Do laboratório a Colheitadeira: Onde estão as Mulheres do Algodão Baiano

No oeste baiano, mulheres ocupam o controle de qualidade, a formação técnica e a gestão das empresas de algodão, mas ainda são minorias em outros espaços.

Eyshila Brito, atua no controle de qualidade do algodão / Foto: Vick Silva

Eyshila Brito caminha pela Zanotto Cotton, Unidade de beneficiamento de algodão de Luís Eduardo Magalhães, e decide qual lote de fibra segue para cada etapa da produção. Engenheira agrícola e ambiental de 26 anos, saiu de Recife a um ano e três meses para assumir o controle de qualidade da empresa. Faz o recebimento do algodão, separa os lotes no pátio por variedade e produtor, “Para que não haja nenhum tipo de mistura e afete a qualidade do algodão” explica. Eyshila programa o beneficiamento cruzando o resultado do laboratório com a inspeção visual para “Eu sou a única mulher que trabalha nesse cargo aqui no maquinário”, diz.


O algodão que passa pelas mãos de Eyshila percorreu um caminho técnico antes de chegar ali. Depois de colhido, ele segue para a fábrica de beneficiamento, processo industrial que separa a fibra do caroço da semente. A fibra, chamada de pluma, é o que vai virar tecido, o caroço alimenta outra cadeia, a de óleo e ração animal. Antes de ser vendida, a pluma passa por um equipamento de análise (HVI) que mede comprimento, resistência, uniformidade e cor. Esse resultado é o que define o preço e o destino de cada lote, e é também o que orienta o trabalho diário de Eyshila. Cada fardo de algodão carrega ainda um código que permite rastrear sua origem - Qual fazenda, fábrica e laboratório foi analisado - até chegar ao comprador final.


Essa exigência de precisão tem um motivo comercial concreto: cerca de 80% da produção baiana de algodão é destinada ao mercado externo, como China, Paquistão, Vietnã, Turquia, e Bangladesh entre os principais compradores, países que abastecem grandes polos da indústria têxtil mundial. Cada ponto percentual de uniformidade ou resistência medido pelo HVI pode significar a diferença entre vender para esses mercados ou perder competitividade para outros produtores.


Uma Cadeia que exige qualificação


A Bahia é o segundo maior produtor de algodão do Brasil, atrás apenas do Mato Grosso, e o oeste baiano concentra uma produção altamente mecanizada, com uso de tecnologia de precisão em praticamente todas as etapas, da lavoura à fábrica. Segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), o estado plantou 417 mil hectares de algodão na safra 2025/2026, com expectativa de colher cerca de 925 mil toneladas de pluma. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que a Bahia responde por pouco mais de 20% da produção nacional de algodão, enquanto Mato Grosso concentra cerca de 69%. 


Segundo a Abrapa, mais de 3 milhões de toneladas de algodão brasileiro foram certificadas como socialmente responsáveis na safra 2023/2024, foi essa escala que colocou o país, em 2024, na liderança mundial de exportação de algodão certificado como socialmente responsável, um selo que só existe porque cada fardo pode ser rastreado do campo até o comprador, como o que passa pelas mãos de Eyshila todos os dias.

  

Capacitar gente para essa cadeia cada vez mais técnica é o trabalho do Centro de Treinamento e Tecnologia da Abapa, a associação dos produtores de algodão da Bahia, em funcionamento desde 2010, em Luís Eduardo Magalhães. Já são mais de 160 mil pessoas formadas em quase 16 anos, somando 6400 cursos, de segurança do trabalho a operação de máquinas, drone e colheitadeira. Cerca de 25% dos formandos atualmente são mulheres, e desde 2021 o centro oferece turmas exclusivas para elas. “Todos os anos a gente forma em torno de 25% aqui de mulheres, então dos 100% que passam por aqui, 25% são mulheres”, relata Deibi Soares, Coordenador Administrativo do Centro de Treinamento. Nenhuma função ali é reservada por gênero, diz ele “Mulheres estão na parte da segurança, operação de máquina, o mercado de trabalho aqui na nossa região acolhe todo mundo.”. O centro também estreia neste ano, em parceria com o Senai e a Coelba, a primeira escola de eletricistas da região, gratuita e pensada desde o início para incluir mulheres.


Mulheres da Fibra


A cadeia do algodão soma 1,3 milhão de empregos formais no Brasil, dos quais 60% são ocupados por mulheres, esse número, no entanto, refere-se à indústria têxtil, que transforma a fibra em tecido e roupa, não à produção agrícola em si. Direto nas fazendas, o retrato muda: das 41 mil vagas geradas na safra 2023/2024 pelas propriedades certificadas pelo programa Algodão Brasileiro Responsável, apenas 4891, cerca de 12%, foram ocupadas por mulheres, segundo o levantamento da Abrapa. “No campo, a gente ainda tem um número majoritariamente masculino”, resume a presidente da Abapa, Alessandra Zanotto Costa, que também é sócia-diretora da Zanotto Cotton.

