Festival do Bosque celebra a tradição e a identidade afro-indígena do Sertão do São Francisco

Cidade da Bossa Nova, dos encontros à beira do Velho Chico e de uma diversidade musical que expressa a resistência e a força juazeirense, Juazeiro construiu uma trajetória cultural marcada pela criação artística e pela ocupação de espaços públicos. Registros do jornal Rivale, preservados pelo Acervo Maria Franca Pires, mostram que, há mais de cinco décadas, estudantes universitários já protagonizavam a organização de eventos culturais na cidade.


Foto: Jornal Rivale (1972)/ Acervo Maria Franca Pires

Edições de julho de 1972 registradas pelo jornal revelam como o veículo impulsionava a efervescência artística em suas páginas. Eventos como a II Temporada Universitária de Juazeiro, que abrigou a Pró-Arte Juazeiro e o II Festival Sanfranciscano de Música Popular Brasileira, nasceram com objetivos bem definidos, como elevar o nível artístico regional, incentivar a pesquisa musical e promover o intercâmbio entre as cidades que vão para além da região do Vale do São Francisco. Naquela época, os festivais contavam com regulamento publicado em jornal, fichas enviadas por correio, júris oficiais e prêmios em cruzeiros, além do "Troféu João Gilberto" e por onde passaram nomes importantes da música brasileira, como Caetano Veloso. 

Foto: III Temporaria Universitária (1973), com participação de Caetano Veloso/ Acervo Maria Franca Pires

Essa tradição de mobilização universitária e ocupação dos espaços culturais atravessou gerações e ajudou a manter viva a produção artística em Juazeiro. Ao longo das décadas, programas de rádio, como o Coletivo Coletânea, e festivais como o Umbuzada e o Raiz e Remix contribuíram para movimentar a cena autoral e criar espaços de circulação para diferentes expressões musicais. É nesse percurso de iniciativas independentes e articulação entre artistas que surge o Festival do Bosque, dando continuidade a uma história de produção cultural construída coletivamente na cidade.

A união universitária e a origem do Bosque 

A história do festival começou em 2014, quando estudantes dos cursos de Ciências Sociais e Artes Visuais se uniram para movimentar a cena autoral e criar alternativas ao circuito comercial. Desde a sua origem no ambiente universitário, o movimento nasceu com a proposta de integrar a música a outras linguagens artísticas, como lembra Léo Miranda, um dos idealizadores do projeto: 

“O festival, antes de ser festival, era uma festa, que desde o início tinha uma ligação com as artes visuais também. A gente começou dentro da universidade, juntando estudantes de ciências sociais com estudantes de artes visuais. Fizemos umas cinco edições de festa, duas dentro da universidade e depois fomos ocupar outros espaços, como o centro da cidade. O Centro de Cultura João Gilberto e até uma chácara em Juazeiro.”


Foto: Júnior Barbosa
 

Além das festas e das ocupações em centros culturais, o coletivo realizava saraus de rua no Arco da Ponte e no Quintal do Poeta, além de bailes de hip-hop. Toda essa movimentação resultou, no final de 2019, na primeira edição oficial do Festival do Bosque, realizada de forma colaborativa. Na época, o evento reuniu oito bandas locais em que os próprios integrantes dividiam o palco com as funções de bar, técnica e produção. “Era uma equipe que girava, bem colaborativa mesmo”, destaca o produtor.

Após um período de pausa devido à pandemia, a iniciativa amadureceu e se consolidou como produtora cultural. A partir de 2024, com o apoio de editais públicos como a Lei Paulo Gustavo e a Lei Aldir Blanc, o festival estruturou sua produção e expandiu o alcance de público no Vale do São Francisco.

O pesquisador Cristiano Oliveira, que há 11 anos estuda as relações entre comunicação e música, destaca que os festivais independentes da Bahia se caracterizam pela diversidade artística e pela articulação entre músicos, produtores e público. Para ele, essas iniciativas ampliam a circulação de artistas e a formação de público, criando conexões entre diferentes cidades e cenas musicais para além de Salvador.

Apesar das transformações nas formas de divulgação e financiamento, impulsionadas pelas tecnologias digitais e pelas políticas culturais, os festivais ainda enfrentam desafios de sustentabilidade e infraestrutura. Festivais como os de antigamente e os de hoje vão além da programação musical, pois articulam agentes e cenas culturais de diferentes territórios. “A circulação  não significa apenas o deslocamento físico de artistas, mas a criação de conexão com o público.”. 

Nesse contexto, Cristiano ressalta a importância das práticas colaborativas e do reconhecimento do interior baiano como território de criação musical. E a importância das conexões profissionais, da divulgação de obras e do reconhecimento por novos públicos. Essa perspectiva reforça a importância de olhar o que acontece fora de Salvador.


 “O interior da Bahia não é apenas um território onde a música chega, é também um território onde a música é produzida, organizada, compartilhada e transformada”.

Axé, ancestralidade e ocupação política

Com o tema “Axé para quem é de música”, a edição de 2026 tem como objetivo conectar a cena musical aos saberes tradicionais das casas de terreiro e da cultura afro-latina, promovendo o encontro entre novos nomes e mestres da percussão. Nos dias 30 e 31 de outubro, no Centro Cultural João Gilberto, e no dia 1º de novembro, na Ilha do Fogo, o festival contará com diversas participações artísticas e formações culturais, trazendo como grande destaque a apresentação do Ilê Aiyê, grupo que marca o encontro entre o afoxé e a tradição afro-baiana de Salvador com o público do Vale do São Francisco.

