O bacanal do coronga ou onde estão os deuses?

MultiCiência 03 abril 2020
Baco Exu do Blues fez de novo. Lançou um álbum que promete ser sucesso, naquele rap lírico e erótico, talvez agora suavizado em sua pegada trap, mas ainda marcado pelas letras de ostentação vaidosa do preto rico. O trabalho ainda flerta com o funk, e se mostra desta vez ainda mais antenado com as questões de nosso tempo.

Mas aí quase que não poderia ser diferente. Da ilustração da capa com o ursinho de máscara tendo ao lado o álcool em gel, aos títulos e letras, dos samples de panelaços e falas viralizadas da rapper Cardi B às circunstâncias de lançamento, tudo lembra o assunto unânime dos noticiários, podcasts, memes, redes sociais e temores cotidianos: a pandemia do coronavírus.
No álbum novo, Não tem bacanal na quarentena, lançado neste final de março, teria Baco deixado sua teologia profana, fortemente afirmada no primeiro álbum Esú (2017), e que ali aparecia impregnada de um mergulho no Atlântico Negro?

Em 2017, Diogo Moncorvo lembrava que somos argila do divino mangue – um topos comum às cosmogonias cristã e iorubá, enquanto, na capa do álbum, as letras do nome de Jesus são borradas para centralizar a grafia iorubá de Exu (Esú). Ou poderíamos pensar como os poetas concretistas: o nome de Jesus contém o nome de Exu? Jesus também não foi mensageiro entre Deus e os homens? Mas Baco justificava seus acentos mitológicos e sua sede trágica de imortalidade, num diálogo sem interlocutor: “Você fala tanto de Deus – é que eu sou humano”.

No segundo álbum, o premiado Bluesman (2018), o rapper foi a uma encruzilhada histórica, procurando pagar o tributo ao gênero musical que traz no nome, com o formidável sample de Muddy Waters. Mas a dessacralização de Jesus não vem em chave mitológica, e sim política, cultural e mesmo mercadológica: “Tudo que, quando era preto era do demônio, e depois virou branco e foi aceito, eu vou chamar de blues. Jesus é blues”. Tornar-se imortal era aceitar que “minha pele é prata”, especialmente ante a problemática do suicídio e dos problemas de saúde mental da população negra. A afirmação da humanidade da negritude negava a mitologia (“Eu não fui feito do bairro”), coroando essa negação com o espancamento simbólico do Jesus branco, de cabelo alisado e de lente nos olhos, ajustado às expectativas do cristianismo ocidental.

Não tem bacanal na quarentena ecoa a problematização social da pandemia, cuja repercussão e políticas de prevenção (ou não) atingem diferentemente os recortes de classe e raça, especialmente na sociedade brasileira, com suas desiguais condições sanitárias, de abastecimento, de trabalho/emprego, de livre circulação, de consumo e acesso à saúde. As falas de pessoas comuns sobre suas vidas nas periferias, suas aflições e impotências ante à iminência da doença tomam o lugar das letras do rapper. Samples sem melodia e sem rima expõem a face virulenta de nossa opressão.

Se a temática do Candomblé era recorrente nas letras do rapper que se chama de Exu, essa temática agora se ausentou. E não custa lembrar que essa mesma religião manda silenciarmos até mesmo as orações quando o rei da terra está entre nós, isto é, diante da presença de Obaluaê, o orixá da saúde e da doença. A faixa não à toa intitulada “Humanos não matam deuses” traz uma única e última reverência, alegórica: “Ela fez carinho nas cicatrizes [...] disse que sou um preto divino” – uma coincidência ou ressonância involuntária com o itan segundo o qual só uma mulher pôde ver e dar a ver o Velho: Iansã.




Para ouvir a voz de Deus, com d maiúsculo, seria necessário vir ao Nordeste escutar o povo. Parece que os deuses silenciaram nas canções, porque também nós, especialmente nas grandes cidades do Brasil, silenciamos aflitos dentro dos apartamentos, apenas gritando das janelas durante os panelaços contra o presidente, espremidos entre concretos, sombras inquietas noites e dias a fio em dezenas de andares. Baco diz que está preso em casa cheio de tesão, pois até nossas pulsões e afetos, eróticos e políticos, estão represados, quando o mais simples toque é um grande risco.

Sequer sabemos, a essa altura, o significado da cena pública e o quanto poderemos nela interferir, nesse contexto e depois que ele passar. O Big Brother Brasil, entretenimento de massa da Rede Globo, cuja audiência e amplitude dos debates de raça e gênero virou a metonímia mais formidável de que todos estão em casa, tornou-se uma das únicas possibilidades de reação, naquilo que Baco chama de “Tropa do Babu”, em alusão a um participante negro do reality show.

Às vésperas do apocalipse, o vírus como híbrido de natureza-cultura se expande, sofre mutações, delicia-se horrivelmente no trópico, depois de grassar as planícies chinesas, o deserto iraniano e o inverno italiano. Sim, Baco, tá rolando outro bacanal de corpos e não queremos ser convidados: é aquele da reprodução macabra da covid-19, uma forma de vida tão primitiva quanto perturbadora para as mais tecnológicas das civilizações.

Link do Álbum na plataforma Youtube
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Texto por Elson Rabelo, historiador, professor do curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e pesquisador colaborador do Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Email: elson_rabelo@hotmail.com

Fotos: Divulgação na página pessoal do artista no Facebook Baco Exu do Blues e Instagram