Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, já cantava Caetano Veloso. No Semiárido baiano, essa máxima ganha ainda mais sentido. Para os artistas independentes da região, criar é sinônimo de resistir. São eles que transformam o território, tantas vezes estigmatizado, em um espaço de orgulho e luta, provando que existe arte pulsando fora dos grandes centros urbanos.
Em Senhor do Bonfim (BA), o ator Felipe Anunciação, 23 anos, utiliza o teatro como ferramenta de transformação social e conscientização através de seus espetáculos. Já em Castro Alves (BA), o cantor e compositor Thassio Cunha, 21 anos, traduz o cotidiano e a vivência local em melodia, compondo e cantando o orgulho de suas raízes.
A conexão de Anunciação com a dramaticidade começou na infância, acompanhando as rezas de sua avó. Mas foi em 2019, no grupo Mutum Encantado, em Mutuípe, sua cidade natal, que ele iniciou a trajetória oficial nos palcos, baseada no improviso. Em 2022, expandiu fronteiras ao fundar a Cia de Teatro Anunciação para estudar as diversas formas de expressão. Hoje, estudante de licenciatura em Teatro na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), onde também se dedica ao aprendizado da Libras, ele encontra sua verdadeira vocação na docência. Essa missão ganha vida em Antônio Gonçalves, onde atua como professor voluntário da rede estadual pelo programa EducaMais. Ali, trabalha junto à juventude do ensino médio, sempre atrelando a criação artística à realidade e à identidade do território.
| Foto: Arquivo pessoal |
“Ser artista é comunicar. E cada um escolhe a sua forma. Com as vivências, temos atravessamentos, seja de gênero, de raça ou de cultura, e as pessoas se expressam. Embora a gente, enquanto artista, enfrente o problema da falta de valorização, eu acredito que a nossa missão é passar uma mensagem.” Para Felipe, a arte é uma linguagem universal tão vital quanto a palavra falada ou sinalizada, funcionando como uma semente de transformação que ele planta e deixa germinar por cada comunidade por onde passa.
Ele destaca que o fazer artístico é instável e que o período dedicado à pesquisa muitas vezes é interpretado como ociosidade, embora seja crucial para o resultado final. “Confesso que o maior desafio hoje é a subsistência. Todo artista independente enfrenta a dificuldade de se manter, pois não temos a garantia de que haverá comida na mesa todo mês. A produção é muito instável, sobretudo na Bahia e no Semiárido. Quando pensamos no artista, pensamos em alguém que está produzindo algo ou pesquisando para produzir. Neste ato, você parece parado e isso, de certa maneira, não gera captação imediata de recursos”, explica.
Essa realidade de equilibrar a balança entre a criação e o sustento não é exclusividade das artes cênicas e cruza o sertão até chegar a Castro Alves. Thassio Cunha, conhecido no município pelo bordão "Chama na Bota", conta que sua trajetória na música começou de forma despretensiosa, dentro de casa, e foi impulsionada pelo olhar atento de quem convivia com ele. "Um vizinho, amigo, um dia me perguntou se eu tinha vontade de gravar uma música, ele me escutava cantando em casa e viu uma vocação", lembra o cantor.
| Foto: Divulgação |
Quando o assunto é viver exclusivamente de música no interior baiano, Thassio enfrenta o mesmo cenário de instabilidade. Segundo ele, as plataformas digitais, o engajamento no Instagram e a agenda de shows ainda não garantem o sustento, o que o obriga a dividir o tempo dos palcos com o comércio local. “Hoje ainda não consigo me manter somente da música. Possuo uma loja na minha cidade e tenho que conciliar”, explica.
Ao ser questionado sobre as cidades onde tem atuado e o sentimento de produzir na região, Felipe desconstrói a ideia de que o sucesso depende dos grandes centros e defende o olhar para o interior. “Eu acho brilhante o Semiárido brasileiro. O Brasil precisa conhecer mais as nossas produções. E construir minha carreira aqui está sendo um prazer, porque é um lugar riquíssimo de cultura, de imagens, de imaginários.” Ele pondera que, embora as metrópoles possuam seus atrativos, é preciso valorizar as próprias raízes: “Claro que nas grandes cidades tem coisas bonitas, mas temos que olhar para dentro, aqui tem muita coisa boa. Respeitando o que tem aqui, é possível construir uma carreira bonita e sólida”.
Por outro lado, Thassio vive o dilema de, futuramente, precisar deixar sua base para expandir o alcance do trabalho. Atualmente, além de Castro Alves, ele tem shows em outras cidades da região, alcançando municípios como Milagres, Rafael Jambeiro, Conceição do Almeida, Santo Antônio de Jesus, Cabaceiras do Paraguaçu, Sapeaçu e Cruz das Almas. Essa logística lhe permite conciliar as apresentações com o descanso em casa nos dias úteis, enquanto lida com as oscilações do mercado e com o desafio de crescer nas redes sociais. No entanto, ele reconhece o peso que os grandes centros exercem sobre o seu gênero musical. “Eu tenho um carinho enorme pela minha cidade, se pudesse não sairia, mas creio que um dia precisarei ir para outro centro para conseguir evoluir, ainda mais por conta do meu estilo, que é o forró”, conta o cantor.
Sobre o público que o acompanha no interior, ele descreve, entre risos e com visível alegria, a diversidade de reações na plateia: “Existem vários tipos: aqueles parados, os que animam, e os que parecem que estão no show de um artista grande mesmo!”. O artista destaca que ao descer do palco traz um sentimento de dever cumprido e gratidão: “Sei que vou alcançar muitas coisas através da música, e o forró me toca muito”. É essa determinação que o move a continuar cantando e compondo pelo Semiárido, uma motivação que ele resume de forma direta como o motor de sua carreira “Sonhos a serem realizados”.
Histórias como as de Felipe Anunciação e Thassio Cunha se cruzam na teimosia de continuar criando onde muitos enxergam escassez. Eles são a prova de que a identidade do Semiárido baiano não está presa ao passado, mas sendo reescrita agora, na voz, no forró, nos espetáculos e demais manifestações de uma juventude que faz da arte o seu maior manifesto de permanência.
Reportagem produzida na disciplina de Redação III, sob orientação do professor Emanuel Andrade
Por: Amy Ferreira, estudante de Jornalismo em Multimeios





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