Além disso, a ocupação de territórios emblemáticos do Vale do São Francisco reforça o caráter político e comunitário do evento, chamando a atenção para a preservação ambiental e a convivência nos espaços públicos.

“Levar o festival para a Ilha do Fogo é um projeto político nosso. É um território no meio do São Francisco que precisa de afeto e cuidado”, afirma Léo.

Foto: Reprodução de arquivo pessoal

Artista, mulher de axé e mestranda na Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), Milena Silva, chegou ao Festival do Bosque em 2025, como estagiária, e nesta edição atua como assistente de produção. Para ela, o festival também representa um espaço de formação e profissionalização na cultura, além de aproximar seu trabalho de suas referências pessoais e políticas.

“É preciso todos os dias reafirmar nossas crenças na arte, acreditar que ela é um espaço de transformação. O axé me atravessa nesse sentido, nesse lugar da encruzilhada, dos altos e baixos. Exu é muito presente na minha vida e também no Festival do Bosque”, afirma. A relação entre ancestralidade e produção cultural também se expressa na defesa dos territórios e das políticas públicas. “A arte pulsa junto com o axé”, resume.

A presença feminina nos bastidores e nos palcos ganha dimensão pública com o Cortejo Cultural, coordenado pela percussionista e maestra Paloma Lorenna. Formado exclusivamente por mulheres instrumentistas, o cortejo abre a programação do Festival do Bosque no dia 30 de outubro, em um percurso entre a Orla 2 e o Centro Cultural João Gilberto.

Para Paloma, a iniciativa responde à pouca visibilidade de musicistas independentes e batuqueiras nos festivais do Vale do São Francisco. “É muito importante reunir mulheres aqui no Vale, principalmente mulheres negras, que trazem a ancestralidade e o axé. A maioria das participantes do cortejo é de mulheres do axé. É uma representação da união das mulheres, da força feminina e das religiões de matriz africana”, destaca.

A proposta também evidencia a presença dessas tradições na formação da musicalidade brasileira, nem sempre reconhecida pelo público. Paloma chama atenção para os instrumentos e as manifestações culturais que integram o cortejo, como o maracatu, a capoeira e a dança afro, expressões que carregam histórias de resistência e mantêm vínculos com a ancestralidade negra. 

Foto: Meiwa Magalhães 

“Estar produzindo esse cortejo é crucial, porque é um conjunto de culturas e de mulheres negras resistindo na rua, ocupando espaço e mostrando que não tem vez para a intolerância”, reconhece Paloma. A ocupação das ruas se soma a outra característica da edição de 2026, os três dias de programação musical são compostos exclusivamente por artistas e bandas negras. Sob o tema “Axé para quem é de música”, o Festival do Bosque articula representatividade, ancestralidade e valorização da produção artística negra, reafirmando o protagonismo de quem muito contribuiu historicamente na construção da música e da cultura brasileira.

O festival do Bosque é parte de uma história que continua sendo escrita por quem acredita na arte como espaço de encontro, expressão e transformação. Da mobilização estudantil às ruas, dos palcos às margens do Velho Chico, a iniciativa reafirma a força da produção cultural em Juazeiro e a importância de preservar os espaços onde diferentes vozes podem existir e ser ouvidas. Ao colocar a ancestralidade negra, quilombola, o axé e também potencializar o protagonismo das mulheres no centro da programação, o Festival do Bosque mantém viva uma tradição de resistência e criação coletiva, mostrando que a música também é território, memória e pertencimento.


Por Meiwa Magalhães, jornalista e colaboradora da MultiCiência, e Maria Helena Almeida e Pedro Dourado, estudantes de Jornalismo e colaboradores da agência Multiciência. 

Agradecimento ao Acervo Maria Franca Pires, pela recepção e orientação na pesquisa

Fazendo careta ao sexismo

Coletivo feminino surge para ocupar espaço na tradição dos caretas
Foto: Divulgação/ Careta Menina

A cultura dos Caretas é uma das manifestações mais ricas do folclore nordestino, onde alegria e medo, sagrado e profano caminham juntos. Longe de ser um evento isolado, a tradição dos Caretas é um fenômeno que se espalha por diversas cidades do Nordeste, especialmente no Ceará, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Paraíba, criando um espetáculo que celebra a identidade, o artesanato e a ancestralidade de um povo.


No Vale do São Francisco, o Coletivo Careta Menina surge com a proposta de incentivar a participação feminina nessa manifestação cultural cuja liderança e a maioria sempre foram masculinas. Idealizado por Lys Valentim, artista e produtora cultural, o grupo nasceu de um trabalho de formação viabilizado por meio de um edital da Lei Aldir Blanc.


A idealizadora conta o despertar para a iniciativa. “Eu sempre nutri um fascínio pelos Caretas. Em 2023, criei uma fantasia e uma máscara próprias e decidi me misturar aos Caretas de Santana. Foi uma experiência muito marcante. As pessoas que acompanhavam a tradição demonstravam curiosidade ao me ver e, muitas vezes, pareciam se perguntar ‘É uma mulher?’. Crianças e mães acompanhadas de filhos pequenos pediam para tirar foto comigo. E eu não esperava por isso.”


Ao vivenciar aquela experiência, percebeu algo que até então não tinha enxergado com tanta clareza, Lys era a única mulher brincando no cortejo entre centenas de homens. E isso a fez refletir sobre como aquele espaço, historicamente, não havia sido construído como um lugar convidativo para as mulheres e que essa realidade ainda permanece para muitas delas.


