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A Resistência do Tripé Artístico: Como a produção no interior movimenta a cena cultural

No interior do Nordeste brasileiro, fazer arte vai além do talento, é enfrentar, muitas vezes, o preconceito, a invisibilidade e a instabilidade. Fora dos grandes centros urbanos, resistir torna-se parte da própria expressão artística, algo vivido de perto pelo ator Hilton Cobra, que começou sua trajetória artística no interior baiano.

Natural de Feira de Santana-BA, o ator iniciou sua trajetória artística ainda jovem. Durante a infância, brincava de atuar, usando as saias da mãe, enquanto os pais saíam de casa. Mas, foi apenas anos depois que a arte ganhou força em sua vida, a partir do contato com o teatro amador na década de 1970, em Salvador. Ao circular entre estudantes universitários e grupos teatrais, o encantamento pelo palco ganhou forma e permanência. Sua estreia nos palcos aconteceu em 1978, no grupo Carranca, e desde então Hilton Cobra nunca mais se afastou das artes cênicas. 

Cobra se tornou um dos principais nomes do Teatro Negro baiano e alcançou marcos históricos, como ser o único artista negro a apresentar e lotar um monólogo no Teatro Municipal de São Paulo, com a obra Traga-me a Cabeça de Lima Barreto.

Fotos Crédito: Teatro Francisco Nunes / F. Pâmela Bernardo

Fundador da Cia dos Comuns no Rio de Janeiro, grupo que, desde 2001, fomenta a pesquisa cênica e amplia o espaço de profissionais negros nas artes, e ex-presidente da Fundação Cultural Palmares, o artista alia atuação e articulação política. Com trabalhos recentes na televisão, como a novela Nobreza do Amor, Cobra transita entre diferentes linguagens, mas não esconde sua ligação profunda com os palcos. Para ele, o teatro, especialmente o Teatro Negro, permanece como sua maior paixão e principal forma de expressão artística.

Mesmo consagrado nos grandes centros, Cobra enfatiza que a escassez de recursos ainda sufoca quem produz longe das capitais e defende que a descentralização da arte depende urgentemente de uma mudança política estrutural no país. A PEC 421/2014, conhecida como PEC da Cultura, propõe a criação de um piso orçamentário obrigatório para investimentos em cultura nas três esferas de governo: 2% do orçamento da União, 1,5% do Estado e 1% do município para a Cultura e Arte. “Essa PEC sendo aprovada vai facilitar, e muito, as produções brasileiras como um todo, principalmente a do interior. É preciso que os trabalhadores de cultura do Brasil inteiro se empenhem para cobrar do poder público a aprovação desta lei no Congresso. Tendo o dinheiro para desenvolver nossos projetos, eu não quero nem saber se tem preconceito ou não em torno da nossa cultura interiorana”, defende Cobra.

Essa mesma urgência por recursos e visibilidade atinge os realizadores no Vale do São Francisco. É nesse cenário de resistência que o MC e ator Eric Renan de Moraes Santos, conhecido pelo nome artístico de Thress, de 25 anos, constrói sua trajetória no meio artístico. Natural de Juazeiro, na Bahia, o jovem vivencia na pele os desafios da caminhada independente no Semiárido, dinâmica que descreve como um ciclo constante e muitas vezes solitário. “O artista independente vive muito o processo da criação, mas esbarra na falta de produção e de atenção, principalmente no começo da carreira. A realidade é que muitos realizadores criam projetos fantásticos, mas acabam guardando tudo na gaveta por muito tempo, sem condições reais de colocar esse trabalho para frente”, relata Thress.

Foto: Duo Rec

Filho do movimento
Hip Hop, vertente com a qual se conectou profundamente em 2023, ao presenciar amigos organizando encontros em praças públicas com caixas de som, esse artista enfrenta também barreiras do preconceito local direcionado às manifestações periféricas. Thress desabafa que as linguagens urbanas e marginais ainda colhem desconfiança da comunidade regional, que frequentemente reage com olhares tortos por desconhecer a profundidade do movimento, ignorando o esforço coletivo daqueles que trabalham para fortalecer a cultura. Para romper o isolamento de um ciclo no qual os próprios realizadores frequentemente acabam sendo o único público possível uns dos outros, a saída tem sido a autogestão e a disputa por editais públicos. Foi por meio dessa articulação que o movimento conquistou espaço no Carnaval de Juazeiro, apresentando-se no Polo Cultural Matingueiros, graças à mobilização dos produtores locais Geomar Gomes e Murilo Aguiar.

Para manter a autonomia de sua produção cênica e musical, o jovem, que no ano passado tomou a decisão de deixar um emprego de carteira assinada de quase sete anos para focar na carreira, divide o tempo com ocupações informais como garçom e operador de som aos finais de semana e feriados. Essa engenharia financeira busca garantir a flexibilidade necessária para priorizar ensaios, reuniões e alinhamentos estéticos. Thress concentra assim esforços na consolidação de uma base de público sólida no Semiárido antes de projetar pontes geográficas mais longas, embora já tenha expandido suas referências em viagens de pesquisa por Salvador e São Paulo. 

