No interior do Nordeste brasileiro, fazer arte vai além do talento, é enfrentar, muitas vezes, o preconceito, a invisibilidade e a instabilidade. Fora dos grandes centros urbanos, resistir torna-se parte da própria expressão artística, algo vivido de perto pelo ator Hilton Cobra, que começou sua trajetória artística no interior baiano.
Natural de Feira de Santana-BA, o ator iniciou sua trajetória artística ainda jovem. Durante a infância, brincava de atuar, usando as saias da mãe, enquanto os pais saíam de casa. Mas, foi apenas anos depois que a arte ganhou força em sua vida, a partir do contato com o teatro amador na década de 1970, em Salvador. Ao circular entre estudantes universitários e grupos teatrais, o encantamento pelo palco ganhou forma e permanência. Sua estreia nos palcos aconteceu em 1978, no grupo Carranca, e desde então Hilton Cobra nunca mais se afastou das artes cênicas.
Cobra se tornou um dos principais nomes do Teatro Negro baiano e alcançou marcos históricos, como ser o único artista negro a apresentar e lotar um monólogo no Teatro Municipal de São Paulo, com a obra Traga-me a Cabeça de Lima Barreto.![]() |
| Fotos Crédito: Teatro Francisco Nunes / F. Pâmela Bernardo |
Fundador da Cia dos Comuns no Rio de Janeiro, grupo que, desde 2001, fomenta a pesquisa cênica e amplia o espaço de profissionais negros nas artes, e ex-presidente da Fundação Cultural Palmares, o artista alia atuação e articulação política. Com trabalhos recentes na televisão, como a novela Nobreza do Amor, Cobra transita entre diferentes linguagens, mas não esconde sua ligação profunda com os palcos. Para ele, o teatro, especialmente o Teatro Negro, permanece como sua maior paixão e principal forma de expressão artística.
Mesmo consagrado nos grandes centros, Cobra enfatiza que a escassez de recursos ainda sufoca quem produz longe das capitais e defende que a descentralização da arte depende urgentemente de uma mudança política estrutural no país. A PEC 421/2014, conhecida como PEC da Cultura, propõe a criação de um piso orçamentário obrigatório para investimentos em cultura nas três esferas de governo: 2% do orçamento da União, 1,5% do Estado e 1% do município para a Cultura e Arte. “Essa PEC sendo aprovada vai facilitar, e muito, as produções brasileiras como um todo, principalmente a do interior. É preciso que os trabalhadores de cultura do Brasil inteiro se empenhem para cobrar do poder público a aprovação desta lei no Congresso. Tendo o dinheiro para desenvolver nossos projetos, eu não quero nem saber se tem preconceito ou não em torno da nossa cultura interiorana”, defende Cobra.
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| Foto: Duo Rec |
Filho do movimento Hip Hop, vertente com a qual se conectou profundamente em 2023, ao presenciar amigos organizando encontros em praças públicas com caixas de som, esse artista enfrenta também barreiras do preconceito local direcionado às manifestações periféricas. Thress desabafa que as linguagens urbanas e marginais ainda colhem desconfiança da comunidade regional, que frequentemente reage com olhares tortos por desconhecer a profundidade do movimento, ignorando o esforço coletivo daqueles que trabalham para fortalecer a cultura. Para romper o isolamento de um ciclo no qual os próprios realizadores frequentemente acabam sendo o único público possível uns dos outros, a saída tem sido a autogestão e a disputa por editais públicos. Foi por meio dessa articulação que o movimento conquistou espaço no Carnaval de Juazeiro, apresentando-se no Polo Cultural Matingueiros, graças à mobilização dos produtores locais Geomar Gomes e Murilo Aguiar.
Para manter a autonomia de sua produção cênica e musical, o jovem, que no ano passado tomou a decisão de deixar um emprego de carteira assinada de quase sete anos para focar na carreira, divide o tempo com ocupações informais como garçom e operador de som aos finais de semana e feriados. Essa engenharia financeira busca garantir a flexibilidade necessária para priorizar ensaios, reuniões e alinhamentos estéticos. Thress concentra assim esforços na consolidação de uma base de público sólida no Semiárido antes de projetar pontes geográficas mais longas, embora já tenha expandido suas referências em viagens de pesquisa por Salvador e São Paulo.
Para ele, no entanto, a verdadeira potência da experiência artística se manifesta longe do alcance das telas e dos algoritmos. "A rede social não traduz tudo do artista. Eu acho que a gente tem que ir ver o artista ao vivo. Eu ainda sou desse, sabe? Eu gosto de assistir meus amigos artistas e gosto que venham me assistir. Todo mundo sente algo a mais no ao vivo, outra energia, outra coisa. O presencial é muito forte", defende o MC.