Alessandra Zanotto, Presidente da Abapa / Foto: Assessoria da Abapa

Dentro da Zanotto Cotton, essa divisão tem nome e função. Fundada em 2012, a fábrica tinha cerca de 45 funcionários em 2022, hoje emprega cerca de 92 pessoas durante a safra, número que cai para 40 no restante do ano. É na linha de produção que o núcleo emprega a maior parte dessa equipe, em trabalho pesado e sazonal, que nenhuma mulher trabalha até hoje. "É por questões de trabalho mesmo e por mão de obra", diz a diretora Fernanda Zanotto, irmã de Alessandra, que administra o dia a dia da fábrica ao lado dela. Mulheres ocupam a recepção, o setor administrativo e o controle de qualidade, a função de Eyshila, que Fernanda descreve como uma das mais estratégicas da operação, por acompanhar o produto desde a chegada do campo até a formação do lote final. 


A empresa só construiu um alojamento para mulheres no ano passado, motivada por um problema prático: boa parte da mão de obra da fábrica vem de fora da região durante a safra, e não havia onde hospedar trabalhadoras. "A gente vem tentando fomentar mulheres da região para vir fazer essa atividade aqui", diz Fernanda. A Zanotto Cotton é uma empresa comandada por mulheres, Fernanda e Alessandra assumiram a gestão que antes era do pai, Dionísio Zanotto, que fundou a empresa depois de migrar do Rio Grande do Sul. Perguntada sobre o que mudou desde que ela e Alessandra assumiram a gestão, Fernanda aponta para a administração, não para a fábrica: "A gente trouxe um cuidado maior, um profissionalismo, uma preocupação com a qualidade, não que nosso patriarca não tivesse, mas a gente foi buscar o que o mercado tá querendo lá fora."


Mulheres no topo

Ana Paula Franciosi 2° secretaria da Abapa e da 2° Geração da Família Franciosi / Foto: Assessoria da Abapa

Antes da mecanização, colher algodão exigia seis ou sete pessoas trabalhando juntas com cestos prensando o algodão à mão. Hoje, uma colheitadeira faz esse trabalho sozinha, operada por uma ou duas pessoas, Uma máquina do tamanho de um caminhão grande, que avança pela lavoura colhendo, limpando e enrolando o algodão em fardos cilíndricos ao mesmo tempo. No Grupo Franciosi, uma das maiores produtoras de algodão e soja da região, com mais de 82 mil hectares plantados, uma mulher operou pela primeira vez uma colheitadeira. "Foi bem significativo, é pela primeira vez que a gente tem uma operadora", diz Ana Paula Franciosi, gestora do grupo e também da segunda geração à frente do negócio da família. "Quando você tem uma quebra de paradigma, se torna um exemplo e é estimulante para que outras mulheres também se sintam à vontade."

Colheitadeira de Algodão / Foto: Vick Silva

O mesmo padrão de sucessão que levou Fernanda e Alessandra à gestão da Zanotto se repete no Grupo Franciosi, e também na diretoria da Abapa, que hoje reúne cinco mulheres em cargos executivos: Alessandra na presidência; Ana Paula e Patrícia Kyoko Portolese Morinaga nas secretarias; Elisa Zancanaro Zanella e Liliana de Oliveira Zempulski nas tesourarias; e Isabel da Cunha no conselho consultivo. Alessandra não é a primeira mulher no cargo, Isabel da Cunha, primeira mulher a integrar uma diretoria estadual de produtores de algodão no Brasil, presidiu a Abapa em 2011/2012 e 2013/2014, depois de ter sido a primeira tesoureira mulher da entidade, em 2002 , mas se apresenta como a primeira presidente nascida na Bahia, o que ela relata ser um motivo de muito orgulho. Para ela, a sucessão de homens em empresas familiares do agro costuma ser tratada como natural, enquanto mulheres em posição semelhante precisam demonstrar conhecimento técnico para serem reconhecidas, o que, segundo ela, exige "muita coragem".

Eyshila Brito segue, por enquanto, sozinha na função que ocupa dentro da Zanotto Cotton. Mas ela não é mais um caso isolado na cadeia do algodão baiano: no Centro de Treinamento, uma em cada quatro pessoas formadas hoje é mulher; no Grupo Franciosi, uma colheitadeira já foi operada por uma mulher pela primeira vez; na diretoria da Abapa, cinco das principais cadeiras são ocupadas por mulheres. No algodão baiano, elas já chegaram ao laboratório, à gestão e à colheitadeira. O próximo passo é deixar de serem exceção.


Por Vick Silva, estudante de Jornalismo em Multimeios, Campus III - Juazeiro

Prêmio ABAPA de Jornalismo 2026

A crise provocada pelo bicudo do algodoeiro na década de 80 transformou a cotonicultura brasileira

Ascensão de um modelo marcado por tecnologia, inovação, produtividade em grande escala e sustentabilidade no Oeste baiano

Foto: Sara Freire

  O algodão, que hoje coloca a Bahia entre os principais produtores da fibra no país, é também herdeiro de uma cultura que sofreu uma das maiores crises da história no Nordeste. Décadas atrás, a região era referência na produção do algodão mocó, fibra conhecida por sua resistência e qualidade. Mas, nos anos 80, algo inesperado pelos produtores aconteceu: uma praga trazida de países estrangeiros dizimou quase toda a produção. O grande “tapete branco” se tornou refém do bicudo do algodoeiro, um pequeno besouro que come o algodão antes mesmo dele desabrochar, se espalhou pelas lavouras e transformou o que parecia ser uma atividade consolidada em um cenário de perdas. 


