Maria da Graça Costa Penna Burgos. Muitos a chamaram de Gracinha, como João Gilberto. E quando se tornou cantora profissional virou Gal Costa: o nome artístico de uma das maiores cantoras do Brasil com passaporte internacional. Aquela voz feminina e irreverente no estilo hippie que deu as caras na TV dos festivais do fim dos anos 1960, esbravejando que era preciso estarmos atentos e fortes. No trânsito das idéias de Caetano Veloso e Gilberto Gil, impressionou de cara o cenário em construção como musa principal do movimento tropicalista. Quando os dois compositores se exilaram em Londres, por força truculenta da censura dos militares, Gal ficou aqui, sendo a porta voz e mensageira dos companheiros. Essa semana Gal digitou 75 verões e primaveras na sua trajetória de vida.
Falar de Gal musical é desaguar no lugar comum por mais que existam adjetivos disponíveis no seu entorno. Gal veio ao mundo para que qualquer geração possa ouvi-la na alegria e nas adversidades. Seu timbre vocal sempre foi um deleite para o país que tem um ouvido musical que não é normal, como escreveu Caetano. Basta escavar nos aluviões de suas discografia que encontraremos pepitas de ouro nas voz dessa verdadeira baiana que encanta nossos ouvidos há mais de meio século.
Gal é daquelas baianas abençoadas pelos orixás a cada instante. Sua voz sempre foi musical (tanto que na juventude ela usava panelas na acústica do banheiro para testar os limites de seus timbres). Gal também é literária, pois emprestou sua voz para embalar personagens antológicos da literatura nacional fosse na TV ou no cinema .
Ouvi seu canto pela primeira vez, com espanto, em meados dos anos 1970 pela trilha da novela Gabriela, da obra de Jorge Amado. O escritor baiano foi quem deu os passaportes para ela interpretar o tema "Modinha para Gabriela" e à Sônia Braga para o papel principal.
Ao longo da carreira que explodiu nos anos de chumbo, Gal tem sido até aqui o horizonte iluminado dos maiores compositores do cancioneiro nacional. A lista é imensa, mas, historicamente os autores privilegiados com os efeitos balsâmicos de sua voz cristalina passam por Caetano Veloso e Gilberto Gil (eternos escudeiros) além de Milton Nascimento, Jorge Benjor, Roberto e Erasmo, Moraes Moreira, Luiz Melodia, Gonzaguinha, Jards Macalé, Torquato Neto e Djavan, além de nomes da geração anterior como Lupicínio Rodrigues, Luiz Gonzaga, Cartola, Ary Barroso, Dorival Caymmi e João Gilberto - seu ídolo maior. A lista ainda é maior e inclui mulheres como Rita Lee, Joyce e Marina Lima .
Em meio século de trajetória ininterrupta, a cantora manteve o padrão classe A. Dos anos 1980 para cá, atenta aos sinais, Gal lançou luz sobre os jovens compositores que surgiam no cenário criativo da MPB. A "Musa de qualquer estação", como definiu Roberto sempre soube moldar o popular com o clássico em grande estilo. Cantou o Brasil em todas as suas facetas - do romântico ao carnavalesco, do tropical ao político a ponto de esbravejar para que o país mostrasse sua cara em meio a corrupção continuada para ver quem pagava o preço.
Já madura, na década de 80 Gal despiu a geografia de seu corpo em um belo ensaio nu para a revista Status. Jogando com os nomes de seus discos/shows entendemos agora na grandeza da cantora em sua dimensão, porque Gal já foi 'Índia' e 'Fatal - A todo vapor' com seu 'Cantar' sempre 'Tropical' desde 1967, quando chegou com seu LP de estreia 'Domingo', dividido com Veloso. Ela cantou o país lírico na "Aquarela do Brasil" de Ary Barroso, nas canções do mar, lendas e sincretismo do povo baiano na ótica de 'Canta Caymmi'. Deu voz ao Rio de Janeiro e à natureza solar de Tom Jobim. Com suas 'Caras e Bocas', a eterna 'Baby Gal' lotou estádios fazendo a festa do interior nas cidades pequenas e metrópoles identificando os objetos não identificados das canções. Baiana da gema, mostrou seu vigor eclético como uma 'Água Viva' a escorrer para além da 'Fantasia' e do real.
No show 'Minha Voz', azulou mais ainda o país verde e amarelo. Gal foi 'Profana' e mostrou seu lado 'Bem Bom' de uma 'Gal Plural' que também passou pela 'Lua de Mel como o Diabo Gosta'. Irreverente nos palcos da vida, em 'O Sorriso do Gato de Alice', foi além e expôs ao público seus seios de fora na canção-rock de Cazuza, Brasil e sequer se feriu com as polêmicas.
Em 'Mina D'água do Meu Canto' polarizou as canções de Chico e Caetano. Depois refez sua 'Bossa Tropical'. 'De Tantos Amores', mais à frente, manteve sua chama em seu elogiado "Recanto". De repente Gal se refugia e volta a arrebatar 'Estratosférica', causando frisson entre seu grande público a ponto de impressionar jovens que pouco a conheciam. Gal se ilumina aos 75 e mapeia seus gametas musicais em 'A Pele do Futuro'. Sim, Gal resiste ao tempo e temporais. Há pouco mais de meio século, os fãs se rendem a uma Gal - típica baiana que tem todo os santos ao seu redor.
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