Juazeiro diante de seu passado

. 14 julho 2009


Historicamente, Juazeiro é uma referência para o centro comercial, econômico e político do Vale do Submédio São Francisco. Contudo, processos socioculturais, como a construção da Barragem de Sobradinho na década de 1970, trouxeram mudanças sociais, econômicas e políticas para a cidade que, nos anos seguintes, sem uma maior intervenção governamental e municipal, ocasionariam uma situação de estagnação econômica.

Essa avaliação é da cientista social Odomaria Rosa Bandeira Macedo, docente da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), ao comentar a situação histórica de Juazeiro no cenário sócio-econômico do Vale do São Francisco. "Foram alguns anos, oito anos mais ou menos, que ficou tudo parado no Rio, em termos da comercialização de produtos que se fazia tradicionalmente entre Minas Gerais e Bahia. Nós ficamos sem o tráfego de vapores até o porto de Juazeiro, durante a construção da barragem, quando foi praticamente impedido o tráfego de Sobradinho para baixo e, depois, com a eclusagem isso se complicou", afirma.

As mudanças econômicas também impulsionaram e foram acompanhadas de transformações culturais e urbanísticas. Para Odomaria, a configuração do centro urbano da cidade também demonstra que o processo de mudanças foi sendo feito ao longo do tempo sem uma intervenção do poder público. Já na cidade vizinha Petrolina-Pe, observa- se que ocorreu um maior planejamento urbano. "Juazeiro é uma cidade muito mais antiga que Petrolina, a vida urbana aqui se fez de uma forma mais espontânea, a configuração do próprio centro urbano dá evidências de que o processo foi mais natural", esclarece.

Em entrevista à Agência MultiCiência, a cientista social relata suas impressões sobre a trajetória de crescimento econômico da cidade de Juazeiro como um centro comercial relevante ao longo do tempo, e destaca a posição privilegiada economicamente do município, que será ora fortalecida, ora enfraquecida pelas mudanças externas e internas.


MultiCiência: Juazeiro é tida no cenário histórico como importante para a integração do Vale do São Francisco ao restante do país. Como ocorreu esse processo? Quais momentos demarcam a relevância de Juazeiro na interiorização do Brasil?

Odomaria Rosa Bandeira Macedo (Odomaria):
Essa região, que envolve Juazeiro e adjacências, é uma área que se integra às demais regiões brasileiras, através do processo de expansão da colonização, com a vinda do rebanho bovino pelas margens do Rio São Francisco, na busca pelo ambiente natural para o criatório do gado. Surgiram grandes fazendas sob o domínio de uma família de origem portuguesa, os García D'Ávila. Paralelamente, há toda uma atividade mais sistemática, com a presença dos jesuítas nessa área através das missões. Há um trabalho de aldeamento dos índios que restaram, os que não foram mortos a tiro ou à bala. Então, eles foram sendo readaptados pela ação direta da catequese. Posteriormente, no século XVIII ocorreu a exploração das minas de ouro e salitre na área onde se tem hoje os territórios de Jacobina e Juazeiro, no Salitre, o que fez com que houvesse toda uma reorganização da atividade colonizadora. Esses eventos contribuíram para a fundação da cidade de Juazeiro posteriormente, e para que essa viesse progressivamente a se tornar um ponto estratégico no Vale, já que tudo que vinha de Salvador para cá passa a se espalhar para frente, para cima e para baixo de Juazeiro, através do rio São Francisco. Com isso, o Opara passa a ser também percebido como um via natural de integração dessa região às demais partes do Brasil em formação, pois daqui nós vamos para Pernambuco, Piauí, Minas Gerais, para Sergipe, Alagoas.

MultiCiência: E qual seria a via de integração?
Odomaria: Nesse aspecto, o que consolida essa relação é o desenvolvimento da navegação no rio São Francisco, já no final do século XIX. O potencial do comércio marítimo pelo Rio São Francisco, já está no início do século XX bastante evidenciado com a atividade da Companhia de Navegação do Rio São Francisco e empresas similares que, com suas embarcações, possibilitam o tráfego intenso de gente e produtos e favorecem o desenvolvimento dessa região as margens do rio. Juazeiro, pela sua condição topográfica, passa a ser ponto de partida, da Bahia, de todas essas embarcações que sobem, e ancoradouro das que descem de Pirapora (MG) com os produtos. E dessa forma o município se faz uma cidade referência para o Médio São Francisco e foi se construindo como um centro mercantil importantíssimo na história da Bahia.

