Cidade da Bossa Nova, dos encontros à beira do Velho Chico e de uma diversidade musical que expressa a resistência e a força juazeirense, Juazeiro construiu uma trajetória cultural marcada pela criação artística e pela ocupação de espaços públicos. Registros do jornal Rivale, preservados pelo Acervo Maria Franca Pires, mostram que, há mais de cinco décadas, estudantes universitários já protagonizavam a organização de eventos culturais na cidade.
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| Foto: Jornal Rivale (1972)/ Acervo Maria Franca Pires |
Edições de julho de 1972 registradas pelo jornal revelam como o veículo impulsionava a efervescência artística em suas páginas. Eventos como a II Temporada Universitária de Juazeiro, que abrigou a Pró-Arte Juazeiro e o II Festival Sanfranciscano de Música Popular Brasileira, nasceram com objetivos bem definidos, como elevar o nível artístico regional, incentivar a pesquisa musical e promover o intercâmbio entre as cidades que vão para além da região do Vale do São Francisco. Naquela época, os festivais contavam com regulamento publicado em jornal, fichas enviadas por correio, júris oficiais e prêmios em cruzeiros, além do "Troféu João Gilberto" e por onde passaram nomes importantes da música brasileira, como Caetano Veloso.
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| Foto: III Temporaria Universitária (1973), com participação de Caetano Veloso/ Acervo Maria Franca Pires |
Essa tradição de mobilização universitária e ocupação dos espaços culturais atravessou gerações e ajudou a manter viva a produção artística em Juazeiro. Ao longo das décadas, programas de rádio, como o Coletivo Coletânea, e festivais como o Umbuzada e o Raiz e Remix contribuíram para movimentar a cena autoral e criar espaços de circulação para diferentes expressões musicais. É nesse percurso de iniciativas independentes e articulação entre artistas que surge o Festival do Bosque, dando continuidade a uma história de produção cultural construída coletivamente na cidade.
A união universitária e a origem do Bosque
A história do festival começou em 2014, quando estudantes dos cursos de Ciências Sociais e Artes Visuais se uniram para movimentar a cena autoral e criar alternativas ao circuito comercial. Desde a sua origem no ambiente universitário, o movimento nasceu com a proposta de integrar a música a outras linguagens artísticas, como lembra Léo Miranda, um dos idealizadores do projeto:
“O festival, antes de ser festival, era uma festa, que desde o início tinha uma ligação com as artes visuais também. A gente começou dentro da universidade, juntando estudantes de ciências sociais com estudantes de artes visuais. Fizemos umas cinco edições de festa, duas dentro da universidade e depois fomos ocupar outros espaços, como o centro da cidade. O Centro de Cultura João Gilberto e até uma chácara em Juazeiro.”
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| Foto: Júnior Barbosa |
Além das festas e das ocupações em centros culturais, o coletivo realizava saraus de rua no Arco da Ponte e no Quintal do Poeta, além de bailes de hip-hop. Toda essa movimentação resultou, no final de 2019, na primeira edição oficial do Festival do Bosque, realizada de forma colaborativa. Na época, o evento reuniu oito bandas locais em que os próprios integrantes dividiam o palco com as funções de bar, técnica e produção. “Era uma equipe que girava, bem colaborativa mesmo”, destaca o produtor.
Após um período de pausa devido à pandemia, a iniciativa amadureceu e se consolidou como produtora cultural. A partir de 2024, com o apoio de editais públicos como a Lei Paulo Gustavo e a Lei Aldir Blanc, o festival estruturou sua produção e expandiu o alcance de público no Vale do São Francisco.
O pesquisador Cristiano Oliveira, que há 11 anos estuda as relações entre comunicação e música, destaca que os festivais independentes da Bahia se caracterizam pela diversidade artística e pela articulação entre músicos, produtores e público. Para ele, essas iniciativas ampliam a circulação de artistas e a formação de público, criando conexões entre diferentes cidades e cenas musicais para além de Salvador.
Apesar das transformações nas formas de divulgação e financiamento, impulsionadas pelas tecnologias digitais e pelas políticas culturais, os festivais ainda enfrentam desafios de sustentabilidade e infraestrutura. Festivais como os de antigamente e os de hoje vão além da programação musical, pois articulam agentes e cenas culturais de diferentes territórios. “A circulação não significa apenas o deslocamento físico de artistas, mas a criação de conexão com o público.”.
Nesse contexto, Cristiano ressalta a importância das práticas colaborativas e do reconhecimento do interior baiano como território de criação musical. E a importância das conexões profissionais, da divulgação de obras e do reconhecimento por novos públicos. Essa perspectiva reforça a importância de olhar o que acontece fora de Salvador.
