O suicídio tem estado presente nas dinâmicas humanas há bastante tempo. No curso das civilizações, a temática vem sendo narrada e interpretada de diversas maneiras, seja nas Sagradas Escrituras, nas tragédias gregas, como por filósofos, autoridades religiosas, médicos. Apesar dos diferentes olhares e preconceitos inscritos no debate sobre o suicídio, é importante ter em mente que se trata de um fenômeno multifatorial que não pode ser desencadeado por uma única causa, mas por uma diversidade de fatores: sociais, culturais, econômicos, emocionais, biológicos.
É o que afirma o psicanalista, suicidólogo e membro da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (ABEPS), Silvio Guimarães. Em entrevista a Agência MultiCiência, Guimarães conversa sobre a necessidade de ter políticas públicas de prevenção ao suicídio, os possíveis sinais de alerta, tabus, tipos de prevenção, formas de assistência para tentativa de suicídio na região do Vale do São Francisco e o papel da mídia nesse debate, seja a partir da cobertura de forma sensacionalista com exposição do ato e das pessoas, e as medidas de prevenção com esclarecimento sobre formas de autocuidado e o cuidado com à saúde mental. Para o suicidólogo, não se pode ignorar o debate sobre este tema e a participação da mídia é essencial: “hoje não se fala mais em projeto de prevenção e plano de prevenção sem incluir a mídia”.
AgênciaMultiCiência - Existem sinais de alerta manifestados pelas pessoas que tentam o suicídio?
Silvio
Guimarães - Há sinais verbais diretos e indiretos. O direto está relacionado a expressões como ‘eu vou morrer’, ‘eu saindo daqui vou me matar’. Se pegarmos o sinal verbal indireto parece mais aquela conversa de mãe, ‘quando eu for embora vocês vão sentir minha falta’, ‘só tem um jeito para isso aqui: a morte’. No comportamental indireto, há aquela pessoa que começa a se expor muito a riscos, então ela tem uma atividade sexual desprotegida, muita intensa ou ela começa a gastar muito dinheiro, ou tomar algumas providências como distribuir seus bens. Quando começa a tomar um súbito interesse por religião ou um súbito desinteresse. Um súbito interesse ou desinteresse pelo trabalho. O comportamental direto é uma tentativa de suicídio ou providenciar os meios. É importante pensar que são sinais muito difíceis de perceber. Quando você tem uma proximidade maior com a pessoa talvez você note, mas ainda é bem difícil.
AgênciaMultiCiência - Quais os preconceitos mais comuns relacionados ao suicídio?
Silvio
Guimarães - Vejo muito quando recebo em clínica que a questão religiosa é muito marcada, principalmente as doutrinas mais cristãs são muito condenatórias do suicídio. As religiões de matriz afro não são tão condenatórias quanto as doutrinas cristãs. Temos um preconceito de ser um transtorno mental, ‘ah é uma coisa de doido, é fraqueza ou é frescura’. Estamos no século XXI e ninguém fala de morte e você procurar uma morte para si mesmo, a morte autoprovocada, ela é muito mais tabu ainda. Tanto que o luto do suicídio é diferenciado. Falamos que é um luto não validado, você não pode sofrer por alguém que se matou, porque se ele morreu é porque ele quis morrer. Aquela pessoa que chega ao hospital com a tentativa de suicídio muitas vezes não é bem atendida, muitas vezes é desrespeitada, muitas vezes fazem intervenções bem mais dolorosas. Existem vários relatos de médicos e de enfermeiras que dizem ‘ah, mas quem quer se matar não faz assim não, faz é desse jeito’, ‘eu não vou perder meu tempo com você que quer se matar se tem um monte de gente querendo viver’. São relatos comuns, inclusive na nossa região. É muito difícil entender que não é uma questão do querer viver ou do querer morrer. É muito mais profundo do que isso. E tudo isso gera esse preconceito.
