Pablo Santos expõe talento e versatilidade na linguagem de seus desenhos

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CAMPO FORMOSO(BA) - Desde a infância, Pablo Santos já desenhava tudo que lhe vinha à cabeça sem grandes pretensões. Cada traço lhe permitia momentos lúdicos para uma criança que se encantava com a construção de sua própria habilidade artística adquirida ainda garoto na capacidade de buscar, organizar e absorver conhecimento sem um instrutor. Ele já demonstrava o dom para o desenho que foi se aprimorando com o tempo, sem imaginar que sua arte poderia se tornar no futuro em uma fonte de renda.

Natural de Campo Formoso (a 412 km de Salvador), o menino que não escondia a paixão por gibis e desenhos animados foi influenciado por animes e mangás, referências que se fazem presentes no sentido de moldar os traços de seu imaginário. Em meio às atividades escolares e brincadeiras, ele se debruçava sobre cadernos para desenhar como hobby.

O tempo foi passando e Pablo, aos 26 anos, não perdeu o estímulo pela arte. A grande virada aconteceu há três anos, quando ele fez uma ilustração retratando a Guerra de Espadas - tradição junina que envolve duelos realizados com fogos de artifício em sua terra natal, no período das festas de São João. O trabalho ganhou repercussão e foi se multiplicando nas redes.

A ilustração não só circulou na internet, como também foi publicada no Correio 24 Horas e continua sendo utilizada por grupos de espadeiros em estampas de camisas. Com a repercussão, Pablo entendeu que poderia seguir na área enquanto profissional, unificando seu traço único com o cotidiano que lhe cerca.

Desde então, o artista procurou diversificar sua linguagem para com os desenhos e assinou outras ilustrações que também ganharam visibilidade. Desenhos de terror, releituras sombrias de personagens, representações de elementos culturais na estética alternativa e até mesmo cenas carregadas de humor fazem parte do portifólio do artista que busca não ficar travado às estéticas e repetições do mercado.

Elementos místicos - A estética gótica que simboliza o obscuro, melancólico, romântico e macabro, indo além do visual para expressar emoções profundas, introspecção caracterizada por tons escuros, elementos místicos, focando na admiração pelo mistério, que o acompanha desde a infância é a principal forma de linguagem e a mais marcante característica presente em cada traço feito por Pablo.

É nesta estética da contracultura gótica que ele afirma encontrar espaço para lidar com temas como melancolia e tristeza sem perder o foco na tranquilidade. "Ignorar a tristeza e sentimentos ruins faz com que você não aprenda a lida com eles", afirma Pablo.
Foto: Arquivo Pessoal
Em 2025, Pablo foi contemplado pelo edital da Lei Aldir Blanc com o projeto Gameleira, que conta através de quadrinhos uma história que se passa na Freguesia Velha de Santo Antônio (antigo nome de Campo Formoso) e se estende ao contemporâneo. A narrativa parte de três lendas famosas na região:  A Barda do Missionário, O Corpo Seco e os Olhos de Fogo que misturam recortes históricos, doses de humor e ironia.

Pode-se se dizer que o artista é mesmo apaixonado por sua terra. Jamais deixou de perceber a necessidade e o valor afetivo de produzir em sua arte temáticas que façam com que seus conterrâneos se identifiquem com as histórias que ele tirava de suas memórias e indagações até colocar no papel.

Recentemente, o trabalho batizado de “Gameleira”, em que transformou referências presentes nos desenhos, se transformou em um projeto ligado à memória cultural de Campo Formoso. “Sempre me vejo envolvido com traços que são a memória de minha cidade, sempre é bom retratar a história da gente”, observa.

Em um mundo cada vez mais tecnológico, o artista se apropria das ferramentas digitais e reafirma o desenho como ofício de linguagem e representatividade. 

Por Jediael Santos, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III. 

