Barulho

MultiCiência 30 março 2020

Mergulhada na completa escuridão do quarto, corpo estirado sobre a cama à espera do sono, Luzia repete a si mesma todos os acontecimentos do dia: coisas feitas, frases mal formuladas, o destino do lixo do banheiro, aproveitando ainda a oportunidade para realizar o prognóstico do dia seguinte. Esse era o único momento que tinha de parar e pensar, a rotina exigia a apreensão das coisas no tempo de um pensamento. Sua meditação é interrompida por um estranho barulho de folhas secas ou sacola plástica de supermercado, o som provinha do quarto onde se encontrava, praticamente vedado a vácuo.
- O que será isso? - pergunta a si enquanto busca alcançar algum registro ou movimentação no breu que a circunda.
Pela descontinuidade do ruído, Luzia volta à sua agenda: relembra das expressões de todos na sala quando defendeu sua ausência na próxima reunião. Nunca faltou e sempre cumpriu com todas as suas obrigações, uma faltazinha não mataria ninguém - riu.  Novamente o fluxo da recapitulação é interrompido, dessa vez o som parecia mais alto. 
 - Será que algum bicho entrou no quarto? A espinha gela, há pouco tempo foi necessário um dedetizador e uma série de parafernálias para limpar sua casa dos ratos. Passados dois meses foram os morcegos, muito pior. 
- Eles teriam voltado? - Não se mexeu, morria de pavor desses animais asquerosos, só de pensar o corpo já estremecia. 
O morcego é horripilante, sua cabeça parece ter sido amassada para dentro do corpo, “quase não tem pescoço”, pensou ela. Nas vezes em que deram o ar da graça (foram mais de um) apareceram do nada, dando um rasante pelo quarto, sem direção, destrambelhados e quando, finalmente, estavam em solo, depois de um pouso estranhíssimo, caminhavam como quem escala uma parede com suas mãozinhas nas pontas das asas. Isso sem falar no som extremamente agudo que emitiam, semelhante a um garfo arranhando um prato vazio. 
Enquanto interpretava o ruído sentiu algo subir em sua perna. A coberta havia se movimentado por alguns centímetros. “Ai, Jesus!” – disse ela, assustada. Subitamente recolheu o pé. Por que ela não levanta e acende a luz? O medo parecia dominá-la.
As estórias que circulam através de nossos pais e avós fazem sentido, se o seu pé estiver coberto pode ficar despreocupado, nenhum mal irá te afetar. Essa era sua religião agora.
Luzia passou a ouvir diversos sons, todos vindos do quarto, cada vez mais altos como zumbidos, pegadas e respiração. Ela não aguentava mais, os barulhos iam se aproximando e rodeando a cama. 
- A casa está infestada de animais de todos os tipos! 
Jurou ouvir até som de serpente. Se ela não fizesse nada, eles a matariam pela noite! Morcegos e ratos além de feios e nojentos traziam muitas doenças.
Nem todo morcego bebe sangue, a maioria come pequenos insetos e frutas, ela sabia bem, aluna nota dez em biologia. Porém abriu uma possibilidade: 
- Esse morcego só pode ser carnívoro, não temos árvores muito menos frutas dentro desse quarto!  
Tateando achou na cabeceira de cama o celular, com pouca bateria, é verdade, mas que poderia iluminar todo o recinto. Disparou a luz contra o cômodo como se emanasse um poder divino. “AAAAAAAAA!”, pensou consigo. Era melhor não ter feito.
Na cadeira da escrivaninha, sentado, com as duas mãos nos joelhos e com um grande chapéu estava alguém a observá-la. “Jesus, Maria, José!” - disse enquanto cobria, por fim, o rosto. Deixou o celular cair. 
Toda empacotada pela coberta, Luzia tremia e pedia misericórdia, buscava na memória alguma música da Alinne Barros. Cantarolava “Jesus...”, com a voz trêmula e toda desafinada. Lembrou-se de outra música: “como Zaqueu, quero subir, o mais alto que eu puder!”, cantou alto, já eram mais de 23h, alguém poderia reclamar.
Era um matador impiedoso que estava no seu quarto esperando o dia todo escondido para que pudesse matá-la a sangue frio. Ela tinha plena convicção disso. Mas poderia ser um fantasma também. Um fantasma de um pirata (chapéu parecia do capitão gancho) que morreu em alguma parte da costa brasileira tentando interceptar o ouro espoliado nas Minas Gerais, vagava pelo interior do território, perdido, até parar em sua residência. Poderia ser também um bandeirante morto, eles usavam chapéu e caminhavam para o interior do país, onde Luzia morava. Não se sentiu confortável, já tinha lido e ouvido falar de como eles agiam, não eram nada amistosos, as tribos indígenas sabem bem! De qualquer forma Luzia morreria, fantasmas, assim como nos filmes de Hollywood, matavam à beça.
Será que o fantasma desistiria de matá-la? Buscaria a luz celestial e a deixaria em paz? Boas perguntas, mas nenhuma resposta.
Já havia perdido as esperanças de sair viva dali, se arrependia de ter pedido a folga no dia da reunião: “Eu podia ter escolhido outro dia, Deus está me castigando com uma morte horrível!”. Sua vida passou diante de seus olhos, se lembrou da mãe, do pai, dos irmãos e do filho que havia saído para trabalhar. 
Quando já estendia os braços em forma de cruz, se entregando para o único mal irremediável, dizendo ”se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi!”, um clarão! Uma luz forte emanou em sua frente. 

Abriu a boca, chorando:

-Pai! A Ti entrego minha alma!

Pensou estar morta, chegava naquele momento às portas do paraíso. Teria sido uma morte rápida, nem sentiu nada, mas estava ali, de boca entreaberta, chorando. Ouviu uma gargalhada. “Deus, rindo?” – pensou. No máximo poderia sorrir afinal gargalhar seria estranho e desrespeitoso com seus sentimentos de recém-defunta.

Abriu, por fim, os olhos. Não conseguiu enxergar direito de início, depois viu seu filho parado na sua frente, seu quarto, sua cama, sua escrivaninha, sua cadeira.

-Pai? - gargalhou o filho. Vou até bater na madeira, seria muito azar ter um filho agora.

Ao olhar o quarto, viu que os sons de folhas secas eram de sacolas que se desdobraram. “Não foram feitas para dobrar” - pensou Luzia. Quanto à beirada da cama havia uma mala que ela preguiçosamente não retirou de lá, “ninguém sentou na cama”, falou baixo, completando o quebra-cabeça. Na cadeira, o assassino que a observava era nada mais nada menos que um amontoado de roupa para passar, “não é serviço meu”, justificou ela.

Antes que o filho deixasse o quarto, sem entender o que se passava com sua mãe, Luzia falou com ar de sabedoria:

- Na escuridão vejo melhor!

Texto por: Otávio Tonelloto (otavio.tonelloto@gmail.com), graduado em Artes Visuais pela Universidade Federal do Vale do São Francisco, atualmente é Professor de Artes Visuais pela Prefeitura Municipal de Guaratinguetá.

Ilustração: Maria Clara de Oliveira (@_am_arte), graduanda de Jornalismo em Multimeios na UNiversidade do Estado da Bahia (UNEB), Campus III.