   Produtores e pesquisadores começaram a buscar métodos e melhorias do manejo para enfrentar a praga, com investimentos em estudos tecnológicos capazes de reduzir os danos e evitar que surtos semelhantes viessem à tona novamente. Para algumas regiões do país, como, nos estados de São Paulo, Ceará e Paraná, de fato, foi o fim da produção, no entanto, na Bahia, o acompanhamento do Programa Fitossanitário executado pela Abapa (Associação Baiana dos Produtores de Algodão) tornou-se essencial para garantir a sustentabilidade e a produtividade no campo. Estratégia que funcionou para que os produtores não fossem pegos desprevenidos mais uma vez e responsável pela melhora ainda maior das lavouras de algodão. 

    A coordenadora do programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR) Sustentabilidade, Yanna Costa, explica que  “ Atualmente, dentro do sistema de produção, a gente tem trabalhado com todas as unidades produtivas para melhorar e trabalhar com a agricultura de precisão. O principal método é o preventivo, adotando cultivares com genética e tecnologia à frente, diminuindo a necessidade de uso de produtos químicos. O controle químico não deve e não é usado de forma exclusiva, é sempre uma forma de manejo complementar às outras estratégias, seja em método preventivo, físico ou mecânico.”

        Nesse cenário,  cresce entre os agricultores a busca por alternativas sustentáveis, como a implantação de biofábricas próprias. A iniciativa garante o volume necessário de bioinsumos, organismos como vírus, bactérias e insetos direcionados ao combate de pragas-alvo, e reduz progressivamente a dependência de produtos químicos no campo.

   A gestão sustentável estende-se também ao uso racional e responsável dos recursos hídricos. Embora o cultivo não seja dependente de irrigação, a tecnologia é acionada de forma complementar durante períodos de oscilação hídrica das chuvas no Oeste baiano, garantindo à lavoura o volume de água de que necessita para o seu desenvolvimento.

   As estratégias de prevenção da cadeia produtiva tornam-se cada vez mais cruciais para conter o avanço da praga e evitar novamente prejuízos severos e a atuação conjunta do setor mostra sua força: "Quando você tem uma associação estruturada, especializada e com equipe dedicada a monitorar alertas em relação ao bicudo e a qualquer outro tipo de praga, isso facilita muito o controle. Conseguimos unificar os cuidados de manejo de uma forma única, não em fiscalizar, mas com foco em alertar e instruir", ressalta Ana Paula Franciosi, segunda-secretária da Abapa. 

   A cotonicultura é o principal vetor de crescimento de Luís Eduardo Magalhães e do Oeste da Bahia. O município está no coração do Matopiba (região que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e funciona como um dos principais pólos de desenvolvimento e tecnologia agrícola. Além disso, o bioma Cerrado baiano oferece topografia e clima favoráveis para a produção de uma pluma de alta qualidade.

   "A evolução na tecnologia de sementes e a ausência de chuva no período da colheita são fatores cruciais para garantirmos a qualidade e uma boa produção", afirma o segundo vice-presidente Abapa, Douglas Orth. Completando, a segunda-secretária da instituição, Ana Paula Franciosi, destaca a importância da geografia local "A planície é uma característica que influencia muito para que a gente tenha campos mais extensos e a possibilidade de trabalhar com máquinas maiores, permitindo uma produção em larga escala".

   A atividade, que no passado era marcada pelo trabalho puramente braçal e instintivo, projeta o seu futuro sobre uma agricultura tropical de alta precisão, pautada pelo uso intensivo de dados e inteligência artificial. Essa transformação tecnológica altera profundamente o perfil do campo, substituindo a antiga baixa exigência de escolaridade por uma demanda crítica por mão de obra técnica e altamente especializada. O anterior isolamento tecnológico e urbano cede espaço a uma integração total entre o ecossistema urbano e o produtivo, enquanto a histórica desconexão com pautas ambientais globais dá lugar ao pioneirismo da região na adoção de métricas ESG (Ambiental, Social e Governança) e no alinhamento com as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU).


    Os indicadores da Abapa traduzem em números o destaque do estado no mercado global. Após encerrar a safra 2024/2025 com 843 mil toneladas de pluma extraídas de 413 mil hectares de lavoura, a estimativa é de um crescimento de 10% no ciclo 2025/2026, com a colheita devendo bater  925,2 mil toneladas.


   Ao olhar para o futuro, a produção de algodão na Bahia investe em novos paradigmas e rompe definitivamente com o seu estigma histórico. A fibra natural deu o pontapé inicial para o crescimento do Oeste da Bahia, enquanto o agronegócio consolidou a região como um território próspero. Como explica Douglas Orth, “o algodão trouxe o start para o crescimento, o agro trouxe um franco crescimento, somos uma região próspera”. Mais do que ditar o ritmo da inovação, o setor assume a responsabilidade de educar, nutrir e preparar a próxima geração, selando um compromisso com o futuro do território. 


Por: Sara Freire e Amy Ferreira, estudantes de Jornalismo em Multimeios, Campus III - Juazeiro

Prêmio ABAPA de Jornalismo 2026


O eldorado do Oeste baiano: Como o algodão equilibra produção em larga escala, tecnologia e a disputa com as fibras sintéticas

Prensagem e embalagem da pluma de algodão após o beneficiamento. Foto: Maria Helena Almeida

Conhecido como o “Eldorado do agronegócio”, Luís Eduardo Magalhães, localizado no Oeste baiano, destaca-se como um dos principais pólos de produção agrícola da região, especialmente no cultivo de algodão e grãos, além dos avanços tecnológicos aplicados ao campo.  Com grandes extensões de lavouras e uma produção cada vez mais mecanizada, o município se tornou um dos principais cenários da expansão do agronegócio brasileiro e o algodão ocupa um lugar estratégico na economia local  e na consolidação da Bahia como referência nacional em qualidade de fibras. 

