A Resistência do Tripé Artístico: Como a produção no interior movimenta a cena cultural

No interior do Nordeste brasileiro, fazer arte vai além do talento, é enfrentar, muitas vezes, o preconceito, a invisibilidade e a instabilidade. Fora dos grandes centros urbanos, resistir torna-se parte da própria expressão artística, algo vivido de perto pelo ator Hilton Cobra, que começou sua trajetória artística no interior baiano.

Natural de Feira de Santana-BA, o ator iniciou sua trajetória artística ainda jovem. Durante a infância, brincava de atuar, usando as saias da mãe, enquanto os pais saíam de casa. Mas, foi apenas anos depois que a arte ganhou força em sua vida, a partir do contato com o teatro amador na década de 1970, em Salvador. Ao circular entre estudantes universitários e grupos teatrais, o encantamento pelo palco ganhou forma e permanência. Sua estreia nos palcos aconteceu em 1978, no grupo Carranca, e desde então Hilton Cobra nunca mais se afastou das artes cênicas. 

Cobra se tornou um dos principais nomes do Teatro Negro baiano e alcançou marcos históricos, como ser o único artista negro a apresentar e lotar um monólogo no Teatro Municipal de São Paulo, com a obra Traga-me a Cabeça de Lima Barreto.

Fotos Crédito: Teatro Francisco Nunes / F. Pâmela Bernardo

Fundador da Cia dos Comuns no Rio de Janeiro, grupo que, desde 2001, fomenta a pesquisa cênica e amplia o espaço de profissionais negros nas artes, e ex-presidente da Fundação Cultural Palmares, o artista alia atuação e articulação política. Com trabalhos recentes na televisão, como a novela Nobreza do Amor, Cobra transita entre diferentes linguagens, mas não esconde sua ligação profunda com os palcos. Para ele, o teatro, especialmente o Teatro Negro, permanece como sua maior paixão e principal forma de expressão artística.

Mesmo consagrado nos grandes centros, Cobra enfatiza que a escassez de recursos ainda sufoca quem produz longe das capitais e defende que a descentralização da arte depende urgentemente de uma mudança política estrutural no país. A PEC 421/2014, conhecida como PEC da Cultura, propõe a criação de um piso orçamentário obrigatório para investimentos em cultura nas três esferas de governo: 2% do orçamento da União, 1,5% do Estado e 1% do município para a Cultura e Arte. “Essa PEC sendo aprovada vai facilitar, e muito, as produções brasileiras como um todo, principalmente a do interior. É preciso que os trabalhadores de cultura do Brasil inteiro se empenhem para cobrar do poder público a aprovação desta lei no Congresso. Tendo o dinheiro para desenvolver nossos projetos, eu não quero nem saber se tem preconceito ou não em torno da nossa cultura interiorana”, defende Cobra.

Essa mesma urgência por recursos e visibilidade atinge os realizadores no Vale do São Francisco. É nesse cenário de resistência que o MC e ator Eric Renan de Moraes Santos, conhecido pelo nome artístico de Thress, de 25 anos, constrói sua trajetória no meio artístico. Natural de Juazeiro, na Bahia, o jovem vivencia na pele os desafios da caminhada independente no Semiárido, dinâmica que descreve como um ciclo constante e muitas vezes solitário. “O artista independente vive muito o processo da criação, mas esbarra na falta de produção e de atenção, principalmente no começo da carreira. A realidade é que muitos realizadores criam projetos fantásticos, mas acabam guardando tudo na gaveta por muito tempo, sem condições reais de colocar esse trabalho para frente”, relata Thress.

Foto: Duo Rec

Filho do movimento
Hip Hop, vertente com a qual se conectou profundamente em 2023, ao presenciar amigos organizando encontros em praças públicas com caixas de som, esse artista enfrenta também barreiras do preconceito local direcionado às manifestações periféricas. Thress desabafa que as linguagens urbanas e marginais ainda colhem desconfiança da comunidade regional, que frequentemente reage com olhares tortos por desconhecer a profundidade do movimento, ignorando o esforço coletivo daqueles que trabalham para fortalecer a cultura. Para romper o isolamento de um ciclo no qual os próprios realizadores frequentemente acabam sendo o único público possível uns dos outros, a saída tem sido a autogestão e a disputa por editais públicos. Foi por meio dessa articulação que o movimento conquistou espaço no Carnaval de Juazeiro, apresentando-se no Polo Cultural Matingueiros, graças à mobilização dos produtores locais Geomar Gomes e Murilo Aguiar.