Fabiano Nunes, um artesão de identidade e resistência sertaneja em favor da arte de madeira

Foto:Reprodução

Fabiano Nunes da Silva é daqueles nordestinos criados no Sertão que se firmam na frase literária “o sertanejo é antes de tudo um forte”, principalmente para quem trabalha com arte. É mais que um oficio, geração de renda e amor pelo que se faz. Basta entrar em seu ateliê repleto de peças de madeira, pó para todos os lados e olhar suas mãos sujas de verniz e cola. Daí, perceber o talento que se revelam nos traços de suas peças. Por outro lado, o corpo com marcas de cicatriz que foram surgindo no dia a dia do trabalho árduo da marcenaria – o que para muitos parece ser simples, mas nem tanto assim.

Aos 37 anos, Fabiano já carrega em sua trajetória, os desafios, dores e glórias de um artesão que sabe bem responsabilidade e os desafios de manter e valorizar seu trabalho manual. No dia a dia, ele abraça sua missão de dar vida e características diversas às suas peças como obra de arte. Tudo isso manualmente. Natural de Serra Talhada, Sertão de Pernambuco, aos 19 anos, o artesão migrou para o Vale do São Francisco, em busca de oportunidades de trabalhos na cidade de Petrolina.

Com escolaridade até a quinta série, antes de conhecer o mundo da arte, Fabiano trabalhou com agricultura em uma roça de sua cidade natal. Com a morte do pai, decidiu migrar com família para Petrolina, pois as coisas não estavam boas para garantir o sustento da família. Ainda na infância, ao observar o pai trabalhar com gesso, despertou seu interesse pelo artesanato, chegando a aprender um pouco da arte. Mais tarde encontrou na madeira sua principal forma de expressão.

Autodidata, Fabiano diz ter produzido sua primeira peça em um momento especial de sua vida ao saber que a esposa, Rayane de Moraes Leonardo, estava grávida. O presente para o filho que ainda não havia nascido, foi um carrinho de madeira, idealizado e produzido manualmente. Aos poucos, o que começou de forma natural como um gesto de afeto, sem grandes pretensões, tornou-se sua principal fonte de renda.

“A marcenaria para mim abriu oportunidades e se tornou tudo. É daqui que eu sustento minha família, compro alimentos,  roupa, calçado e pago as contas. Aqui é como se fosse parte da nossa vida, nossa rotina”, afirma o artesão, enquanto molda suas peças. Entre as suas criações, Fabiano sempre despertou maior interesse em produzir peças diversificadas em formato de peixes – pois os animais aquáticos são uma de suas paixões e ocupam lugar especial em sua galeria.

Apaixonado pela pesca, ele esculpe seu artesanato na linha da inspiração, como memoria recente a partir das lembranças das últimas pescarias realizadas com amigos. Sem moldes ou desenhos prévios, apenas a memória e a experiência guiam seu processo criativo. De acordo com Fabiano, nem todo consumidor compreende o valor do trabalho manual. Muitos clientes acabam optando por peças industrializadas de menor qualidade. “O vendedor mostra uma mesa bonita, faz a cabeça do cliente, mas não explica que o material mdf é papelão prensado. A pessoa compra pela aparência, mas quando molha ou dá qualquer problema, acabou, a peça foi perdida”, observa.

Para ele, há sinais de desvalorização do artesanato, o que está diretamente ligada à lógica do menor preço. “O povo quer botar o valor lá embaixo. Tem vontade de comprar, mas quer levar por um preço baratinho. Parece que o artesão é obrigado a vender barato. E não é só comigo, é com todo mundo que trabalha com arte”, argumenta.

PRAZER E DOR 

O ofício de fazer arte, muitas vezes conecta prazer e dor. Às vezes deixa marcas no artista que muitos consumidores sequer conseguem perceber. Fabiano, por exemplo, que trabalha diariamente em seu pequeno ateliê, ao lado de sua casa, não esconde marcas de cicatrizes que lhe acompanharão na vida. “Isso aqui foi semana passada. O disco da lixadeira estourou na minha mão que ficou uma semana inteira. Só comecei a mexer o dedo no sábado”, diz ele ao exibir os ferimentos.

