavoura, a estimativa é de um crescimento de 10% no ciclo 2025/2026, com a colheita devendo bater  925,2 mil toneladas.


   Ao olhar para o futuro, a produção de algodão na Bahia investe em novos paradigmas e rompe definitivamente com o seu estigma histórico. A fibra natural deu o pontapé inicial para o crescimento do Oeste da Bahia, enquanto o agronegócio consolidou a região como um território próspero. Como explica Douglas Orth, “o algodão trouxe o start para o crescimento, o agro trouxe um franco crescimento, somos uma região próspera”. Mais do que ditar o ritmo da inovação, o setor assume a responsabilidade de educar, nutrir e preparar a próxima geração, selando um compromisso com o futuro do território. 


Por: Sara Freire e Amy Ferreira, estudantes de Jornalismo em Multimeios, Campus III - Juazeiro

Prêmio ABAPA de Jornalismo 2026


O eldorado do Oeste baiano: Como o algodão equilibra produção em larga escala, tecnologia e a disputa com as fibras sintéticas

Prensagem e embalagem da pluma de algodão após o beneficiamento. Foto: Maria Helena Almeida

Conhecido como o “Eldorado do agronegócio”, Luís Eduardo Magalhães, localizado no Oeste baiano, destaca-se como um dos principais pólos de produção agrícola da região, especialmente no cultivo de algodão e grãos, além dos avanços tecnológicos aplicados ao campo.  Com grandes extensões de lavouras e uma produção cada vez mais mecanizada, o município se tornou um dos principais cenários da expansão do agronegócio brasileiro e o algodão ocupa um lugar estratégico na economia local  e na consolidação da Bahia como referência nacional em qualidade de fibras. 

O investimento em tecnologias no campo, aliado ao uso de sistemas de irrigação e biotecnologia, contribui para elevar a produtividade e a qualidade da fibra produzida na região, fortalecendo sua presença nos mercados nacional e internacional. A expansão da cotonicultura no oeste baiano acompanha a própria transformação  econômica da região. A atividade ganhou força a partir da década de 1990, segundo Eleusio Curvelo Freire, no livro “Algodão no Cerrado”, publicado pela Embrapa, quando a chegada do algodão ao Cerrado representou uma mudança no modelo tradicional de cultivo, marcado por pequenas áreas e pelo uso intensivo de mão de obra.

Na região, a atividade passou a ser desenvolvida em grandes propriedades, com elevado grau de mecanização e recursos voltados para o plantio, o controle de pragas e a colheita. Outros fatores também contribuíram para esse processo, como as características do solo, o relevo predominantemente plano e as condições climáticas do Oeste baiano, que favoreceram a expansão da agricultura em larga escala. 

A combinação dessas condições naturais e investimentos no campo permitiu a consolidação de um sistema produtivo cada vez mais especializado. O algodão passou a integrar sistemas de rotação com culturas como soja e milho, ampliando as possibilidades de cultivo e contribuindo para a diversificação das atividades agrícolas no Cerrado.

Esse processo também modificou a relação entre produção e qualidade. Com o avanço da mecanização e o aperfeiçoamento das práticas empregadas no campo, a fibra passou a ser produzida sob critérios cada vez mais rigorosos, desde a escolha das sementes e o manejo da lavoura até a colheita e o beneficiamento. A qualidade, nesse contexto, tornou-se um dos principais diferenciais do algodão produzido no Oeste da Bahia.

A força do algodão baiano 

Inspeção da fibra para análise e classificação de qualidade. Foto: Maria Helena Almeida

A força do agronegócio no Oeste baiano também pode ser medida pela dimensão da cotonicultura. A Bahia é atualmente o segundo maior produtor de algodão do Brasil e responde por cerca de 20% da produção nacional, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para 2026. O estado deve produzir aproximadamente 1,55 milhão de toneladas de algodão, considerando caroço e pluma, em uma área estimada de 354 mil hectares.

O cenário coloca a Bahia atrás apenas do Mato Grosso, que concentra cerca de 71,4% da produção nacional estimada para o ano. Em escala nacional, o IBGE estima uma produção de 9,3 milhões de toneladas de algodão herbáceo (cultura de ciclo anual que representa a principal espécie de algodão cultivada comercialmente no país) em caroço em 2026, com o Mato Grosso e a Bahia liderando a produção brasileira.

