 |
| Prensagem e embalagem da pluma de algodão após o beneficiamento. Foto: Maria Helena Almeida |
Conhecido como o “Eldorado do agronegócio”, Luís Eduardo Magalhães, localizado no Oeste baiano, destaca-se como um dos principais pólos de produção agrícola da região, especialmente no cultivo de algodão e grãos, além dos avanços tecnológicos aplicados ao campo. Com grandes extensões de lavouras e uma produção cada vez mais mecanizada, o município se tornou um dos principais cenários da expansão do agronegócio brasileiro e o algodão ocupa um lugar estratégico na economia local e na consolidação da Bahia como referência nacional em qualidade de fibras.
O investimento em tecnologias no campo, aliado ao uso de sistemas de irrigação e biotecnologia, contribui para elevar a produtividade e a qualidade da fibra produzida na região, fortalecendo sua presença nos mercados nacional e internacional. A expansão da cotonicultura no oeste baiano acompanha a própria transformação econômica da região. A atividade ganhou força a partir da década de 1990, segundo Eleusio Curvelo Freire, no livro “Algodão no Cerrado”, publicado pela Embrapa, quando a chegada do algodão ao Cerrado representou uma mudança no modelo tradicional de cultivo, marcado por pequenas áreas e pelo uso intensivo de mão de obra.
Na região, a atividade passou a ser desenvolvida em grandes propriedades, com elevado grau de mecanização e recursos voltados para o plantio, o controle de pragas e a colheita. Outros fatores também contribuíram para esse processo, como as características do solo, o relevo predominantemente plano e as condições climáticas do Oeste baiano, que favoreceram a expansão da agricultura em larga escala.
A combinação dessas condições naturais e investimentos no campo permitiu a consolidação de um sistema produtivo cada vez mais especializado. O algodão passou a integrar sistemas de rotação com culturas como soja e milho, ampliando as possibilidades de cultivo e contribuindo para a diversificação das atividades agrícolas no Cerrado.
Esse processo também modificou a relação entre produção e qualidade. Com o avanço da mecanização e o aperfeiçoamento das práticas empregadas no campo, a fibra passou a ser produzida sob critérios cada vez mais rigorosos, desde a escolha das sementes e o manejo da lavoura até a colheita e o beneficiamento. A qualidade, nesse contexto, tornou-se um dos principais diferenciais do algodão produzido no Oeste da Bahia.
A força do algodão baiano
 |
| Inspeção da fibra para análise e classificação de qualidade. Foto: Maria Helena Almeida |
A força do agronegócio no Oeste baiano também pode ser medida pela dimensão da cotonicultura. A Bahia é atualmente o segundo maior produtor de algodão do Brasil e responde por cerca de 20% da produção nacional, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para 2026. O estado deve produzir aproximadamente 1,55 milhão de toneladas de algodão, considerando caroço e pluma, em uma área estimada de 354 mil hectares.
O cenário coloca a Bahia atrás apenas do Mato Grosso, que concentra cerca de 71,4% da produção nacional estimada para o ano. Em escala nacional, o IBGE estima uma produção de 9,3 milhões de toneladas de algodão herbáceo (cultura de ciclo anual que representa a principal espécie de algodão cultivada comercialmente no país) em caroço em 2026, com o Mato Grosso e a Bahia liderando a produção brasileira.
Além da extensão das lavouras, o desempenho da cotonicultura baiana está relacionado também à incorporação de tecnologias, mecanização e investimentos em diferentes etapas da cadeia produtiva. Para a presidente da Associação Baiana de Produtores de Algodão (ABAPA), Alessandra Zanotto, a dimensão dessa estrutura está diretamente ligada ao modelo de produção adotado no estado. Essa combinação entre escala, tecnologia e controle fortalece o algodão produzido no Oeste baiano e ajuda a explicar sua presença nos mercados nacional e internacional.
A busca por competitividade não se resume, porém, à quantidade produzida. No mercado de fibras, a qualidade da pluma é um dos fatores que podem determinar seu valor e sua capacidade de atender às exigências da indústria. Características como comprimento, resistência, uniformidade e coloração são analisadas ao longo da cadeia e ajudam a definir a classificação do algodão.
“Vejam o que é eficiência, inovação e tecnologia embarcada no campo, que nos coloca nesse patamar, com essa capacidade de produção. A Bahia é o estado que mais produz algodão por hectare no Brasil” , afirma Zanotto.
.jpg) |
| Foto: Assessoria de Comunicação da ABAPA |
A preocupação com a qualidade da fibra começa ainda no campo e acompanha a pluma até o beneficiamento, etapa importante da cadeia produtiva, em que a fibra é separada do caroço e passa por processos de retirada de impurezas, preparando a matéria-prima para as etapas seguintes. Após o beneficiamento, a pluma é classificada e comercializada de acordo com suas características e qualidade.