O investimento em tecnologias no campo, aliado ao uso de sistemas de irrigação e biotecnologia, contribui para elevar a produtividade e a qualidade da fibra produzida na região, fortalecendo sua presença nos mercados nacional e internacional. A expansão da cotonicultura no oeste baiano acompanha a própria transformação  econômica da região. A atividade ganhou força a partir da década de 1990, segundo Eleusio Curvelo Freire, no livro “Algodão no Cerrado”, publicado pela Embrapa, quando a chegada do algodão ao Cerrado representou uma mudança no modelo tradicional de cultivo, marcado por pequenas áreas e pelo uso intensivo de mão de obra.

Na região, a atividade passou a ser desenvolvida em grandes propriedades, com elevado grau de mecanização e recursos voltados para o plantio, o controle de pragas e a colheita. Outros fatores também contribuíram para esse processo, como as características do solo, o relevo predominantemente plano e as condições climáticas do Oeste baiano, que favoreceram a expansão da agricultura em larga escala. 

A combinação dessas condições naturais e investimentos no campo permitiu a consolidação de um sistema produtivo cada vez mais especializado. O algodão passou a integrar sistemas de rotação com culturas como soja e milho, ampliando as possibilidades de cultivo e contribuindo para a diversificação das atividades agrícolas no Cerrado.

Esse processo também modificou a relação entre produção e qualidade. Com o avanço da mecanização e o aperfeiçoamento das práticas empregadas no campo, a fibra passou a ser produzida sob critérios cada vez mais rigorosos, desde a escolha das sementes e o manejo da lavoura até a colheita e o beneficiamento. A qualidade, nesse contexto, tornou-se um dos principais diferenciais do algodão produzido no Oeste da Bahia.

A força do algodão baiano 

Inspeção da fibra para análise e classificação de qualidade. Foto: Maria Helena Almeida

A força do agronegócio no Oeste baiano também pode ser medida pela dimensão da cotonicultura. A Bahia é atualmente o segundo maior produtor de algodão do Brasil e responde por cerca de 20% da produção nacional, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para 2026. O estado deve produzir aproximadamente 1,55 milhão de toneladas de algodão, considerando caroço e pluma, em uma área estimada de 354 mil hectares.

O cenário coloca a Bahia atrás apenas do Mato Grosso, que concentra cerca de 71,4% da produção nacional estimada para o ano. Em escala nacional, o IBGE estima uma produção de 9,3 milhões de toneladas de algodão herbáceo (cultura de ciclo anual que representa a principal espécie de algodão cultivada comercialmente no país) em caroço em 2026, com o Mato Grosso e a Bahia liderando a produção brasileira.

Além da extensão das lavouras, o desempenho da cotonicultura baiana está relacionado também à incorporação de tecnologias, mecanização e investimentos em diferentes etapas da cadeia produtiva. Para a presidente  da Associação Baiana de Produtores de Algodão (ABAPA), Alessandra Zanotto, a dimensão dessa estrutura está diretamente ligada ao modelo de produção adotado no estado. Essa combinação entre escala, tecnologia e controle fortalece o algodão produzido no Oeste baiano e ajuda a explicar sua presença nos mercados nacional e internacional. 

A busca por competitividade não se resume, porém, à quantidade produzida. No mercado de fibras, a qualidade da pluma é um dos fatores que podem determinar seu valor e sua capacidade de atender às exigências da indústria. Características como comprimento, resistência, uniformidade e coloração são analisadas ao longo da cadeia e ajudam a definir a classificação do algodão.

“Vejam o que é eficiência, inovação e tecnologia embarcada no campo, que nos coloca nesse patamar, com essa capacidade de produção. A Bahia é o estado que mais produz algodão por hectare no Brasil” , afirma Zanotto.

Foto: Assessoria de Comunicação da ABAPA

A preocupação com a qualidade da fibra começa ainda no campo e acompanha a pluma  até o beneficiamento, etapa importante da cadeia produtiva, em que a fibra é separada do caroço e passa por processos de retirada de impurezas, preparando a matéria-prima para as etapas seguintes. Após o beneficiamento, a pluma é classificada e comercializada de acordo com suas características e qualidade. 

Ao longo desse percurso, diferentes etapas de controle buscam preservar suas características e garantir que ela atenda aos padrões exigidos pelo mercado. No laboratório, análises avaliam aspectos como comprimento, resistência, uniformidade e coloração, parâmetros que definem a classificação e influenciam o valor comercial do algodão. 

A classificação da fibra, no entanto, não significa que materiais com características diferentes da pluma de maior qualidade sejam descartados. Ao contrário, diferentes tipos e subprodutos do algodão podem encontrar outros destinos dentro da cadeia produtiva. É o que explica Ana Paula Franciosi, 2ª secretária da Abapa: “Você aproveita tudo do algodão, desde a pluma boa até a fibrilha, que tem uma qualidade reduzida e pode ser utilizada, por exemplo, na produção de jeans. O algodão é sustentável de qualquer forma, porque nada se descarta: tudo se comercializa e tem uma outra função dentro de uma outra cadeia de produção."

