Fazendo careta ao sexismo

MultiCiência 22 outubro 2026
Coletivo feminino surge para ocupar espaço na tradição dos caretas
Foto: Divulgação/ Careta Menina

A cultura dos Caretas é uma das manifestações mais ricas do folclore nordestino, onde alegria e medo, sagrado e profano caminham juntos. Longe de ser um evento isolado, a tradição dos Caretas é um fenômeno que se espalha por diversas cidades do Nordeste, especialmente no Ceará, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Paraíba, criando um espetáculo que celebra a identidade, o artesanato e a ancestralidade de um povo.


No Vale do São Francisco, o Coletivo Careta Menina surge com a proposta de incentivar a participação feminina nessa manifestação cultural cuja liderança e a maioria sempre foram masculinas. Idealizado por Lys Valentim, artista e produtora cultural, o grupo nasceu de um trabalho de formação viabilizado por meio de um edital da Lei Aldir Blanc.


A idealizadora conta o despertar para a iniciativa. “Eu sempre nutri um fascínio pelos Caretas. Em 2023, criei uma fantasia e uma máscara próprias e decidi me misturar aos Caretas de Santana. Foi uma experiência muito marcante. As pessoas que acompanhavam a tradição demonstravam curiosidade ao me ver e, muitas vezes, pareciam se perguntar ‘É uma mulher?’. Crianças e mães acompanhadas de filhos pequenos pediam para tirar foto comigo. E eu não esperava por isso.”


Ao vivenciar aquela experiência, percebeu algo que até então não tinha enxergado com tanta clareza, Lys era a única mulher brincando no cortejo entre centenas de homens. E isso a fez refletir sobre como aquele espaço, historicamente, não havia sido construído como um lugar convidativo para as mulheres e que essa realidade ainda permanece para muitas delas.


Foi justamente a partir da própria vivência que a artista conta que nasceu a vontade de criar o Careta Menina, um coletivo para outras mulheres experimentarem, ocuparem e ressignificarem essa tradição.


"Busca ser um manifesto político para reafirmar que o espaço público também é das mulheres, que por muito tempo tiveram esse direito negado. Até algumas décadas atrás, as mulheres não podiam sair sozinhas, precisando estar acompanhadas dos maridos ou dos pais, ou de autorização para ir e vir desacompanhadas.", pontuou Lys.


As mulheres vêm transformando cenários ao romper barreiras e conquistar seu lugar. Apesar dos avanços, ainda existem resistências e práticas sexistas que dificultam essa participação.  O protagonismo feminino nas mascaradas de rua ainda é uma conquista em construção.


O projeto atualmente desenvolve oficinas de criação de máscaras e planeja abrir uma seleção para novas integrantes. Segundo a entrevistada, nem todas as participantes das oficinas têm interesse em integrar o grupo, cuja atuação exige tempo e disponibilidade para reuniões, definição de performances, figurinos e organização da produção. 

Foto: Divulgação/ Careta Menina

                                       

Ainda que a passos lentos, a participação feminina vem crescendo em algumas regiões. A proposta é romper com o silenciamento histórico e celebrar a potência criativa das mulheres no sertão do Vale do São Francisco", conta a pioneira. "Por aqui, não existia nenhum grupo 100% feminino. Somos o primeiro coletivo e, pelos levantamentos que fiz, acredito que sejamos também o primeiro do nordeste formado unicamente por brincantes caretas ribeirinhas, sertanejas e contemporâneas.”


Os encontros acontecem de forma rotativa nas casas das próprias brincantes, com idades entre 22 e 38 anos, que mascaradas na rua, encontram um espaço de expressão, criação artística e participação na cultura regional. “Nos organizamos em datas pontuais, nos reunimos com meses de antecedência das manifestações culturais que temos interesse, geralmente na Semana Santa, no Carnaval e demais festas populares”.


O anonimato é uma das características mantidas pelo grupo, que preserva a identidade das brincantes por trás das máscaras. Sem temas fixos, a iniciativa valoriza a autonomia criativa das integrantes na construção de personagens e performances para ocupar o espaço público.


O grupo já participou de diversos eventos culturais da região, com destaque para o Cortejo Abre Alas, o Beira Festival e a Aldeia do Velho Chico. E conta com o apoio do Sesc Petrolina.

Foto: Divulgação/ Careta Menina

              

Ao viver e celebrar a tradição, reconhecem-se como protagonistas, o que ajuda a construir quem são e de onde vêm. E, a cada passo, gesto e presença, reafirmam seu pertencimento e transformam sua participação em uma forma de resistência, mostrando que essa história também é escrita por mulheres.


Reportagem por Amy Ferreira, Produção por Álison França, estudantes de Jornalismo em Multimeios e colaboradores da Agência MultiCiência