EMANUEL ANDRADE: A LEITURA DE MUNDO QUE COMEÇA NO “QUINTAL”

MultiCiência 30 dezembro 2025

Foto: Arquivo Pessoal

Natural de Salgueiro, no Sertão de Pernambuco, a cerca de 270 quilômetros de Juazeiro-BA, Emanuel de Andrade Freire construiu sua trajetória no jornalismo a partir de uma relação com a comunicação, a escrita e a escuta atenta do mundo ao redor. Ainda jovem, em sua cidade natal, encontrou nos livros e nas artes os primeiros estímulos para o exercício da palavra.

Antes  de ingressar na universidade, Emanuel colaborava, de forma voluntária, na Emissora Asa Branca, primeira rádio local de Salgueiro, produzindo programas especiais dedicados à música e à literatura brasileira. Ele assumiu todas as etapas do processo: pesquisa, roteiro e produção de texto. A comunicação, desde então, deixou de ser     apenas interesse para se tornar uma prática.

O passo seguinte foi o ingresso no curso de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), no Recife, onde aprofundou a formação e ampliou os horizontes profissionais. Durante a graduação, viveu experiências fundamentais para a formação jornalística, atuando como estagiário no Cedoc e na produção da Rede Globo Nordeste, e como repórter do Diário Oficial do Estado

A partir da sua formação, sua trajetória se expandiu por diferentes frentes do jornalismo profissional: assessorias de imprensa em organizações públicas e privadas, editoria de revistas e coordenação de projetos de comunicação política e cultural, com reportagens produzidas em diversos municípios do Sertão pernambucano e em áreas da Bahia.

Nesse período, as  coberturas investigativas e policiais lhe deram contato direto com as contradições sociais e os desafios éticos da profissão. Entre as experiências mais simbólicas no exercício de sua profissão, Emanuel destaca a passagem pelo Jornal do Commercio, em Recife (1997-2008), onde integrou equipes responsáveis pela produção de cadernos especiais. Um deles abordou o centenário do fim da Guerra de Canudos que o levou a esse município, no interior baiano, no ano de 1997, para acompanhar de perto como a comunidade ainda percebe os rastros do conflito e a figura de Antônio Conselheiro.

 Foto: Emerson Rocha / g1 Petrolina
A relação com a escrita, no entanto, nunca se limitou à urgência da pauta. Emanuel também é escritor e encontra na literatura um espaço de elaboração sensível da memória, do território e da experiência humana. Publicou livros de poesia, participou de coletâneas e assina a biografia “A Dama do Barro”(2006), dedicada à trajetória de Ana das Carrancas. Esse último livro surgiu do interesse de Emanuel em registrar e preservar a memória de Ana das Carrancas, reconhecendo a importância cultural, simbólica e histórica de sua trajetória para o Vale do São Francisco.

Emanuel ainda integrou o projeto coletivo literário  “Uma Geral do Brasil - Histórias de um menino ribeirinho” (2015), em homenagem à vida e trajetória do cantor e compositor Geraldo Azevedo, com foco em sua origem ribeirinha e sua ligação com o Vale do São Francisco. Durante a pandemia da Covid-19, lançou o livro de poemas “Nada será como antes” (2021), em formato virtual - Ebook, no qual a escrita surge como forma de resistência e cuidado em tempos de incerteza.

A Comunicação Como Formação

Foto: Arquivo Pessoal

Emanuel consolidou uma trajetória acadêmica marcada pela reflexão crítica sobre a comunicação, construída a partir do diálogo entre teoria, prática profissional e território. Desde 2005, é professor do curso de Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Campus III, em Juazeiro, onde ministra disciplinas como Introdução ao Jornalismo e Redação Jornalística I e II.

Para além da sala de aula, Emanuel integra projetos de extensão e pesquisa que articulam educação, comunicação e realidade social. Entre eles, destaca-se o Polifonia, grupo de pesquisa dedicado a investigar as interfaces da comunicação com os contextos culturais, sociais e educativos do Sertão do São Francisco, reafirmando o compromisso com uma produção de conhecimento situada e socialmente referenciada.

Em 2014, esteve à frente da Multiciência, atuando como coordenador da Agência de Notícias. Ainda que breve, essa experiência foi marcada por uma contribuição à formação de novos jornalistas, fortalecendo a produção de conteúdos autorais e o compromisso ético com a comunicação pública. Sua trajetória nesta agência, no entanto, é mais ampla e contínua, marcada pela colaboração frequente com textos autorais voltados à música e à cultura da região, além do trabalho de edição e acompanhamento das produções dos alunos, especialmente no âmbito da disciplina Redação Jornalística II.

Para Emanuel, apesar das profundas transformações tecnológicas e das novas linguagens que atravessam o jornalismo contemporâneo, a essência da profissão permanece inegociável: a busca pela verdade, a verificação rigorosa dos fatos, a ética e o compromisso com o interesse público. Em um cenário marcado pela desinformação e pelas disputas narrativas, ele defende que a credibilidade deve seguir como algo primordial do jornalista.

Ao se dirigir às novas gerações, evita oferecer fórmulas prontas, preferindo estimular a leitura de mundo que começa no “quintal”, assim como o respeito às fontes, a escuta atenta e a clareza quanto ao objetivo real de cada pauta. Entre incertezas e reinvenções, Emanuel Freire aposta na formação sólida, humanística e ética como caminho possível para sustentar o jornalismo, de ontem, hoje e amanhã.


Por Eugênia Cruz, estudante de Jornalismo em Multimeios e colaboradora do MultiCiência.