A perna esquerda também carrega uma cicatriz profunda, resultado de um acidente que ocasionou um corte profundo e doze pontos. Outros incidentes resultaram em cortes nos dedos e choques elétricos. Certa vez, acabou sendo internado. “Uns três meses depois que feri os dedos, acabei levando um choque e passei três dias internado. Agora a lixadeira estourou na mão de novo”, conta.

As marcas e conquistas através do artesanato não estão visíveis apenas no corpo, mas também na vida familiar e na possibilidade de herança do ofício. Seu filho, Felipe Juan Nunes de Moraes, 5 anos, o mesmo que motivou a criação da primeira peça, demonstra curiosidade pelo ofício do pai. “Eu acredito que meu menino vai querer trabalhar com isso. Ele mexe nas minhas coisas, vive pegando furadeira, lixadeira. Só entra aqui para ‘malinar’”, relata com palavreado de raízes nordestinas.

Talvez seja por isso também que Fabiano acredite que seu legado não terminará quando suas mãos não puderem mais segurar uma lixadeira. Ele espera que o ofício continue com o filho, agora com mais oportunidades que ele próprio não teve. “Tem gente que acha o mundo hoje ruim, mas eu acredito que está bom e vai melhorar. Pode ser que mais na frente, ele seja melhor do que eu, com estudo e um pouco mais de habilidade, consiga fazer coisas melhores”, aponta o artesão, para quem arte é oficio, amor, dedicação e muito trabalho.

Por Mellyssa Cavalcanti, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III. 

Cabeleireira Laura Maria se destaca no empreendedorismo feminino no Vale do São Francisco

Foto: Arquivo Pessoal

O Brasil é um dos países da América Latina que mais se destacam no empreendedorismo individual voltado para o setor de cosméticos e beleza, especialmente no segmento de cabelereiras. Isso representa um dos pilares mais dinâmicos no campo econômico e sociocultural que desponta para inclusão produtiva, geração de renda e formalização. O setor de beleza no Brasil movimenta mais de R$ 130 bilhões por ano.

Em Petrolina, no Vale do São Francisco, esse cenário também se mostra atrativo para dezenas de profissionais a exemplo de Laura Maria Lima, proprietária do salão Laura Maria Beauty & Hair. Especialista em penteados, com destaque para cabelos cacheados, a profissional vem se consolidando no próprio negócio sem perder o foco nas mudanças exigidas pelo mercado, ainda mais nesse concorrido segmento.

 Além de atender no próprio salão (como beauty artist/hair style), ela também trabalha com atendimento personalizado e individual, em casos de clientes que precisem dos serviços em ocasiões como casamentos ou festa de debutante. A boa comunicação também tem sido fundamental como parte do negócio que atrai seguidores nas redes sociais.

Em sua trajetória, Laura Maria começou a trabalhar com penteados quando ainda era jovem, graças às influências existentes na família. Ela confessa que adorava tudo que vinha de salões. “No início eu fazia tranças em amigas e conhecidas do meu bairro para ganhar dinheiro na época de escola. O que era apenas uma renda extra foi se tornando na construção de uma carreira profissionalizante”, ressalta a cabelereira.

 Ela diz não ter como não lembrar momentos da convivência com sua avó e seu tio, que já trabalharam em salões da cidade. Foram eles que a ensinaram como fazer tranças modernas nela mesma, que ainda era uma garota e adorava ser a modelo da casa. Com o aprendizado doméstico e os estudos, a beleza e a qualidade de seus penteados fez com que ela se destacasse e buscasse novos horizontes.

“Quando me formei no ensino médio já tinha bastante conhecimento profissional, fazia uns extras e já conseguia me sustentar com o dinheiro dos penteados que fazia”, conta Laura. Seu espírito de empreendedora fez com que ela buscasse mais experiências para aumentar a qualidade de seus trabalhos, chegando até mesmo a viajar para São Paulo, para fazer cursos e se especializar.