Foi justamente a partir da própria vivência que a artista conta que nasceu a vontade de criar o Careta Menina, um coletivo para outras mulheres experimentarem, ocuparem e ressignificarem essa tradição.


"Busca ser um manifesto político para reafirmar que o espaço público também é das mulheres, que por muito tempo tiveram esse direito negado. Até algumas décadas atrás, as mulheres não podiam sair sozinhas, precisando estar acompanhadas dos maridos ou dos pais, ou de autorização para ir e vir desacompanhadas.", pontuou Lys.


As mulheres vêm transformando cenários ao romper barreiras e conquistar seu lugar. Apesar dos avanços, ainda existem resistências e práticas sexistas que dificultam essa participação.  O protagonismo feminino nas mascaradas de rua ainda é uma conquista em construção.


O projeto atualmente desenvolve oficinas de criação de máscaras e planeja abrir uma seleção para novas integrantes. Segundo a entrevistada, nem todas as participantes das oficinas têm interesse em integrar o grupo, cuja atuação exige tempo e disponibilidade para reuniões, definição de performances, figurinos e organização da produção. 

Foto: Divulgação/ Careta Menina

                                       

Ainda que a passos lentos, a participação feminina vem crescendo em algumas regiões. A proposta é romper com o silenciamento histórico e celebrar a potência criativa das mulheres no sertão do Vale do São Francisco", conta a pioneira. "Por aqui, não existia nenhum grupo 100% feminino. Somos o primeiro coletivo e, pelos levantamentos que fiz, acredito que sejamos também o primeiro do nordeste formado unicamente por brincantes caretas ribeirinhas, sertanejas e contemporâneas.”


Os encontros acontecem de forma rotativa nas casas das próprias brincantes, com idades entre 22 e 38 anos, que mascaradas na rua, encontram um espaço de expressão, criação artística e participação na cultura regional. “Nos organizamos em datas pontuais, nos reunimos com meses de antecedência das manifestações culturais que temos interesse, geralmente na Semana Santa, no Carnaval e demais festas populares”.


O anonimato é uma das características mantidas pelo grupo, que preserva a identidade das brincantes por trás das máscaras. Sem temas fixos, a iniciativa valoriza a autonomia criativa das integrantes na construção de personagens e performances para ocupar o espaço público.


O grupo já participou de diversos eventos culturais da região, com destaque para o Cortejo Abre Alas, o Beira Festival e a Aldeia do Velho Chico. E conta com o apoio do Sesc Petrolina.

Foto: Divulgação/ Careta Menina

              

Ao viver e celebrar a tradição, reconhecem-se como protagonistas, o que ajuda a construir quem são e de onde vêm. E, a cada passo, gesto e presença, reafirmam seu pertencimento e transformam sua participação em uma forma de resistência, mostrando que essa história também é escrita por mulheres.


Reportagem por Amy Ferreira, Produção por Álison França, estudantes de Jornalismo em Multimeios e colaboradores da Agência MultiCiência


Festival do Bosque traz o Ilê Aiyê ao Vale do São Francisco com programação dedicada à música e à cultura

Foto: Divulgação/Festival do Bosque

Pioneiro entre os blocos afro do Brasil, o Ilê Aiyê chega no  Vale do São Francisco novamente. Com o tema “Axé pra quem é de música”, o Festival do Bosque reúne música e cultura em uma programação que movimenta a cena artística do Vale do São Francisco. A presença do Ilê Aiyê amplia o alcance dessa proposta ao trazer para a região uma história de mais de cinco décadas de resistência, criação artística e valorização da população negra.

O Ilê Aiyê fundado em 1º de novembro de 1974, no bairro da Liberdade, em Salvador, o bloco construiu uma trajetória marcada pela valorização da cultura afro-brasileira, pelo combate ao racismo e pela afirmação da identidade negra. Reconhecido nacional e internacionalmente, o Ilê Aiyê leva sua musicalidade e ancestralidade a diferentes lugares do mundo, consolidando-se como uma das principais referências da cultura afro-baiana.

A apresentação será conduzida a partir da trajetória do bloco e reconhecida pela potência de sua percussão e pela influência dos ritmos afro-baianos. Com dezenas de músicos e uma história de colaborações com artistas brasileiros e internacionais, a banda já participou de projetos com nomes como Daniela Mercury, Martinho da Vila, Carlinhos Brown e Björk.

Sua sonoridade tem como uma de suas bases o ijexá, ritmo que também fundamenta a dança afro do Ilê Aiyê, inspirada em elementos da ancestralidade africana preservados pelos terreiros de candomblé. A chegada do grupo ao Vale representa um encontro entre a tradição cultural de Salvador e o público sertão adentro. 

Além das apresentações musicais, o Festival do Bosque contará com um ciclo de formação voltado à qualificação de agentes culturais e ao fortalecimento de iniciativas no setor. A programação inclui a oficina prática Escrita Estratégica para Projetos Culturais, com foco na elaboração e estruturação de propostas, atividades formativas sobre como planejar, organizar e manter um festival, abordando temas como participação em editais, construção de parcerias e viabilidade econômica de projetos culturais. E uma oficina de Acessibilidade para Eventos Culturais, dedicada a estratégias para tornar as atividades culturais mais inclusivas e acessíveis. 

Outro destaque é a masterclass Toque de Atabaques, ministrada pelo mestre Gabi Guedes, uma das grandes referências da percussão afro-brasileira. E a exposição Fotográfica "Pelo Axé D`Oxum" de  AnaLu Jesus.