Para ele, no entanto, a verdadeira potência da experiência artística se manifesta longe do alcance das telas e dos algoritmos. "A rede social não traduz tudo do artista. Eu acho que a gente tem que ir ver o artista ao vivo. Eu ainda sou desse, sabe? Eu gosto de assistir meus amigos artistas e gosto que venham me assistir. Todo mundo sente algo a mais no ao vivo, outra energia, outra coisa. O presencial é muito forte", defende o MC.

A resistência que une Hilton Cobra ao jovem Thress não se apoia apenas nos pontos positivos da carreira, mas na defesa de uma identidade que o eixo Rio-São Paulo teima em estereotipar. Diante da falta de estrutura, a sobrevivência artística no interior responde a um tripé implacável: a urgência de ser visto, o direito de ser valorizado e a teimosia de conseguir permanecer. Como resume Cobra, “O que mantém as cortinas abertas contra a correnteza é o pacto indissociável entre o talento e a vocação.

Por Maria Helena Almeida, estudante de Jornalismo em Multimeios e colaboradora do MultiCiência.

Filme “Inóspito” transforma o Semiárido em distopia cinematográfica


Foto: André Amorim


Em um futuro distópico na cidade fictícia Nova Califórnia, Cris, uma jovem recém-formada, retorna à comunidade onde vivem sua mãe Cleide e sua avó Tereza, após a família receber uma ordem de desapropriação de suas terras. Essa é a sinopse do média-metragem ‘Inóspito’, exibido no Teatro Dona Amélia, no Sesc Petrolina. Dirigido por Iale Lima, a trama aborda temáticas como o crescimento desenfreado do agronegócio e poluição ambiental no Semiárido. 


O filme foi viabilizado pelo fomento do Governo de Pernambuco, articulado através do Edital de Ações Criativas para o Audiovisual, no âmbito da Lei Paulo Gustavo PE 2023. Para trazer mais detalhes sobre a produção do projeto, Camila Rodrigues, produtora executiva, e Iale Lima, diretora, conversaram com a equipe do Multiciência sobre a criação do universo fictício de “Nova Califórnia” e sobre a relevância de se produzir audiovisual na região.

Foto: André Amorim
MultiCiência: Como foi o início da produção de  “Inóspito”?

Iale Lima (Diretora): A ideia inicial surgiu de várias questões que a gente queria falar sobre temáticas sociais dentro do núcleo audiovisual do SESC. A gente já vinha fazendo documentários sobre esses temas e queríamos fazer uma obra de ficção com essa mesma base. Passamos um ano estudando o filme e pesquisando sobre o "Pó Preto", que é algo que acontece diariamente na região. Também pesquisamos acidentes locais e referências de artistas da região que trataram desses temas, que muitas vezes sofrem censura. Mesmo assim, decidimos desenvolver o projeto até o final.


Camila  Rodrigues (Produtora): Quando abriram as inscrições para a Lei Paulo Gustavo, vimos o potencial no roteiro que tinha sido criado junto e fizemos a  inscrição. Para escrever o roteiro, a gente começou em 2021 e terminou em 2022, mas para gravar foram dez diárias de produção, com mais dez de pré-produção. Com essa aprovação pela Lei Paulo Gustavo de Pernambuco, a gente conseguiu contratar e pagar toda a equipe. Só esse filme envolveu quase 60 pessoas, gerando postos de trabalho diretos, e agora a gente também tá conseguindo realizar exibições com mobilização de público e divulgação.

Foto: André Amorim
MultiCiência: Como foi a criação de uma distopia que reflete a realidade da região?

Iale Lima (Diretora): Inicialmente, pensei em uma ideia mais afrofuturista, mas os desafios financeiros de uma produção audiovisual nos levaram a desenhar essa Petrolina de "Nova Califórnia" de outra forma. Focamos em detalhes como cores quentes e elementos que sofremos aqui, como o calor, a poluição do pó preto e a falta de saneamento em alguns bairros.


Camila Rodrigues (Produtora): A temática em si, sobre a cultura do capitalismo, onde o poder e o dinheiro são sempre mais importantes do que as pessoas e do que a terra, que é muito forte e muito presente em Petrolina. A gente ficava se deparando, por exemplo, com as queimadas, o pó preto que ficava nas nossas calçadas. Então, não queríamos ser tão panfletário de forma direta, mas é aí onde a arte permite a gente criar essas possibilidades. Embora seja uma Nova Califórnia, que se assemelha à nossa cidade real, ela não existe; os personagens não são reais, não é um documentário, mas a temática ainda é muito atual, por isso que a gente se identifica. A identificação acontece nesse sentido, mas foi também um cuidado nosso pensar esse lugar fictício devido à importância da temática.


MultiCiência: Existiram desafios durante a produção de Inóspito? 

Iale Lima (Diretora): Existiram vários, um que me marcou foi a cena após a morte da personagem Teresa. No roteiro, ela iria para um tipo de altar em uma cena externa, mas não encontrei nada tão poético quanto eu desejava fora da casa. Acabei adaptando a cena para ser dentro do quarto dela, de forma mais sentimental. Passei uma hora no set pensando em como realizar essa cena, o que é muito tempo. Também tivemos desafios de som, pois gravamos em um bar e o barulho de pessoas passando ou telefones tocando atrapalhava o que estava sendo captado, mas o resultado deu certo.