A formação permitiu com que ela pudesse trabalhar em diversos salões, mas seu sonho sempre foi ser dona do próprio espaço. O sonho se realizou ano passado, quando abriu as portas do espaço Laura Maria Beauty & Hair.
Foto: Arquivo Pessoal

Em seu Instagram com perfil Laura Maria Penteados – “Beleza, cosméticos e cuidados pessoais”, ela destaca realizar sonhos através de penteados. Lá estão dezenas de postagens e registros de suas clientes em momento especiais com diversas fotografias produzidas com talento e destaque para os penteados assinados por esta profissional.

Para além do talento e reconhecimento de sua clientela, a popularidade de seu trabalho já permitiu com que ela cuidasse das madeixas de artistas famosos como a cantora Mari Fernandez. O diferencial de ser especialista em cabelos cacheados lhe permite que a concorrência não seja um problema. Laura hoje tem a liberdade de fazer seus próprios horários, mas não deixa de atender com a mesma qualidade seus clientes. A qualidade do trabalho feito com amor e dedicação para qualquer profissional desse segmento é o que se torna a alma do negócio.

Por Luiz Rodrigues, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III. 

“Maria do Mato”, a força da mulher que brotou da roça para a cidade grande

Foto: Arquivo Pessoal

Maria Magalhães Silva é daquelas mulheres sertanejas que não escondem nas feições uma história de bravura para além da Caatinga. Já carrega no apelido a origem de suas  vivências desde que nasceu. Na pele, o rastro de uma vida moldada  na labuta, garra e suor. Conhecida como Maria do Mato, ela é o retrato de uma geração de mulheres que não teve o luxo da infância. Brincadeiras, brinquedos e rotina saudável  que eram comuns entre as garotas de sua geração, nem lhe atiçava em sonhos.

“Já nasci tendo que trabalhar. Com o passar dos anos, as responsabilidades foram só aumentando”, conta ela, sem esboçar qualquer sinal de amargura ou lamento. Sua trajetória se resume no trabalho árduo desde a infância. Maria do Mato trabalhou, sol à pino  na roça por várias décadas. De tudo fez um pouco. Por outro lado, foi obrigada a moldar uma vida doméstica para si e para os outros.

Fora da rotina de plantar e colher teve outros ofícios: avou e passou roupas, trabalhou em casas de família, foi cuidadora de pessoas prostradas, bateu tijolo, catou pedra e cortou palma para vender.  “Na minha rotina de trabalho o suor nunca foi opção, foi a única forma de sustento”, lembrou.

Aos sete anos de idade, a menina Maria presenciou o desgaste emocional e tenso na família quando viu o pai abandonar a todos numa separação inesperada. A mãe não suportou e acabou prostrada. Ela, a primogênita, com apenas um irmão ainda bebê, precisou amadurecer cedo para tocar a vida diante do que restou.

Aos 13 anos, a adolescência reservou para a jovem uma maturidade forçada naturalmente, pois já vivia com o companheiro, o cearense Antônio Saturnino da Silva. Casaram-se oficialmente e dividiram a vida por 44 anos até a morte dele.

"Maternidade e perdas dolorosas" 

A maternidade foi um território de luto para Maria que engravidou nove vezes, mas enterrou seis filhos ainda pequenos. As perdas tinham diagnóstico e contexto: uma anemia grave que evoluía para leucemia, somada ao descaso médico. Restaram-lhe três filhos para criar com certo sacrifício e amor: Rita, Francisco e Cícera. “Não tenho revolta na vida. Sempre mantive minha honestidade como filha, mulher e mãe”, desabafa Maria do Mato.