Para manter a autonomia de sua produção cênica e musical, o jovem, que no ano passado tomou a decisão de deixar um emprego de carteira assinada de quase sete anos para focar na carreira, divide o tempo com ocupações informais como garçom e operador de som aos finais de semana e feriados. Essa engenharia financeira busca garantir a flexibilidade necessária para priorizar ensaios, reuniões e alinhamentos estéticos. Thress concentra assim esforços na consolidação de uma base de público sólida no Semiárido antes de projetar pontes geográficas mais longas, embora já tenha expandido suas referências em viagens de pesquisa por Salvador e São Paulo. 

Para ele, no entanto, a verdadeira potência da experiência artística se manifesta longe do alcance das telas e dos algoritmos. "A rede social não traduz tudo do artista. Eu acho que a gente tem que ir ver o artista ao vivo. Eu ainda sou desse, sabe? Eu gosto de assistir meus amigos artistas e gosto que venham me assistir. Todo mundo sente algo a mais no ao vivo, outra energia, outra coisa. O presencial é muito forte", defende o MC.

A resistência que une Hilton Cobra ao jovem Thress não se apoia apenas nos pontos positivos da carreira, mas na defesa de uma identidade que o eixo Rio-São Paulo teima em estereotipar. Diante da falta de estrutura, a sobrevivência artística no interior responde a um tripé implacável: a urgência de ser visto, o direito de ser valorizado e a teimosia de conseguir permanecer. Como resume Cobra, “O que mantém as cortinas abertas contra a correnteza é o pacto indissociável entre o talento e a vocação.

Por Maria Helena Almeida, estudante de Jornalismo em Multimeios e colaboradora do MultiCiência.

Filme “Inóspito” transforma o Semiárido em distopia cinematográfica


Foto: André Amorim


Em um futuro distópico na cidade fictícia Nova Califórnia, Cris, uma jovem recém-formada, retorna à comunidade onde vivem sua mãe Cleide e sua avó Tereza, após a família receber uma ordem de desapropriação de suas terras. Essa é a sinopse do média-metragem ‘Inóspito’, exibido no Teatro Dona Amélia, no Sesc Petrolina. Dirigido por Iale Lima, a trama aborda temáticas como o crescimento desenfreado do agronegócio e poluição ambiental no Semiárido. 


O filme foi viabilizado pelo fomento do Governo de Pernambuco, articulado através do Edital de Ações Criativas para o Audiovisual, no âmbito da Lei Paulo Gustavo PE 2023. Para trazer mais detalhes sobre a produção do projeto, Camila Rodrigues, produtora executiva, e Iale Lima, diretora, conversaram com a equipe do Multiciência sobre a criação do universo fictício de “Nova Califórnia” e sobre a relevância de se produzir audiovisual na região.

Foto: André Amorim
MultiCiência: Como foi o início da produção de  “Inóspito”?

Iale Lima (Diretora): A ideia inicial surgiu de várias questões que a gente queria falar sobre temáticas sociais dentro do núcleo audiovisual do SESC. A gente já vinha fazendo documentários sobre esses temas e queríamos fazer uma obra de ficção com essa mesma base. Passamos um ano estudando o filme e pesquisando sobre o "Pó Preto", que é algo que acontece diariamente na região. Também pesquisamos acidentes locais e referências de artistas da região que trataram desses temas, que muitas vezes sofrem censura. Mesmo assim, decidimos desenvolver o projeto até o final.


Camila  Rodrigues (Produtora): Quando abriram as inscrições para a Lei Paulo Gustavo, vimos o potencial no roteiro que tinha sido criado junto e fizemos a  inscrição. Para escrever o roteiro, a gente começou em 2021 e terminou em 2022, mas para gravar foram dez diárias de produção, com mais dez de pré-produção. Com essa aprovação pela Lei Paulo Gustavo de Pernambuco, a gente conseguiu contratar e pagar toda a equipe. Só esse filme envolveu quase 60 pessoas, gerando postos de trabalho diretos, e agora a gente também tá conseguindo realizar exibições com mobilização de público e divulgação.

Foto: André Amorim
MultiCiência: Como foi a criação de uma distopia que reflete a realidade da região?

Iale Lima (Diretora): Inicialmente, pensei em uma ideia mais afrofuturista, mas os desafios financeiros de uma produção audiovisual nos levaram a desenhar essa Petrolina de "Nova Califórnia" de outra forma. Focamos em detalhes como cores quentes e elementos que sofremos aqui, como o calor, a poluição do pó preto e a falta de saneamento em alguns bairros.