O aproveitamento da fibra em diferentes produtos amplia os destinos do algodão e reduz perdas ao longo da cadeia. Nesse processo, a rastreabilidade se torna uma ferramenta importante para identificar a origem do produto e acompanhar as etapas pelas quais ele passa. Esse controle ganha ainda mais relevância diante do avanço das fibras sintéticas, que hoje ocupam uma parcela significativa do mercado têxtil. 

A disputa com as fibras sintéticas 

O avanço das fibras sintéticas tornou essa disputa ainda maior. Produzidas por processos industriais e, em grande parte, a partir de matérias-primas de origem fóssil, elas já representam cerca de 69% da produção mundial de fibras. Segundo o Materials Market Report 2025, da Textile Exchange, foram produzidas 132 milhões de toneladas de fibras no mundo em 2024. Desse total,  o poliéster respondeu por 59%, enquanto o algodão representou 19%, apesar da sua produção em grande escala.


Em um mercado cada vez mais dominado pelas fibras sintéticas, conhecer a origem e as características da matéria-prima pode se tornar um diferencial para agregar valor ao produto e manter sua competitividade. É nesse contexto que a rastreabilidade do algodão ganha importância. 


No algodão, rastrear significa acompanhar a origem da fibra e reunir informações sobre o caminho percorrido ao longo da cadeia produtiva. Desde 2004, a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) utiliza um sistema de identificação dos fardos que permite relacionar cada unidade à sua origem e às características analisadas. Em 2022, esse processo avançou com a criação do SouABR, ampliando as possibilidades de acompanhamento da produção.


Etiquetas de identificação garantem a rastreabilidade e o controle da fibra. Foto: Maria Helena Almeida


Quanto mais informações são reunidas ao longo desse percurso, maior é a possibilidade de comprovar a origem da fibra e as condições em que ela foi produzida. Para a indústria, que busca matérias-primas de origem conhecida, esse acompanhamento representa mais segurança e transparência do produto.


Rastreabilidade e certificação, no entanto, não são a mesma coisa. Enquanto a rastreabilidade permite acompanhar e comprovar informações sobre a origem e o percurso do algodão, a certificação verifica se a produção atende a critérios previamente estabelecidos. No Brasil, o programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR) reúne critérios sociais, ambientais e econômicos para certificar propriedades produtoras.


A sustentabilidade também entra nesse processo como parte da valorização da fibra. Práticas relacionadas ao uso responsável da água, à aplicação de insumos e às condições de trabalho ajudam a construir uma cadeia produtiva em que produção e responsabilidade caminham juntas.


No fim, a disputa entre fibras naturais e sintéticas não se resume ao material que chega à indústria. Ela também envolve aspectos que não aparecem na peça de roupa pronta, como a origem da matéria-prima, as condições em que foi produzida e a possibilidade de comprovar essas informações.


É nesse cenário que o algodão brasileiro busca se diferenciar. Além do reconhecimento por sua capacidade de produção em larga escala, a fibra passa a carregar informações que permitem acompanhar sua trajetória desde o campo. Em um mercado cada vez mais atento à origem dos produtos, saber de onde vem o algodão e como ele foi produzido pode ser um diferencial tão importante quanto a própria capacidade de produção.


O algodão que movimenta o Oeste da Bahia não se resume às grandes lavouras ou aos números da produção. Por trás de cada fardo, existe uma cadeia que envolve tecnologia, controle de qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade. Em meio ao avanço das fibras sintéticas, são esses elementos que podem ajudar a manter a fibra natural competitiva e transformar a força da produção baiana em vantagem no mercado.


Por Maria Helena Almeida e Júlia Araújo, estudantes de Jornalismo em Multimeios, Campus III - Juazeiro
Prêmio ABAPA de Jornalismo 2026


A Resistência do Tripé Artístico: Como a produção no interior movimenta a cena cultural

No interior do Nordeste brasileiro, fazer arte vai além do talento, é enfrentar, muitas vezes, o preconceito, a invisibilidade e a instabilidade. Fora dos grandes centros urbanos, resistir torna-se parte da própria expressão artística, algo vivido de perto pelo ator Hilton Cobra, que começou sua trajetória artística no interior baiano.

Natural de Feira de Santana-BA, o ator iniciou sua trajetória artística ainda jovem. Durante a infância, brincava de atuar, usando as saias da mãe, enquanto os pais saíam de casa. Mas, foi apenas anos depois que a arte ganhou força em sua vida, a partir do contato com o teatro amador na década de 1970, em Salvador. Ao circular entre estudantes universitários e grupos teatrais, o encantamento pelo palco ganhou forma e permanência. Sua estreia nos palcos aconteceu em 1978, no grupo Carranca, e desde então Hilton Cobra nunca mais se afastou das artes cênicas. 

Cobra se tornou um dos principais nomes do Teatro Negro baiano e alcançou marcos históricos, como ser o único artista negro a apresentar e lotar um monólogo no Teatro Municipal de São Paulo, com a obra Traga-me a Cabeça de Lima Barreto.

Fotos Crédito: Teatro Francisco Nunes / F. Pâmela Bernardo

Fundador da Cia dos Comuns no Rio de Janeiro, grupo que, desde 2001, fomenta a pesquisa cênica e amplia o espaço de profissionais negros nas artes, e ex-presidente da Fundação Cultural Palmares, o artista alia atuação e articulação política. Com trabalhos recentes na televisão, como a novela Nobreza do Amor, Cobra transita entre diferentes linguagens, mas não esconde sua ligação profunda com os palcos. Para ele, o teatro, especialmente o Teatro Negro, permanece como sua maior paixão e principal forma de expressão artística.