Camila  Rodrigues (Produtora): Acho que a primeira e maior dificuldade é conseguir alinhar o cronograma com toda a equipe. Porque do dia que a gente teve o resultado da aprovação até o dia da filmagem, levou-se anos, então, desde quando a gente conversou até o momento de realizar, as pessoas já tinham outros projetos, outros trabalhos, outras demandas, então tivemos que fazer substituições e trocas. Além disso, apesar de existir um recurso que viabilizou tudo, ele ainda não reflete totalmente a realidade e isso é uma questão que a gente discute até hoje: as políticas públicas são fundamentais, precisam existir, mas também precisam acompanhar o mercado como ele está hoje.

Foto: André Amorim



MultiCiência: Quando o filme será exibido novamente? 

Iale Lima (Diretora): Como o filme "nasceu" recentemente, ainda vamos conseguir mais informações sobre onde ele será exibido e distribuído. Eu tenho escrito algumas histórias, mas de trabalho concreto com a mesma equipe, vou ser assistente de direção de um curta-metragem do Fernando Pereira no mês que vem. Particularmente, continuo no processo de escrita para realizar outros filmes no futuro.


Camila  Rodrigues (Produtora): O “Inóspito” ainda  vai rodar, ele precisa ter esse tempinho ainda de circular em festivais, em mostras e em outros projetos de cinema. Muitos desses projetos dependem que o filme não seja público, pois precisam da questão do ineditismo. Então, muito possivelmente, a gente ainda vai segurá-lo por um ou dois anos para fazê-lo circular mesmo. Mas, isso não quer dizer que a gente não vá realizar exibições, que não vamos convidar o público ou que não vá ter exibições gratuitas. A gente, na verdade, quer fazer o filme rodar para que as pessoas vejam mesmo. 


A Abajur Soluções Artísticas, produtora do filme, ainda vai realizar outros filmes este ano, como o curta-metragem “Alimentadeiras de Alma” e o documentário “Juventudes da Periferia”.


Foto: André Amorim

Por Guilherme Passos, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III.

Chorinho fortalece a cultura local e ocupa espaço público em Juazeiro (BA)

Foto: Roda de chorinho/Arquivo @falajuazeiro

O som do chorinho voltou a ecoar em Juazeiro, no norte da Bahia, reafirmando a força de um dos gêneros mais tradicionais da música brasileira. Idealizado pelo músico e produtor cultural Silas França, o projeto “Roda de Choro” nasceu há mais de uma década com o objetivo de dinamizar o uso de espaços públicos e promover o acesso à cultura. “A ideia surgiu de uma necessidade de ocupar o museu com música e de valorizar o chorinho como expressão cultural. A gente não pensa em desvincular o evento desse espaço, porque ele também cumpre esse papel social”, explica.


Foto: Arquivo Pessoal
Segundo França, a relevância do projeto vai além da estrutura material. “É um evento que pode parecer intimista, mas a importância dele para o calendário de Juazeiro é gigantesca, principalmente no aspecto cultural e imaterial”. A iniciativa, que busca resgatar e manter viva a tradição do chorinho, gênero que tem entre suas referências nomes como Pixinguinha, Chiquinha Gonzaga e Waldir Azevedo, ainda promove um diálogo entre gerações, unindo músicos experientes e jovens talentos. “A gente tenta fazer uma ponte com o passado, mas com os jovens. Isso mostra que o choro continua vivo e se renovando”, destaca Silas.
Foto: Músicos e Silas França em ensaio para Roda de Chorinho/ Arquivo Pessoal

Muitos dos músicos que participam da “Roda de Choro” acompanham o projeto desde o início, formando uma rede de colaboração que o organizador define como uma família musical, o que acaba incentivando a formação artística. Silas explica que o gênero musical influencia diversos estilos, como o forró, a bossa nova e a MPB, funcionando como uma base para o desenvolvimento de instrumentistas. “O choro é como o nosso jazz. Quem quer se aprofundar na música brasileira precisa passar por ele”.

Além disso, o evento promove uma inclusão cultural, especialmente para aquelas pessoas que têm menos acesso a programações culturais na cidade, já que a iniciativa é gratuita e aberta ao público. Apesar disso, o produtor aponta desafios na realização. “Existe apoio institucional, mas ainda é limitado. É um evento que exige muito esforço da equipe, e muitas vezes faltam recursos para ampliar a frequência ou a estrutura”, relata.


Para Silas, mais do que um evento musical, o encontro anual de chorinho em Juazeiro se firma como um espaço de resistência cultural, formação artística e valorização das raízes brasileiras, mantendo viva uma tradição que segue atravessando gerações. A edição deste ano foi realizada no último dia 26, no espaço do museu da cidade, para comemorar a 10ª décima edição e marcou o calendário cultural do município reunindo músicos, público e diferentes gerações em torno da valorização da música instrumental.


Por Ana Clara Martins, estudante de Jornalismo em Multimeios e colaboradora da Agência de Notícias MultiCiência.










“A Tardinha Cai”, mas a Bossa Fica: O legado de João Gilberto e o tributo juazeirense



Memorial Casa Bossa Nova, exposição sobre vida e obra de João Gilberto.
O toque suave do violão, em contraste com a melodia que embala a cidade, anunciava um novo ritmo prestes a transformar o mundo e reescrever a história da música popular brasileira. Era João Gilberto, com seu jeito reservado, que modificaria o fazer musical, projetando sua voz para além das margens do rio São Francisco e atravessando fronteiras. Assim, nascia a Bossa Nova.