MultiCiência: O município juazeirense já experimentava uma posição diferenciada em relação as demais cidades. Há outros aspectos importantes que favoreceram o crescimento econômico?

Odomaria: Sim. Um primeiro fator é a construção da estrada de ferro que traz, através do trem, a aceleração de todo um processo "civilizatório" (a vida moderna) pelo deslocamento mais rápido, não só dos produtos, mas das pessoas e dos costumes. Vai possibilitar um intercâmbio muito grande de variados aspectos socioculturais entre parte do Recôncavo baiano e todo esse território das barrancas do São Francisco. Ocorre uma interligação entre duas vias importantes de integração econômica, social e política, o transporte ferroviário com o fluvial, e isso potencializa ainda mais o comércio local. Um segundo motivo vem na década de 50 com a construção da ponte Presidente Dutra, que permite a extensão da via férrea até o Piauí, que significa certa polarização de Juazeiro na economia regional.

MultiCiência: Qual era o aspecto do pólo comercial de juazeiro, no final da década de 70?

Odomaria: Havia não só as grandes lojas de comércio, nas quais se atendia com os mais variados produtos a um consumo interno. Tinha-se em Juazeiro, também, algumas empresas voltadas para o mercado externo, as “firmas” exportadoras de produtos locais. Á época, os produtos não eram os produtos agrícolas como temos hoje, dentro dessa idéia do agronegócio; eram produtos como a pele, artigos mais simples, beneficiados, mas não industrializados, extraídos de uma produção natural que se encontrava em domínios de certas famílias de proprietários das terras: produtos da carnaúba, como a cera de carnaúba, da mamona, como o óleo, e outros. Então, todo esse material extraído da carnaúba de uma ponta a outra do Médio do São Francisco era exportado para outras regiões do Brasil e até para fora do país. Assim como a mamona, além das peles, que eram curtidas inicialmente de uma forma artesanal, também a cera daqui, serviram para alimentar a produção de calçados e outros artefatos de couro. Houve ainda a produção do vinil para os discos da indústria fonográfica e a indústria de alimentos e medicamentos.

MultiCiência: Como se apresenta a educação e a cultura nesse período?

Odomaria: Até o final da década de 70, parece que havia em ambas um vigor que acompanhava ou correspondia a esse potencial econômico. A grande escola pública encontrava-se em Juazeiro, o Colégio Estadual Ruy Barbosa, com os cursos chamados “clássico” e “científico”, tendo-se em Petrolina apenas o Colégio N. S. Maria Auxiliadora e o Colégio D. Bosco como escolas grandes. Somente depois surgiu ali o Colégio Estadual que até então era, simplesmente, a Escola Estadual de Petrolina. Já no início da década de 1960 foi inaugurada a Faculdade de Agronomia em Juazeiro e, logo depois, uma Faculdade de Filosofia Ciências e Letras que funcionou três anos e, infelizmente, não vingou naquela época. Antes disso, já existia, também, um movimento cultural expressivo em termos de arte, bem dinâmico nessa cidade, com o Clube Comercial e o dos Artistas, as filarmônicas na Sociedade Apolo Juazeirense e a 28 de setembro. Desde o século XIX, encontram-se jornais sendo produzidos em Juazeiro. Existiam teatros, mais de um grupo teatral, saraus, festas artísticas e tinha, pelo menos, duas bandas de jazz em Juazeiro. Havia o teatro Santana, o Cine São Francisco, onde hoje funciona as Lojas Maias...

MultiCiência: Como a introdução da rodovia vem favorecer a modernização da cidade? Quais os pontos positivos e negativos?

Odomaria: Constrói-se a rodovia Lomanto Junior, no final da década de 60. Junto a isso se trouxe a energia elétrica de Paulo Afonso, com o que também se acelerou ainda mais o processo de modernização nessa região, com muitas mudanças de hábitos. Por um lado, a ferrovia vai sendo deixada de lado, pouco a pouco, por causa da imponência que teve a rodovia a partir de então. Na viagem de trem, é um tempo muito maior para você se deslocar. Em uma viagem pela estrada asfaltada, o que nós passávamos em um dia e meio viajando de Juazeiro a Salvador, passava a ser feito se gastando apenas sete a oito horas graças a rodovia e tudo isso eu acho que veio alterando bastante o ritmo da vida, trazendo vantagem e desvantagem. Introduzindo novos hábitos, alterando outros que eram mais tradicionais e isso se reflete na vida das pessoas.

