Como
estar vivo em um momento em que viver é horrível? Como dar sentido ao mundo
quando ele parece não oferecer sentido algum? Como resistir quando em nós não
há mais vontade para tal gesto?
A
norte-americana Ottessa Moshfegh criou uma personagem que enfrenta esses
dilemas no livro Meu Ano de Descanso e Relaxamento, publicado pela editora Todavia, no
ano passado (2019).
A
protagonista, uma jovem loira de 26 anos, não tem nome. Poderia ser qualquer pessoa.
Trabalha em uma galeria de arte em Nova York, com uma poupança rechonchuda
herdada dos pais mortos. Depressiva, cansada de pensamentos e sentimentos
incessantes aos quais não consegue dar forma, nutrindo ódio do mundo e das
pessoas que vivem nele. Tudo o que ela mais deseja é dormir por um ano, não
sentir nada, ver seus dias passando em branco. Então, decide abandonar o emprego
e viver trancada dentro de casa, com pequenas saídas em seu quarteirão para
comprar comida e ir ao consultório de sua psiquiatra “esquisita e
irresponsável” que a enche de remédios pesados para esse projeto de hibernação.
Não lê
mais notícias ou livros, os filmes que assiste são “estúpidos”, só assim sua
mente pode trabalhar menos. Não liga mais para roupas ou sua própria aparência,
se arrasta “pela rua, com remela nos olhos e pasta de dente no canto da boca,
em horas estranhas do dia”. A personagem mostra que
tudo o que juntamos durante a vida pode perder o sentido, na verdade, nunca
precisamos de fato daquilo, quando nos deparamos com situações que exigem de
nós respostas para difíceis perguntas. No seu caso, encontra-se esgotada de
tudo o que a sua vida representa, quer desaparecer e reaparecer sob alguma
outra forma. Acredita que a solução para isso é a alienação.
Acabei de ler este livro e parece uma alegoria dos tempos atuais
– ainda mais agora com a pandemia de coronavírus. A escritora Ottessa descreveu
uma protagonista típica dos anos 2000, prenunciando uma geração da paranoia,
viciada em remédios.
Quando penso o contexto atual que estamos vivendo - no qual formam-se filas por aqueles que ainda
não foram infectados pelo coronavírus, em farmácias e lojas, numa busca
desesperada por máscaras, remédios e álcool em gel – pergunto-me se a personagem
não despertaria do processo de alienação a que se acostumou, dopada de
comprimidos, anestesiando-se, à espera de acordar um belo dia e perceber que tudo
terminou? Ou a personagem passaria a ter uma postura ativa e repensaria a forma como lida com as coisas ao seu redor, como também fez no livro, ao repensar seu entorno, relações sociais e afetivas?
Como observou o psicanalista Christian Dunker, podermos fazer
uso dessa crise para repensarmos o apego excessivo às nossas convicções, para
criação de um novo pacto de solidariedade com o outro. A doença surge
justamente para alertar que ela atinge a todos, igualmente.