“O interior da Bahia não é apenas um território onde a música chega, é também um território onde a música é produzida, organizada, compartilhada e transformada”.
Axé, ancestralidade e ocupação política
Com o tema “Axé para quem é de música”, a edição de 2026 tem como objetivo conectar a cena musical aos saberes tradicionais das casas de terreiro e da cultura afro-latina, promovendo o encontro entre novos nomes e mestres da percussão. Nos dias 30 e 31 de outubro, no Centro Cultural João Gilberto, e no dia 1º de novembro, na Ilha do Fogo, o festival contará com diversas participações artísticas e formações culturais, trazendo como grande destaque a apresentação do Ilê Aiyê, grupo que marca o encontro entre o afoxé e a tradição afro-baiana de Salvador com o público do Vale do São Francisco.
Além disso, a ocupação de territórios emblemáticos do Vale do São Francisco reforça o caráter político e comunitário do evento, chamando a atenção para a preservação ambiental e a convivência nos espaços públicos.
“Levar o festival para a Ilha do Fogo é um projeto político nosso. É um território no meio do São Francisco que precisa de afeto e cuidado”, afirma Léo.
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| Foto: Reprodução de arquivo pessoal |
Artista, mulher de axé e mestranda na Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), Milena Silva, chegou ao Festival do Bosque em 2025, como estagiária, e nesta edição atua como assistente de produção. Para ela, o festival também representa um espaço de formação e profissionalização na cultura, além de aproximar seu trabalho de suas referências pessoais e políticas.
“É preciso todos os dias reafirmar nossas crenças na arte, acreditar que ela é um espaço de transformação. O axé me atravessa nesse sentido, nesse lugar da encruzilhada, dos altos e baixos. Exu é muito presente na minha vida e também no Festival do Bosque”, afirma. A relação entre ancestralidade e produção cultural também se expressa na defesa dos territórios e das políticas públicas. “A arte pulsa junto com o axé”, resume.
A presença feminina nos bastidores e nos palcos ganha dimensão pública com o Cortejo Cultural, coordenado pela percussionista e maestra Paloma Lorenna. Formado exclusivamente por mulheres instrumentistas, o cortejo abre a programação do Festival do Bosque no dia 30 de outubro, em um percurso entre a Orla 2 e o Centro Cultural João Gilberto.
Para Paloma, a iniciativa responde à pouca visibilidade de musicistas independentes e batuqueiras nos festivais do Vale do São Francisco. “É muito importante reunir mulheres aqui no Vale, principalmente mulheres negras, que trazem a ancestralidade e o axé. A maioria das participantes do cortejo é de mulheres do axé. É uma representação da união das mulheres, da força feminina e das religiões de matriz africana”, destaca.
A proposta também evidencia a presença dessas tradições na formação da musicalidade brasileira, nem sempre reconhecida pelo público. Paloma chama atenção para os instrumentos e as manifestações culturais que integram o cortejo, como o maracatu, a capoeira e a dança afro, expressões que carregam histórias de resistência e mantêm vínculos com a ancestralidade negra.
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| Foto: Meiwa Magalhães |
“Estar produzindo esse cortejo é crucial, porque é um conjunto de culturas e de mulheres negras resistindo na rua, ocupando espaço e mostrando que não tem vez para a intolerância”, reconhece Paloma. A ocupação das ruas se soma a outra característica da edição de 2026, os três dias de programação musical são compostos exclusivamente por artistas e bandas negras. Sob o tema “Axé para quem é de música”, o Festival do Bosque articula representatividade, ancestralidade e valorização da produção artística negra, reafirmando o protagonismo de quem muito contribuiu historicamente na construção da música e da cultura brasileira.
O festival do Bosque é parte de uma história que continua sendo escrita por quem acredita na arte como espaço de encontro, expressão e transformação. Da mobilização estudantil às ruas, dos palcos às margens do Velho Chico, a iniciativa reafirma a força da produção cultural em Juazeiro e a importância de preservar os espaços onde diferentes vozes podem existir e ser ouvidas. Ao colocar a ancestralidade negra, quilombola, o axé e também potencializar o protagonismo das mulheres no centro da programação, o Festival do Bosque mantém viva uma tradição de resistência e criação coletiva, mostrando que a música também é território, memória e pertencimento.
Por Meiwa Magalhães, jornalista e colaboradora da MultiCiência, e Maria Helena Almeida e Pedro Dourado, estudantes de Jornalismo e colaboradores da agência Multiciência.
Agradecimento ao Acervo Maria Franca Pires, pela recepção e orientação na pesquisa








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