A censura sempre rondou a cultura no país com mais ênfase nos anos sombrios do regime militar - de 1964 a 1985. Música, teatro, cinema, literatura e televisão foram os alvos constantes da tesoura dos militares. Ao longo das últimas três décadas, várias produções de livros entre ficção, ensaio e reportagem trouxeram diversas abordagens sobre o papel dos bastidores do Serviço Nacional de Informação (SNI), com foco na censura às produções culturais de maneira parcial ou total, nos grandes centros do país.
Um dos trabalhos recentes dentro da coleção Arquivos da Repressão no Brasil ganhou o nome de "Herói Mutilado - Roque Santeiro e os bastidores da censura À TV na ditadura"(Companhia das Letras), que traz um conjunto de documentos recuperados dos escombros da ditadura, através de vasta pesquisa que só ajudam a enriquecer o esboço sobre o tema, além de contribuir para o reforço do panorama da televisão brasileira, nascida nos anos 1950.
Quando estreou em 1985, ano da saída dos militares do poder, a novela Roque Santeiro conquistou a maior audiência da história da televisão brasileira e se tornou símbolo da volta da democracia. Por vinte anos, a obra de Dias Gomes que também transportou sua narrativa para o teatro na segunda metade dos anos 60 e tinha como pano de fundo o mito de um falso herói, teve de engolir variadas formas de repressão.
Em 27 de agosto de 1975, veio o carimbo de "proibido" quando a novela iria estrear na TV Globo e foi impedida de ir ao ar. Os 36 capítulos já gravados e editados foram engavetados nos armários da censura que se alastrava de forma inédita na história do país. "Nunca uma telenovela havia sido proibida dessa forma abrupta, com o telespectador sentado no sofá à espera de seu programa favorito", conforme a autora observa na introdução da obra.
À época, o então apresentador do Jornal Nacional, Cid Moreira, após a abertura da novela, reapareceu na tela e durante dois minutos teve de ler um editorial que pela primeira vez, escancarava as divergências entre a maior emissora de televisão do país e a ditadura militar. Assinado pelo dono da casa, Roberto Marinho, o editorial foi escrito na véspera, quando o empresário recebeu a informação da censura.
Curiosamente, já se completava dez anos em que foi frustrada a primeira tentativa de levar ao público a história de um povoado que gira em torno do mito Roque Santeiro. Em julho de 1965, o dramaturgo, já visado por suas posições, foi surpreendido com a informação de que a peça O Berço do Herói, na qual a novela se inspirava, estava proibida de ser encenada na data marcada para lançamento. Na versão de 1985, o Brasil inteiro já respirando os ares da abertura política, assistiu ao clássico da teledramaturgia tendo José Wilker no papel de Roque Santeiro; Regina Duarte como viúva Porcina, e Lima Duarte como o icônico Sinhozinho Malta. Livro Herói Mutilado
Ao reconstituir os embates de Roque Santeiro com a censura, o livro mostra como a repressão cultural se tornou instrumento de manutenção do poder ditatorial em sintonia com outras formas de violência. Sem sombra de dúvidas, é uma obra extremamente atual, que chama a atenção para o fato de que a censura conta com o suporte de parte da sociedade e sempre terá, na ditadura ou na democracia, defensores confessos e aqueles que levantam a bandeira da liberdade de expressão, desde que concordem com o que é dito.
Ao revelar os bastidores da censura à TV na ditadura, a autora, a jornalista Laura Mattos, registra como o aparato legal usado pelos militares foi o mesmo aplicado durante os anos democráticos entre o final da Era Vargas e o golpe de 1964, prova de que esse mal não é exclusividade de regimes de exceção. A pesquisa se apoia em cerca de 2 mil páginas de documentos oficiais produzidos durante a ditadura, além do acervo pessoal de Dias Gomes, que inclui cartas e um diário até hoje inédito.
O fato é que os militares não gostaram nada do enredo e mandaram um recado ao dramaturgo sempre visto como "subversivo", além disso, um dos célebres integrantes do Partido Comunista (PCB): "Pode tirar o cavalinho da chuva". Para a censura, a obra induz ao desprestígio das Forças Armadas". Lá na peça, dos anos 1960, o protagonista é um cabo da Força Expedicionária Brasileira dado como morto na Segunda Guerra Mundial e transformado em santo na sua terra natal, que passa a lucrar com turistas em busca dos milagres do militar.
Ao longo de mais de 300 páginas, o leitor faz uma viagem de inúmeras surpresas pela história do Brasil, da criação ficcional de Dias Gomes e os caminhos ardilosos traçados pela censura sobre a cultura. O livro foi dividido em três atos que conduzem os capítulos começando pelos episódios ocorridos em 1965, a partir do impedimento da peça teatral e suas consequencias. O segundo, transporta o leitor para 1975, com o mote "hoje não tem novela- Roque Santeiro 1" e o terceiro aborda os fatos em 1985 - " A novela que foi sem nunca ter sido - Roque Santeiro 2, quando a novela, finalmente, ganhou a atenção do público de todas as classes sociais de norte a sul, do público em meio aos caminhos entre paus e pedras da chamada Nova República.
Herói Mutilado, de Laura Mattos, é um livro "multiessencial" para a história da televisão brasileira e da política - seja do passado ou presente recente em que se abriram os arquivos da memória e verdade no país. Uma obra que soma para a memória de uma nação que ainda busca a total liberdade de expressão em tempos de fakes news em que no ringue das redes sociais há quem defenda a volta da censura. É preciso dizer que precisamos do renascimento de ideias, outrora, assinaladas por Dias Gomes. Claro, com outros olhares e fôlego de coerência.
Emanuel Andrade - é jornalista e professor do curso de Jornalismo em Multimeios da UNEBN/DCH III.


