Reilde Pereira - Uma costureira antenada com as transições da moda entre revistas tradicionais e plataformas digitais

MultiCiência 08 janeiro 2026
Foto: Maria Luiza do Nascimento


Um profissional que se preze, no mundo de alta concorrência, sempre deve estar atento aos sinais de mudança no horizonte do consumidor. Imagine quem vive da moda, de vestir o outro. A costureira baiana Reide Pereira sabe bem o que isso significa. Há pouco mais de três décadas, ela vive, diariamente, a rotina de criar em meio uma profissão autônoma e manual, conforme a demanda de serviços.

Dizer que costureira nunca sai de moda, não é lugar comum, é também uma arte. Historicamente, a profissão de costureira no Brasil ganhou força com a industrialização e as máquinas de costura no século XIX, evoluindo de uma arte doméstica para uma atividade econômica que move o setor de confecções.

A trajetória de Reilde é cheia de nuances que lhe competem o título de mulher aguerrida, sempre pronta para o trabalho. Rebobinando sua história de vida, nada foi fácil até aqui. Nascida no município de Sento Sé, no Norte da Bahia, no ano de 1974, ainda na infância, aos 12 anos, a garota mudou-se para Juazeiro com a família. Não muito longe da sua terra natal, ela já tinha consciência de que a nova cidade podia lhe oferecer um futuro melhor.

 Na adolescência, passou a trabalhar como babá e empregada doméstica para ajudar nas despesas da casa, onde vivia com a matriarca e cinco irmãos. A mãe já era costureira e exercia o ofício dentro de casa, aos olhos dos filhos e da clientela. Nessa fase, a menina Reilde não demonstrava nenhum interesse pela profissão, mas admirava o talento da mãe na arte da costura.

Dedicada aos estudos, após concluir o Ensino Médio, aos 18 anos, formou-se no curso técnico de Contabilidade. Seu objetivo, no entanto, era entrar para faculdade e cursar Direito. Naquele momento, o sonho se via inviável diante a ausência do curso em instituições públicas da cidade e pela falta de recursos financeiros para estudar em uma faculdade particular.

Ao perceber que a remuneração na área contábil era insuficiente, Reilde buscou oportunidades em outros setores. Foi nesse contexto que, de forma inesperada, ingressou em uma fábrica de costura. Ali, aos 17 anos, aprendeu o ofício que havia acompanhado de perto durante a infância e jamais imaginaria seguir a rotina debruçada em uma máquina de costura.

A nova experiência lhe marcou o início definitivo de sua carreira como costureira. Durante a década de 1990 e início dos anos 2000, ela deu um novo salto na profissão que herdou da mãe.
“Tive a experiência importante que foi trabalhar em fábricas de confecção na cidade vizinha de Petrolina (PE), o que me trouxe novos conhecimentos. Em 2005, veio o nascimento de minha filha e tive que deixar o trabalho industrial para a atuar de forma autônoma em casa, produzindo roupas de moda feminina sob encomenda”, conta.

O cenário do ateliê de Reilde é ocupado por tecidos, linha, botões, zíper e máquinas de costura industriais. A rotina é intensa: ela trabalha das 7h às 19h, dividindo o tempo entre a produção das peças e o atendimento aos clientes. Para ela, o maior prazer da profissão está na satisfação de quem encomenda as roupas. “O que mais gosto é ver o cliente feliz com o resultado e receber os feedbacks do meu trabalho”, afirmou.

Anos depois, em 2021, a costureira transferiu o ateliê para a residência da mãe que passou a ter problemas de saúde após ser diagnosticada com complicações de saúde decorrentes da COVID-19 - o que lhe permitiu conciliar o trabalho com os cuidados familiares. Literalmente os ideais do passado ficaram para traz. Reilde agora olha para frente quando o assunto é a profissão que acabou abraçando. “As pessoas gostam de saber que sou costureira. Sempre que conto, logo pedem uma vaga na minha agenda. Defino o preço do meu trabalho conforme a serviço e sou paga de forma justa”, relata a costureira.

Segundo ela, o diferencial da costura sob medida está na exclusividade. “As pessoas gostam de encomendar porque podem pedir exatamente do jeito que querem. É uma peça única, não existe outra igual”, explica. 

Ela aponta que um dos desafios do exercício da profissão em Juazeiro, é a dificuldade de encontrar aviamentos variados e compatíveis com as cores dos tecidos. Ainda assim, ela reconhece que a popularização das redes sociais facilitou o processo criativo. “Antes, as referências vinham das revistas de moda. Hoje, os clientes trazem inspirações do Instagram, Pinterest, Google Imagens e até da televisão. Isso ajuda muito na construção da ideia da roupa”, conclui.
Com uma trajetória profissional construída entre a necessidade e a descoberta, Reilde Pereira agora expande suas habilidades de “costureira antenada” com a modernidade.  Ela transformou o que antes parecia improvável em sustento, identidade e reconhecimento profissional. É uma costureira que transita no corredor da memória afetiva da mãe, a carga de empatia para com sua clientela que lhe depositam confiança.

Por Maria Luiza do Nascimento, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III.