Camila Rodrigues (Produtora): A temática em si, sobre a cultura do capitalismo, onde o poder e o dinheiro são sempre mais importantes do que as pessoas e do que a terra, que é muito forte e muito presente em Petrolina. A gente ficava se deparando, por exemplo, com as queimadas, o pó preto que ficava nas nossas calçadas. Então, não queríamos ser tão panfletário de forma direta, mas é aí onde a arte permite a gente criar essas possibilidades. Embora seja uma Nova Califórnia, que se assemelha à nossa cidade real, ela não existe; os personagens não são reais, não é um documentário, mas a temática ainda é muito atual, por isso que a gente se identifica. A identificação acontece nesse sentido, mas foi também um cuidado nosso pensar esse lugar fictício devido à importância da temática.


MultiCiência: Existiram desafios durante a produção de Inóspito? 

Iale Lima (Diretora): Existiram vários, um que me marcou foi a cena após a morte da personagem Teresa. No roteiro, ela iria para um tipo de altar em uma cena externa, mas não encontrei nada tão poético quanto eu desejava fora da casa. Acabei adaptando a cena para ser dentro do quarto dela, de forma mais sentimental. Passei uma hora no set pensando em como realizar essa cena, o que é muito tempo. Também tivemos desafios de som, pois gravamos em um bar e o barulho de pessoas passando ou telefones tocando atrapalhava o que estava sendo captado, mas o resultado deu certo.


Camila  Rodrigues (Produtora): Acho que a primeira e maior dificuldade é conseguir alinhar o cronograma com toda a equipe. Porque do dia que a gente teve o resultado da aprovação até o dia da filmagem, levou-se anos, então, desde quando a gente conversou até o momento de realizar, as pessoas já tinham outros projetos, outros trabalhos, outras demandas, então tivemos que fazer substituições e trocas. Além disso, apesar de existir um recurso que viabilizou tudo, ele ainda não reflete totalmente a realidade e isso é uma questão que a gente discute até hoje: as políticas públicas são fundamentais, precisam existir, mas também precisam acompanhar o mercado como ele está hoje.

Foto: André Amorim



MultiCiência: Quando o filme será exibido novamente? 

Iale Lima (Diretora): Como o filme "nasceu" recentemente, ainda vamos conseguir mais informações sobre onde ele será exibido e distribuído. Eu tenho escrito algumas histórias, mas de trabalho concreto com a mesma equipe, vou ser assistente de direção de um curta-metragem do Fernando Pereira no mês que vem. Particularmente, continuo no processo de escrita para realizar outros filmes no futuro.


Camila  Rodrigues (Produtora): O “Inóspito” ainda  vai rodar, ele precisa ter esse tempinho ainda de circular em festivais, em mostras e em outros projetos de cinema. Muitos desses projetos dependem que o filme não seja público, pois precisam da questão do ineditismo. Então, muito possivelmente, a gente ainda vai segurá-lo por um ou dois anos para fazê-lo circular mesmo. Mas, isso não quer dizer que a gente não vá realizar exibições, que não vamos convidar o público ou que não vá ter exibições gratuitas. A gente, na verdade, quer fazer o filme rodar para que as pessoas vejam mesmo. 


A Abajur Soluções Artísticas, produtora do filme, ainda vai realizar outros filmes este ano, como o curta-metragem “Alimentadeiras de Alma” e o documentário “Juventudes da Periferia”.


Foto: André Amorim

Por Guilherme Passos, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III.

2º Simpósio sobre Questão Racial acontece em Petrolina -PE

Foto: Terceiro dia do 2° Simpósio sobre Questão Racial do Observatório Opará⁠/ Maria Helena Almeida


O 2º Simpósio sobre Questão Racial com o objetivo de promover um debate qualificado sobre a questão racial no Brasil, evidenciando de que forma a Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância, incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro pelo Decreto no 10.932/2022, incide diretamente sobre a formulação, a implementação e a avaliação das políticas públicas de igualdade racial nos âmbitos nacional, estadual e municipal.

Em um cenário marcado por disputas e questionamentos em torno da promoção da igualdade racial, o evento reúne pesquisadores(as), professores(as), estudantes, movimentos sociais e gestores públicos para discutir os avanços, os entraves e os caminhos possíveis para o fortalecimento dessas políticas no país.

Com o tema “Ações afirmativas, reparação e garantia de direitos”, este 2º Simpósio dá continuidade às discussões iniciadas na primeira edição, realizada entre os dias 13 e 15 de maio de 2025, no Cineteatro do Câmpus Petrolina (PE) da Univasf. O evento reuniu pesquisadores(as), estudantes do ensino médio, da graduação e da pós-graduação, gestores e servidores públicos, representantes de órgãos governamentais, integrantes da sociedade civil organizada, movimentos sociais e lideranças políticas e sociais de diferentes regiões do país para discutir por que a reparação à população negra continua sendo necessária.