A programação também será marcada pelo cortejo cultural Entre Tambores e Ancestralidade, da orla II e seguirá até o Centro de Cultura João Gilberto, abrindo alas para o festival em uma celebração da ancestralidade e das tradições culturais. Entre os dias 27 de outubro e 1º de novembro, o Festival do Bosque reunirá música, formação, troca de saberes e valorização da cultura em seis dias de programação.

Apresentações musicais: 30 e 31 de outubro e 1º de novembro de 2026.

Onde: Centro Cultural João Gilberto, nos dias 30 e 31 de outubro, e Ilha do Fogo, no dia 1º de novembro, em Juazeiro (BA).


Por Meiwa Magalhães, jornalista e colaboradora da MultiCiência, e Maria Helena Almeida e Pedro Dourado, estudantes de Jornalismo e colaboradores da agência.


A produção do cosplay como instrumento de expressão artística no Vale do São Francisco

Foto: Shinobi Festival 2025

O cosplay é o ato de se caracterizar e interpretar personagens de animes, mangás, filmes, desenhos, séries, games (jogos eletrônicos), dentre outras produções de entretenimento ocidentais e principalmente orientais ligados à cultura geek. Tal prática surgiu nos Estados Unidos, no ano de 1930. Nessa época, os filmes e livros de ficção científica e histórias em quadrinhos do Flash Gordon e Buck Rogers foram os primeiros personagens a serem performados pela prática. 

Para compreender melhor como essa prática funciona e as suas raízes, começamos pelo termo “cosplay”, originado no Japão em 1980, a palavra é derivada do inglês, “cos” significa “costume” (fantasia), já o “play” vem de “roleplay” (interpretação ou brincadeira). Mas, foi através do jornalista Nobuyuki Takahashi, que ao visitar a Convenção de Ficção Científica Worldcon, em 1984, nos EUA, ficou impressionado com a caracterização e o amor dos fãs e popularizou a ideia. Quando retornou ao Japão, ele escreveu sobre o que tinha visto e ajudou a impulsionar a cultura do cosplay em todo o país, se tornando uma das principais referências para o mundo desde então. 

Muito além da vestimenta característica, os cosplayers se dedicam para interpretar fielmente o personagem escolhido para ser caracterizado. Vale ressaltar que os visuais podem ser produzidos de forma artesanal ou encomendados para os artesãos especializados e categorizados para cada item do visual, sendo eles os cosmakers (responsáveis pela confecção das roupas) propmakers (produzem acessórios e objetos) e wigmakers (especializados em perucas). A maquiagem também é um quesito importante na hora da caracterização, requer cuidado e atenção para reproduzir os detalhes exatos do personagem, alguns exigem o uso de perucas, acessórios (espadas, armaduras, armas e outros itens). E por último mas não menos importante, a interpretação da personalidade, comportamento e falas, acompanhadas do visual completo e característico que permite dar vida ao personagem.

As primeiras práticas de cosplay surgiram no Brasil na década de 1990, através dos festivais promovidos pela Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustrações (ABRADEMI), em São Paulo. Os registros da associação relatam que título de primeiro cosplayer no Brasil é do engenheiro Diego Fernando Ferreira, que aos 7 anos desfilou com uma fantasia de Saint Seiya (personagem do anime Cavaleiros do Zodíaco), no baile de Carnaval do Floridiana Tênis Clube, de Rio Claro (SP), realizado em 1995. No ano seguinte, é realizada a 1ª edição do MangáCon que anunciou o primeiro concurso de cosplay no Brasil. A partir disso, a prática é popularizada e no cenário atual é comum profissionais que trabalham como cosmaker, cosplayers de forma profissional ou como hobbie, estes artistas podem ser encontrados em festivais e eventos nacionais como o Anime Friends, a BGS (Brasil Game Show), a CCXP (Comic Con Experience) e a UCCONX.

 Estes festivais são realizados anualmente em diferentes regiões do país e não seria diferente para o Vale do São Francisco, que através do Shinobi Festival e o Festival Conexão Geek se tornam ponto de encontro para os admiradores da cultura geek. Anna Clara Rodrigues, estudante de psicologia, é uma das pessoas que encontrou no cosplay uma forma de expressar sua criatividade e paixão por este universo. Finalista do concurso de cosplay do Shinobi Festival 2025 e uma das vencedoras do concurso de cosplay do Sesc Geek, ela compartilha o processo de preparação que inicia meses antes do evento.

Foto: Anna Clara (Acervo pessoal)


“É um processo longo que demanda bastante tempo, geralmente, se tenho a intenção de competir, as preparações começam após a finalização das apresentações do ano anterior”, explica. A estudante comenta que a influência na escolha do personagem variam da afinidade, quanto a popularidade do personagem. 

Depois da escolha, iniciam os estudos dos detalhes das roupas e acessórios para calcular a quantidade de material que deverá ser usado, enquanto treina para tornar a caracterização o mais próxima possível da referência original.Contudo, a produção não se limita ao visual, para as competições a cosplayer ensaia para uma apresentação que envolve roteiro, gravação de áudio, sonoplastia e edição de vídeo. Segundo ela, a história do personagem serve como base para construir uma apresentação, que pode seguir acontecimentos da própria obra ou criar uma situação fictícia.