MultiCiência: O que promoveu a desestabilização e a alteração gradual do desenvolvimento de Juazeiro no Vale do Submédio São Francisco?

Odomaria: A construção da barragem do Sobradinho altera bastante esse contexto. Nós ficamos sem o tráfego de vapores até o porto de Juazeiro, durante a construção da barragem, até que se formasse o lago de Sobradinho, e, depois, com a eclusagem isso se complicou. E foram alguns anos, oito anos mais ou menos, em que ficou tudo parado no rio, em termos da comercialização de produtos que se fazia tradicionalmente entre Minas Gerais e Bahia. Não é só da edificação da barragem em si, que falo, mas de todos os processos socioculturais que se desencadearam, desde a configuração do ambiente ao deslocamento de populações de cinco cidades. Há uma convergência muito grande de várias partes do Brasil para cá. Há, em termos culturais, uma dinâmica muito intensa de mudanças se processando, tanto em Juazeiro, como em Petrolina e demais localidades ribeirinhas do São Francisco.

MultiCiência: Como foi a introdução do processo de irrigação em Juazeiro?

Odomaria: A irrigação mais intensa veio posterior a construção da barragem de Sobradinho, visivelmente no final de década de 70 e início da década de 80, principalmente com os projetos de colonização, que vem pela ação do governo federal, através da SUVALE, que se transformou depois na CODEVASF. Inicialmente, a questão era levar água para a produção agrícola, voltada para o consumo e mercado local, para a subsistência. Seria uma produção muito mais de mandioca, de milho, de feijão, abóbora, coco, goiaba, pinha, melancia limão, laranja, hortaliças. O Salitre foi, naquela época, um grande celeiro nesse tipo de produção. Grande parte das frutas que nós comprávamos aqui na feira de Juazeiro era quase tudo, produzido no Salitre. Exceto na produção de cebola, que foi cultivada desde seu início nessa região como uma monocultura para exportação, que me parece ter se destacado como produção regional com os projetos de irrigação.

MultiCiência: Houve algum governo que favoreceu a região juazeirense?

Odomaria: Em termos da urbanização da cidade, houve o governo de Aprígio Duarte, no início do século XX, com o qual se iniciou um trabalho de intervenção mais sistemática da prefeitura municipal no processo de urbanização, com a instalação dos serviços de água encanada, de esgotamento sanitário, de arborização das ruas, definindo o traçado das vias e construindo alguns dos espaços públicos, algumas praças, fazendo o calçamento de ruas, o cais etc. Ele começou a promover o trabalho de planejamento e de execução de determinadas obras, que deu um caráter urbano, moderno a cidade de Juazeiro.

MultiCiência: A estrutura física da cidade de Juazeiro, hoje, contrasta com a vizinha Petrolina. Como a senhora percebe o início essa modificação?

Odomaria: Eu terminei o segundo grau no ano de 69, e Juazeiro era uma grande cidade, ao contrário de Petrolina que era bastante limitada, em todos os aspectos. Fui estudar em Salvador e cinco anos depois, quando retornei para cá, percebi que estava se processando uma mudança significativa em Petrolina, visível aos olhos em termos da expansão da cidade e do seu visual. Depois, passamos a ver também que a vida em Petrolina ganhava mais fôlego: educação, cultura, lazer eram mais visíveis, uma grande animação passava a acontecer ali. Para mim, isso resulta do fato de que existiu ali e, isso no momento necessário, uma intervenção governamental decisiva, e a ação municipal em Petrolina se fez de forma mais organizada e racionalizada. Juazeiro é uma cidade muito mais antiga que Petrolina, a vida urbana aqui se fez de uma forma mais espontânea, a configuração do próprio centro urbano de Juazeiro dá evidências de que o processo foi mais natural. Então nós encontramos ruas bastante estreitas aqui no centro, diferentemente do que nós percebemos em Petrolina. E um grande diferencial de Petrolina, foi esse planejamento urbano, dentro de um projeto de cidade moderna, que no caso de Juazeiro não foi assim.


Por Kall Britto