AgênciaMultiCiência - Como você explicou, a morte é um tabu para a nossa sociedade. Você concorda que conversar sobre a morte é um passo importante para falar de suicídio?
Silvio Guimarães. O primeiro passo é falarmos justamente de morte. Quando falamos de suicídio, ele é mais urgente, no sentido de que estamos perdendo pessoas a todo momento. O suicídio é uma morte que tem um grande impacto e que gera novas mortes. Mas a morte é o primeiro momento que temos de pensar. Tem um filósofo chamado Martin Heidegger que fala muito dessa questão do ser-para-a-morte. A morte é anulidade de qualquer possibilidade do ser. Então, não posso ser nada depois da morte. Tudo o que eu tenho de ser eu sou aqui. E aí é muito interessante pensar nisso. Todos caminhamos para a morte, mas ninguém sabe que vai morrer. Não pensamos, ‘nossa, eu vou morrer’, não pensamos na nossa própria morte, não pensamos quem vai está no nosso velório, como queremos morrer, sempre botamos a morte como um problema do outro. E não é. A morte é um problema nosso. É um problema individual. Cada um vai passar.
AgênciaMultiCiência - Segundo o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) a taxa de mortalidade entre homens é 3,6 vezes maior do que para mulheres e os métodos utilizados por eles também são mais violentos. Por que ser homem é um fator de risco?
Silvio Guimarães Os homens morrem de três a quatro vezes mais do que as mulheres por suicídio. Só que as mulheres tentam de três a quatro vezes mais o suicídio do que os homens. A diferença principal está na questão do método. O método que o homem usa é mais violento, geralmente ele vai mais para arma de fogo ou enforcamento, a mulher para intoxicação. Uma outra questão que é bem mais cultural, é que a mulher tem uma disponibilidade maior de procurar os serviços de saúde. O homem já não procura, ele acha que é besteira, acha que depressão é fraqueza, frescura, que aquilo vai passar. E uma outra diferença grande, é a própria questão dos vínculos, os laços que os homens e as mulheres têm. Os laços masculinos são mais frágeis que os femininos. Há uma preocupação maior de como vai ficar o corpo por parte da mulher, daqueles que vão ver do que o homem. O homem não tem tanta essa preocupação de como vai ficar o corpo. Muitas vezes aquelas mulheres que são mães têm aquela preocupação maior de não desfigurar o corpo, de ter dado uma forma que o corpo fique preservado para a família.
AgênciaMultiCiência -. Quais os dados sobre suicídio na região do Vale do São Francisco e mais especificamente em Juazeiro e Petrolina?
Silvio Guimarães - Para falarmos de dados, é preciso falar de um fenômeno chamado subnotificação. Na região nordeste, a subnotificação é muito grave. Somos a segunda pior região de notificação, perdemos apenas para a região norte. Aproximadamente, notificamos apenas 10% dos casos de suicídio. Sendo que é obrigatória a notificação e há a lei 13.819 de abril de 2019 que faz a notificação compulsória para as tentativas de suicídio. Mas mesmo assim, ainda é muito pouco. Existe um estudo na Inglaterra de que a religião do médico legista influencia se ele vai botar no atestado de óbito se foi suicídio ou não. E aqui é muito presente, muitas vezes as próprias famílias pedem em cidades muito pequenas para que não diga que foi suicídio, mas um acidente, então mascara-se muito o corpo para parecer um acidente. E os nossos casos aqui, são muito subnotificados. Estima-se que Petrolina tem uma média de um suicídio por mês e em Juazeiro uma média de um suicídio a cada dois meses. Sabemos que não é isso. São dados muito infiéis com a realidade. Os números são dez vezes maiores.
AgênciaMultiCiência -.Qual a importância de dialogar sobre o suicídio?
