Pesquisa investiga experiências de envelhecimento

. 01 abril 2009

Já passou o tempo em que envelhecer era sinônimo de inatividade. Hoje, os idosos vivem mais e realizam tarefas antes restritas apenas aos jovens, como trabalhar, estudar e fazer atividades físicas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida do brasileiro subiu, na última década, de 69 para 72 anos, sendo que um terço dos idosos continua ativo no mercado de trabalho.

Para compreender os significados do envelhecer, a professora da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Giovanna De Marco, criou o projeto “Longevidade: experiências de envelhecimento na micro-região de Juazeiro e Petrolina”, que conta com a colaboração do professor e fotojornalista Flávio Ciro. O projeto surgiu durante uma pesquisa com idosos em Massaroca, distrito de Juazeiro, e a professora sentiu a necessidade de fazer do envelhecer um objeto de análise.


No decorrer da pesquisa, foi constatada a reclamação dos idosos quanto ao não reconhecimento deles como autoridades entre os jovens e as crianças, sendo atribuído esse fato ao acesso dos jovens aos centros urbanos e aos meios de comunicação. “Com o acesso à escola no meio rural, os velhos vão sendo pouco a pouco deslocados do lugar central a eles atribuído em uma cultura de tradição oral, tal como vigorou até pouco tempo”, destaca a professora.

Apesar dessas perdas, os idosos ganharam mais visibilidade. Atualmente o aumento da longevidade faz com que a psicologia, geriatria, gerontologia, que investigam fenômenos relacionados ao envelhecimento humano, repensem suas teorias a respeito dos velhos. Este termo, inclusive, é contestado por muitos idosos. Seu Ariston Gonçalves, de 88 anos, quando chamado de velho, rebate, dizendo que velho é aquilo que deve ser jogado fora.

De acordo com Giovanna, essa revisão de conceitos acontece devido ao novo modo de envelhecer desafiado pelo aumento na expectativa de vida. “Essa nova expectativa faz com que essa parcela da população se mantenha em atividades nos vários âmbitos da sociedade (trabalho, cultura, esporte, lazer etc.), constituindo-se inclusive como mercado de consumo de uma diversidade de produtos desenvolvidos especificamente para eles”, explica.

Um exemplo desta nova geração de idosos é o odontologista Manoel Oliveira, de 62 anos. Ele trabalha na profissão há mais de 30 anos e enfatiza que sua experiência é o seu diferencial em relação aos outros profissionais. O médico afirma que não para de trabalhar porque sente a necessidade de permanecer ativo.

No entanto, para alguns idosos, trabalhar não é apenas uma opção. O trabalhador ambulante José Filho, de 62 anos, vende picolé no terminal de ônibus em Juazeiro para ajudar sua filha nas despesas de casa. Seu José explica que ainda não se aposentou porque o seu tempo de serviço com carteira assinada não é suficiente para a requisição do benefício. Mas, ele afirma que, mesmo quando estiver aposentado pretende continuar ativo. “Eu gosto de trabalhar”, declara.

Para o estudante de jornalismo e integrante do projeto de pesquisa, Laércio Lucas, participar desses estudos só reforçou aquilo que ele já pensava sobre os idosos. “Eu sei que velhice não é sinônimo de morte nem de inatividade. A experiência adquirida no decorrer dos anos pode nos ajudar a compreender as vicissitudes de nossa juventude e nos ensinar uma lição de vida”, afirma.

Até o momento, a pesquisa realizou o levantamento bibliográfico e entrevistas com registros fotográficos feitos pelo professor Flávio Ciro com idosos de Juazeiro, Petrolina, Curaçá e Santa Maria da Boa Vista.


Por Thiago Gonçalves, repórter
Emerson Rocha, fotógrafo
Matéria Publicada no Gazzeta do São Francisco, edição de hoje (01/04)