Além da extensão das lavouras, o desempenho da cotonicultura baiana está relacionado também à incorporação de tecnologias, mecanização e investimentos em diferentes etapas da cadeia produtiva. Para a presidente  da Associação Baiana de Produtores de Algodão (ABAPA), Alessandra Zanotto, a dimensão dessa estrutura está diretamente ligada ao modelo de produção adotado no estado. Essa combinação entre escala, tecnologia e controle fortalece o algodão produzido no Oeste baiano e ajuda a explicar sua presença nos mercados nacional e internacional. 

A busca por competitividade não se resume, porém, à quantidade produzida. No mercado de fibras, a qualidade da pluma é um dos fatores que podem determinar seu valor e sua capacidade de atender às exigências da indústria. Características como comprimento, resistência, uniformidade e coloração são analisadas ao longo da cadeia e ajudam a definir a classificação do algodão.

“Vejam o que é eficiência, inovação e tecnologia embarcada no campo, que nos coloca nesse patamar, com essa capacidade de produção. A Bahia é o estado que mais produz algodão por hectare no Brasil” , afirma Zanotto.

Foto: Assessoria de Comunicação da ABAPA

A preocupação com a qualidade da fibra começa ainda no campo e acompanha a pluma  até o beneficiamento, etapa importante da cadeia produtiva, em que a fibra é separada do caroço e passa por processos de retirada de impurezas, preparando a matéria-prima para as etapas seguintes. Após o beneficiamento, a pluma é classificada e comercializada de acordo com suas características e qualidade. 

Ao longo desse percurso, diferentes etapas de controle buscam preservar suas características e garantir que ela atenda aos padrões exigidos pelo mercado. No laboratório, análises avaliam aspectos como comprimento, resistência, uniformidade e coloração, parâmetros que definem a classificação e influenciam o valor comercial do algodão. 

A classificação da fibra, no entanto, não significa que materiais com características diferentes da pluma de maior qualidade sejam descartados. Ao contrário, diferentes tipos e subprodutos do algodão podem encontrar outros destinos dentro da cadeia produtiva. É o que explica Ana Paula Franciosi, 2ª secretária da Abapa: “Você aproveita tudo do algodão, desde a pluma boa até a fibrilha, que tem uma qualidade reduzida e pode ser utilizada, por exemplo, na produção de jeans. O algodão é sustentável de qualquer forma, porque nada se descarta: tudo se comercializa e tem uma outra função dentro de uma outra cadeia de produção."

O aproveitamento da fibra em diferentes produtos amplia os destinos do algodão e reduz perdas ao longo da cadeia. Nesse processo, a rastreabilidade se torna uma ferramenta importante para identificar a origem do produto e acompanhar as etapas pelas quais ele passa. Esse controle ganha ainda mais relevância diante do avanço das fibras sintéticas, que hoje ocupam uma parcela significativa do mercado têxtil. 

A disputa com as fibras sintéticas 

O avanço das fibras sintéticas tornou essa disputa ainda maior. Produzidas por processos industriais e, em grande parte, a partir de matérias-primas de origem fóssil, elas já representam cerca de 69% da produção mundial de fibras. Segundo o Materials Market Report 2025, da Textile Exchange, foram produzidas 132 milhões de toneladas de fibras no mundo em 2024. Desse total,  o poliéster respondeu por 59%, enquanto o algodão representou 19%, apesar da sua produção em grande escala.


Em um mercado cada vez mais dominado pelas fibras sintéticas, conhecer a origem e as características da matéria-prima pode se tornar um diferencial para agregar valor ao produto e manter sua competitividade. É nesse contexto que a rastreabilidade do algodão ganha importância. 


No algodão, rastrear significa acompanhar a origem da fibra e reunir informações sobre o caminho percorrido ao longo da cadeia produtiva. Desde 2004, a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) utiliza um sistema de identificação dos fardos que permite relacionar cada unidade à sua origem e às características analisadas. Em 2022, esse processo avançou com a criação do SouABR, ampliando as possibilidades de acompanhamento da produção.


