Jorge Portugal foi o letrista de um Brasil mestiço ao retratar o caos social, as alegrias e dores de um povo

MultiCiência 18 agosto 2020
O baiano Jorge Portugal entrou, infelizmente, na "lista/ elenco" de artistas, pensadores e tradutores  de um Brasil mestiço que partiram para o andar de cima neste 2020. Era um múltiplo educador. Um professor com todas as letras maiúsculas por amor, ética e prazer e pela arte da palavra como horizontes para se educar. Tinha zelo pela Língua Portuguesa. Jorge era um Brasil com Portugal no sobrenome.

Não é em todo lugar do mundo que se encontra um professor compositor, letrista, poeta e apresentador numa pessoa só. Foi secretário  da Cultura da Bahia até 2017. Na TV, foi o idealizador e apresentador do programa “Aprovado” que preparou jovens para o Enem e demais  vestibulares. Jorge veio de uma geração que atravessou todas as transições do século 19 para virada do século 20. Nasceu na terra de Caetano Veloso e Maria Bethania, Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo baiano, mas bordou seus próprios caminhos com régua e compasso de seus ideais no campo da arte.

Formou-se em Letras pela UFBA para ficar mais perto de sua paixão: literatura e gramática. A poesia já corria quente e suave por suas veias. Não esteve nos  pioneiros festivais dos anos 1960, mas carimbou seu talento ao lado do cantor e parceiro de tantas cações Raimundo Sodré no Festival MPB, da Rede Globo, em 1980,  com a bela "A Massa", um seus hinos de caráter político e social construída ainda na correnteza do regime militar. A Masa ganhou o 3º lugar ao lado de Agonia, defendida por Oswaldo Montenegro (1º lugar) e Foi Deus quem fez, com Amelinha(2º lugar).

A Massa é ainda o hino do povo brasileiro que vive no horizonte da delinquencia social para além dos guetos. "A dor da gente é dor de menino acanhado/Menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar/Que salta aos olhos igual a um gemido calado/A sombra do mal-assombrado é a dor de nem poder chorar". A letra da canção se encaixou de maneira brilhante para cuspir no cenário de repressão e incertezas que se vivia naquele ano, pois expunha as feridas de um povo oprimido sob o açoite da Ditadura Militar.

Contudo, a canção abordara a dor do nordestino e vazou em direção ao povo oprimido de todo país. Nos versos "a dor da gente é dor de menino acanhado", subtende-se que o povo sente dor, mas não pode expressar abertamente, é como um menino acanhado, tímido, amedrontado. Jorge Portugal já havia,em entrevista, observado que o trecho "menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar",  traduzia o sentimento do povo  oprimido, pisado pelo estado, vivendo a penar e sofrer diante as mazelas sociais. E completava, mais adiante, em "mansos meninos domados, massa de medos iguais", a condição de um povo passivo, amansado, amedrontados e coagidos.

Nos versos finais pontuava "da massa que planta a mandioca, a mãe" e "a massa que eu falo é a que passa fome, MÃE". Em outras palavras,  a massa é o povo laborioso, que planta, produz. Mas não tem acesso à riqueza e passa fome. Portugal sempre teve em suas canções, um olhar atento e meio que sociológico para com essas questões.

"A Massa é fruto de nossos encontros para escrever e compor.  É uma música bem de resistência, que escrevemos durante a ditadura. Eu fui o porta-voz de várias letras que são atemporais”, declarou Sodré em entrevista ao Correio da Bahia. “Essa música pintou na minha vida com o refrão. Em 1977, eu estava cochilando em um pé de cajueiro e me veio o refrão com a melodia. Gravei em uma fita e levei pra ele. Quando foi de tarde, ele me deu a letra. A música me tirou da miséria e me jogou no mundo. A música A Massa atravessou fronteiras e ficou pra eternidade. Falou tudo o que a gente sente até hoje”.

No disco "Ciclo" de 1983, Maria Bethânia incluiu o samba de roda Filosofia Pura (Roberto Mendes/Jorge Portugal),  em cuja letra, Portugal usa as relações de amor entre duas pessoas sem perder os caminhos do politicamente correto na correnteza dos do caos social de uma nação. Bethânia convidou Gal Costa para dar reforço na interpretação da letra breve e forte:

"Quanto mais a gente ensina, mais aprende o que ensinou/ E o desejo da menina quando o seu corpo fulmina acende o fogo do amor/E a sensação divina de dominar quem domina é que cura qualquer dor/ Pois trocar vida com vida é somar na dividida/ Multiplicando o amor/Pra que o sonho dessa gente não seja mais afluente/ Do medo em que desaguou."

São tantas canções e parcerias "gigantes" de Jorge que caberiam numa análise de discurso e semiótica num só livro. Quem leu o "1968 - O ano que não terminou", de Zuenir Ventura, vai mergulhar com desenvoltura na magnífica letra de Maio 68, também gravada por Raimundo Sobre no disco "Beijo Moreno" de 1983 e que traduz as aventuras de uma geração.

A última vez em que vi esperança foi/Na mesma esquina
em que me perdi/ Havia uma lacrimogênica ilusão/
Palavras de ordem Sob a calça Lee/ O estado de graça de tantas contradições/ Nas barbas de Marx ou Khrisnamurti/ No livro sagrado de todas as pichações/A voz de John Lennon na canção de Vladimir(...) Havia vestígios de hippies e Cohn Bendis/ Os punhos cerrados violando o ar/ Tropicaetanos, excelsos, travassos, gizs/Em cada cabeça um mundo a mudarSe somos a soma de tantas subtrações/ Outras gerações vão nos multiplicar/O saldo é a semente plantada nos corações-ações de outras cabeças que possam sonhar.

Maio 68 é o retrato amplo de todo o engajamento social, político e cultural de uma geração a enfrentar a revolução que ganhou impulso na França e atravessou fronteiras. Portugal mapeou na canção os fatos, consequencias e ideias que engajaram os jovens que estavam dentro e fora das universidades lutando por um mundo mais justo e fechou a letra idealizando que aquelas sementes dessem frutos a partir das próximas gerações. Além de poeta, Jorge escreveu livros de ensaios com outras temáticas.

Coluna Do Texto ao Texto (Letras e sons) por Emanuel Andrade, jornalista, professor do curso de Jornalismo em Multimeios e Doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Trabalhou como Repórter no Jornal do Comércio e foi pioneiro no jornalismo cultural na região, ao assinar a coluna de Literatura e Música  para o Gazzeta do São Francisco na década de 1990 e para rádios do Vale do São Francisco.