Mesmo consagrado nos grandes centros, Cobra enfatiza que a escassez de recursos ainda sufoca quem produz longe das capitais e defende que a descentralização da arte depende urgentemente de uma mudança política estrutural no país. A PEC 421/2014, conhecida como PEC da Cultura, propõe a criação de um piso orçamentário obrigatório para investimentos em cultura nas três esferas de governo: 2% do orçamento da União, 1,5% do Estado e 1% do município para a Cultura e Arte. “Essa PEC sendo aprovada vai facilitar, e muito, as produções brasileiras como um todo, principalmente a do interior. É preciso que os trabalhadores de cultura do Brasil inteiro se empenhem para cobrar do poder público a aprovação desta lei no Congresso. Tendo o dinheiro para desenvolver nossos projetos, eu não quero nem saber se tem preconceito ou não em torno da nossa cultura interiorana”, defende Cobra.

Essa mesma urgência por recursos e visibilidade atinge os realizadores no Vale do São Francisco. É nesse cenário de resistência que o MC e ator Eric Renan de Moraes Santos, conhecido pelo nome artístico de Thress, de 25 anos, constrói sua trajetória no meio artístico. Natural de Juazeiro, na Bahia, o jovem vivencia na pele os desafios da caminhada independente no Semiárido, dinâmica que descreve como um ciclo constante e muitas vezes solitário. “O artista independente vive muito o processo da criação, mas esbarra na falta de produção e de atenção, principalmente no começo da carreira. A realidade é que muitos realizadores criam projetos fantásticos, mas acabam guardando tudo na gaveta por muito tempo, sem condições reais de colocar esse trabalho para frente”, relata Thress.

Foto: Duo Rec

Filho do movimento
Hip Hop, vertente com a qual se conectou profundamente em 2023, ao presenciar amigos organizando encontros em praças públicas com caixas de som, esse artista enfrenta também barreiras do preconceito local direcionado às manifestações periféricas. Thress desabafa que as linguagens urbanas e marginais ainda colhem desconfiança da comunidade regional, que frequentemente reage com olhares tortos por desconhecer a profundidade do movimento, ignorando o esforço coletivo daqueles que trabalham para fortalecer a cultura. Para romper o isolamento de um ciclo no qual os próprios realizadores frequentemente acabam sendo o único público possível uns dos outros, a saída tem sido a autogestão e a disputa por editais públicos. Foi por meio dessa articulação que o movimento conquistou espaço no Carnaval de Juazeiro, apresentando-se no Polo Cultural Matingueiros, graças à mobilização dos produtores locais Geomar Gomes e Murilo Aguiar.

Para manter a autonomia de sua produção cênica e musical, o jovem, que no ano passado tomou a decisão de deixar um emprego de carteira assinada de quase sete anos para focar na carreira, divide o tempo com ocupações informais como garçom e operador de som aos finais de semana e feriados. Essa engenharia financeira busca garantir a flexibilidade necessária para priorizar ensaios, reuniões e alinhamentos estéticos. Thress concentra assim esforços na consolidação de uma base de público sólida no Semiárido antes de projetar pontes geográficas mais longas, embora já tenha expandido suas referências em viagens de pesquisa por Salvador e São Paulo. 

Para ele, no entanto, a verdadeira potência da experiência artística se manifesta longe do alcance das telas e dos algoritmos. "A rede social não traduz tudo do artista. Eu acho que a gente tem que ir ver o artista ao vivo. Eu ainda sou desse, sabe? Eu gosto de assistir meus amigos artistas e gosto que venham me assistir. Todo mundo sente algo a mais no ao vivo, outra energia, outra coisa. O presencial é muito forte", defende o MC.

A resistência que une Hilton Cobra ao jovem Thress não se apoia apenas nos pontos positivos da carreira, mas na defesa de uma identidade que o eixo Rio-São Paulo teima em estereotipar. Diante da falta de estrutura, a sobrevivência artística no interior responde a um tripé implacável: a urgência de ser visto, o direito de ser valorizado e a teimosia de conseguir permanecer. Como resume Cobra, “O que mantém as cortinas abertas contra a correnteza é o pacto indissociável entre o talento e a vocação.

Por Maria Helena Almeida, estudante de Jornalismo em Multimeios e colaboradora do MultiCiência.

Filme “Inóspito” transforma o Semiárido em distopia cinematográfica


Foto: André Amorim


Em um futuro distópico na cidade fictícia Nova Califórnia, Cris, uma jovem recém-formada, retorna à comunidade onde vivem sua mãe Cleide e sua avó Tereza, após a família receber uma ordem de desapropriação de suas terras. Essa é a sinopse do média-metragem ‘Inóspito’, exibido no Teatro Dona Amélia, no Sesc Petrolina. Dirigido por Iale Lima, a trama aborda temáticas como o crescimento desenfreado do agronegócio e poluição ambiental no Semiárido. 


O filme foi viabilizado pelo fomento do Governo de Pernambuco, articulado através do Edital de Ações Criativas para o Audiovisual, no âmbito da Lei Paulo Gustavo PE 2023. Para trazer mais detalhes sobre a produção do projeto, Camila Rodrigues, produtora executiva, e Iale Lima, diretora, conversaram com a equipe do Multiciência sobre a criação do universo fictício de “Nova Califórnia” e sobre a relevância de se produzir audiovisual na região.