Seis anos após sua partida, Juazeiro-BA, terra natal do compositor, revive suas melodias para celebrar os 94 anos de seu nascimento, em um tributo que ecoa não apenas a memória e o afeto, mas também o sentimento de pertencimento e a construção da identidade juazeirense. A história da música popular brasileira está profundamente ligada à figura de João Gilberto; seus acordes ainda ressoam como moldura sonora de uma era que permanece viva.

Na manhã do dia 10, as histórias, as lembranças e o sentimento de saudade tomaram forma no sarau “À Tardinha Cai”, que reuniu familiares, amigos, músicos e admiradores para celebrar o legado do pai da Bossa Nova. O evento, que foi realizado no Memorial Casa Bossa Nova, na Praça da Bandeira, contou com a participação de nomes importantes do cenário cultural, como o coordenador de cultura Hertz Félix e a professora Aleí Vitorino. A programação contou ainda com uma roda de conversa “A Bossa e João” com o músico Silas França e o compositor Mauriçola, além da presença dos familiares de João Gilberto e a presença dos representantes do poder público.

Uma Conexão Íntima: A relação de Silas França com o Mestre

Durante a celebração e reflexão sobre o legado de João Gilberto, o olhar para o mundo e para Juazeiro ganha contornos mais pessoais nas palavras do acordeonista Silas França. “Ele é um ícone não só pra Juazeiro, mas pro mundo. Ele é a divisão de um marco pra música brasileira e que expõe a música brasileira de verdade", declara Silas.

A sua ligação com João vai para além da admiração musical, ele revelou ter convivido diretamente com o compositor nos últimos anos de sua vida, uma experiência que descreve como ímpar e rara. “Por intermédio de Cláudia Faissol, pude estar convivendo com ele diretamente, eu ajudava na alimentação dele, ele precisava ir para algum lugar ou outro, e eu que levava ele", recorda Silas, que teve a oportunidade de conversar com João Gilberto em momentos de descontração, aproximando-se do homem por trás do gênio criador da Bossa Nova. "De fato, poucas pessoas conviveram com o João. E no momento final da vida dele, especialmente, eu tive essa oportunidade", enfatiza.

A relação de Silas com a música e com o legado de João Gilberto é, inclusive, de berço. Autodidata, influenciado por pais amantes da música, ele carrega em sua trajetória uma conexão familiar com o pai da Bossa Nova. Seu avô, Vadinho, era amigo íntimo de João em Juazeiro, uma amizade que Silas afirma ter comprovado pessoalmente. “Conversei com o próprio João sobre isso. Minha história com João Gilberto não é só eu e João. É algo que vem acontecendo há muito tempo, desde o início”, detalha.

Essa conexão profunda, tanto pessoal quanto familiar, impulsiona o envolvimento de Silas França no sarau. Para ele, o mundo já reconhece João Gilberto, é hora de Juazeiro fazer o mesmo. Hoje, sente orgulho de dar continuidade à história através do acordeon, instrumento que João tanto admirava.

A Voz da Família: Cláudia Faissol e a essência da Bossa Nova
O acordeonista Silas França ao lado de Cláudia Faissol
A celebração em Juazeiro ganhou uma camada ainda mais íntima com a presença de Cláudia Faissol, viúva de João Gilberto, que voltou à cidade natal do compositor para comemorar os 94 anos de seu nascimento e reencontrar Vivinha, uma familiar que não via desde a partida do mestre. Cláudia trouxe consigo um projeto pessoal, que busca contar a história de João por meio das artes plásticas, linguagem que traduz a essência da Bossa Nova para o público.

Para ela, a Bossa Nova vai muito além das composições isoladas como “Garota de Ipanema”, trata-se de uma linguagem musical singular, uma união íntima entre o violão e a voz, que encanta e conquista o mundo inteiro. “João embelezou tanto a musicalidade quanto a composição”, criando uma linguagem compreendida por todos. A companheira de João compara a inovação do compositor à forma coloquial e fluente com que cantava, lembrando músicas antigas como “Aos pés da Santa Cruz”, que ouvira na época da avó, mostrando como o artista transformou a música em uma conversa simples, clara e profundamente humana.

A raiz juazeirense do artista está presente em sua obra de modo inseparável. João aprendeu com a mãe Dona Patu a se comunicar coloquialmente com todos os tipos de pessoas, “desde o cachaceiro até o intelectual”, o que o ensinou a ser justo, humano e próximo do povo. Essa tropicalidade, essa fala do Brasil, influenciou a Bossa Nova a se tornar mais que música: uma conversa aberta e cheia de alma.

Cláudia recorda que o amor de João por sua cidade natal era sentido em cada gesto, “a primeira coisa que ele queria era a carne de bode de Juazeiro”, alimento de raízes e memórias afetivas. Essa cidade o acolhia como um filho, onde ele visitava familiares, reencontrava amigos e se emocionava profundamente ao retornar às suas origens. Para ele, estar em Juazeiro era quase como receber uma bênção. A viúva esteve ao lado do músico em sua última visita à Bahia, em 2008, quando conseguiu reunir os cinco irmãos para uma foto que ficou marcada na memória. Mesmo debilitado pela saúde, João tinha o desejo sincero de que a cidade fosse cuidada, seu coreto preservado, sua casa reconstruída, querendo que “tudo permanecesse igual”, guardando a essência do tempo.