Ao longo desse percurso, diferentes etapas de controle buscam preservar suas características e garantir que ela atenda aos padrões exigidos pelo mercado. No laboratório, análises avaliam aspectos como comprimento, resistência, uniformidade e coloração, parâmetros que definem a classificação e influenciam o valor comercial do algodão.
A classificação da fibra, no entanto, não significa que materiais com características diferentes da pluma de maior qualidade sejam descartados. Ao contrário, diferentes tipos e subprodutos do algodão podem encontrar outros destinos dentro da cadeia produtiva. É o que explica Ana Paula Franciosi, 2ª secretária da Abapa: “Você aproveita tudo do algodão, desde a pluma boa até a fibrilha, que tem uma qualidade reduzida e pode ser utilizada, por exemplo, na produção de jeans. O algodão é sustentável de qualquer forma, porque nada se descarta: tudo se comercializa e tem uma outra função dentro de uma outra cadeia de produção."
O aproveitamento da fibra em diferentes produtos amplia os destinos do algodão e reduz perdas ao longo da cadeia. Nesse processo, a rastreabilidade se torna uma ferramenta importante para identificar a origem do produto e acompanhar as etapas pelas quais ele passa. Esse controle ganha ainda mais relevância diante do avanço das fibras sintéticas, que hoje ocupam uma parcela significativa do mercado têxtil.
A disputa com as fibras sintéticas
O avanço das fibras sintéticas tornou essa disputa ainda maior. Produzidas por processos industriais e, em grande parte, a partir de matérias-primas de origem fóssil, elas já representam cerca de 69% da produção mundial de fibras. Segundo o Materials Market Report 2025, da Textile Exchange, foram produzidas 132 milhões de toneladas de fibras no mundo em 2024. Desse total, o poliéster respondeu por 59%, enquanto o algodão representou 19%, apesar da sua produção em grande escala.
Em um mercado cada vez mais dominado pelas fibras sintéticas, conhecer a origem e as características da matéria-prima pode se tornar um diferencial para agregar valor ao produto e manter sua competitividade. É nesse contexto que a rastreabilidade do algodão ganha importância.
No algodão, rastrear significa acompanhar a origem da fibra e reunir informações sobre o caminho percorrido ao longo da cadeia produtiva. Desde 2004, a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) utiliza um sistema de identificação dos fardos que permite relacionar cada unidade à sua origem e às características analisadas. Em 2022, esse processo avançou com a criação do SouABR, ampliando as possibilidades de acompanhamento da produção.
 |
| Etiquetas de identificação garantem a rastreabilidade e o controle da fibra. Foto: Maria Helena Almeida |
Quanto mais informações são reunidas ao longo desse percurso, maior é a possibilidade de comprovar a origem da fibra e as condições em que ela foi produzida. Para a indústria, que busca matérias-primas de origem conhecida, esse acompanhamento representa mais segurança e transparência do produto.
Rastreabilidade e certificação, no entanto, não são a mesma coisa. Enquanto a rastreabilidade permite acompanhar e comprovar informações sobre a origem e o percurso do algodão, a certificação verifica se a produção atende a critérios previamente estabelecidos. No Brasil, o programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR) reúne critérios sociais, ambientais e econômicos para certificar propriedades produtoras.
A sustentabilidade também entra nesse processo como parte da valorização da fibra. Práticas relacionadas ao uso responsável da água, à aplicação de insumos e às condições de trabalho ajudam a construir uma cadeia produtiva em que produção e responsabilidade caminham juntas.
No fim, a disputa entre fibras naturais e sintéticas não se resume ao material que chega à indústria. Ela também envolve aspectos que não aparecem na peça de roupa pronta, como a origem da matéria-prima, as condições em que foi produzida e a possibilidade de comprovar essas informações.
É nesse cenário que o algodão brasileiro busca se diferenciar. Além do reconhecimento por sua capacidade de produção em larga escala, a fibra passa a carregar informações que permitem acompanhar sua trajetória desde o campo. Em um mercado cada vez mais atento à origem dos produtos, saber de onde vem o algodão e como ele foi produzido pode ser um diferencial tão importante quanto a própria capacidade de produção.
O algodão que movimenta o Oeste da Bahia não se resume às grandes lavouras ou aos números da produção. Por trás de cada fardo, existe uma cadeia que envolve tecnologia, controle de qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade. Em meio ao avanço das fibras sintéticas, são esses elementos que podem ajudar a manter a fibra natural competitiva e transformar a força da produção baiana em vantagem no mercado.
Por Maria Helena Almeida e Júlia Araújo, estudantes de Jornalismo em Multimeios, Campus III - Juazeiro
Prêmio ABAPA de Jornalismo 2026