Como as longas estiagens no Sertão sempre foram fator determinante para migrações de muitos agricultores rumo às áreas urbanas, não havia de ser diferente como sua família que também reconheceu a necessidade de abandonar o campo. Na cidade, a sobrevivência exigiu tempo integral. Quando tinha 32 anos, Maria transformou suas atividades de trabalhadora para garantir o sustento.

De imediato abraçou uma nova profissão: lavar e passar roupas. Nessa época, não havia água encanada, nem energia elétrica. Para dar conta do serviço, saía cedinho para as margens do rio São Francisco, onde esfregava as peças em latas de querosene, quarava as roupas nas pedras e aguardava a secagem em varais improvisados, divididos com outras lavadeiras.

O ciclo era ininterrupto. No fim do dia, enquanto Antônio preparava a janta, Maria e as filhas voltavam para casa. Comiam e iniciavam a segunda etapa: passar a roupa com ferro em brasa. O combustível era a lenha que elas buscavam do outro lado do rio. O dinheiro era pouco. Mal garantia o básico, mas ajudava Antônio a colocar a comida na mesa.

Depois dos 40 anos, o corpo deu o primeiro aviso para fragilidade da saúde com o sinal de um derrame cerebral. Mesmo assim, Maria do Mato não parou, nem se entregou para uma “aposentadoria” forçada. “Enquanto eu podia, era de dia lavando e à noite passando”, relembra. Em menos de dois anos, veio o segundo derrame. Só que desta vez, ela viu a morte de perto. Por conta de seu quadro clínico, a rotina antes puxada,  foi interrompida completamente.

Hoje, Maria olha pra trás com certa resiliência sem reclamações,  e observa a modernidade com o olhar de quem conhece o ofício. “A máquina nunca vai lavar como uma pessoa”, defende. Seus valores continuam os mesmos: Deus, família, saúde e paz. Para as novas gerações, ela guarda um conselho curto: “Os jovens de hoje precisam estudar, trabalhar e pensar no futuro. O futuro do país com certeza são vocês, os jovens”. 


Por Mariana Saturnino, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III. 

A liberdade de João Batista no mercado informal: tranquilidade e retorno econômico

Foto: Arquivo Pessoal

Todas as manhãs, João Batista, 50 anos, ajeita sua bicicleta, deixando-a no ponto para ir à luta em busca de garantir o sustento da sua casa. Ele organiza as balas e os doces e até uma garrafa de café e segue rumo ao centro de Petrolina, interior de Pernambuco. É assim que ele dá a largada à sua maratona semanal de pequeno “empreendedor” ambulante. Sobre duas rodas – único  meio de transporte -  ele encontrou mais do que uma forma de ganhar dinheiro, conquistando a autonomia que tanto desejava.

Durante mais de duas décadas, João trabalhou em fazendas de manga e uva da região do São Francisco, mas resolveu largar esse segmento na condição de empregado. Foram anos de sol forte, longas jornadas e cobranças constantes, que o fizeram repensar a própria rotina. Cansado de trabalhar para os outros, numa jornada estressante, decidiu que estava na hora de mudar seus objetivos profissionais.

O caminho mais imediato que encontrou foi o de vendedor ambulante, fazendo seus horários entre o trabalho e obrigações com a família. O começo não foi tão fácil. Pedalando sua bicicleta com as caixas e potes de doces, João passou a circular pelas ruas do centro da cidade catando clientes.

Foi então, que em um segundo momento, ele decidiu se estabelecer na movimentada Avenida Souza Filho, no coração central da cidade. O que começou como alternativa virou sua principal fonte de renda. É com esse trabalho simples que ele sustenta sua família.

João não fala em conquistar riqueza, mas faz questão de priorizar seu trabalho e renda numa rotina de tranquilidade. “É simples, mas é meu, um trabalho justo que me permite sobreviver com a família. Não tenho chefe para brigar e nem me fazer cobranças. Trabalho em paz, dentro de meu tempo”, resume.

É nessa luta quase que diária no movimentado centro da cidade mesmo e junto a outros concorrentes que João milita há mais de oito anos. Jamais perdeu esperança por dias melhores.

