Pesquisadoras discutem narrativas sobre os povos originários na História do Brasil

MultiCiência 25 setembro 2023
Há mais de 500 anos, a história brasileira tem personagens importantes que marcaram os movimentos emancipatórios no país, porém muitos deles aparecem pontualmente, e alguns nem são lembrados. A contribuição dos povos originários, quilombolas e os escravizados é abordada de forma superficial e estigmatizada no imaginário da identidade brasileira. Ao contrário do que muitos acreditam no senso comum, a identidade brasileira não foi construída pela cordialidade, mas pelas lutas populares, extermínio e estratégias de sobrevivência dos povos originários.

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Esses aspectos silenciados pelos livros didáticos, que explicam de um modo cordial a abordagem dos colonizadores para com os indígenas, impõem estigmas e preconceitos como verdades absolutas no pensamento cotidiano d parte dos brasileiros.

No entanto, pesquisadores de instituições de ensino superior têm desenvolvido novos estudos na perspectiva decolonial para construir novas narrativas. A pesquisadora e mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Feira de Santana, Fernanda Caroline Santos, que participa do projeto de extensão e pesquisa “Arribar o céu”, localizado no campus IV, Jacobina, da Universidade do Estado da Bahia, tem abordado nos trabalhos sobre a independência do Brasil na Bahia os atores e atrizes que não aparecem na historiografia oficial do país, como mulheres e indígenas.

Em parceria com o podcast Calumbi, o Arribar o céu procura trazer registros históricos esquecidos e apresentar para um grande público através da comunicação e em vários redes de streamings. “A proposta do projeto, da pesquisa e do podcast é a gente compreender que existe uma falta de acesso, de identificação e reconhecimento aos personagens apagados. Não existe uma noção de pertencimento. Então, buscamos fazer uma ponte entre a comunidade e essa história”, explica Fernanda.

Essa ponte entre a causa indígena e a chegada dos europeus àz terras litorâneas do Brasil sempre foi marcada pelo extermínio. Segundo a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) a população de indígenas no Brasil em 1500 era de aproximadamente 3 milhões de habitantes, hoje o país tem um pouco mais de 1.69 milhão de indígenas (IBGE – Censo 2022), no caso 0,83% da população total, e esse número já foi muito menor, em 1957 só foram registrados 70 mil. A professora de História no IFSertãoPE, campus Petrolina, e doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), Edivania Granja, afirma que fatos históricos demonstram que a política do Estado foi de extermínio e que, apesar da distância da temporalidade, os ataques continuam iguais.

A docente estuda a relação socioambiental dos povos originários na região do sertão do São Francisco e esclarece que a colonização usou os indígenas e o Nordeste como produtores de lucro para seus países e benefício próprio, colocando a religião como pressuposto para dominação da população. “Os indígenas tinham técnicas de defesa, como os gestos e boatos de hábitos antropofágicos de até mesmo pessoas vivas. Tudo era uma forma de resistência pela vida e pelo direito original a terra, principalmente nos períodos de expansão para o interior do Brasil”, enfatiza a docente.

Esse processo de genocídio não se concentrou somente na população indígena, as negras e os negros africanos trazidos forçadamente para o Brasil também foram mortos e sofrem com o racismo estrutural até hoje. A herança discriminatória e racista da escravidão perdura em um conjunto com a falta de políticas públicas para populações desfavorecidas e julgadas por diferenças biológicas, raciais, culturais e espirituais, e com a manutenção de um sistema de privilégios para pessoas brancas e financeiramente abastardas, com provável herança econômica e familiar do período colonial.

A professora de História da África do campus XIV em Conceição de Coité e doutora em História Social pela Universidade Federal da Bahia, Joceneide Cunha, aponta que o Brasil pouco valoriza os saberes e conhecimentos produzidos pelos negros. “Temos avanços, mas o racismo estrutura a nossa sociedade”. Ela também entende que a questão espiritual é a que tem mais empecilhos durante a pesquisa, já que o preconceito afeta até mesmo os estudos sobre religião no Brasil. “Pesquisar religiões afro-brasileiras ou falar sobre elas tem sido o grande problema da cultura afro. Com o crescimento de algumas igrejas, o racismo religioso tem se tornado uma tônica nessas relações”, finaliza a pesquisadora.

Um ano após o bicentenário da independência brasileira, ainda não existe um ponto final nessa luta e, provavelmente, vai continuar com vírgulas e reticências por muito tempo. A continuidade da luta por presença em espaços e direitos é necessária, assim como a manutenção e valorização de suas culturas.

Para compreender mais sobre os processos históricos que moldam a formação da sociedade brasileira, as professoras Fernanda Caroline Santos e Edivania Granja discutiram a temática na V Semana Integrada de Ensino, Pesquisa e Extensão (SIEPEX) na mesa-redonda “Narrativas Decoloniais nos 200 anos da Independência da Bahia”, com mediação de Joceneide Cunha.

Texto por João Pedro Tínel, estudante de Jornalismo em Multimeios e colaborador da Agência Multiciência.