Em 2026, o Simpósio acontece novamente no Cineteatro do Câmpus Petrolina(PE) da Univasf. Além da conferência de abertura, palestras e mesas-redondas, o evento conta com quatro Grupos de Trabalho (GTs): GT 1 - Ações Afirmativas na Educação; GT 2 - Ações Afirmativas no Mercado de Trabalho Público e Privado; GT 3 - Reparação Racial: Fundamentos e Experiências; e GT 4 - Oportunidades e Desafios para a Juventude Negra.

Na programação, estão previstos(as) convidados(as) de referência, como a doutora Diana Molet, pró-reitora de Ações Afirmativas da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), e a professora Helga Almeida, da Univasf, já confirmadas, além de outros(as) convidados(as).


O 2º Simpósio é realizado pelo Observatório de Políticas Afirmativas Raciais - Opará, a Reitoria da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), a Seção Sindical dos Docentes da Univasf (SINDUNIVASF) e instituições parceiras. 
Mais informações no site www.observatorioopara.com.br


Por Inês Eugênia Cruz, estudante de Jornalismo em Multimeios e colaboradora do MultiCiência.

Chorinho fortalece a cultura local e ocupa espaço público em Juazeiro (BA)

Foto: Roda de chorinho/Arquivo @falajuazeiro

O som do chorinho voltou a ecoar em Juazeiro, no norte da Bahia, reafirmando a força de um dos gêneros mais tradicionais da música brasileira. Idealizado pelo músico e produtor cultural Silas França, o projeto “Roda de Choro” nasceu há mais de uma década com o objetivo de dinamizar o uso de espaços públicos e promover o acesso à cultura. “A ideia surgiu de uma necessidade de ocupar o museu com música e de valorizar o chorinho como expressão cultural. A gente não pensa em desvincular o evento desse espaço, porque ele também cumpre esse papel social”, explica.


Foto: Arquivo Pessoal
Segundo França, a relevância do projeto vai além da estrutura material. “É um evento que pode parecer intimista, mas a importância dele para o calendário de Juazeiro é gigantesca, principalmente no aspecto cultural e imaterial”. A iniciativa, que busca resgatar e manter viva a tradição do chorinho, gênero que tem entre suas referências nomes como Pixinguinha, Chiquinha Gonzaga e Waldir Azevedo, ainda promove um diálogo entre gerações, unindo músicos experientes e jovens talentos. “A gente tenta fazer uma ponte com o passado, mas com os jovens. Isso mostra que o choro continua vivo e se renovando”, destaca Silas.
Foto: Músicos e Silas França em ensaio para Roda de Chorinho/ Arquivo Pessoal

Muitos dos músicos que participam da “Roda de Choro” acompanham o projeto desde o início, formando uma rede de colaboração que o organizador define como uma família musical, o que acaba incentivando a formação artística. Silas explica que o gênero musical influencia diversos estilos, como o forró, a bossa nova e a MPB, funcionando como uma base para o desenvolvimento de instrumentistas. “O choro é como o nosso jazz. Quem quer se aprofundar na música brasileira precisa passar por ele”.

Além disso, o evento promove uma inclusão cultural, especialmente para aquelas pessoas que têm menos acesso a programações culturais na cidade, já que a iniciativa é gratuita e aberta ao público. Apesar disso, o produtor aponta desafios na realização. “Existe apoio institucional, mas ainda é limitado. É um evento que exige muito esforço da equipe, e muitas vezes faltam recursos para ampliar a frequência ou a estrutura”, relata.


Para Silas, mais do que um evento musical, o encontro anual de chorinho em Juazeiro se firma como um espaço de resistência cultural, formação artística e valorização das raízes brasileiras, mantendo viva uma tradição que segue atravessando gerações. A edição deste ano foi realizada no último dia 26, no espaço do museu da cidade, para comemorar a 10ª décima edição e marcou o calendário cultural do município reunindo músicos, público e diferentes gerações em torno da valorização da música instrumental.


Por Ana Clara Martins, estudante de Jornalismo em Multimeios e colaboradora da Agência de Notícias MultiCiência.










A regulamentação das doulas no Brasil e seus efeitos na humanização do parto

Foto: Hellen Florêncio - Recém-nascido logo após o parto

Uma nova Lei brasileira regulamenta a profissão de doula e marca um avanço na humanização do parto em um país em que as cesarianas ainda seguem como principal escolha entre os brasileiros. A medida formaliza as atividades dessas profissionais, uniformiza direitos e reduz conflitos entre maternidades, profissionais de saúde e doulas, especialmente em estados que não tinham norma própria. Embora a atuação já ocorra em todo o território nacional, a regulamentação em âmbito federal representa um novo marco para a profissão. 