Com o lucro que ganha, ele sustenta a família, reabastece seu mix de produtos e não esconde o orgulho do trabalho com dignidade. Ele é um exemplo de que a felicidade pode estar nas pequenas coisas da vida e que a sua liberdade vale mais que qualquer outra coisa. Quando se vê inserido nas estatísticas do mercado informal, sabe que contribui de alguma forma com a economia local.

A história de João não é isolada. No Brasil, cerca de 40 milhões de pessoas vivem do trabalho informal. Segundo o IBGE, a informalidade atinge aproximadamente 38% da população ocupada nos últimos dois anos, refletindo a busca por autonomia diante de relações de trabalho muitas vezes desgastantes. 

Por Guilherme Leite, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III. 

José Afonso, um relojoeiro que há décadas conserta as horas das pessoas

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Entre ponteiros, engrenagens e histórias marcadas pelo tempo, o relojoeiro José Afonso Alves do Santos construiu uma trajetória que resiste às transformações da modernidade. Desde a infância, perto do pai, já despertava sua curiosidade para o ofício, com a dedicação daqueles profissionais que ainda carregam a habilidade e precisão em consertar, fazer manutenção de relógios mecânicos alinhando diagnóstico, limpeza, lubrificação, substituição de peças e restauração. Aos 14 anos, como já conhecia os meandros da profissão, decidiu dar sua largada para se tornar um profissional do segmento em Juazeiro, Sertão da Bahia. Além de referência familiar, o pai foi também seu mestre e maior inspiração para o negócio.

O aprendizado não veio apenas da técnica, mas da observação atenta e da convivência diária com o ofício. Ao longo de décadas, Afonso desenvolveu a paciência, a precisão do olhar, o manejo das mãos para o cuidado com as peças tão miúdas que movimentam as horas dentro da caixa do objeto e que ele chama de calibre. Com o passar dos anos, os ensinamentos herdados se transformaram em experiência, sensibilidade, trabalho e sobrevivência.

Ele já é um profissional conhecido e requisitado por clientes fiéis que frequentam seu ponto comercial- Relojoaria Seiko -  localizado em umas das avenidas  estreitas do centro de Juazeiro. Além de fazer consertos, ele comercializa baterias(pilhas) para relógios, controle de som e televisão, pulseiras, entre outros produtos. Para José Afonso, cada relógio que chega à sua bancada carrega mais do que um defeito a ser consertado, traduz também o valor afetivo de seus clientes. “São objetos que guardam memórias, afetos e momentos importantes da vida de seus donos. É preciso muito cuidado no ato do conserto para se dar um retorno que o cliente precisa”, diz “seu” José Afonso. De fato, nada disso passa despercebido ao seu olhar e técnica. Cada relógio, obvserva ele, pode ser um presente antigo, uma herança de família, um marco de uma história pessoal.

Por outro lado, em um cenário onde a tecnologia avança rapidamente e a cultura do descarte se torna cada vez mais comum, a profissão de relojoeiro enfrenta o risco de desaparecer. Hoje, consertar deixou de ser prioridade para muitos. Quando algo para de funcionar, a substituição parece ser o caminho mais fácil, pois os preços de um relógio novo muitas vezes são acessíveis e facilitados entre promoções e parcelamentos.
Diante dese cenário comercial, José Afonso segue firme em seu ofício. Não desiste e nem se entrega. Ele acredita no valor do reparo, no respeito ao tempo e na importância de preservar uma profissão que exige delicadeza, concentração e amor pelo que se faz. Seu trabalho vai além de ajustar mecanismos dentro do aparelho que norteiam o dia a dia dos usuários através dos ponteiros e se faz como um gesto de resistência.

MEMÓRIAS E HISTÓRIA
Ao manter viva a arte da relojoaria, José Afonso não apenas devolve o funcionamento dos relógios, mas também preserva histórias e mantém o tempo em movimento, provando que alguns ofícios, assim como certas memórias, não devem jamais ser descartadas.

