Da Universidade da Madeira, Portugal, o professor Carlos Nogueira Fino nos presenteia com a leitura do "Poema do concreto", publicado no livro Inquietação da Água, em 1998. Doutor em Educação e um dos principais teóricos do campo das práticas de inovação pedagógica, Fino possui uma extensa produção literária, com vários livros de poesia publicados, crônicas e ensaios.
Poesia, como dizem os poetas, não se explica. Mas, nos faz revolver como os seixos, as ondas do mar, é só se permitir adentrar e beber de suas águas. Deixemos-nos, portanto.
poema do concreto
descias ao concreto ao início
da água
ao ponto onde a corrente parte pelos pulsos
aí onde a terra começa o essencial do
poema a rima pobre a redondilha
o trevo
as azedas
o vulto das acácias no verde antes do ouro
a luz dos maxilares a compreensão a
fome
aí o poema a casa a palavra
a emoção o seixo
a lenta articulação do som nas circunstâncias
a emulsão da cal as vísceras
o tacto
um fio de ariane em direcção ao raciocínio
na polpa dos dedos
um caminho
aí de onde as pétalas de onde o trigo
de onde as criaturas da azáfama talham a sombra
e o incenso
e o muro se acomoda ao alicerce
e os nervos são as cordas estendidas do alaúde
no meu tempo os poetas
batiam nas paredes com os nós dos dedos
até jorrar o sangue
pisavam as palavras e ficavam possuídos dos seus sucos
admiráveis
desciam ao concreto ao deixarem os músculos por momentos
sobre a terra
e abriam os olhos transformados
viam
como as veias corriam sob o solo e as paredes
inventavam recantos no absurdo do peito
e o ventre era o local da semente
e a pura dor crescia como o trevo e as transparências
e os ninhos
antes de os ramos serem braços já a água corria
bombeada a cada respiração
sob as estrelas
nessa altura o concreto era isso
carlos nogueira fino
Para conhecer mais a obra literária de Carlos Nogueira Fino, visite o site da Universidade de Madeira, perfil pessoal aqui.