Silvio Guimarães - O suicídio é um problema de saúde desde a década de 90 pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Como todo problema de saúde pública, podemos ter uma intervenção nele, ele pode ser prevenido. Uma das propostas é justamente dialogando sobre o suicídio aumentar essa prevenção e quando não dá para aumentar a prevenção, temos três frentes: a prevenção, a intervenção e a posvenção. Dialogando sobre o suicídio podemos desenvolver melhores técnicas de intervenção que não sejam tão brutas, tão abruptas, tão violentas, como podemos ter um melhor manejo da posvenção. O que é a posvenção? A posvenção é cuidar dos sobreviventes. Sobrevivente não é quem tentou o suicídio e não morreu, sobrevivente é quem perdeu alguém por suicídio. Se eu cuido dessa pessoa eu estou prevenindo também. Hoje não se fala mais em projeto de prevenção e plano de prevenção sem incluir a mídia, isso eu acho muito interessante, quando vem essa questão do jornalismo. O jornalismo tem essa força muito grande na prevenção. Porque pode alertar os sinais de risco, pode colocar os serviços que estão disponíveis. Tem várias situações que a mídia entra e além disso para quebrar o próprio tabu, de você falando sobre o assunto aquela pessoa que está em sofrimento, pode chegar e falar ‘olha, estou pensando em me matar, você me ajuda?’. Do que aquela coisa calada que não dá espaço para a pessoa chegar.
AgênciaMultiCiência - Qual a sua visão sobre a forma como a mídia noticia os casos de suicídio em Juazeiro e Petrolina? Como os jornalistas podem encontrar formas de informar ou abrir diálogos de maneira ética e aprofundada?
Silvio Guimarães - Primeiro de tudo temos que entender dois efeitos: um se chama efeito Werther e o outro efeito Papageno. O efeito Werther é o efeito contágio do suicídio. Quando eu trato o suicídio expondo o ato, expondo o método, de maneira sensacionalista, fixando em um caso de suicídio. Na região é muito comum isso. No WhatsApp, vira e mexe todo mundo recebe uma foto carregada de sangue dizendo o nome, o telefone, a idade, onde morava, quem são os familiares e ainda dando um motivo banal para aquele suicídio e já vimos que não tem um motivo banal. O suicídio é uma série de coisas que chega à morte. E esquecemos de duas coisas: primeiro, que quem vai receber aquela mensagem pode estar em vulnerabilidade e se identificar com aquele caso, principalmente adolescentes. E segundo que aquela família tem WhatsApp e muitas vezes um pai não viu o filho enforcado, um filho não viu seu pai com uma bala na cabeça e isso gera impacto. Contra isso, temos o efeito Papageno. É quando eu tenho a mídia trabalhando a favor de uma prevenção. Quando eu trato o suicídio de maneira correta, responsável, mostrando formas de prevenção, serviços disponíveis de saúde, não focando em um suicídio, mas no fenômeno, estou ajudando muita mais na prevenção. Como tinha dito antes, não se faz mais prevenção sem a mídia. Hoje começamos a ter alguns movimentos assim na mídia. Temos alguns jornalistas, principalmente de rádios, com quem trabalhamos juntos, que já noticia de maneira adequada. Já tivemos alguns eventos voltados para a mídia para saber como noticiar. Não é preciso dizer que pessoa tal na cidade tal se matou, mas que está acontecendo suicídio na nossa cidade e precisamos fazer alguma coisa. Inclusive contextualizando o que é suicídio, que não é um problema da família. É um problema da cidade, do país, é um problema de todo mundo. Hoje, de 6 a 150 pessoas são impactadas pelo suicídio. De impactos direto, desde financeiros, emocionais a indiretos. É bem macro a questão do suicídio, não é uma coisa fechada.
AgênciaMultiCiência - Quais são as formas de prevenção do suicídio?