Foto: André Amorim
MultiCiência: Como foi o início da produção de  “Inóspito”?

Iale Lima (Diretora): A ideia inicial surgiu de várias questões que a gente queria falar sobre temáticas sociais dentro do núcleo audiovisual do SESC. A gente já vinha fazendo documentários sobre esses temas e queríamos fazer uma obra de ficção com essa mesma base. Passamos um ano estudando o filme e pesquisando sobre o "Pó Preto", que é algo que acontece diariamente na região. Também pesquisamos acidentes locais e referências de artistas da região que trataram desses temas, que muitas vezes sofrem censura. Mesmo assim, decidimos desenvolver o projeto até o final.


Camila  Rodrigues (Produtora): Quando abriram as inscrições para a Lei Paulo Gustavo, vimos o potencial no roteiro que tinha sido criado junto e fizemos a  inscrição. Para escrever o roteiro, a gente começou em 2021 e terminou em 2022, mas para gravar foram dez diárias de produção, com mais dez de pré-produção. Com essa aprovação pela Lei Paulo Gustavo de Pernambuco, a gente conseguiu contratar e pagar toda a equipe. Só esse filme envolveu quase 60 pessoas, gerando postos de trabalho diretos, e agora a gente também tá conseguindo realizar exibições com mobilização de público e divulgação.

Foto: André Amorim
MultiCiência: Como foi a criação de uma distopia que reflete a realidade da região?

Iale Lima (Diretora): Inicialmente, pensei em uma ideia mais afrofuturista, mas os desafios financeiros de uma produção audiovisual nos levaram a desenhar essa Petrolina de "Nova Califórnia" de outra forma. Focamos em detalhes como cores quentes e elementos que sofremos aqui, como o calor, a poluição do pó preto e a falta de saneamento em alguns bairros.


Camila Rodrigues (Produtora): A temática em si, sobre a cultura do capitalismo, onde o poder e o dinheiro são sempre mais importantes do que as pessoas e do que a terra, que é muito forte e muito presente em Petrolina. A gente ficava se deparando, por exemplo, com as queimadas, o pó preto que ficava nas nossas calçadas. Então, não queríamos ser tão panfletário de forma direta, mas é aí onde a arte permite a gente criar essas possibilidades. Embora seja uma Nova Califórnia, que se assemelha à nossa cidade real, ela não existe; os personagens não são reais, não é um documentário, mas a temática ainda é muito atual, por isso que a gente se identifica. A identificação acontece nesse sentido, mas foi também um cuidado nosso pensar esse lugar fictício devido à importância da temática.


MultiCiência: Existiram desafios durante a produção de Inóspito? 

Iale Lima (Diretora): Existiram vários, um que me marcou foi a cena após a morte da personagem Teresa. No roteiro, ela iria para um tipo de altar em uma cena externa, mas não encontrei nada tão poético quanto eu desejava fora da casa. Acabei adaptando a cena para ser dentro do quarto dela, de forma mais sentimental. Passei uma hora no set pensando em como realizar essa cena, o que é muito tempo. Também tivemos desafios de som, pois gravamos em um bar e o barulho de pessoas passando ou telefones tocando atrapalhava o que estava sendo captado, mas o resultado deu certo.


Camila  Rodrigues (Produtora): Acho que a primeira e maior dificuldade é conseguir alinhar o cronograma com toda a equipe. Porque do dia que a gente teve o resultado da aprovação até o dia da filmagem, levou-se anos, então, desde quando a gente conversou até o momento de realizar, as pessoas já tinham outros projetos, outros trabalhos, outras demandas, então tivemos que fazer substituições e trocas. Além disso, apesar de existir um recurso que viabilizou tudo, ele ainda não reflete totalmente a realidade e isso é uma questão que a gente discute até hoje: as políticas públicas são fundamentais, precisam existir, mas também precisam acompanhar o mercado como ele está hoje.

Foto: André Amorim



MultiCiência: Quando o filme será exibido novamente? 

Iale Lima (Diretora): Como o filme "nasceu" recentemente, ainda vamos conseguir mais informações sobre onde ele será exibido e distribuído. Eu tenho escrito algumas histórias, mas de trabalho concreto com a mesma equipe, vou ser assistente de direção de um curta-metragem do Fernando Pereira no mês que vem. Particularmente, continuo no processo de escrita para realizar outros filmes no futuro.


Camila  Rodrigues (Produtora): O “Inóspito” ainda  vai rodar, ele precisa ter esse tempinho ainda de circular em festivais, em mostras e em outros projetos de cinema. Muitos desses projetos dependem que o filme não seja público, pois precisam da questão do ineditismo. Então, muito possivelmente, a gente ainda vai segurá-lo por um ou dois anos para fazê-lo circular mesmo. Mas, isso não quer dizer que a gente não vá realizar exibições, que não vamos convidar o público ou que não vá ter exibições gratuitas. A gente, na verdade, quer fazer o filme rodar para que as pessoas vejam mesmo. 


A Abajur Soluções Artísticas, produtora do filme, ainda vai realizar outros filmes este ano, como o curta-metragem “Alimentadeiras de Alma” e o documentário “Juventudes da Periferia”.


Foto: André Amorim

Por Guilherme Passos, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III.

