Legado de resistência de Canudos se transforma em literatura e arte na Flican

MultiCiência 21 setembro 2023
Durante a última semana, o Sertão brasileiro virou arte, sendo representado de muitas formas: livros, poemas, poesias, fotografias, pinturas e intervenções artísticas na 4ª Feira Literária Internacional de Canudos (Flican).

Este ano, a escritora Walnice Galvão foi a escritora e pesquisadora homenageada. Renomada por sua contribuição à compreensão da Guerra de Canudos, oferece uma visão crítica e atualizada do conflito em “Canudos: diário de uma expedição” (2009). Em “Euclidianos e os sertões” (2000), sua coletânea abrange textos diversos sobre o tema. Além disso, sua edição crítica de “Os sertões” (2016) é uma referência crucial para estudiosos. Essa obra se aprofunda nas implicações sociais, políticas e culturais da guerra e perpetua o significado duradouro deste episódio na história brasileira.

A quarta edição da Flican tratou de fazer com que a cidade baiana, que teve origem a partir das andanças de Antônio Conselheiro, recebesse pessoas de várias partes do Brasil e do mundo, que puderam apreciar tudo que o Sertão nordestino pode oferecer em beleza, acolhimento, carinho e também debates sobre a história e a memória da região a partir da visão dos moradores locais.

A primeira dessas discussões se deu na abertura do evento com uma mesa formada por pesquisadoras mulheres que estudam o acervo de José Aras. As professoras Adriana Fontes, Ana Naara Cunha, Anita Santa e Ilza Carla Reis discutiram acerca de memória, história, léxico e sociedade a partir das obras de Aras.

Adriana desenvolve atualmente sua pesquisa de mestrado a partir dos léxicos utilizados por José Aras em seu livro “Sangue de irmãos”. Ela explica a importância de estudar a região a partir da visão de quem viveu no local durante toda a vida, trilhando o chão sertanejo.

“Ouvir a história a partir de quem vive naquele lugar é saber que a pessoa fala de se mesma. Ouvimos muito o que os outros falaram e pouco o que nós mesmos temos a dizer sobre nossa própria história. Por isso, estudo José Aras, ele fala por nós. Ele viveu no lugar da guerra, viu os mortos e a destruição”, esclarece Adriana

Foto: Professora Adrina Fontes/ Levi Varjão.

A escritora nigeriana Chimamanda Adichie aborda esse tipo de assunto no seu livro “O perigo da história única”. Na obra, ela discute sobre a importância de reconhecer e contar múltiplas histórias sobre pessoas, lugares e culturas, em vez de depender de uma única narrativa estereotipada ou limitada. No caso de Canudos, esses estereótipos sobre o sertanejo foram construidos a partir da narrativa de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha.

Após o encerramento da mesa, a Banda de Pífanos passou para trazer arte sertaneja para o evento. Quatro artistas - três senhores idosos e um jovem na casa dos 20 anos - tocaram músicas que evocaram memórias dessa tradição cultural do sertão, animando moradores locais e visitantes na cidade.

Foto: Banda de Pifanos/ Levi Varjão 


Cultura local

A Flican reúne todos os anos uma série de barracas e stands que apresentam a cultura e culinária local, pesquisas desenvolvidas acerca da história da região, produtos derivados da fauna da caatinga e uma série de outros assuntos.

Uma das barracas reunia uma séria de maquetes sobre a formação das ruas de Belo Monte (primeira Canudos) e como eram construídas por fora os casebres de taipa (ou Pau a pique) dos moradores da antiga vila. Além disso, a exposição demonstrou também como ficou destruído aquele lugar após o massacre executado pela república sob comando do presidente Prudente de Morais.

Foto: Barraca ruas de Belo Monte/ Levi Varjão 

A cultura local também esteva representada no desfile das escolas do núcleo 2 (150). Naquele fim de tarde, as crianças apresentaram brilhantemente a cultura e história não só da cidade como também do estado e ousaram ir além. De forma simples e contextualizada, trouxeram representações sobre a forma de produção e comercialização da banana. A fruta mais cultivada em Canudos.

Foto: desfile das escolas/ Levi Varjão.


Museu vivo da Guerra de Canudos


Na quinta-feira, professores e estudantes do Departamento de Ciências Humanas visitaram o Parque Estadual de Canudos. Com 1.321 hectares de preservação histórica e ambiental, o parque reproduz cenários da guerra, memórias muito vivas, balas atiradas recentemente contra um povo que só queria pão e terra.

Paulo Regis foi o guia que nos conduziu pela trilha arqueológica do parque. Paulo é descendente direto de um conselheirista, seu bisavô, João de Regis, foi sobrevivente da guerra e batiza um museu na cidade.

Quilômetros percorridos a pé, acompanhados pelo astro-rei impiedoso e uma presença quase viva daqueles que morreram naquele local.

Foto: O guia Paulo Regis conduziu pela trilha arqueológica do parque/ Levi Varjão.

Vegetação nativa, formações rochosas de beleza e forma singular. Apesar do visual que só aquele lugar pode oferecer, algumas pessoas não se sentiram confortáveis. Pisar em um cenário da guerra pode ser desconfortável para alguns. Caminhar sob o sol forte num local onde o estado brasileiro promoveu um genocídio, gera calafrios em qualquer um.

Andamos pelo “Hospital de sangue”, percorremos o “Vale da Morte”. Paulo nos mostrou pedras perfuradas, atingidas por balas durante a guerra. Atrás de um arbusto ele cavou um pouco e nos relevou uma série de cartuchos de munição utilizados para tirar a vida de pessoas que o único mal que fizeram foi acolher aqueles que vislumbravam um futuro menos amargo.