Silvio Guimarães - Muitas vezes pensamos que para prevenir o suicídio temos que falar necessariamente de suicídio, mas quando, por exemplo, se trabalha o bullying nas escolas, você previne o suicídio. Se você faz m trabalho de redução de violência doméstica, você está reduzindo, prevenindo o suicídio. E você pode procurar medidas mais objetivas para o suicídio, se for trabalhar educação emocional que é diferente de inteligência emocional. Educação emocional, aquela pessoa vai perceber que tem emoções, ela vai falar daquelas emoções, vai perceber que é normal ter raiva, ter tristeza, que é normal não estar bem todo dia, que é normal falar sobre aquilo. Se você trabalha com famílias e você cria esse espaço de diálogo, também é prevenção do suicídio. Se você trata do assunto de maneira adequada, mostrando outras opções, os serviços de ajuda disponíveis, isso também é prevenção. Vai bem mais além do que podemos imaginar os tipos de prevenção.
AgênciaMultiCiência - Qual a importância do Setembro Amarelo?
Silvio Guimarães - O Setembro Amarelo, ele é ótimo, mas recebe algumas ressalvas. Essa campanha chegou no Brasil em 2012/2013 pela Associação Brasileira de Psiquiatria, o Exército, o Centro de Valorização da Vida (CVV) e outras instituições, sendo iniciada em 2015. Hoje, temos várias ações de Setembro Amarelo importantíssimas. O problema é que pensamos que a pessoa só sofre em setembro. E não é. Temos casos de suicídio durante todo o ano. Inclusive é importante pensar porque todo mundo quer fazer campanha de Setembro Amarelo. ‘Ah, vamos fazer uma palestra’. Palestra é importante? Sim, é psicoeducação, é aprendizado, mas não é uma palestra que vai resolver o problema. É um ótimo começo, mas não pode se fechar nisso. O problema é que as instituições querem se fechar em uma única palestra. Outro problema que surge é que muita gente que vai falar não é qualificada na área. Não é qualquer psicólogo que está apto a falar de suicídio. Existem formações, capacitações em suicidologia. Suicidologia é uma área à parte, todo o funcionamento dela é bem dinâmico e diferente de outras áreas de estudo. Por isso é importante saber quem vai falar, o que vai fazer no Setembro Amarelo.
AgênciaMultiCiência - Quais as políticas públicas voltadas a saúde mental na região de Juazeiro e Petrolina?
Silvio Guimarães - À saúde mental, temos algumas específicas para prevenção de suicídio não temos nenhuma. Temos as políticas públicas desenvolvidas pelos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF), pelos Centros de Referência a Assistência Social (CRAS), a própria UNIVASF tem vários projetos que promovem a questão da saúde mental, inclusive projetos de extensão e de pesquisa. Temos o próprio Centro de Estudos e Práticas em Psicologia (CEPPSI), que é a clínica escola da UNIVASF que dá esse apoio. Só que especificamente voltadas para a prevenção de suicídio não tem, inclusive trabalhar com essa demanda ainda é muito fechado.
AgênciaMultiCiência - Sobre as formas de assistência para tentativa de suicídio no Vale do São Francisco, elas são parecidas ou variam de cidade para cidade?
Silvio Guimarães - Varia muito. Primeiro, temos a própria questão da saúde, há lugares com uma saúde melhor, mais bem equipada e lugares que não são. Todos os casos de tentativa de suicídio são muito remetidos para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA), que fica sobrecarregada, ou quando é muito grave ou mal encaminhado vai para o hospital de traumas que é o hospital universitário e fica bem difícil. Já na prevenção, no controle, temos os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), mas há um problema: tentativa de suicídio não combina com burocracia, não dá pra você passar num postinho para pegar um encaminhamento para um psiquiatra daqui a três meses e então o psiquiatra lhe colocar em um grupo que vai demorar para você ter terapia individual, num grupo em que não há identificação e existem várias demandas. É muito falho o nosso sistema de saúde de maneira geral para tentativa de suicídio. Outra situação que temos aqui, que é em nível de Brasil, mas felizmente temos na região é o Centro de Valorização da Vida (CVV). Nossas redes de assistência são basicamente essas. Há a rede particular, mas que agora que começa a se aprimorar para ter essa intervenção mais direcionada para tentativa de suicídio, intervenção e posvenção.