Na busca por um cuidado mais humanizado, muitas mulheres no contexto urbano atual recorrem às doulas, profissionais que oferecem apoio físico, informacional e emocional durante a gestação, o parto e o puerpério. Essas profissionais esclarecem dúvidas, sugerem leituras, ajudam na elaboração do plano de parto e preparam a mulher para o momento do nascimento do bebê. Durante o trabalho de parto, permanecem ao lado da gestante, oferecendo suporte com técnicas como massagens, auxílio na movimentação e sugestão de posições, contribuindo também para que a mulher tenha seus direitos respeitados, evitando situações de violência obstétrica. 

  

Aumento de cesáreas no país e riscos 


O parto, antes marcado como um momento natural vivido entre mulheres, passou por um processo de medicalização a partir do século XVII. No Brasil, a maioria das mulheres tem seus filhos por meio de cirurgia, a cesariana. Em pesquisa realizada pela Diretoria de Desenvolvimento Setorial, da Agência Nacional de Saúde Suplementar, foram registrados cerca de 2,7 milhões de nascimentos no ano de 2020, sendo 57,2% realizados via cesariana. Os números ultrapassam a taxa recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a cesariana, que é de 10% a 15% do total de partos. Muitas dessas cirurgias não teriam indicação médica, ou seja, muitos procedimentos não justificados estariam sendo realizados anualmente, trazendo riscos para a mãe e para o recém-nascido.

De acordo com a Diretriz Nacional de Assistência ao Parto Normal, recomenda-se que as práticas clínicas adotem cuidados de maternidade respeitosos, garantindo dignidade, privacidade e confidencialidade, além da ausência de danos e maus-tratos. Também é previsto o direito a escolhas informadas e ao apoio contínuo durante o trabalho de parto e o parto. Esses critérios são compatíveis com as atividades realizadas pelas doulas.

 

O que é a nova Lei e o que muda?

Foto: Hellen Florêncio - Amamentação/acolhimento pós-parto

As doulas já têm suas atividades reconhecidas oficialmente no Brasil desde 2013, na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO 3221-35), que reconheceu a doulagem como ocupação. Apesar disso, a regulamentação nacional da profissão só foi concretizada agora com a Lei nº 15.381, publicada no dia 8 de abril deste ano. De acordo com a legislação, o exercício da profissão de doula é livre em todo o território nacional, desde que sejam seguidos os critérios estabelecidos. A nova lei federal não cria a profissão, mas estabelece um marco nacional ao definir atribuições, limites de atuação e requisitos mínimos de formação. Com isso, a atuação das doulas passa a ter regras mais claras, tanto sobre o que podem fazer quanto sobre suas limitações, além de garantir maior segurança jurídica para sua presença nos serviços de saúde.

No Brasil, é permitido exercer a profissão quem tiver ensino médio completo e curso de qualificação profissional em doulagem, emitido por instituições reconhecidas, inclusive estrangeiras com validação no país, ou que comprove atuação na área por mais de três anos a partir da vigência da lei. Apesar de atuarem durante todo o processo do parto, as doulas são proibidas de utilizar ou manusear equipamentos médico-assistenciais, realizar procedimentos médicos, fisioterapêuticos ou de enfermagem, administrar medicamentos ou interferir nos procedimentos técnicos dos profissionais de saúde. A doula é de livre escolha da gestante, sendo parte da atenção multidisciplinar no ciclo gravídico-puerperal e sua presença não exclui o direito a um acompanhante. 

 

A atuação na prática e desafios

 

Hellen Florêncio, está entre as mais de três mil doulas que atuam no país, segundo dados da Federação Nacional de Doulas do Brasil (Fenadoulas). Estudante do nono período de enfermagem, diz que a doulagem a encontrou. “Desde muito ‘pequenininha’, eu tive contato com minhas primas e tias que geravam. No cuidado no pós-parto e com o bebê. Foi algo que pra mim começou desde muito pequena e eu não entendia que aquilo já era a minha futura profissão”. 

Foto: Hellen Florêncio 

Ela atua como doula nas cidades de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA) há apenas quatro meses e relata que apesar de ser bem aceita dentro dos Hospitais, ainda passa por dificuldades para se sentir parte da equipe. Mesmo não interferindo na condução do procedimento, alguns profissionais não gostam da presença da doula na hora do parto. Hellen acredita que essa falta de aceitação de alguns obstétricos acontece por ela formar gestantes bem informadas sobre seus direitos, riscos e limites. “Eu me dedico totalmente em ensinar todas as minhas gestantes a identificar uma violência obstétrica”, afirma.

Segundo as Diretrizes de Atenção à Gestante, quando realizada sob indicações médicas, a operação cesariana é uma cirurgia segura, essencial para a saúde materna e infantil. Entretanto, quando realizada sem uma justificativa pode

agregar riscos desnecessários sem que haja um benefício claro. Em muitos casos, a paciente entra na consulta com o obstetra e já sai com sua cesária programada. O motivo dessa escolha para muitas é o medo do parto, ou apenas preferência. 

