José Afonso, um relojoeiro que há décadas conserta as horas das pessoas

MultiCiência 12 fevereiro 2026
Foto: Arquivo Pessoal

Entre ponteiros, engrenagens e histórias marcadas pelo tempo, o relojoeiro José Afonso Alves do Santos construiu uma trajetória que resiste às transformações da modernidade. Desde a infância, perto do pai, já despertava sua curiosidade para o ofício, com a dedicação daqueles profissionais que ainda carregam a habilidade e precisão em consertar, fazer manutenção de relógios mecânicos alinhando diagnóstico, limpeza, lubrificação, substituição de peças e restauração. Aos 14 anos, como já conhecia os meandros da profissão, decidiu dar sua largada para se tornar um profissional do segmento em Juazeiro, Sertão da Bahia. Além de referência familiar, o pai foi também seu mestre e maior inspiração para o negócio.

O aprendizado não veio apenas da técnica, mas da observação atenta e da convivência diária com o ofício. Ao longo de décadas, Afonso desenvolveu a paciência, a precisão do olhar, o manejo das mãos para o cuidado com as peças tão miúdas que movimentam as horas dentro da caixa do objeto e que ele chama de calibre. Com o passar dos anos, os ensinamentos herdados se transformaram em experiência, sensibilidade, trabalho e sobrevivência.

Ele já é um profissional conhecido e requisitado por clientes fiéis que frequentam seu ponto comercial- Relojoaria Seiko -  localizado em umas das avenidas  estreitas do centro de Juazeiro. Além de fazer consertos, ele comercializa baterias(pilhas) para relógios, controle de som e televisão, pulseiras, entre outros produtos. Para José Afonso, cada relógio que chega à sua bancada carrega mais do que um defeito a ser consertado, traduz também o valor afetivo de seus clientes. “São objetos que guardam memórias, afetos e momentos importantes da vida de seus donos. É preciso muito cuidado no ato do conserto para se dar um retorno que o cliente precisa”, diz “seu” José Afonso. De fato, nada disso passa despercebido ao seu olhar e técnica. Cada relógio, obvserva ele, pode ser um presente antigo, uma herança de família, um marco de uma história pessoal.

Por outro lado, em um cenário onde a tecnologia avança rapidamente e a cultura do descarte se torna cada vez mais comum, a profissão de relojoeiro enfrenta o risco de desaparecer. Hoje, consertar deixou de ser prioridade para muitos. Quando algo para de funcionar, a substituição parece ser o caminho mais fácil, pois os preços de um relógio novo muitas vezes são acessíveis e facilitados entre promoções e parcelamentos.
Diante dese cenário comercial, José Afonso segue firme em seu ofício. Não desiste e nem se entrega. Ele acredita no valor do reparo, no respeito ao tempo e na importância de preservar uma profissão que exige delicadeza, concentração e amor pelo que se faz. Seu trabalho vai além de ajustar mecanismos dentro do aparelho que norteiam o dia a dia dos usuários através dos ponteiros e se faz como um gesto de resistência.

MEMÓRIAS E HISTÓRIA
Ao manter viva a arte da relojoaria, José Afonso não apenas devolve o funcionamento dos relógios, mas também preserva histórias e mantém o tempo em movimento, provando que alguns ofícios, assim como certas memórias, não devem jamais ser descartadas.

No horizonte da memória, a história da relojoaria no Brasil tem raízes no final do século XIX, com seus profissionais surgindo por volta de 1871, na região sul do país. A popularização do relógio de pulso no mundo teve influência direta do brasileiro  Santos Dumont, na virada do século XX. As marcas de luxo como Rolex chegaram na década de 1960. Ao longo de décadas, inúmeras marcas e modelos passaram pelas mãos de José Afonso que ainda exerce com orgulho a profissão que lhe dar o mesmo prazer do início, batendo ponto e alinhando ponteiros no centro da cidade.

Por  Tayná Bonfim, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III.