Ela defende com fervor a importância de ensinar nas escolas a verdadeira raiz de João Gilberto, alertando para o perigo de reduzir sua história a crônicas superficiais. Cláudia destaca que o foco deve estar nas características sonoras da Bossa Nova, o baixo tão enfatizado por João e o jeito particular como ele cantava, “na forma da conversa e da coloquialidade”, pois ele não subia ao palco sem meses de treino e preparação. Para ela, músicos como Silas França, que conviveram de perto com o mestre, são verdadeiros tesouros para Juazeiro, pois podem revelar composições inéditas e histórias ainda não contadas, inclusive as dificuldades enfrentadas ao longo da vida.

A valorização do artista passa, segundo Cláudia, pelo reconhecimento financeiro e estrutural que permita a criação e o florescimento da arte, que é capaz de ajudar as pessoas a atravessar as dificuldades da vida com beleza e esperança. Emocionada, ela reafirma a certeza de que “a música não morre, ela é eterna”, pois permanece viva, pulsando nas cordas do violão, nas vozes que a carregam e na alma de quem a escuta.

O Legado na Educação e a Visão do Poder Público


 O pai da bossa nova vai além do segmento musical e cultural, também atingindo a educação do ponto de vista da pedagoga e coordenadora pedagógica do Instituto de Ensino Educar, Juliane Lacerda, que comenta a importância da valorização e inserção da carreira de João Gilberto na história da música juazeirense e do mundo na educação dos jovens e pequeninos. “É importante mostrar aos estudantes história da música, como ela se desenvolvia, quem ele era, e ensinar a eles que todos nós somos capazes, como João Gilberto que aqui nasceu, no interior da Bahia e ganhou o mundo inteiro com a sua música” afirma.

Mas para o Superintendente de Cultura de Juazeiro, João Leopoldo, a cidade ainda falta muito em valorizar a cultura juazeirense e os artistas regionais, como João Gilberto, que conquistou o mundo com suas partituras, pai da Bossa Nova, juazeirense, mas que pouco se discute sobre essa trajetória, além de datas comemorativas. “Nós estamos falando de mais de 50 anos de carreira, mas Juazeiro não consegue, inclusive, pautar João Gilberto nas escolas, nos espaços públicos, não consegue pautar na sua total dimensão do que representa João Gilberto para a sua cidade.”


Entre a carne de bode que evocava memórias de infância e os acordes minimalistas que reinventaram a canção brasileira, João Gilberto permanece vivo. Não apenas como pai da Bossa Nova, mas como um elo entre o Juazeiro e o mundo, entre a simplicidade da fala cotidiana e a sofisticação de uma harmonia que rompeu fronteiras. Em cada gesto narrado por Cláudia, em cada lembrança de Silas, ressurge o homem por trás do mito, tímido, meticuloso, profundamente brasileiro.

Enquanto a cidade redescobre sua própria história ao som daquilo que um dia nasceu entre seus becos e coretos, vozes como a da pedagoga Juliane lembram que ensinar a história de João Gilberto é também ensinar possibilidades. E, como reforça o superintendente João Leopoldo, é preciso ir além das homenagens pontuais e inscrever esse legado nas escolas, nas praças, na vida cotidiana do município.

Porque João é Juazeiro, e Juazeiro ainda precisa se reconhecer nele. Que o acorde delicado de João continue atravessando o tempo como um rio sereno cortando o sertão, guiando novos ouvidos e novas gerações. Porque, como lembra Cláudia, a música não morre. E quando cai a tardinha em Juazeiro, é ela quem ainda permanece suave, bela e humana.

Fotos: Maria Helena Almeida 

Por Maria Helena Almeida e Anne Carvalho, estudantes de Jornalismo em Multimeios e colaboradoras do MultiCiência.




Cavalgada à Pedra do Reino: Cultura, tradição e desenvolvimento

A reportagem em vídeo “Cavalgada à Pedra do Reino: Cultura, tradição e desenvolvimento”, é uma produção do aluno do curso de Jornalismo Marcus Luan e conta a história da Cavalgada à Pedra do Reino e seu impacto na economia do município de São José do Belmonte (PE) através de depoimentos de moradores e comerciantes locais. A festa é realizada tradicionalmente no último fim de semana de maio e transforma por três dias todo o cenário da cidade.



A reportagem pode ser assistida no canal do YouTube do MultiCiência:



Artistas de “Óbvio - Kuey & Godóia” conversam com o Multiciência

Os artistas Coelhão Assis e Odomaria Macedo conversaram com o MultiCiência sobre seu espetáculo, o show “Óbvio - Kuey & Godóia”, falaram um pouco da história da dupla e projetos futuros. O espetáculo realizado neste sábado (31), no Teatro Dona Amélia, em Petrolina(PE), conta um pouco sobre a história e cultura de Juazeiro(BA) e o Vale do São Francisco e é um desdobramento de um projeto maior que ambos participaram juntos na década de 1970 - o grupo de artes e música chamado Êxodus de Artes.


Multiciência: Como vocês se conheceram e decidiram trabalhar juntos?

