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| Foto: Maria Luiza do Nascimento |
Um profissional que se preze, no mundo de alta concorrência, sempre deve estar atento aos sinais de mudança no horizonte do consumidor. Imagine quem vive da moda, de vestir o outro. A costureira baiana Reide Pereira sabe bem o que isso significa. Há pouco mais de três décadas, ela vive, diariamente, a rotina de criar em meio uma profissão autônoma e manual, conforme a demanda de serviços.
Dizer que costureira nunca sai de moda, não é lugar comum, é também uma arte. Historicamente, a profissão de costureira no Brasil ganhou força com a industrialização e as máquinas de costura no século XIX, evoluindo de uma arte doméstica para uma atividade econômica que move o setor de confecções.
A trajetória de Reilde é cheia de nuances que lhe competem o título de mulher aguerrida, sempre pronta para o trabalho. Rebobinando sua história de vida, nada foi fácil até aqui. Nascida no município de Sento Sé, no Norte da Bahia, no ano de 1974, ainda na infância, aos 12 anos, a garota mudou-se para Juazeiro com a família. Não muito longe da sua terra natal, ela já tinha consciência de que a nova cidade podia lhe oferecer um futuro melhor.
Na adolescência, passou a trabalhar como babá e empregada doméstica para ajudar nas despesas da casa, onde vivia com a matriarca e cinco irmãos. A mãe já era costureira e exercia o ofício dentro de casa, aos olhos dos filhos e da clientela. Nessa fase, a menina Reilde não demonstrava nenhum interesse pela profissão, mas admirava o talento da mãe na arte da costura.
Dedicada aos estudos, após concluir o Ensino Médio, aos 18 anos, formou-se no curso técnico de Contabilidade. Seu objetivo, no entanto, era entrar para faculdade e cursar Direito. Naquele momento, o sonho se via inviável diante a ausência do curso em instituições públicas da cidade e pela falta de recursos financeiros para estudar em uma faculdade particular.
Ao perceber que a remuneração na área contábil era insuficiente, Reilde buscou oportunidades em outros setores. Foi nesse contexto que, de forma inesperada, ingressou em uma fábrica de costura. Ali, aos 17 anos, aprendeu o ofício que havia acompanhado de perto durante a infância e jamais imaginaria seguir a rotina debruçada em uma máquina de costura.
A nova experiência lhe marcou o início definitivo de sua carreira como costureira. Durante a década de 1990 e início dos anos 2000, ela deu um novo salto na profissão que herdou da mãe.
“Tive a experiência importante que foi trabalhar em fábricas de confecção na cidade vizinha de Petrolina (PE), o que me trouxe novos conhecimentos. Em 2005, veio o nascimento de minha filha e tive que deixar o trabalho industrial para a atuar de forma autônoma em casa, produzindo roupas de moda feminina sob encomenda”, conta.
O cenário do ateliê de Reilde é ocupado por tecidos, linha, botões, zíper e máquinas de costura industriais. A rotina é intensa: ela trabalha das 7h às 19h, dividindo o tempo entre a produção das peças e o atendimento aos clientes. Para ela, o maior prazer da profissão está na satisfação de quem encomenda as roupas. “O que mais gosto é ver o cliente feliz com o resultado e receber os feedbacks do meu trabalho”, afirmou.
Anos depois, em 2021, a costureira transferiu o ateliê para a residência da mãe que passou a ter problemas de saúde após ser diagnosticada com complicações de saúde decorrentes da COVID-19 - o que lhe permitiu conciliar o trabalho com os cuidados familiares. Literalmente os ideais do passado ficaram para traz. Reilde agora olha para frente quando o assunto é a profissão que acabou abraçando. “As pessoas gostam de saber que sou costureira. Sempre que conto, logo pedem uma vaga na minha agenda. Defino o preço do meu trabalho conforme a serviço e sou paga de forma justa”, relata a costureira.
Segundo ela, o diferencial da costura sob medida está na exclusividade. “As pessoas gostam de encomendar porque podem pedir exatamente do jeito que querem. É uma peça única, não existe outra igual”, explica.
Ela aponta que um dos desafios do exercício da profissão em Juazeiro, é a dificuldade de encontrar aviamentos variados e compatíveis com as cores dos tecidos. Ainda assim, ela reconhece que a popularização das redes sociais facilitou o processo criativo. “Antes, as referências vinham das revistas de moda. Hoje, os clientes trazem inspirações do Instagram, Pinterest, Google Imagens e até da televisão. Isso ajuda muito na construção da ideia da roupa”, conclui.
Com uma trajetória profissional construída entre a necessidade e a descoberta, Reilde Pereira agora expande suas habilidades de “costureira antenada” com a modernidade. Ela transformou o que antes parecia improvável em sustento, identidade e reconhecimento profissional. É uma costureira que transita no corredor da memória afetiva da mãe, a carga de empatia para com sua clientela que lhe depositam confiança.
Por Maria Luiza do Nascimento, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III.