Para Hellen, a tendência na escolha da cesariana está na influência de muitos profissionais que preferem a praticidade e rapidez de uma cesária. “O corpo sabe parir, a gente é programado pra parir. Então, por que que tem essa mobilização toda pra cesárea? Será que é pra adiantar o plantão? Será que porque o parto natural ele exige força, concentração, presença da equipe? A equipe tá preocupada em hora de ir embora, hora de repouso, hora de descanso.”, relata. 

Ela questiona se colocar como principal escolha de parto é uma escolha saudável, já que a recuperação total de uma cesária é de em média 2 anos e para chegar até o útero é necessário cortar sete camadas de pele.  “Será que essa mulher vai ter uma velhice saudável? a cirurgia deixa sequelas.”, ressalta. 

Segundo Hellen, as doulas são vendedoras de disponibilidade, isso implica em perdas de momentos com amigos e famílias para se dedicar ao nascimento dos filhos de suas clientes. “Apesar de tudo, é muito gratificante, cada parto pra mim sempre vai ser único. Sempre vou aprender algo novo com cada mulher que eu faço acompanhamento, ver a força delas e a determinação. É algo que pra mim não tem preço”, relata ao ser questionada sobre os prazeres de sua profissão. 

 

Expectativas e esperanças para o futuro 

 

“A regulamentação da profissão de doula no Brasil, instituída por essa lei representa um avanço significativo no campo da assistência obstétrica, especialmente no fortalecimento do modelo de parto humanizado”, diz Viviane Espínola, coordenadora da Casa de Parto de Petrolina, uma unidade criada para diminuir intervenções desnecessárias, oferecendo uma alternativa de parto natural segura. 

Hellen, que se apaixonou pela obstetrícia dentro da Casa de Parto, tem sonhos grandes acerca do futuro das doulas, como a implementação das doulas em unidades básicas de saúde para tornar mais acessível para qualquer tipo de mulher que queira o acompanhamento de uma doula, ou até mesmo com palestras sobre parto e violência obstétrica. “educação perinatal deveria ser de acesso a todas as mulheres, elas têm que entender o que o corpo dela vai fazer, como vai fazer e como esse momento pode acontecer com menos sofrimento. Eu espero que essa Lei abra muitas portas para que não olhem as doulas como assistência de parto”. Segundo Viviane, a implementação efetiva da Lei vem para valorizar ainda mais o trabalho colaborativo. 

A presença da doula deve ser compreendida como um elemento que agrega ao cuidado. Dessa forma, a regulamentação da profissão de doula não apenas legitima uma prática já consolidada, como também promove sua organização e qualificação. Essa mudança representa uma oportunidade de aprimorar ainda mais o modelo assistencial, reafirmando o compromisso com uma atenção ao parto seguro, humanizado e centrado nas necessidades da mulher.



Por Mellyssa Cavalcanti, estudante de Jornalismo em Multimeios e colaboradora da Agência de Notícias MultiCiência.

Universidade Aberta à Terceira Idade: Tempo Compartilhado

Há 17 anos, a Uati em Juazeiro (BA) promove encontros, saberes e experiências em um espaço coletivo

Foto:  Acervo do Núcleo de Assessoria de Comunicação (NAC) 

do Departamento de Ciências Humanas - Campus III

Ao longo dos anos, o projeto se constitui como um espaço onde o aprendizado acontece ao articular repertórios de vida às práticas educativas entrelaçadas pela convivência. A Universidade Aberta à Terceira Idade (Uati), no Campus III da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), consiste em um curso de formação continuada voltado para pessoas idosas, de ambos os sexos e de qualquer nível socioeducacional. O projeto ocorre também em outros campi da universidade e se organiza como um ambiente em que o conhecimento é construído coletivamente, a partir do encontro entre diferentes trajetórias. Desde a sua implantação, em Juazeiro (BA), em abril de 2009, ele é tecido no envolvimento das integrantes, que, nos últimos anos, são majoritariamente mulheres, que compartilham não só saberes, mas também o tempo de estar juntas.

Foto: Acervo Uati - Práticas de Yoga

        No cotidiano das atividades, o aprendizado acontece por meio de trocas constantes, presentes nas oficinas de escrita, no canto para o coral, nas atividades físicas, na yoga e nos momentos com fisioterapeutas, nutricionistas e profissionais de outras áreas da saúde. Também há atividades voltadas para a reativação da memória, por meio de práticas manuais, como o artesanato, e práticas tecnológicas, como as aulas de informática, além de revisitar brincadeiras da infância, trabalhando, dessa forma, o cognitivo delas. Assim, as experiências de vida são trazidas para o presente, e as vivências individuais passam a compor o próprio processo coletivo, marcado pela participação contínua delas no grupo.