2º Simpósio sobre Questão Racial acontece em Petrolina -PE

Foto: Terceiro dia do 2° Simpósio sobre Questão Racial do Observatório Opará⁠/ Maria Helena Almeida


O 2º Simpósio sobre Questão Racial com o objetivo de promover um debate qualificado sobre a questão racial no Brasil, evidenciando de que forma a Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância, incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro pelo Decreto no 10.932/2022, incide diretamente sobre a formulação, a implementação e a avaliação das políticas públicas de igualdade racial nos âmbitos nacional, estadual e municipal.

Em um cenário marcado por disputas e questionamentos em torno da promoção da igualdade racial, o evento reúne pesquisadores(as), professores(as), estudantes, movimentos sociais e gestores públicos para discutir os avanços, os entraves e os caminhos possíveis para o fortalecimento dessas políticas no país.

Com o tema “Ações afirmativas, reparação e garantia de direitos”, este 2º Simpósio dá continuidade às discussões iniciadas na primeira edição, realizada entre os dias 13 e 15 de maio de 2025, no Cineteatro do Câmpus Petrolina (PE) da Univasf. O evento reuniu pesquisadores(as), estudantes do ensino médio, da graduação e da pós-graduação, gestores e servidores públicos, representantes de órgãos governamentais, integrantes da sociedade civil organizada, movimentos sociais e lideranças políticas e sociais de diferentes regiões do país para discutir por que a reparação à população negra continua sendo necessária.

Em 2026, o Simpósio acontece novamente no Cineteatro do Câmpus Petrolina(PE) da Univasf. Além da conferência de abertura, palestras e mesas-redondas, o evento conta com quatro Grupos de Trabalho (GTs): GT 1 - Ações Afirmativas na Educação; GT 2 - Ações Afirmativas no Mercado de Trabalho Público e Privado; GT 3 - Reparação Racial: Fundamentos e Experiências; e GT 4 - Oportunidades e Desafios para a Juventude Negra.

Na programação, estão previstos(as) convidados(as) de referência, como a doutora Diana Molet, pró-reitora de Ações Afirmativas da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), e a professora Helga Almeida, da Univasf, já confirmadas, além de outros(as) convidados(as).


O 2º Simpósio é realizado pelo Observatório de Políticas Afirmativas Raciais - Opará, a Reitoria da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), a Seção Sindical dos Docentes da Univasf (SINDUNIVASF) e instituições parceiras. 
Mais informações no site www.observatorioopara.com.br


Por Inês Eugênia Cruz, estudante de Jornalismo em Multimeios e colaboradora do MultiCiência.

Chorinho fortalece a cultura local e ocupa espaço público em Juazeiro (BA)

Foto: Roda de chorinho/Arquivo @falajuazeiro

O som do chorinho voltou a ecoar em Juazeiro, no norte da Bahia, reafirmando a força de um dos gêneros mais tradicionais da música brasileira. Idealizado pelo músico e produtor cultural Silas França, o projeto “Roda de Choro” nasceu há mais de uma década com o objetivo de dinamizar o uso de espaços públicos e promover o acesso à cultura. “A ideia surgiu de uma necessidade de ocupar o museu com música e de valorizar o chorinho como expressão cultural. A gente não pensa em desvincular o evento desse espaço, porque ele também cumpre esse papel social”, explica.


Foto: Arquivo Pessoal
Segundo França, a relevância do projeto vai além da estrutura material. “É um evento que pode parecer intimista, mas a importância dele para o calendário de Juazeiro é gigantesca, principalmente no aspecto cultural e imaterial”. A iniciativa, que busca resgatar e manter viva a tradição do chorinho, gênero que tem entre suas referências nomes como Pixinguinha, Chiquinha Gonzaga e Waldir Azevedo, ainda promove um diálogo entre gerações, unindo músicos experientes e jovens talentos. “A gente tenta fazer uma ponte com o passado, mas com os jovens. Isso mostra que o choro continua vivo e se renovando”, destaca Silas.
Foto: Músicos e Silas França em ensaio para Roda de Chorinho/ Arquivo Pessoal

Muitos dos músicos que participam da “Roda de Choro” acompanham o projeto desde o início, formando uma rede de colaboração que o organizador define como uma família musical, o que acaba incentivando a formação artística. Silas explica que o gênero musical influencia diversos estilos, como o forró, a bossa nova e a MPB, funcionando como uma base para o desenvolvimento de instrumentistas. “O choro é como o nosso jazz. Quem quer se aprofundar na música brasileira precisa passar por ele”.

Além disso, o evento promove uma inclusão cultural, especialmente para aquelas pessoas que têm menos acesso a programações culturais na cidade, já que a iniciativa é gratuita e aberta ao público. Apesar disso, o produtor aponta desafios na realização. “Existe apoio institucional, mas ainda é limitado. É um evento que exige muito esforço da equipe, e muitas vezes faltam recursos para ampliar a frequência ou a estrutura”, relata.


Para Silas, mais do que um evento musical, o encontro anual de chorinho em Juazeiro se firma como um espaço de resistência cultural, formação artística e valorização das raízes brasileiras, mantendo viva uma tradição que segue atravessando gerações. A edição deste ano foi realizada no último dia 26, no espaço do museu da cidade, para comemorar a 10ª décima edição e marcou o calendário cultural do município reunindo músicos, público e diferentes gerações em torno da valorização da música instrumental.


Por Ana Clara Martins, estudante de Jornalismo em Multimeios e colaboradora da Agência de Notícias MultiCiência.