AgênciaMultiCiência - Como o CVV funciona?
Silvio Guimarães - O CVV é uma ONG que atua há mais de 50 anos no país e que trabalha com voluntários e dá um serviço de assistência emocional. É um serviço totalmente gratuito, totalmente sigiloso, não é preciso se identificar. Ele atende hoje pelo número 188 e tem também os serviços pelo site. O CVV ele é pra tudo. Inclusive de receber ligações de pessoas que não tem com quem comemorar alguma coisa e liga para dizer que está feliz, que está com ansiedade, está triste, dizer o que está passando. Não necessariamente para tentativa de suicídio.
AgênciaMultiCiência - Em entrevista no Programa da RTV Caatinga, você diz que o suicídio é um momento.
Silvio Guimarães -.Entender que o suicídio é um momento é entender que a crise de suicídio vai passar. Pegando a crise suicida em seu ápice, ela leva até duas horas. Ninguém vai tentar se matar toda hora, até o corpo não aguenta, é fisiologicamente cansativo. Nós não conseguimos passar duas horas com raiva, o corpo cansa. O suicídio é um momento, ele vai passar, com todo o acompanhamento após isso, a pessoa pode recuperar completamente sua autonomia. É entender isso que, naquele momento, ela precisa de uma intervenção, de uma ajuda, de um tratamento, mas que não vai ser sempre assim. Que ela pode recobrar sua autonomia. É importante pensar também que uma tentativa de suicídio prévia facilita o fator predisponente a uma nova tentativa de suicídio. É um dos fatores de risco mais importantes. Mas não é porque eu fiz que vou sempre fazer. Você tentou uma vez suicídio e pode nunca mais tentar, mas ainda tem aquela chance de tentar novamente.
AgênciaMultiCiência - Segundo a OMS, nove em cada dez casos de suicídio podem ser evitados. Como você enxerga isso?
Silvio Guimarães - Esse dado é muito controverso, porque diz que em nove a cada dez suicídios podem ser evitados. A OMS divulga isso porque um estudo de autópsias psicológicas mostrou que cerca de 90% possuíam um transtorno mental diagnosticado ou não. Hoje, a Associação Brasileira de Psiquiatria fala que em quase 100% dos casos de suicídio tinha um transtorno mental associado. Porém, novos estudos vêm surgindo, da Universidade de Brasilia (UnB), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que tem demonstrado que esses dados não são bem assim. Já está em 27% a 36% que teriam transtornos mentais associados. Muita gente pegou esse dado e falou que 90% dos casos de suicídio podem ser evitados por estar atento aos sinais. Vimos que não é tão simples estar atento aos sinais, eles não são tão claros. Uma outra coisa que temos de pensar sobre esse dado é o tanto de diagnósticos que são produzidos. Muitas vezes não falamos da maneira correta sobre um diagnóstico, nós ensinamos um diagnóstico. Tem muito adolescente hoje – e eu atendo adolescentes – que chega e diz: ‘eu sou depressivo’. Como assim, você é depressivo? O que é ser depressivo? Não existe ser depressivo, você pode estar com depressão e às vezes nem isso, eles se dão o próprio diagnóstico, leem muito na internet e começam a incorporar os sintomas, a introjetar e emitir aqueles sintomas. Temos um boom de diagnósticos sem o correto acompanhamento psiquiátrico.
AgênciaMultiCiência - Como a realização de atividades prazerosas pode ajudar na prevenção ao suicídio?
