Ascensão de um modelo marcado por tecnologia, inovação, produtividade em grande escala e sustentabilidade no Oeste baiano
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| Foto: Sara Freire |
O algodão, que hoje coloca a Bahia entre os principais produtores da fibra no país, é também herdeiro de uma cultura que sofreu uma das maiores crises da história no Nordeste. Décadas atrás, a região era referência na produção do algodão mocó, fibra conhecida por sua resistência e qualidade. Mas, nos anos 80, algo inesperado pelos produtores aconteceu: uma praga trazida de países estrangeiros dizimou quase toda a produção. O grande “tapete branco” se tornou refém do bicudo do algodoeiro, um pequeno besouro que come o algodão antes mesmo dele desabrochar, se espalhou pelas lavouras e transformou o que parecia ser uma atividade consolidada em um cenário de perdas.
Produtores e pesquisadores começaram a buscar métodos e melhorias do manejo para enfrentar a praga, com investimentos em estudos tecnológicos capazes de reduzir os danos e evitar que surtos semelhantes viessem à tona novamente. Para algumas regiões do país, como, nos estados de São Paulo, Ceará e Paraná, de fato, foi o fim da produção, no entanto, na Bahia, o acompanhamento do Programa Fitossanitário executado pela Abapa (Associação Baiana dos Produtores de Algodão) tornou-se essencial para garantir a sustentabilidade e a produtividade no campo. Estratégia que funcionou para que os produtores não fossem pegos desprevenidos mais uma vez e responsável pela melhora ainda maior das lavouras de algodão.
A coordenadora do programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR) Sustentabilidade, Yanna Costa, explica que “ Atualmente, dentro do sistema de produção, a gente tem trabalhado com todas as unidades produtivas para melhorar e trabalhar com a agricultura de precisão. O principal método é o preventivo, adotando cultivares com genética e tecnologia à frente, diminuindo a necessidade de uso de produtos químicos. O controle químico não deve e não é usado de forma exclusiva, é sempre uma forma de manejo complementar às outras estratégias, seja em método preventivo, físico ou mecânico.”
Nesse cenário, cresce entre os agricultores a busca por alternativas sustentáveis, como a implantação de biofábricas próprias. A iniciativa garante o volume necessário de bioinsumos, organismos como vírus, bactérias e insetos direcionados ao combate de pragas-alvo, e reduz progressivamente a dependência de produtos químicos no campo.
A gestão sustentável estende-se também ao uso racional e responsável dos recursos hídricos. Embora o cultivo não seja dependente de irrigação, a tecnologia é acionada de forma complementar durante períodos de oscilação hídrica das chuvas no Oeste baiano, garantindo à lavoura o volume de água de que necessita para o seu desenvolvimento.
As estratégias de prevenção da cadeia produtiva tornam-se cada vez mais cruciais para conter o avanço da praga e evitar novamente prejuízos severos e a atuação conjunta do setor mostra sua força: "Quando você tem uma associação estruturada, especializada e com equipe dedicada a monitorar alertas em relação ao bicudo e a qualquer outro tipo de praga, isso facilita muito o controle. Conseguimos unificar os cuidados de manejo de uma forma única, não em fiscalizar, mas com foco em alertar e instruir", ressalta Ana Paula Franciosi, segunda-secretária da Abapa.
A cotonicultura é o principal vetor de crescimento de Luís Eduardo Magalhães e do Oeste da Bahia. O município está no coração do Matopiba (região que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e funciona como um dos principais pólos de desenvolvimento e tecnologia agrícola. Além disso, o bioma Cerrado baiano oferece topografia e clima favoráveis para a produção de uma pluma de alta qualidade.
"A evolução na tecnologia de sementes e a ausência de chuva no período da colheita são fatores cruciais para garantirmos a qualidade e uma boa produção", afirma o segundo vice-presidente Abapa, Douglas Orth. Completando, a segunda-secretária da instituição, Ana Paula Franciosi, destaca a importância da geografia local "A planície é uma característica que influencia muito para que a gente tenha campos mais extensos e a possibilidade de trabalhar com máquinas maiores, permitindo uma produção em larga escala".
A atividade, que no passado era marcada pelo trabalho puramente braçal e instintivo, projeta o seu futuro sobre uma agricultura tropical de alta precisão, pautada pelo uso intensivo de dados e inteligência artificial. Essa transformação tecnológica altera profundamente o perfil do campo, substituindo a antiga baixa exigência de escolaridade por uma demanda crítica por mão de obra técnica e altamente especializada. O anterior isolamento tecnológico e urbano cede espaço a uma integração total entre o ecossistema urbano e o produtivo, enquanto a histórica desconexão com pautas ambientais globais dá lugar ao pioneirismo da região na adoção de métricas ESG (Ambiental, Social e Governança) e no alinhamento com as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU).
Os indicadores da Abapa traduzem em números o destaque do estado no mercado global. Após encerrar a safra 2024/2025 com 843 mil toneladas de pluma extraídas de 413 mil hectares de lavoura, a estimativa é de um crescimento de 10% no ciclo 2025/2026, com a colheita devendo bater 925,2 mil toneladas.
Ao olhar para o futuro, a produção de algodão na Bahia investe em novos paradigmas e rompe definitivamente com o seu estigma histórico. A fibra natural deu o pontapé inicial para o crescimento do Oeste da Bahia, enquanto o agronegócio consolidou a região como um território próspero. Como explica Douglas Orth, “o algodão trouxe o start para o crescimento, o agro trouxe um franco crescimento, somos uma região próspera”. Mais do que ditar o ritmo da inovação, o setor assume a responsabilidade de educar, nutrir e preparar a próxima geração, selando um compromisso com o futuro do território.
Por: Sara Freire e Amy Ferreira, estudantes de Jornalismo em Multimeios, Campus III - Juazeiro
Prêmio ABAPA de Jornalismo 2026
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