O interesse de Anna Clara pelo universo das fantasias começou ainda na infância. Desde os cinco anos de idade, ela já tinha contato com esse tipo de expressão e, com o acesso à internet, descobriu os animes, mangás e conteúdos sobre maquiagem e caracterização. Aos poucos, foi se identificando com a comunidade cosplay e transformando a brincadeira de infância em uma forma de expressão artística. Além da caracterização, a comunidade possibilita a rede de profissionais na produção desses itens como citados anteriormente. Para Anna Clara, esses profissionais são fundamentais para o desenvolvimento da cena cosplay e também encontram na atividade uma possibilidade de geração de renda.

Foto: Ruan Oliveira (Acervo pessoal)


No Vale do São Francisco, essa produção também ganha espaço por meio de artistas que unem o cosplay à performance. Professor de dança e cosplayer, Ruan Oliveira conheceu esse universo em 2021, quando decidiu produzir sua primeira caracterização, inspirada no personagem Satoru Gojo do anime Jujutsu Kaisen. “Foi paixão à primeira vista, pois não conhecia ele e nem a animação. Corremos contra o tempo para achar uma costureira e os tecidos, descolori meu cabelo todo e foi uma loucura do começo ao fim”, relembra.

Para Ruan, o processo de produção é uma das partes mais importantes do cosplay, a partir da escolha do personagem, ele pesquisa detalhes para aproximar a caracterização da referência original e também define como será a apresentação de acordo com a categoria e as regras de cada evento. A dança entra nesse processo como uma ferramenta para construir a performance e dar movimento ao personagem.

Finalista do concurso de cosplay do Shinobi Festival, Ruan afirma que a experiência vai além da competição, Para ele, ser reconhecido por outras pessoas durante os eventos e receber elogios pela caracterização é uma das partes mais gratificantes da prática. Mesmo atualmente em uma pausa na prática do cosplay, o personagem Satoru Gojo continua sendo uma referência marcante em sua trajetória. “Tem cinco anos que eu entrei nesse mundo e não desejo parar mais, é uma cultura muito linda. É muito gratificante você chegar em um evento de cosplay e ser reconhecido pelas pessoas presentes, tirar várias fotos e ser elogiado pelos mesmos”, afirma.


Foto: Shinobi Festival 2025


O psicólogo Rodrigo Souza sempre frequentou eventos geek, mas foi em 2015 que despertou a prática do cosplay através de incentivo dos amigos que comentavam sobre sua desenvoltura na produção. Dessa forma despertou-se a paixão pela arte, ele revela que a primeira ideia de cosplay para interpretar era um zumbi (morto-vivo originado dos gênero de terror, de ficção científica e de sobrevivência) por imaginar a facilidade, mas quando colocou na prática que compreendeu o processo árduo da personificação de um personagem. “Hoje, eu entendo a complexidade que é você fazer um cosplay, até um cosplay simples, precisa de referência. É isso que torna a experiência legal, porque você não apenas apresenta, existe um conceito e um processo de criação.” complementa.

Além de ser um campo de atuação para expressão artística e desenvolvimento criativo, um dos efeitos que o cosplay proporciona para quem admira ou pratica é a reflexão das quebras de tabus de que o cosplayer precisar ter, como características físicas semelhantes ao do personagem escolhido para ser interpretado. Rodrigo reforça como o cosplay permite a liberdade de performar independente das suas características físicas. “Eu fiquei surpreso quando vi a cosplayer Barbara Duzzi interpretando um personagem masculino, e até aquele momento eu nunca tinha visto.” relata. A partir desse momento Rodrigo explica que compreendeu como o cosplay além de um hobby ou fonte de renda, pode ser uma ferramenta de expressão. “Aquilo destravou a possibilidade de fazer qualquer outro personagem, porque eu não me prendia mais ao gênero. Eu sou quem eu sou e eu posso interpretar o cosplay que eu quiser” complementa.

Para Anna Clara, quem deseja começar precisa respeitar o próprio processo e não se deixar levar por comparações ou comentários negativos. Ruan também incentiva os iniciantes a participarem dos eventos, mesmo que a roupa ainda não esteja perfeita. “Só vão. Mesmo com vergonha, subam no palco, vão aos eventos de cosplay e sintam a energia e a magnitude de ser um cosplayer. A roupa não precisa estar perfeita, estando do seu agrado já é o suficiente”, aconselha.

Apesar do crescimento da cultura geek na região, Ruan acredita que ainda existe espaço para ampliar a presença do cosplay nos eventos do Vale do São Francisco. Para ele, os festivais poderiam investir mais na comunidade, criando espaços não apenas para competições, mas também para encontros e momentos de interação entre os participantes.“Temos muito potencial e qualidade para mostrar, só acho que os eventos poderiam investir mais na área, pois eles mesmos sabem que somos a alma dos eventos da região”, declara.

Como um dos nomes influentes na produção e performance de cosplay do Vale do São Francisco, o psicólogo destaca também como o processo de erro é necessário para o aprendizado e relata como os critérios de avaliação não são padronizados e se moldam a cada evento. “As avaliações do cosplay não seguem uma regra universal, então em alguns concursos avaliam a roupa, outros seguem pela a apresentação, e os que analisam 50% de cada critério”. Rodrigo relata ainda que o universo do cosplay é uma área que precisa de estudo e aprimoramento constante, mas possui retorno quando feito com paixão. “Acredito que a informação profissional é interpretar e viver a experiência de forma tranquila e buscando ser feliz com isso, pois é uma área que você pode se frustrar facilmente”, complementa.


Reportagem e produção por Gabriel Matos e Anne Carvalho, estudantes de jornalismo e colaboradores do MultiCiência.