No horizonte da memória, a história da relojoaria no Brasil tem raízes no final do século XIX, com seus profissionais surgindo por volta de 1871, na região sul do país. A popularização do relógio de pulso no mundo teve influência direta do brasileiro  Santos Dumont, na virada do século XX. As marcas de luxo como Rolex chegaram na década de 1960. Ao longo de décadas, inúmeras marcas e modelos passaram pelas mãos de José Afonso que ainda exerce com orgulho a profissão que lhe dar o mesmo prazer do início, batendo ponto e alinhando ponteiros no centro da cidade.

Por  Tayná Bonfim, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III. 

Laíse Almeida é a “moça bonita” que na sua rotina transita entre o comércio informal e o sonho em ser advogada”

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Laíse Adriana Almeida, 38 anos, é uma trabalhadora autônoma que não foge à luta da rotina de trabalho para se manter e realizar seus sonhos. Há poucos anos, ela viu na venda informal de “bala baiana” – um bombom de coco caramelizado de dar água na boca - uma fonte de renda para custear sua estadia em Petrolina, Sertão do São Francisco. Na maior cidade da região que liga Pernambuco à Bahia, sua missão é cursar Direito em uma faculdade particular. Natural de Curaçá (BA), sua inspiração e garra já vem dos ensinamentos dos pais, que mesmo em meio a criação dos filhos e a batalha da mãe contra um câncer terminal, nunca desistiu.

“Eu quero o melhor, eu posso ter o melhor e vou ter o melhor”, repete Laíse como num mantra de fé, pontuando seu lema de ir atrás do sonho para se tornar advogada criminalista. Ele sabe que nada é difícil quando se persiste com dedicação e estudos, quebrando as trincheiras dos desafios que é cursar nível superior.

A virada de chave da empreendedora iniciante veio em março de 2025, quando Laíse foi vender salada de frutas em meio à multidão eufórica no carnaval de Salvador. Literalmente, atrás do trio elétrico do cantor de axé, Saulo Fernandes, ela enfrentou o empurra-empurra  para fisgar os foliões da pipoca — trio sem cordas, gratuito e aberto ao público. Para chamar a atenção do artista, a vendedora improvisou seu marketing e anexou na tampa de seu isopor um cartaz, com o seguinte slogan de forma apelativa: “Saulo, me ajude a virar advogada” para chamar a atenção do artista.

De cima do trio, o cantor viu a cena, parou o show e autorizou à sua produção para que a vendedora subisse no carro. E, assim, foi feito para surpresa e emoção de Laíse.  O cantor respondeu com total empatia possível e comprou toda a mercadoria se comprometendo a custear toda a sua graduação.
“Foi inacreditável, ele foi um anjo na minha vida, como a própria música dele diz”, ressaltou a futura advogada que atualmente, cursa direito na rede UniFTC. Pouco antes do carnaval, ela estava no 4º semestre, mas sem condições financeiras de continuar pagando as mensalidades. Agora, apesar de estar com o curso integralmente pago, ela gasta muito com a estadia e deslocamento entre Curaçá e Petrolina, que ficam a cerca de 94 km de distância uma da outra.

Sua alternativa para garantir o sustento foi empreender mais uma vez. Hoje, ela vende “bala de moça” ou como costuma chamar a bala baiana, em uma das esquinas da movimentada avenida Souza Filho, no centro de Petrolina. Por lá, a vendedora já é uma figura marcante pelo seu alto astral, lábia e carisma, apelidada carinhosamente pelos clientes e colegas ambulantes de “moça bonita”.

Mas, as necessidades dela não se limitam aos custos básicos em Petrolina. Além de custear a faculdade, Laíse sustenta seus três filhos que residem em sua cidade de origem. “Eu quero dar orgulho aos meus filhos, a meu esposo, que eles possam dizer que tem uma mãe/esposa advogada”. Enquanto isso, ela vai vendendo seus doces e mergulhando nos livros para além de leis e códigos, sem esconder sua ética, responsabilidade e simpatia. Uma advogada em construção acadêmica. 
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Por Gabriel Santiago, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III.