Foto: Kárem Rodrigues - Acervo do Núcleo de Assessoria de Comunicação (NAC) 

do Departamento de Ciências Humanas - Campus III

A aposentada Maria do Carmo Magalhães, na juventude, se formou em magistério, mas optou por não seguir na área da educação, construindo sua trajetória profissional no secretariado. Desde 2016 na Uati, encontrou no projeto um espaço de acolhimento, especialmente diante de questões relacionadas às questões psicológicas. Entre idas e vindas, hoje participa ativamente das atividades, contando inclusive com recursos de acessibilidade, já que têm baixa visão, o que exige adaptações, como nas letras com o tamanho da fonte maior, nos ensaios e apresentações do coral, atividade conduzida pelo professor Paulo Soares, é a que a aluna mais aprecia.

“Eu acho importante participar da UATI, porque além dos conhecimentos, é uma terapia pra nós. Aqui a gente aprende, mas também se fortalece, principalmente nossa saúde mental. Além das amizades que a gente faz, que são muitas, eu tenho amizades de infância aqui, mas também conheci muita gente nova”, 

Maria do Carmo Magalhães. 

Foto: Kárem Rodrigues - Acervo do Núcleo de Assessoria de Comunicação (NAC) 

do Departamento de Ciências Humanas - Campus III

Já Gercineide Guimarães, natural de Feira de Santana (BA), também aposentada e com trajetória profissional na área da educação, chegou à Uati após se mudar de Salvador (BA) para Juazeiro (BA), com o filho. O primeiro contato com o projeto aconteceu por meio da irmã, que trabalhava na biblioteca do Campus III da Uneb, e a incentivou a participar das atividades. Inicialmente, como oficineira em 2017 e depois se matriculou como aluna em 2018. 

“Gosto muito de passar as tardes aqui com minhas amigas. É um momento que a gente conversa, troca experiências e compartilha nossas histórias, desde a infância, a adolescência até a vida profissional. Eu gosto de lembrar, contar e também ouvir as histórias das outras, porque sempre tem algo que ensina. Aqui a gente ri, aprende e se fortalece juntas, por isso eu gosto tanto de estar aqui e de passar essas tardes na companhia delas”, Gercineide Guimarães.


“Aqui, as atividades que também envolvem estudantes da graduação, em uma perspectiva de encontros intergeracionais. A proposta da Uati também fortalece a relação entre a universidade e a comunidade. Muitas das atividades são pensadas junto com a comunidade acadêmica, com estudantes que organizam e realizam oficinas com as pessoas idosas.” explica Iva Autina Cavalcante, atual coordenadora do projeto. 

Uma das monitoras, Luma Dias, estudante de pedagogia, destaca que sua participação no projeto contribuiu diretamente para sua formação. “A minha atuação contribuiu para a ampliação do conhecimento na minha formação. Eu entendi muito das dinâmicas e de um grupo da terceira idade, entendi também o carinho e o valor que existe ali”.

Para ela, o processo pedagógico está diretamente ligado ao diálogo. “Não é só falar, é ouvir também. Quando todas participam, o conhecimento se torna de todos”. Outro aspecto que ela ressalta nos seus depoimentos é a construção de vínculos. “Muitas chegam com histórias guardadas, encontram naquele local, a amizade e a segurança para partilhar, onde elas podem contar suas experiências.”

Foto: acervo da Uati - Visita ao Quintal do Poeta - Memorial Manuca Almeida em Juazeiro (BA).

Esse cenário dialoga com o que foi publicado na Revista Contribuições às Ciências Sociais, em julho de 2025, ao apontar que centros de convivência promovem sociabilidade, autonomia e saúde para a população idosa, mesmo diante da sua escassez desse tipo de local no Brasil. O estudo também destaca a necessidade de ampliação dessas iniciativas, ressaltando seu papel no empoderamento, na garantia de direitos da pessoa idosa e no fortalecimento de vínculos, especialmente por meio de ações educativas e equipes multiprofissionais.

Na prática, é possível perceber esses aspectos nas atividades promovidas pela Uati. As visitas técnicas a centros culturais, os passeios integrados ao projeto, as apresentações do coral dentro e fora da universidade, entre outras atividades citadas. Nos encontros da UATI, o que se constrói vai além das atividades, é um elo. Entre conversas, risos e trocas, o projeto faz a diferença, favorecendo a expressão das participantes. É um espaço onde o cuidado com pessoas idosas ganha forma no cotidiano, nas pequenas ações e no reconhecimento de cada trajetória. Sendo um lugar de pertencimento. 