Silvio Guimarães - Existe uma situação na tentativa de suicídio que seria uma falta de prazer em atividades prazerosas, aquilo não te dá mais prazer. É muito difícil dizer, ‘ah, você gostava tanto, vai, tenta’, é difícil porque aquilo não está dando mais prazer. É preciso fazer algo gradativo com aquela pessoa. Eu gosto muito desse exemplo: aquela pessoa adorava arrumar seu guarda-roupa, ela já não consegue mais arrumar seu guarda-roupa. Mas será que consegue arrumar uma gaveta? Então, aquilo ali será gradativo para ela. E aumentar o seu repertório de atividades. Uma das coisas que é muito eficiente para prevenção do suicídio e que recomendamos: prática de atividade física. Porque precisamos pensar também que estamos trabalhando com um corpo. Temos de pensar na bioquímica daquele corpo, nos níveis de dopamina e serotonina, que muitas vezes os antidepressivos vão regularizar, mas não vão ser o suficiente.
AgênciaMultiCiência - Vivemos em um tempo de aceleração constante, onde sempre estamos ansiando pela próxima coisa a ser feita. Qual a importância de aproveitar o momento?
Silvio Guimarães - Se formos pegar uma questão mais cognitiva, a pessoa depressiva tem muito aquela questão da ruminação, de ficar trazendo fatos antigos, coisas que não fizeram bem. Na questão de ansiosos, é uma questão futura, de projeção catastrófica, de sempre achar que vai dar errado. Nunca ficamos focados no momento. No psicodiagnóstico fenomenológico, atentamos para a questão de temporalidade. Focar no momento. E isso é muito importante quando fazemos o acompanhamento clínico em uma pessoa por tentativa de suicídio. Porque temos de trabalhar com ela naquele momento. Quando você recebe uma pessoa muito ansiosa ou que está numa crise de pânico você não pode dizer pra ela “ah, tudo vai ficar bem”. Não é possível garantir isso. Do mesmo jeito, uma pessoa com tentativa de suicídio. Você não pode dizer, ‘vai tomar um banho e quando você acordar vai ficar tudo bem’. Mas você pode dizer: ‘olha, estou aqui com você, eu sei que não está fácil, está difícil, mas estou aqui junto. Eu não sei o que posso fazer por você, mas vou estar junto com você’. E ser sincero. Podemos ser sinceros, não deixar aquela pessoa só e focar naquele momento.
AgênciaMultiCiência - A saúde mental é um fator preponderante na prevenção ao suicídio. De quais formas podemos promover saúde mental?
Silvio Guimarães - Podemos ter uma saúde mental de diversas formas, reduzindo os níveis de estresse. Temos um nível de estresse muito alto. Hoje, um estudante de ensino médio tem um nível de estresse equiparado ao do trabalhador da Revolução Industrial. É muito alto. E pensamos que é frescura, besteira e que a situação vai melhorar quando ele sair do ensino médio e não vai. Quando ele sair do ensino médio, vão haver muito mais responsabilidades. Não sabemos lidar com o gerenciamento de estresse, trabalhar com momentos de descanso, com estratégias de aproveitamento desses momentos de descanso. Pensamos que momento de descanso é pra dormir e só dormir. O sono é muito importante e durante a semana não regulamos o sono para regular no final de semana. Não funciona assim. Outra coisa muito importante a se pensar: temos um consumo muito precoce de substâncias lícitas e ilícitas e isso vai ter um impacto na saúde mental. Há uma regulação mental hoje, muito medicamentosa e isso está aumentando o número de pessoas se autolesionando. Não podemos ficar triste que precisamos tomar logo um medicamento, um antidepressivo. Isso não é saúde mental, estamos fazendo uma intervenção que causará o seu impacto mais à frente. A saúde mental é bem mais ampla, ela vai desde a casa que é um ambiente livre de violência, a escola, políticas públicas. Quando temos parques, áreas verdes, espaços de convivência, tudo isso influencia a saúde mental.
Por: Jônatas Pereira, Madeleine Mourão e Ruana Mirele, estudantes de Jornalismo em Multimeios da UNEB.
Entrevista realizada no dia 28 de
agosto de 2019 para a disciplina de Produção de Textos II no curso de Jornalismo em Multimeios da UNEB, com revisão e atualização no dia 24 de Setembro de 2020.