Coelhão: A gente se aproximou em Salvador, eu cursava Engenharia Civil e Odomaria cursava história, ambos na Universidade Federal da Bahia.

Odomaria: Nós dois participamos de teatro na época e nesse ambiente criativo nossa amizade foi se construindo.

Coelhão: E o primeiro trabalho juntos, começamos justamente a ensaiar lá, em Salvador ainda. Houve uma roteirização de uma apresentação que intitulamos de “Fragmentos”. A primeira apresentação foi aqui em Juazeiro, que contou com Mauriçola, Odomaria e Expeditinho Poeta e o grupo Êxodus, fazendo o fundo musical.

Odomaria: E a partir disso, continuamos a nos encontrar e trabalhar juntos.

Multiciência: Como surgiu a ideia do show?

Coelhão: A gente vem trabalhando nesse projeto voltado para o universo do grupo Êxodus, que existiu lá na década de 1970. Então, o Indivíduo Coletivo, que é capitaneado por Eneida Trindade e Moésio Belfort, nos fez o convite para apresentar o show no projeto deles o “Canta Baixinho”, que era realizado no Centro de Cultura João Gilberto, um show musical com músicas autorais, que é exatamente o cerne do projeto deles.

Odomaria: O nome do show é o meu apelido e o de Coelhão, que foram definidos pelo meu primeiro marido, que era membro da turma e que fazia parte do grupo Êxodus. Ele apelidava Coelhão de Kuey e Godóia pra mim.

Coelhão: E o primeiro trabalho juntos, começamos justamente a ensaiar lá, em Salvador ainda. Houve uma roteirização de uma apresentação que intitulamos de “Fragmentos”. A primeira apresentação foi aqui em Juazeiro, que contou com Mauriçola, Odomaria e Expeditinho Poeta e o grupo Êxodus, fazendo o fundo musical.

Odomaria: E a partir disso, continuamos a nos encontrar e trabalhar juntos.

Multiciência: Como surgiu a ideia do show?

Coelhão: A gente vem trabalhando nesse projeto voltado para o universo do grupo Êxodus, que existiu lá na década de 1970. Então, o Indivíduo Coletivo, que é capitaneado por Eneida Trindade e Moésio Belfort, nos fez o convite para apresentar o show no projeto deles o “Canta Baixinho”, que era realizado no Centro de Cultura João Gilberto, um show musical com músicas autorais, que é exatamente o cerne do projeto deles.

Odomaria: O nome do show é o meu apelido e o de Coelhão, que foram definidos pelo meu primeiro marido, que era membro da turma e que fazia parte do grupo Êxodus. Ele apelidava Coelhão de Kuey e Godóia pra mim.

Coelhão: E aí esse escopo foi o que nos fez apresentar esse título, Kuey e Godóia.

Odomaria: E a palavra “óbvio” como título, não caiu do nada, ela veio de um poema que faz parte do repertório das músicas que nós estaremos apresentando. É uma palavra forte, óbvio, que, no poema, é uma marcação constante no texto de exaltação à ciência, à filosofia, às artes, à resistência, que é muito assinalado com esse poder do que é óbvio. E essa palavra é repetida como uma força que nos conduz, então é um poema que, na verdade, é um texto de filosofia bem interessante.

Multiciência: O show “Óbvio” é descrito como uma viagem atemporal dos anos 1970 até 2025. Como vocês construíram essa narrativa no palco?

Coelhão: Antes do “Show Óbvio”, a gente vem trabalhando com esse repertório, para fazer mais adiante, um outro trabalho voltado exclusivamente para essa pesquisa. Quando nós fomos convidados para fazer o “Canta Baixinho”, fomos coletar e pesquisar de onde surgiu a raiz do projeto, o grupo Êxodus, e trazemos um conjunto de músicas de vários autores dessa turma e mesclamos com algumas produções minhas.

Odomaria: O “Óbvio” é um show mais focado na produção autoral de Coelhão como um membro do grupo Êxodus, e com esse anúncio do que virá depois, que é um conjunto de músicas produzidas exatamente daquele coletivo, criações de artistas que conviveram nos anos 1970, adaptando para a atualidade, acaba trazendo essa viagem atemporal.

Multiciência: Qual é a principal mensagem ou provocação que o espectáculo deseja transmitir para o público?

Coelhão: Nós temos, dentro desse trabalho conjunto, o entendimento que esse repertório do grupo Êxodus é muito rico e precioso, e não pode ser esquecido lá atrás. Naquela época, a gente tinha influência da Bossa Nova, da Tropicália, dos Novos Baianos com aquela força total, então achamos que essa potência precisa ser trazida para o momento atual.

Odomaria: Nas outras três edições do show, os ambientes não nos permitiam um desenvolvimento cênico, mas quando a proposta surgiu para fazermos em um palco, um teatro, entendemos que precisávamos de outra formação para ocupar aquele espaço do palco, e que necessitava uma movimentação cênica e que isso de alguma forma se relacionasse com o roteiro e as canções, e que relacionasse à poética que estava exposta na canção.

Multiciência: O que o público pode esperar de seus futuros projetos após o encerramento do show “Óbvio”?

Coelhão: O que se pode esperar é essa proposta de uma apresentação sobre o repertório de músicas que estamos trabalhando e pesquisando, e anunciamos esse repertório nesse show “Óbvio”. Nós traremos a seguir um projeto mais adiante, que está em andamento.