Multiciência como registro de memória

 Link: https://multicienciaonline.blogspot.com/2009/04/uneb-de-juazeiro-esta-com-inscricoes.html


Por Meiwa Magalhães, estudante de Jornalismo em Multimeios e colaboradora do Multiciência.

ECOVALE: raízes e reinvenção da comunicação no Vale do São Francisco

Foto: Divulgação 
Criado em 2010, no campus III da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) em Juazeiro-BA, o Encontro de Comunicação do Vale do São Francisco (ECOVALE) nasceu com o objetivo de pensar a comunicação a partir do interior, deslocando o olhar dos grandes centros para as realidades do Semiárido. Ao longo dos anos, o evento se consolidou como um espaço de formação, troca de experiências e construção coletiva do conhecimento na área da comunicação.
Na primeira edição, realizada em 2010, o tema “Jornalismo e suas múltiplas linguagens” abriu espaço para discutir a atuação do jornalista em diferentes formatos. Oficinas de assessoria, diagramação, educomunicação, crítica cinematográfica e fotografia já mostravam o caráter prático e formativo do encontro.

No ano seguinte, o II ECOVALE trouxe o tema “200 anos de imprensa da Bahia” para refletir sobre a trajetória da imprensa e o cenário da comunicação, com foco nas experiências regionais. Em 2013, a terceira edição avançou para o debate sobre “Novas mídias e movimentos sociais”, conectando o local ao global e discutindo o impacto das tecnologias na comunicação.

Em 2016, a quarta edição destacou um tema que continua atual na nossa realidade. “Assessoria, redes sociais e empreendedorismo: desafios do mercado de trabalho”. O jornalista e egresso da UNEB, Pablo Luan, que participou de várias edições entre 2014 e 2019, relembra a importância desse momento. Segundo ele, as discussões sobre empreendedorismo já apontavam caminhos que hoje são realidade no mercado, como o trabalho autônomo, a atuação em redes sociais e a multiplicidade de funções do jornalista. Para Pablo, o ECOVALE sempre trouxe debates que permanecem relevantes ao longo do tempo e ajudam a preparar os estudantes para um cenário profissional em constante transformação.
Foto: Arquivo Pessoal
A quinta edição, em 2019, abordou o “Jornalismo e outras narrativas comunicacionais”, ampliando o olhar para além das formas tradicionais de fazer jornalismo. Já a sexta edição, realizada após o período mais crítico da pandemia de Covid-19, trouxe o tema “os desafios da comunicação e educação em rede” e marcou também as comemorações dos 20 anos do curso de Jornalismo em Multimeios do campus Juazeiro.

Agora, em 2026, o ECOVALE chega à sua 7º edição, que acontece entre os dias 7 e 10 de abril, em Juazeiro. Com o tema “Processos de reinvenção no jornalismo”, o evento propõe discutir as mudanças estruturais na área da comunicação, como a plataformização da informação e os desafios impostos pela desinformação.

A estudante de jornalismo, Laise Ribeiro, destaca a importância desse debate, especialmente para quem está prestes a entrar no mercado de trabalho. Para ela, o tema chega em um momento decisivo, já que muitos estudantes se deparam com uma realidade profissional em constante mudança. Ribeiro também ressalta o papel do evento na formação prática, lembrando sua experiência como monitora na edição anterior, que possibilitou vivenciar de perto a organização e a dinâmica do Encontro. Nesta edição, ela participa novamente, agora ainda mais interessada nas discussões que podem ajudar a compreender e lidar com as transformações do jornalismo.
Foto: Divulgação 

Além dos debates, oficinas e apresentações de trabalhos, a abertura do evento será marcada por uma homenagem a nomes importantes da comunicação no Vale do São Francisco, como Inah Torres e Marcelino Ribeiro (in memoriam), junto com Luiz Manoel Guimarães, serão reconhecidos com o Prêmio Carranca de Jornalismo, que celebra trajetórias marcantes de comunicadores na região.

Mais do que um evento acadêmico, o ECOVALE se tornou um espaço de escuta, reflexão e fortalecimento do jornalismo regional. Para a professora Andréa Cristiana Santos, o Encontro tem um papel fundamental na construção de um olhar sobre o jornalismo no Vale. Segundo ela, o evento contribui para a formação de estudantes e profissionais, fortalece a identidade regional e cria um ambiente de diálogo sobre temas emergentes que impactam o presente e o futuro da profissão.

Ao longo dos anos, o Ecovale tem se consolidado como um espaço de formação crítica e de integração entre a universidade e a comunidade. O evento traz temas que se entrelaçam ao longo de sua trajetória, além de valorizar os saberes regionais.


Por Gabriel Matos e Maria Helena Almeida, estudantes de jornalismo e colaboradores do MultiCiência.