Da Ideia ao Mercado: Como a Agência Uneb de Inovação fortalece o desenvolvimento social

Foto: Núcleo de Comunicação DCH3

Em tempos de constantes mudanças tecnológicas, a maior aposta do futuro reside nos novos processos de inovação. Desde alterações rotineiras até grandes aparatos tecnológicos, a inovação consiste em descobrir novas tecnologias e otimizar as existentes, viabilizando o aprimoramento da forma que vivemos. É pensando neste contexto que surgiu a Agência Uneb de Inovação (AUI), que atua também na difusão de conhecimento sobre empreendedorismo e proteção da propriedade intelectual. Para um melhor entendimento sobre esta temática, o Multiciência entrevistou Paloma Bastos e Warlen Alves, advogados e membros da AUI.

 

Multiciência- Como a Agência de Inovação pode contribuir para o desenvolvimento social e econômico da região do Vale do São Francisco?

 

Warlen Alves - Quando a gente tem uma universidade pública que está comprometida com a realidade social, que produz ciência a partir da demanda das sociedades, das demandas regionais. E quando a gente tem essa universidade que está atenta a esse olhar regional, o diferencial da AUI é esse. A gente está cobrindo quase todos os territórios de identidade do nosso estado. Então, a gente consegue mapear uma produção de conhecimento que está atenta à comunidade e ao mesmo tempo pensar em formas de levar essa produção de conhecimento até o mercado, até a sociedade. Formas de retribuir mesmo o investimento estatal.

 

Paloma Bastos- A gente consegue devolver isso para a sociedade através de instituições de tecnologia, da proteção de ativos de propriedade intelectual, porque através da proteção e do registro desses ativos, você consegue criar caminhos para transferir essa tecnologia para a sociedade, pode ser para o governo, para uma empresa. Assim, você pode escalar esse produto, esse serviço, para alcançar o maior número possível de pessoas. A universidade está preocupada com o interesse social, com desenvolvimento econômico regional, ela capacita seus estudantes. Eles começam a ter esse conhecimento e essa consciência de que a gente precisa devolver e ajudar as pessoas, começam a olhar para essas necessidades, dificuldades. Eles podem sair da universidade e criar uma startup, por exemplo, criar uma empresa de base tecnológica. E, a partir daí, a gente consegue criar novos negócios e aí a roda da economia começa a girar.

 

Multiciência- Qual é o papel da Agência Uneb de Inovação nesse processo?   



Paloma Bastos- O papel da Agência Uneb de Inovação é justamente compartilhar e disseminar conhecimento sobre propriedade intelectual, de fazer as pessoas conhecerem esses termos que, infelizmente, não são todas as pessoas que conhecem, aí elas começam a compreender. Por exemplo, vocês aqui da Comunicação e Direito, conseguem também fazer inovação. Às vezes, as pessoas não têm esse pensamento, então nosso objetivo é justamente mostrar que existe inovação na parte das tecnologias sociais também para elas começarem a nos procurar para proteger a produção da universidade.

A gente consegue proteger a nossa produção, viabilizar uma transcendência de tecnologia, fazer a união entre os pesquisadores e parceiros do mercado, quando a gente fala mercado, não só o mercado empresas, mas com organizações sociais, representantes do poder público, e também deixar claro, tá?! A transcendência de tecnologia que a gente comenta aqui não necessariamente é algo oneroso, que alguém vai ter que pagar algo para usar, a gente pode transferir esse conhecimento de forma gratuita. Por exemplo, o governo do estado para transmitir um determinado ativo de IPI para as escolas públicas, por exemplo.

 

Multiciência- O que pode acontecer quando uma pesquisa, projeto ou produto não recebe a proteção adequada?

 

Paloma Bastos - Ela pode ser utilizada indevidamente por outros atores. Universidades às vezes desenvolvem determinado projeto e alguém de fora descobre que o pessoal está fazendo esse desenvolvimento, começa a desenvolver fora e registra fora. E aí, para você conseguir desconstituir isso, é difícil, demora bastante. Às vezes, a pessoa nem consegue, porque como ela não registrou, a legislação diz que o titular da marca tem a obrigação de cuidar desse ativo. Você tem que estar ali cuidando da sua marca, para saber se não tem ninguém usando indevidamente. Porque no direito brasileiro, o titular da marca é dono da marca quem primeiro registra. É diferente nos Estados Unidos, que para você registrar uma marca, é quem primeiro usou. Se você não se proteger, a probabilidade de alguém usar indevidamente e registrar por fora é alta.

 

Multiciência- Quais oportunidades podem surgir a partir da proteção da propriedade intelectual?


Paloma Bastos - Você evita que terceiros usem indevidamente aquele ativo que você produziu. Tem as oportunidades acadêmicas também, porque conta no currículo, se é patente, conta, é uma pontuação alta, claro, vai depender também do contexto, da análise do seu currículo. Mas ter ativos no currículo, conta. Oportunidades econômico-financeiras também. 

Para uma pessoa, pensando numa pessoa física, que tem um ativo. Para uma startup, isso é super importante, porque é um diferencial que consegue atrair investidores. Os investidores ficam interessados numa empresa, numa startup, numa empresa de base tecnológica que tem patente, que tem proteção de ativo, porque, como eu falei, é um ativo intelectual. Você pode usar patente para conseguir recurso financeiro, as pessoas não sabem disso.

