No oeste baiano, mulheres ocupam o controle de qualidade, a formação técnica e a gestão das empresas de algodão, mas ainda são minorias em outros espaços.
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| Eyshila Brito, atua no controle de qualidade do algodão / Foto: Vick Silva |
Eyshila Brito caminha pela Zanotto Cotton, Unidade de beneficiamento de algodão de Luís Eduardo Magalhães, e decide qual lote de fibra segue para cada etapa da produção. Engenheira agrícola e ambiental de 26 anos, saiu de Recife a um ano e três meses para assumir o controle de qualidade da empresa. Faz o recebimento do algodão, separa os lotes no pátio por variedade e produtor, “Para que não haja nenhum tipo de mistura e afete a qualidade do algodão” explica. Eyshila programa o beneficiamento cruzando o resultado do laboratório com a inspeção visual para “Eu sou a única mulher que trabalha nesse cargo aqui no maquinário”, diz.
O algodão que passa pelas mãos de Eyshila percorreu um caminho técnico antes de chegar ali. Depois de colhido, ele segue para a fábrica de beneficiamento, processo industrial que separa a fibra do caroço da semente. A fibra, chamada de pluma, é o que vai virar tecido, o caroço alimenta outra cadeia, a de óleo e ração animal. Antes de ser vendida, a pluma passa por um equipamento de análise (HVI) que mede comprimento, resistência, uniformidade e cor. Esse resultado é o que define o preço e o destino de cada lote, e é também o que orienta o trabalho diário de Eyshila. Cada fardo de algodão carrega ainda um código que permite rastrear sua origem - Qual fazenda, fábrica e laboratório foi analisado - até chegar ao comprador final.
Essa exigência de precisão tem um motivo comercial concreto: cerca de 80% da produção baiana de algodão é destinada ao mercado externo, como China, Paquistão, Vietnã, Turquia, e Bangladesh entre os principais compradores, países que abastecem grandes polos da indústria têxtil mundial. Cada ponto percentual de uniformidade ou resistência medido pelo HVI pode significar a diferença entre vender para esses mercados ou perder competitividade para outros produtores.
Uma Cadeia que exige qualificação
A Bahia é o segundo maior produtor de algodão do Brasil, atrás apenas do Mato Grosso, e o oeste baiano concentra uma produção altamente mecanizada, com uso de tecnologia de precisão em praticamente todas as etapas, da lavoura à fábrica. Segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), o estado plantou 417 mil hectares de algodão na safra 2025/2026, com expectativa de colher cerca de 925 mil toneladas de pluma. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que a Bahia responde por pouco mais de 20% da produção nacional de algodão, enquanto Mato Grosso concentra cerca de 69%.
Segundo a Abrapa, mais de 3 milhões de toneladas de algodão brasileiro foram certificadas como socialmente responsáveis na safra 2023/2024, foi essa escala que colocou o país, em 2024, na liderança mundial de exportação de algodão certificado como socialmente responsável, um selo que só existe porque cada fardo pode ser rastreado do campo até o comprador, como o que passa pelas mãos de Eyshila todos os dias.
Capacitar gente para essa cadeia cada vez mais técnica é o trabalho do Centro de Treinamento e Tecnologia da Abapa, a associação dos produtores de algodão da Bahia, em funcionamento desde 2010, em Luís Eduardo Magalhães. Já são mais de 160 mil pessoas formadas em quase 16 anos, somando 6400 cursos, de segurança do trabalho a operação de máquinas, drone e colheitadeira. Cerca de 25% dos formandos atualmente são mulheres, e desde 2021 o centro oferece turmas exclusivas para elas. “Todos os anos a gente forma em torno de 25% aqui de mulheres, então dos 100% que passam por aqui, 25% são mulheres”, relata Deibi Soares, Coordenador Administrativo do Centro de Treinamento. Nenhuma função ali é reservada por gênero, diz ele “Mulheres estão na parte da segurança, operação de máquina, o mercado de trabalho aqui na nossa região acolhe todo mundo.”. O centro também estreia neste ano, em parceria com o Senai e a Coelba, a primeira escola de eletricistas da região, gratuita e pensada desde o início para incluir mulheres.
Mulheres da Fibra
A cadeia do algodão soma 1,3 milhão de empregos formais no Brasil, dos quais 60% são ocupados por mulheres, esse número, no entanto, refere-se à indústria têxtil, que transforma a fibra em tecido e roupa, não à produção agrícola em si. Direto nas fazendas, o retrato muda: das 41 mil vagas geradas na safra 2023/2024 pelas propriedades certificadas pelo programa Algodão Brasileiro Responsável, apenas 4891, cerca de 12%, foram ocupadas por mulheres, segundo o levantamento da Abrapa. “No campo, a gente ainda tem um número majoritariamente masculino”, resume a presidente da Abapa, Alessandra Zanotto Costa, que também é sócia-diretora da Zanotto Cotton.