Foto: Gabriel Matos

Por Anne Carvalho e Gabriel Matos, estudantes de Jornalismo em Multimeios e colaboradores do MultiCiência.


Projeto promove cinema de rua gratuito no Sertão do São Francisco

O acesso ao cinema no Brasil ainda é marcado por profundas desigualdades sociais, regionais e econômicas. Embora o país tenha despontado com produções cinematográficas de destaque nos últimos anos, ainda existem localidades em que o acesso a essa arte é limitada, escassa e quase nunca debatida. Em contrapartida a essa realidade, entre os dias 08 a 13 de Abril, o projeto Cinergia Diversa passou por Juazeiro e região com exibições itinerantes de filmes e curtas, buscando promover o acesso ao cinema de rua em áreas de periferias e zonas rurais de forma gratuita.

A iniciativa é promovida pela organização sem fins lucrativos Pontos Diversos, que veio à cidade com a perspectiva de promover a valorização da cultura popular, integrando a participação de artistas locais e dando ênfase a identidades, territórios, a diversidade cultural, e a sustentabilidade na localidade. Na região do Sertão do São Francisco, as exibições aconteceram na cidade de Juazeiro, nos bairros Piranga II, Dom José Rodrigues e a comunidade Lagoa, no Salitre, zona rural do município, como também passou pelo povoado Poço de Fora, distrito de Curaçá.
Foto: Ana Luiza Souza
Cada um desses locais é escolhido após passar por um processo de reconhecimento da região realizado pela direção da Pontos Diversos, que após realizar um diagnóstico prévio para entender as demandas necessárias de cada lugar, propõe exibições de filmes que buscam dialogar com a realidade das comunidades escolhidas. Desta forma, o Cinergia Diversa pode atuar de forma assertiva promovendo a descentralização da cultura nesses lugares, utilizando narrativas que supram o interesse do público e dê o protagonismo a eles.
Natureza França, que fez a curadoria das obras que entraram em exibição, conta que durante toda a montagem do projeto, o objetivo é fazer com que as obras cinematográficas promovam  que ela chama de proposta circular, onde todos os participantes contribuem ativamente nas discussões e dão um retorno do que acharam sobre o material assistido. Ela comenta que, além de promover um debate, o Projeto Cinergia Diversa visa promover uma conexão com o público.

“Uma ligação que une pessoas de gênero diferentes, territórios diferentes, identidades culturais diferentes. O que a gente propõe é que haja esse protagonismo, essa presença evidenciada de todas as pessoas. A gente quer que elas tragam as suas percepções. Então, a gente tá trazendo de uma maneira muito bonita a inclusão. Acho que a inclusão talvez seja nosso maior debate, a maior proposição da Pontos Diversos.” completa.

Outra proposta trazida pela organização do evento é abraçar e fomentar a cena artística e tradicional local. Durante todos os dias de exibições, foram promovidas apresentações culturais de artistas e grupos que tinham algum tipo de relação com a comunidade onde o projeto estava sendo realizado. Dentre eles, o grupo do Samba de Véio do Rodeadouro e a roda de São Gonçalo, tradições da região do Salitre, o artista musical Mariano Carvalho e o duo P1 Rappers marcaram presença com shows durante  as noites de exibições.

Foto: Bruna Almeida
Frutos da implementação de projetos sociais que instigam o acesso à arte e a cultura, a dupla P1 Rappers formada pelos artistas DJ Werson e Euri Mania, foram uma das atrações durante as exibições de filmes do Cinergia Diversa. Antigos moradores do bairro Piranga, a dupla fez um pocket show na comunidade, com músicas que falam da região do Vale do São Francisco e as mazelas sociais que são enfrentadas por moradores da periferia juazeirense.

O duo de rap costuma fazer parte de eventos que promovem a cultura local na cidade. Para eles, a participação nesta iniciativa funcionou como uma forma de inspirar o público jovem na plateia a se verem em posições de destaque. Eles afirmam que momentos como esses são responsáveis por instigar esses jovens a participar de manifestações artísticas, assim como aconteceu com eles.

“Se eu tivesse visto uma estrutura e uma apresentação como essa quando era criança, talvez eu tivesse começado antes. E criança, ela guarda, ela absorve, aquilo fica guardado. E é massa fazer parte desse momento, você ser parte dessa história, ser essa lembrança de algo diferente, de um tipo de cultura diferente, de um de evento diferente que veio para a comunidade dela.”, ressalta o artista Eurimania.

Foto: Álison França
Com Juazeiro sendo a última parada do projeto de exibições nas ruas, a coordenação já pensa em dar continuidade ao Cinergia Diversa, realizando uma segunda edição. Pensando em promover o cinema  de forma gratuita para outras localidades baianas, o projeto irá focar agora em fazer residências de produção audiovisual em parceria com os Centros de Culturas das cidades visitadas.

O Cinergia Diversa é um projeto itinerante com apoio financeiro da Secretaria de Cultura do Governo do Estado da Bahia, Lei Paulo Gustavo, Ministério da Cultura e do Governo Federal, tem também apoio do Edital Cinemas e Salas Públicas Vocacionadas, que tem o objetivo de selecionar e apoiar projetos culturais voltados à exibição cinematográfica. Além de Juazeiro, o grupo passou pelas cidades baianas Feira de Santana, Valença e Alagoinhas.