  

 Warlen Alves - E quando a gente pensa a ação empreendedora nas universidades, é muito importante para o pesquisador e para o estudante a possibilidade de, se eu desenvolvi durante a graduação, durante o mestrado ou durante o doutorado, um ativo que é registrado, e eu termino o meu ciclo de formação, eu decido abrir uma empresa, a proteção desse ativo dentro da universidade já é uma garantia de que eu consigo negociar com a universidade, por exemplo, a abertura de startups, abertura de spin-offs acadêmicas. Tem todo esse movimento também de proteção da pessoa que desenvolveu. Eu acho que dentro da universidade a gente precisa fomentar ainda mais o debate da proteção desses ativos que são produzidos pelos estudantes.

Na pós-graduação tem uma maior incidência, porque a pesquisa já está num estágio mais avançado. Às vezes, esse tipo de graduação desenvolveu um programa de computador durante a graduação, não registrou, esse ativo é da universidade porque foi produzido durante a vigência do curso. E aí, lá na frente, ele resolve montar uma empresa e utilizar esse ativo para comercializar. Enfim, estando protegido pela universidade dá uma maior segurança jurídica para o negócio. Não há o risco de lá na frente, ele descobrir que copiaram esse ativo, que estão utilizando indevidamente, ou ele estrutura todo o negócio sem registrar para que a universidade não tenha titularidade. Lá na frente, se descobre que a titularidade é da universidade. Então, tem todo o imbróglio jurídico que é gerado aí.

 

Multiciência- O ambiente digital trouxe novos desafios para os direitos autorais?

 

Paloma Bastos - Com certeza. Essa questão de pagamento dos royalties nas plataformas de streaming é um grande debate entre os artistas. Eu não vou me aprofundar aqui, porque a gente atua mais na propriedade industrial, mas eu sei que tem muita discussão também com relação a direitos autorais no uso da inteligência artificial (IA). Às vezes também essa questão de uso indevido, né?! No ambiente digital, a pessoa tem acesso ao que vocês publicam e pode copiar e disseminar em um outro local que você não tem a menor ideia, sem creditar a informação e passar como se a informação fosse deles. Então, sim, é desafiador. Com a realidade mudando, novas tecnologias vão surgindo e novos tipos de proteções vão surgindo. Antigamente nem precisava proteger a minha voz, mas agora é extremamente necessário você proteger a sua voz e proteger a sua imagem, porque alguém pode usar indevidamente.

 


Warlen Alves - Essa questão da IA é realmente muito perigosa para o direito autoral, muito espinhosa. Porque, assim, no Brasil não tem como pensar direito autoral produzido por um IA. Então, o que a IA produz, como não é uma produção humana, do intelecto humano, não está protegido. Não é pelo campo do direito autoral. Só que ao mesmo tempo, se pergunta, quem é a titularidade dessas obras? Tem IA hoje que consegue clonar a voz do sujeito.

Eu consigo colocar qualquer artista para cantar a música que eu quiser. E aí, como é que a gente pensa e regula esses caminhos jurídicos de eu tenho uma titularidade sobre a minha voz? E aí, de repente, estou cantando uma música que não é minha. Ou então, eu coloco um artista X para cantar uma versão em português do artista Y. Isso gera um problema em um imóvel jurídico de quem é a titularidade dessa música? Desse ativo, desse valor?

Quem ganha com esse valor? Quem ganha com o uso da minha voz, se não eu? Eu acho que, para quem trabalha com arte e com direito autoral, o mundo digital traz muitas possibilidades, claro. Democratiza o acesso. A gente tem muitas formas mais fáceis de produção do audiovisual, mas, ao mesmo tempo, tem essa questão criativa de gestão desse patrimônio, do uso dos algoritmos e o mundo da inteligência artificial que tem se descortinado, né?! É um mundo um tanto perigoso, porque a gente ainda não tem um marco regulatório no Brasil e esse marco regulatório tem caminhado de forma muito lenta.

Ao mesmo tempo que a gente tem uma legislação de proteção dos dados, a LGPD, que é a Lei Geral de Proteção de Dados, que não funciona. O que a gente fica pensando no Brasil é: será que a gente tem um marco regulatório da inteligência artificial? Vamos reproduzir o que aconteceu com a LGPD, que é um marco legislativo, que amplia a proteção dos direitos digitais, dos dados das pessoas, mas que não funciona. Será que, efetivamente, a gente está caminhando para a proteção do direito autoral, para entender como regular essa questão da produção de arte no Brasil e dar uma maior visibilidade e autonomia para os artistas? Ou a gente vai seguir nessa produção massificada desses conteúdos vazios, genéricos?


Reportagem por Pedro Henrique Dourado, produzida por Meiwa Magalhães, estudantes de Jornalismo em Multimeios e colaboradores da Agência MultiCiência.


Fora das Capitais: Os desafios e as trajetórias de artistas independentes no semiárido baiano

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, já cantava Caetano Veloso. No Semiárido baiano, essa máxima ganha ainda mais sentido. Para os artistas independentes da região, criar é sinônimo de resistir. São eles que transformam o território, tantas vezes estigmatizado, em um espaço de orgulho e luta, provando que existe arte pulsando fora dos grandes centros urbanos.

Em Senhor do Bonfim (BA), o ator Felipe Anunciação, 23 anos, utiliza o teatro como ferramenta de transformação social e conscientização através de seus espetáculos. Já em Castro Alves (BA), o cantor e compositor Thassio Cunha, 21 anos, traduz o cotidiano e a vivência local em melodia, compondo e cantando o orgulho de suas raízes.