Para Paulo, ser descendente de um sobrevivente da guerra e trabalhar com a preservação da memória local e também de sua família, é motivo de orgulho.

“Sinto cada vez mais que devo carregar e repassar a história, me sinto muito privilegiado de trabalhar com a história. Cada que se passa me sinto mais pertencido”, afirma Paulo.

Foto: O guia Paulo Regis/ Levi Varjão.

No Outeiro das Marias, Paulo nos explicou sobre a história das mulheres sobreviventes perto do término da guerra, que receberam como promessa dos soldados da república que seriam poupadas da morte caso se rendessem. A rendição aconteceu, mas a promessa dos soldados não foi cumprida.

Paulo conta a forma cruel como os soldados republicanos executavam aquelas mulheres. “Eles seguravam essas mulheres pelos narizes e pediam para as jurarem fidelidade à república. Elas não juravam e eles passam a navalha sobre seus pescoços e deixavam o sangue escorrer pelos seus peitos”.

Foto: Outeiro das Marias/ Levi Varjão.

Após a explicação de Paulo, a professora Dalila Santos começou a falar sobre o protagonismo das mulheres durante a guerra e como a liderança delas fez com que Canudos sobrevivesse a três expedições. Além disso, relatou também sobre o papel de apoio que elas davam diretamente ao Conselheiro. Por fim, traçou uma crítica ao apagamento do protagonismo dessas mulheres na história e como elas são sempre mostradas em papéis secundários ou retratadas pejorativamente.

Documentário

A Flican ainda nos apresentou o documentário “Canudos: novas trilhas”, do historiador Roberto Dantas. O filme refaz os passos das quatro expedições da república contra Canudos e debate sobre o processo de apagamento gradual que o Brasil tem feito sobre a história da guerra. Ao final da exibição, Roberto deu uma palestra sobre o processo de produção do filme, sua metodologia de trabalho como historiador e professor universitário e o problema dos cursos de história nas universidades brasileiras.

Foto: Historiador Roberto Dantas/Levi Varjão 

Evandro Teixeira

Um dos pontos altos da programação da feira, foi a entrega de título de cidadão canudense ao fotógrafo Evandro Teixeira. Título cedido pela Câmara Municipal de Vereadores de Canudos para um fotojornalista que com suas fotografias antagônicas, registrou a comunidade canudense um século depois do massacre.

A sessão solene foi marcada por muita emoção,  gerada pela presença de um dos maiores fotojornalistas do mundo. Presença essa cheia de carinho e sorrisos. Apesar do cansaço de ter chegado recentemente de uma grande exposição no Chile, Evandro não deixou a simpatia de lado, muito pelo contrário. Fez questão de tirar fotos com todos e sorrir para cada uma delas.

Eu estava ali com minha câmera e fotografava tudo que acontecia naquele espaço, eufórico e emocionado de estar tão perto daquela figura. Posso sentir emoção semelhante ao relembrar e escrever sobre aquele momento.

Evandro foi recebido por todos com abraços e sorrisos sinceros. Foi reverenciado por figuras como Antônio Olavo, um dos grandes cineastas baianos. Mas quem abriu a sessão foi o vereador e autor do projeto em homenagem a Evandro, Cledison Guimarães.

Foto: Fotógrafo Evandro Teixeira/ Levi Varjão.

Cledison exaltou a importância de Evandro para a divulgação da história de Canudos para o mundo. Falou sobre a importância daquele momento e como se sentia privilegiado em ser o autor daquela homenagem para um ser tão ímpar quanto o único fotografo do enterro de Pablo Neruda.

“Evandro Teixeira levou e leva o conhecimento da nossa história para o mundo. Entregar o título de cidadão canudense para ele é honra para nós aqui da casa Júlio Gonzaga da Silva”, relata Cledison.

Foto: Vereador Cledison Guimarães/ Levi Varjão 

Durante seu tempo com o microfone, Evandro relembrou sua passagem pelo Chile no início da ditadura pinochetista, a morte de Pablo Neruda. Contou causos sobre sua atuação durante a ditadura militar no Brasil e finalizou, emocionado, com lembranças de quando chegou a Canudos em 1993 e decidiu fazer o livro “Canudos: 100 anos”. Durante 55 minutos Evandro contou suas histórias enquanto segurava as lágrimas que insistiam em encher seus olhos naquele momento de emoção.

Legados 

Para a caravana que saiu da Uneb em Juazeiro, a passagem por Canudos começou a se encerrou no Mirante do Conselheiro. Com uma paisagem que mistura um degradê de branco e azul no céu no ponto alto do sol a tarde, mas que troca o branco por laranja e azul no finalzinho da tarde, o mirante encheu o coração de todos com nostalgia de uma viagem que ainda nem havia encerrado.

Alguns se emocionaram com a beleza da paisagem natural que cobre serras, morros e o Açude de Cocorobó. Todos fotografaram aquele momento para relembrarem de um lugar que evoca acontecimentos históricos que são constituem nacionalmente a identidade brasileira, no nascedouro da República. Para muitos, a resistência de Conselheiro e de Canudos é também símbolo de resistência que permanece como campo profícuo de luta pela direito à terra, à água e a dignidade humana no país. 

Foto: Mirante do Conselheiro/ Levi Varjão 



Texto de Levi Varjão, colaborador da Agência MultiCiência