Railene Borges: “Tornei-me manicure pelo olho e um dom que Deus me deu"


Foto: Arquivo Pessoal


Vermelho clássico, nude, preto, branco, rosa vibrante, azul royal, verde menta e roxo metálico. Essa aquarela moderna de cores de esmaltes que dão vida às unhas das mulheres já prendia o olhar da menina Railene Vieira Borges naquela transição da infância para a adolescência. Ela ficava de olhos brilhando quando via uma manicure em atividade no ciclo familiar ou entre amigas. E, foi esse cenário da vida real, que a fez abraçar a profissão a partir do final dos anos 1990.
 
Impulsionada pelo sonho e vaidade de menina, algo comum dentre toda geração de adolescentes, ela sempre quis fazer as próprias unhas. Mas, percebeu que podia trabalhar profissionalmente, ganhar dinheiro e ajudar a família. Aos poucos, foi descobrindo seu dom natural e ainda buscou se aperfeiçoar para dar o melhor na profissão de manicure/ pedicure, que no Brasil remonta à década de 1920, impulsionada pela influência da moda europeia e pela expansão dos salões de beleza, popularizando-se intensamente nos anos 50.
 
Natural de Fumaça, comunidade de Pindobaçu, norte da Bahia, ela nasceu no berço de uma família simples e trabalhadora. Ela é filha de José Vieira Borges e da dona de casa Joseni Vieira Borges, primos carnais. Os pais sempre lhe deram liberdade para pensar a profissão pela qual se dedicou.

No meio do caminho, uma curiosidade que comprova o talento natural. "Nunca fiz curso, foi no olho e um dom que Deus me deu", afirma Railene, que aos 44 anos já tem muita história para contar. Ela lembra que suas primeiras experiências profissionais aconteceram logo que chegou a Juazeiro, numa  fase em que cobrava R$ 8 para fazer as unhas dos pés e das mãos.
 
Não demorou muito para conseguir a primeira cliente, uma vizinha chamada Fátima, que passou a frequentar seu salão constantemente. A partir disso, o negócio cresceu organicamente, e Railene passou a atender a filha de Fátima, depois a irmã e as outras vizinhas. “ Desde o início e até hoje em dia, a maioria das clientes que eu conquistei foi por causa da propaganda boca a boca, até porque eu não tinha condições de investir em publicidade”, conta.
 
Foto: Arquivo Pessoal

Se no início ela cobrava R$ 4 por serviço e dependia de ligações telefônicas. Hoje, ela é uma nail designer e cobra R$ 50 para fazer mãos e pés. O WhatsApp é sua principal ferramenta de comunicação e trabalho. É  através do aparelho celular que ela gerencia uma agenda lotada de trabalho ao longo da semana. Muitos dos novos clientes a encontram por lá, veem as fotos, entram em contato.
 
Empreendedora antenada com as novidades do mercado, ela dispõe de um estoque de mais de 150 esmaltes e está sempre se atualizando através das redes sociais. Para ir até à clientela, Raislene se desloca em sua moto para atender famílias inteiras, chegando a cuidar de seis pessoas em uma única residência. “Sempre foco na qualidade do meu serviço e na relação com as clientes em vez de desperdiçar tempo observando o que minhas concorrentes estão fazendo”, argumenta.
 
Mais do que técnica, o trabalho dela se comporta como pilar de sua independência. Na condição de mãe solo, foi através das unhas que ela criou as duas filhas, Raíla e Pâmela. Hoje, com as meninas crescidas, seus objetivos mudaram de patamar. "Antes minha renda era para sustentar a casa, agora trabalho pelo propósito de novas conquistas", enfatizou.

Por Guilherme Passos, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III.