Etiquetas de identificação garantem a rastreabilidade e o controle da fibra. Foto: Maria Helena Almeida


Quanto mais informações são reunidas ao longo desse percurso, maior é a possibilidade de comprovar a origem da fibra e as condições em que ela foi produzida. Para a indústria, que busca matérias-primas de origem conhecida, esse acompanhamento representa mais segurança e transparência do produto.


Rastreabilidade e certificação, no entanto, não são a mesma coisa. Enquanto a rastreabilidade permite acompanhar e comprovar informações sobre a origem e o percurso do algodão, a certificação verifica se a produção atende a critérios previamente estabelecidos. No Brasil, o programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR) reúne critérios sociais, ambientais e econômicos para certificar propriedades produtoras.


A sustentabilidade também entra nesse processo como parte da valorização da fibra. Práticas relacionadas ao uso responsável da água, à aplicação de insumos e às condições de trabalho ajudam a construir uma cadeia produtiva em que produção e responsabilidade caminham juntas.


No fim, a disputa entre fibras naturais e sintéticas não se resume ao material que chega à indústria. Ela também envolve aspectos que não aparecem na peça de roupa pronta, como a origem da matéria-prima, as condições em que foi produzida e a possibilidade de comprovar essas informações.


É nesse cenário que o algodão brasileiro busca se diferenciar. Além do reconhecimento por sua capacidade de produção em larga escala, a fibra passa a carregar informações que permitem acompanhar sua trajetória desde o campo. Em um mercado cada vez mais atento à origem dos produtos, saber de onde vem o algodão e como ele foi produzido pode ser um diferencial tão importante quanto a própria capacidade de produção.


O algodão que movimenta o Oeste da Bahia não se resume às grandes lavouras ou aos números da produção. Por trás de cada fardo, existe uma cadeia que envolve tecnologia, controle de qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade. Em meio ao avanço das fibras sintéticas, são esses elementos que podem ajudar a manter a fibra natural competitiva e transformar a força da produção baiana em vantagem no mercado.


Por Maria Helena Almeida e Júlia Araújo, estudantes de Jornalismo em Multimeios, Campus III - Juazeiro
Prêmio ABAPA de Jornalismo 2026


A Resistência do Tripé Artístico: Como a produção no interior movimenta a cena cultural

No interior do Nordeste brasileiro, fazer arte vai além do talento, é enfrentar, muitas vezes, o preconceito, a invisibilidade e a instabilidade. Fora dos grandes centros urbanos, resistir torna-se parte da própria expressão artística, algo vivido de perto pelo ator Hilton Cobra, que começou sua trajetória artística no interior baiano.

Natural de Feira de Santana-BA, o ator iniciou sua trajetória artística ainda jovem. Durante a infância, brincava de atuar, usando as saias da mãe, enquanto os pais saíam de casa. Mas, foi apenas anos depois que a arte ganhou força em sua vida, a partir do contato com o teatro amador na década de 1970, em Salvador. Ao circular entre estudantes universitários e grupos teatrais, o encantamento pelo palco ganhou forma e permanência. Sua estreia nos palcos aconteceu em 1978, no grupo Carranca, e desde então Hilton Cobra nunca mais se afastou das artes cênicas. 

Cobra se tornou um dos principais nomes do Teatro Negro baiano e alcançou marcos históricos, como ser o único artista negro a apresentar e lotar um monólogo no Teatro Municipal de São Paulo, com a obra Traga-me a Cabeça de Lima Barreto.

Fotos Crédito: Teatro Francisco Nunes / F. Pâmela Bernardo

Fundador da Cia dos Comuns no Rio de Janeiro, grupo que, desde 2001, fomenta a pesquisa cênica e amplia o espaço de profissionais negros nas artes, e ex-presidente da Fundação Cultural Palmares, o artista alia atuação e articulação política. Com trabalhos recentes na televisão, como a novela Nobreza do Amor, Cobra transita entre diferentes linguagens, mas não esconde sua ligação profunda com os palcos. Para ele, o teatro, especialmente o Teatro Negro, permanece como sua maior paixão e principal forma de expressão artística.