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| Alessandra Zanotto, Presidente da Abapa / Foto: Assessoria da Abapa |
Dentro da Zanotto Cotton, essa divisão tem nome e função. Fundada em 2012, a fábrica tinha cerca de 45 funcionários em 2022, hoje emprega cerca de 92 pessoas durante a safra, número que cai para 40 no restante do ano. É na linha de produção que o núcleo emprega a maior parte dessa equipe, em trabalho pesado e sazonal, que nenhuma mulher trabalha até hoje. "É por questões de trabalho mesmo e por mão de obra", diz a diretora Fernanda Zanotto, irmã de Alessandra, que administra o dia a dia da fábrica ao lado dela. Mulheres ocupam a recepção, o setor administrativo e o controle de qualidade, a função de Eyshila, que Fernanda descreve como uma das mais estratégicas da operação, por acompanhar o produto desde a chegada do campo até a formação do lote final.
A empresa só construiu um alojamento para mulheres no ano passado, motivada por um problema prático: boa parte da mão de obra da fábrica vem de fora da região durante a safra, e não havia onde hospedar trabalhadoras. "A gente vem tentando fomentar mulheres da região para vir fazer essa atividade aqui", diz Fernanda. A Zanotto Cotton é uma empresa comandada por mulheres, Fernanda e Alessandra assumiram a gestão que antes era do pai, Dionísio Zanotto, que fundou a empresa depois de migrar do Rio Grande do Sul. Perguntada sobre o que mudou desde que ela e Alessandra assumiram a gestão, Fernanda aponta para a administração, não para a fábrica: "A gente trouxe um cuidado maior, um profissionalismo, uma preocupação com a qualidade, não que nosso patriarca não tivesse, mas a gente foi buscar o que o mercado tá querendo lá fora."
Mulheres no topo
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| Ana Paula Franciosi 2° secretaria da Abapa e da 2° Geração da Família Franciosi / Foto: Assessoria da Abapa |
Antes da mecanização, colher algodão exigia seis ou sete pessoas trabalhando juntas com cestos prensando o algodão à mão. Hoje, uma colheitadeira faz esse trabalho sozinha, operada por uma ou duas pessoas, Uma máquina do tamanho de um caminhão grande, que avança pela lavoura colhendo, limpando e enrolando o algodão em fardos cilíndricos ao mesmo tempo. No Grupo Franciosi, uma das maiores produtoras de algodão e soja da região, com mais de 82 mil hectares plantados, uma mulher operou pela primeira vez uma colheitadeira. "Foi bem significativo, é pela primeira vez que a gente tem uma operadora", diz Ana Paula Franciosi, gestora do grupo e também da segunda geração à frente do negócio da família. "Quando você tem uma quebra de paradigma, se torna um exemplo e é estimulante para que outras mulheres também se sintam à vontade."
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| Colheitadeira de Algodão / Foto: Vick Silva |
O mesmo padrão de sucessão que levou Fernanda e Alessandra à gestão da Zanotto se repete no Grupo Franciosi, e também na diretoria da Abapa, que hoje reúne cinco mulheres em cargos executivos: Alessandra na presidência; Ana Paula e Patrícia Kyoko Portolese Morinaga nas secretarias; Elisa Zancanaro Zanella e Liliana de Oliveira Zempulski nas tesourarias; e Isabel da Cunha no conselho consultivo. Alessandra não é a primeira mulher no cargo, Isabel da Cunha, primeira mulher a integrar uma diretoria estadual de produtores de algodão no Brasil, presidiu a Abapa em 2011/2012 e 2013/2014, depois de ter sido a primeira tesoureira mulher da entidade, em 2002 , mas se apresenta como a primeira presidente nascida na Bahia, o que ela relata ser um motivo de muito orgulho. Para ela, a sucessão de homens em empresas familiares do agro costuma ser tratada como natural, enquanto mulheres em posição semelhante precisam demonstrar conhecimento técnico para serem reconhecidas, o que, segundo ela, exige "muita coragem".
Eyshila Brito segue, por enquanto, sozinha na função que ocupa dentro da Zanotto Cotton. Mas ela não é mais um caso isolado na cadeia do algodão baiano: no Centro de Treinamento, uma em cada quatro pessoas formadas hoje é mulher; no Grupo Franciosi, uma colheitadeira já foi operada por uma mulher pela primeira vez; na diretoria da Abapa, cinco das principais cadeiras são ocupadas por mulheres. No algodão baiano, elas já chegaram ao laboratório, à gestão e à colheitadeira. O próximo passo é deixar de serem exceção.
Por Vick Silva, estudante de Jornalismo em Multimeios, Campus III - Juazeiro
Prêmio ABAPA de Jornalismo 2026




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