O destino na palma da mão

. 14 novembro 2009

Como a maioria dos meninos do sertão nordestino, Josemar Martins poderia seguir a trajetória de seus pais, que, com pouco ou quase nenhum estudo, trabalhavam na roça o dia todo. Agricultores, eles tinham um sítio no povoado de São Bento, próximo a cidade de Curaçá. Foi lá que o menino Josemar cresceu e aprendeu a ler com seu pai que incentivou os cinco filhos a estudar.

A força de vontade do pai em educar os filhos levou a família a mudar-se do sitio para tentar a vida em outro lugar. Durante a saída, foi necessário levar as vacas, ovelhas, cabras e os poucos pertences para a beira do rio. Nesse processo, boa parte se perdeu. Passaram um ano morando às margens do rio em um terreno que era de sua avó, antes de ir para a cidade de Curaçá. Para Josemar, essas mudanças foram traumáticas. Além de ter deixado uma vida para trás, o lugar onde estavam era ainda pior que o de antes. Contudo, foi nessa época que a vida do menino começou a mudar.


Na cidade, ele teve contato com um mundo muito diferente do que ele conhecia. A vida nova trazia outros referenciais, causando preocupação de seu pai. Foram oportunidades que surgiram e eram aproveitadas. Josemar, que já se aventurava com os primeiros versos, alcançou o terceiro lugar no concurso de poesia da Primeira Semana Cultural de Curaçá. Sua primeira poesia lhe rendeu muitas outras. Em 1986, lançou o livro “Come-Tendo Poesias” com seu amigo Pinduka.

Depois de certo tempo morando em Curaçá, começou a se relacionar com os artistas de teatro na cidade. Para ele, o teatro é uma oportunidade de se repensar como pessoa, de rever seus valores, de se descobrir. O contato com a arte fez com que sua visão de mundo se transformasse, o que era refletido no seu estilo de vida. As roupas mudaram, o cabelo cresceu, e foi o primeiro homem a usar brinco em sua cidade. O rapaz, que vinha da roça, se reconstruiu fazendo teatro e, como conseqüência, conflitos começaram a surgir.

As relações sociais ficaram abaladas devido a sua atitude de colocar o brinco. Josemar não imaginava que pagaria um preço tão alto por isso. Foi considerado homossexual pelos moradores. Suas atitudes, hábitos e poesias provocavam comentários na pequena cidade, que chocaram seus pais.

As poesias que escrevia fugiam da tradição da época de frases rimadas e temas agradáveis. Suas composições traziam conteúdos de crítica social que se aproximava muito da poesia moderna. Para ele, esse foi o período de sua vida de maior aprendizado, foi sua maior escola. A partir daí, surgiu o desejo de ingressar em um curso superior, veio morar em Juazeiro para prestar vestibular de pedagogia na Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Juazeiro, hoje Universidade do Estado da Bahia (UNEB).

Assim que ingressou na academia, participou de movimentos culturais, estudantis, dos debates ocorridos na época, vivenciou a primeira eleição direta para diretor do Departamento de Ciencais Humanas (DCH III), quando foi eleita a professora Giovanna De Marco. Foi presidente do Diretório Acadêmico e fez teatro de rua na UNEB. Vivenciou tudo que a Universidade lhe proporcionava. Engajou-se nas lutas sociais, pois tinha esperanças de ver um mundo melhor. “Para mim foi fantástico, ter convivido com as pessoas que convivi, ter acampado, ter viajado, ter me embriagado, foi maravilhoso o tempo que tive como aluno dentro da Universidade. Acredito que perdi muito pouco do que ela pode me oferecer”, conta um sorridente Josemar, ao relembrar a época.

Durante o período universitário, ele precisou estudar à noite e trabalhar durante o dia como balconista de papelaria no comércio de Juazeiro. Para ele, o trabalho era um universo cruel. Preferiu sair do emprego e fazer serigrafia, vendendo, na Orla de Juazeiro, camisetas com poesias suas e de outros autores. Ao concluir o curso, prestou concurso em março de 1994 para professor efetivo da UNEB, e, naquele mesmo ano, ministraria aula para amigos da turma e portadores de diploma. Logo em seguida, fez especialização em Gestão de Temas Educacionais, pela Pontifícia Universidade Católica em Minas Gerais (PUC-MG).

Em 1998, ingressou no mestrado em Educação e Desenvolvimento Sustentável pela UNEB, ministrado por professores do Canadá. Na ocasião, Josemar voltou à sua cidade de origem para desenvolver a sua pesquisa em educação com depoimentos de várias pessoas e imagens do local. Para ele, foi um trabalho bastante gratificante. Seu diploma foi entregue em 2003, mas já, em 2002, fez a seleção para Doutorado na Faculdade de Educação, da UFBA, e foi aprovado. Em 2006, com a tese Tecendo a rede: Notícias Críticas do Trabalho de Descolonização Curricular no Semi-árido Brasileiro, Josemar tornou-se Doutor em Educação.

Hoje, Josemar Martins é professor da UNEB, mais conhecido como Pinzoh. O apelido adquirido na quinta série, quando errou o nome de um dos navegadores das embarcações de Colombo, Vicente Yáñez Pinzón, o acompanha durante toda a sua vida. Pinzoh casou-se, teve filhos e hoje, ao voltar ao seu lugar de origem, é chamado de doutor. Mas considera que, embora seja proveitoso percorrer todas estas etapas em um curto espaço de tempo, isso o privou de oportunidades.

“A minha vida é uma média das coisas que eu queria fazer e das que eu consegui fazer. Agora, estou numa fase de desacelerar. Quero correr menos, trabalhar menos e viver mais”, declara o professor e acrescenta serem apenas ideais, e não sabe quando serão cumpridas. Atualmente, trabalha com Educação, Comunicação e Cultura, desenvolvendo projetos nestas áreas. No momento, ele pretende realizar pesquisas para o seu pós-doutorado, a ser iniciado no próximo ano.

A vida de Josemar Martins tinha todas as condições para ser bem diferente do que é hoje. “Eu tinha todos os pré-requisitos de um fracassado. Sempre ouvi que nunca daria certo, mas tomei essas situações como um desafio para provar o contrário”, afirma Pinzoh, descrevendo a sua história.

Ao olhar sua trajetória, é possível perceber que não é necessário possuir as condições ideais para transformar o próprio destino. Basta ter coragem e força de vontade para vencer desafios e construir um final diferente com as próprias mãos, como descreve Pinzoh em sua primeira poesia A mão:

A mão não faz planos
Mas transforma o ser humano em um guerreiro
Pois é com a mão que o guerreiro batalha
E quando ela não falha ele vence tudo


Por Nilzete Brito (texto)
Foto Arquivo Pessoal J.Martins