Mesmo consagrado nos grandes centros, Cobra enfatiza que a escassez de recursos ainda sufoca quem produz longe das capitais e defende que a descentralização da arte depende urgentemente de uma mudança política estrutural no país. A PEC 421/2014, conhecida como PEC da Cultura, propõe a criação de um piso orçamentário obrigatório para investimentos em cultura nas três esferas de governo: 2% do orçamento da União, 1,5% do Estado e 1% do município para a Cultura e Arte. “Essa PEC sendo aprovada vai facilitar, e muito, as produções brasileiras como um todo, principalmente a do interior. É preciso que os trabalhadores de cultura do Brasil inteiro se empenhem para cobrar do poder público a aprovação desta lei no Congresso. Tendo o dinheiro para desenvolver nossos projetos, eu não quero nem saber se tem preconceito ou não em torno da nossa cultura interiorana”, defende Cobra.

Essa mesma urgência por recursos e visibilidade atinge os realizadores no Vale do São Francisco. É nesse cenário de resistência que o MC e ator Eric Renan de Moraes Santos, conhecido pelo nome artístico de Thress, de 25 anos, constrói sua trajetória no meio artístico. Natural de Juazeiro, na Bahia, o jovem vivencia na pele os desafios da caminhada independente no Semiárido, dinâmica que descreve como um ciclo constante e muitas vezes solitário. “O artista independente vive muito o processo da criação, mas esbarra na falta de produção e de atenção, principalmente no começo da carreira. A realidade é que muitos realizadores criam projetos fantásticos, mas acabam guardando tudo na gaveta por muito tempo, sem condições reais de colocar esse trabalho para frente”, relata Thress.

Foto: Duo Rec

Filho do movimento
Hip Hop, vertente com a qual se conectou profundamente em 2023, ao presenciar amigos organizando encontros em praças públicas com caixas de som, esse artista enfrenta também barreiras do preconceito local direcionado às manifestações periféricas. Thress desabafa que as linguagens urbanas e marginais ainda colhem desconfiança da comunidade regional, que frequentemente reage com olhares tortos por desconhecer a profundidade do movimento, ignorando o esforço coletivo daqueles que trabalham para fortalecer a cultura. Para romper o isolamento de um ciclo no qual os próprios realizadores frequentemente acabam sendo o único público possível uns dos outros, a saída tem sido a autogestão e a disputa por editais públicos. Foi por meio dessa articulação que o movimento conquistou espaço no Carnaval de Juazeiro, apresentando-se no Polo Cultural Matingueiros, graças à mobilização dos produtores locais Geomar Gomes e Murilo Aguiar.

Para manter a autonomia de sua produção cênica e musical, o jovem, que no ano passado tomou a decisão de deixar um emprego de carteira assinada de quase sete anos para focar na carreira, divide o tempo com ocupações informais como garçom e operador de som aos finais de semana e feriados. Essa engenharia financeira busca garantir a flexibilidade necessária para priorizar ensaios, reuniões e alinhamentos estéticos. Thress concentra assim esforços na consolidação de uma base de público sólida no Semiárido antes de projetar pontes geográficas mais longas, embora já tenha expandido suas referências em viagens de pesquisa por Salvador e São Paulo. 

Para ele, no entanto, a verdadeira potência da experiência artística se manifesta longe do alcance das telas e dos algoritmos. "A rede social não traduz tudo do artista. Eu acho que a gente tem que ir ver o artista ao vivo. Eu ainda sou desse, sabe? Eu gosto de assistir meus amigos artistas e gosto que venham me assistir. Todo mundo sente algo a mais no ao vivo, outra energia, outra coisa. O presencial é muito forte", defende o MC.

A resistência que une Hilton Cobra ao jovem Thress não se apoia apenas nos pontos positivos da carreira, mas na defesa de uma identidade que o eixo Rio-São Paulo teima em estereotipar. Diante da falta de estrutura, a sobrevivência artística no interior responde a um tripé implacável: a urgência de ser visto, o direito de ser valorizado e a teimosia de conseguir permanecer. Como resume Cobra, “O que mantém as cortinas abertas contra a correnteza é o pacto indissociável entre o talento e a vocação.

Por Maria Helena Almeida, estudante de Jornalismo em Multimeios e colaboradora do MultiCiência.