Por Álison França, estudante de Jornalismo em Multimeios e colaborador do MultiCiência.





Egressa da UNEB exibe curta-metragem no 1º Festival de Documentários Cine Proa


Foto: arquivo pessoal de Aléxia Viana

Alexia Viana, egressa do curso de Jornalismo em Multimeios da UNEB, exibe o documentário “Uma herança de Barro” no I Festival de Documentários Cine Proa. Ela define o projeto com caráter memorial, que narra a história da produção de carrancas através do afeto, da madeira ao barro. Ao ser questionada sobre o que diria aos que estão começando a produzir conteúdos audiovisuais, Alexia destacou a importância de ter uma conexão genuína com o tema. "Produzir não é fácil, especialmente quando se trata de escrever o roteiro e encontrar fontes dispostas a colaborar", explica.

A jornalista pontua sobre esse trabalho ter significado especial, o material foi produzido em homenagem a uma amiga que faleceu, Gabriela Caboclo, também aluna de Jornalismo em Multimeios, além de parceiras na graduação e na vida, também tinha o audiovisual como um amor em comum. Para ela, escolher um assunto pelo qual se tem verdadeira paixão é essencial para superar os desafios da produção. Afirma que vê a projeção do documentário como uma forma de honrar essa amizade e o trabalho que iniciaram juntas.

O Cine Proa apresentou curtas-metragens e médias metragens de forma gratuita, além de promover diálogos e atividades de formação. O evento ocorreu nas cidades de Orocó e Petrolina, no território do Sertão do São Francisco em Pernambuco, o espaço tornou-se de partilha para uma amostra de talento e criatividade de produtores audiovisuais.

A programação foi dividida entre exibições no Cine Teatro Massangano, no bairro Rio Corrente, e no formato de cinema de rua, no espaço cultura Janela 353, no Centro, ambos em Petrolina (PE). Na última semana, o Cine Proa contou com uma oficina de vídeo ensaio sobre documentário com parceria com o projeto Fri(c)ções ministrado por Márcio Andrade e Gabriel Coelho. E foi finalizada com uma exibição em uma comunidade quilombola Mata de São João, em Orocó (PE).

Foto: Aléxia Viana

O evento organizado pela Abajur Soluções Artísticas, recebeu o apoio da prefeitura de Petrolina (PE) e também recursos de incentivo da Lei Paulo Gustavo, com o objetivo de fortalecer a cultura do audiovisual no Sertão. Para Fernando Pereira, produtor e um dos idealizadores do Festival, a proposta de um evento focado neste segmento surgiu de sua experiência no cinema. "O documentário, por muitos anos, foi a principal produção que a gente tinha na cidade", relembra ele.

Foto: Guilherme Passos

Ao idealizar o Cine Proa, Fernando quis destacar essa linguagem cinematográfica como forma de contar a história dos brasileiros, especialmente do povo pernambucano. "A mostra vem para marcar esse lugar, esse território", explica, ressaltando que o Festival, apesar de carregar o nome "Sertão", tem um alcance estadual, com filmes de Exu (PE) e Caruaru (PE), por exemplo.

A importância de festivais como o Cine Proa foi destacada por Felipe Kalahary, estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e espectador da mostra. "Eu acho muito importante a formação de espaços como esse, em que esses documentários dão voz as pessoas que muitas vezes não são ouvidas", afirma. Ele reflete sobre a necessidade de visibilizar as narrativas de populações periféricas e a presença desse público em momentos culturais.

O projeto surgiu em resposta ao aumento da produção audiovisual na região após a pandemia, impulsionado pelas leis de incentivo cultural. "A gente viu que o pessoal estava produzindo muito, não só documentários, mas curtas e longas-metragens", explica Camila Rodrigues, uma das produtoras do Festival. Camila narra sobre a importância do documentário como registro histórico. "Aqui na região a gente não tem nenhum festival voltado só para essa linguagem", aponta.

Essa visão é compartilhada pelo artista GG do Apocalipse, rapper e empreendedor, também participou do documentário “Arte Além das Fronteiras: Coletivo Ruas,” dirigido por José Charger. GG destacou a relevância de ter espaços para que artistas da periferia, como ele, possam se expressar e expor suas realidades. "É uma parada que a gente precisa muito ser ouvido".

O documentário aborda a cultura do hip hop no Vale do São Francisco e as dificuldades enfrentadas pelos artistas locais. "Por vezes, eu me emocionei assistindo a minha galera falar das mazelas da sociedade, tudo que elas nos corrompem", confessa GG, ressaltando os preconceitos que os artistas enfrentam ao espalhar sua arte.

O Cine Proa, o evento que ocorreu entre os dias 9 e de outubro, exerceu um papel fundamental no fortalecimento da cena audiovisual do Sertão de Pernambuco, servindo como momento, fomento e incentivo para que mais histórias locais sejam propagadas, abrindo novas possibilidades para artistas, diretores, produtores e profissionais do audiovisual. O festival preenche uma lacuna no cenário cultural local.

Por Meiwa Magalhães, estudante de Jornalismo em Multimeios e colaboradora do MultiCiência.