A conexão de Anunciação com a dramaticidade começou na infância, acompanhando as rezas de sua avó. Mas foi em 2019, no grupo Mutum Encantado, em Mutuípe, sua cidade natal, que ele iniciou a trajetória oficial nos palcos, baseada no improviso. Em 2022, expandiu fronteiras ao fundar a Cia de Teatro Anunciação para estudar as diversas formas de expressão. Hoje, estudante de licenciatura em Teatro na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), onde também se dedica ao aprendizado da Libras, ele encontra sua verdadeira vocação na docência. Essa missão ganha vida em Antônio Gonçalves, onde atua como professor voluntário da rede estadual pelo programa EducaMais. Ali, trabalha junto à juventude do ensino médio, sempre atrelando a criação artística à realidade e à identidade do território.

Foto: Arquivo pessoal 

“Ser artista é comunicar. E cada um escolhe a sua forma. Com as vivências, temos atravessamentos, seja de gênero, de raça ou de cultura, e as pessoas se expressam. Embora a gente, enquanto artista, enfrente o problema da falta de valorização, eu acredito que a nossa missão é passar uma mensagem.” Para Felipe, a arte é uma linguagem universal tão vital quanto a palavra falada ou sinalizada, funcionando como uma semente de transformação que ele planta e deixa germinar por cada comunidade por onde passa. 

Ele destaca que o fazer artístico é instável e que o período dedicado à pesquisa muitas vezes é interpretado como ociosidade, embora seja crucial para o resultado final. “Confesso que o maior desafio hoje é a subsistência. Todo artista independente enfrenta a dificuldade de se manter, pois não temos a garantia de que haverá comida na mesa todo mês. A produção é muito instável, sobretudo na Bahia e no Semiárido. Quando pensamos no artista, pensamos em alguém que está produzindo algo ou pesquisando para produzir. Neste ato, você parece parado e isso, de certa maneira, não gera captação imediata de recursos”, explica.

Essa realidade de equilibrar a balança entre a criação e o sustento não é exclusividade das artes cênicas e cruza o sertão até chegar a Castro Alves. Thassio Cunha, conhecido no município pelo bordão "Chama na Bota", conta que sua trajetória na música começou de forma despretensiosa, dentro de casa, e foi impulsionada pelo olhar atento de quem convivia com ele. "Um vizinho, amigo, um dia me perguntou se eu tinha vontade de gravar uma música, ele me escutava cantando em casa e viu uma vocação", lembra o cantor. 

Foto: Divulgação 

Quando o assunto é viver exclusivamente de música no interior baiano, Thassio enfrenta o mesmo cenário de instabilidade. Segundo ele, as plataformas digitais, o engajamento no Instagram e a agenda de shows ainda não garantem o sustento, o que o obriga a dividir o tempo dos palcos com o comércio local. “Hoje ainda não consigo me manter somente da música. Possuo uma loja na minha cidade e tenho que conciliar”, explica. 

Ao ser questionado sobre as cidades onde tem atuado e o sentimento de produzir na região, Felipe desconstrói a ideia de que o sucesso depende dos grandes centros e defende o olhar para o interior. “Eu acho brilhante o Semiárido brasileiro. O Brasil precisa conhecer mais as nossas produções. E construir minha carreira aqui está sendo um prazer, porque é um lugar riquíssimo de cultura, de imagens, de imaginários.” Ele pondera que, embora as metrópoles possuam seus atrativos, é preciso valorizar as próprias raízes: “Claro que nas grandes cidades tem coisas bonitas, mas temos que olhar para dentro, aqui tem muita coisa boa. Respeitando o que tem aqui, é possível construir uma carreira bonita e sólida”.

Por outro lado, Thassio vive o dilema de, futuramente, precisar deixar sua base para expandir o alcance do trabalho. Atualmente, além de Castro Alves, ele tem shows em outras cidades da região, alcançando municípios como Milagres, Rafael Jambeiro, Conceição do Almeida, Santo Antônio de Jesus, Cabaceiras do Paraguaçu, Sapeaçu e Cruz das Almas. Essa logística lhe permite conciliar as apresentações com o descanso em casa nos dias úteis, enquanto lida com as oscilações do mercado e com o desafio de crescer nas redes sociais. No entanto, ele reconhece o peso que os grandes centros exercem sobre o seu gênero musical. “Eu tenho um carinho enorme pela minha cidade, se pudesse não sairia, mas creio que um dia precisarei ir para outro centro para conseguir evoluir, ainda mais por conta do meu estilo, que é o forró”, conta o cantor. 

Sobre o público que o acompanha no interior, ele descreve, entre risos e com visível alegria, a diversidade de reações na plateia: “Existem vários tipos: aqueles parados, os que animam, e os que parecem que estão no show de um artista grande mesmo!”. O artista destaca que ao descer do palco traz um sentimento de dever cumprido e gratidão: “Sei que vou alcançar muitas coisas através da música, e o forró me toca muito”. É essa determinação que o move a continuar cantando e compondo pelo Semiárido, uma motivação que ele resume de forma direta como o motor de sua carreira “Sonhos a serem realizados”.

Histórias como as de Felipe Anunciação e Thassio Cunha se cruzam na teimosia de continuar criando onde muitos enxergam escassez. Eles são a prova de que a identidade do Semiárido baiano não está presa ao passado, mas sendo reescrita agora, na voz, no forró, nos espetáculos e demais manifestações de uma juventude que faz da arte o seu maior manifesto de permanência.

Reportagem produzida na disciplina de Redação III, sob orientação do professor Emanuel Andrade

Por: Amy Ferreira,  estudante de Jornalismo em Multimeios