“Maria do Mato”, a força da mulher que brotou da roça para a cidade grande

MultiCiência 26 fevereiro 2026
Foto: Arquivo Pessoal

Maria Magalhães Silva é daquelas mulheres sertanejas que não escondem nas feições uma história de bravura para além da Caatinga. Já carrega no apelido a origem de suas  vivências desde que nasceu. Na pele, o rastro de uma vida moldada  na labuta, garra e suor. Conhecida como Maria do Mato, ela é o retrato de uma geração de mulheres que não teve o luxo da infância. Brincadeiras, brinquedos e rotina saudável  que eram comuns entre as garotas de sua geração, nem lhe atiçava em sonhos.

“Já nasci tendo que trabalhar. Com o passar dos anos, as responsabilidades foram só aumentando”, conta ela, sem esboçar qualquer sinal de amargura ou lamento. Sua trajetória se resume no trabalho árduo desde a infância. Maria do Mato trabalhou, sol à pino  na roça por várias décadas. De tudo fez um pouco. Por outro lado, foi obrigada a moldar uma vida doméstica para si e para os outros.

Fora da rotina de plantar e colher teve outros ofícios: avou e passou roupas, trabalhou em casas de família, foi cuidadora de pessoas prostradas, bateu tijolo, catou pedra e cortou palma para vender.  “Na minha rotina de trabalho o suor nunca foi opção, foi a única forma de sustento”, lembrou.

Aos sete anos de idade, a menina Maria presenciou o desgaste emocional e tenso na família quando viu o pai abandonar a todos numa separação inesperada. A mãe não suportou e acabou prostrada. Ela, a primogênita, com apenas um irmão ainda bebê, precisou amadurecer cedo para tocar a vida diante do que restou.

Aos 13 anos, a adolescência reservou para a jovem uma maturidade forçada naturalmente, pois já vivia com o companheiro, o cearense Antônio Saturnino da Silva. Casaram-se oficialmente e dividiram a vida por 44 anos até a morte dele.

"Maternidade e perdas dolorosas" 

A maternidade foi um território de luto para Maria que engravidou nove vezes, mas enterrou seis filhos ainda pequenos. As perdas tinham diagnóstico e contexto: uma anemia grave que evoluía para leucemia, somada ao descaso médico. Restaram-lhe três filhos para criar com certo sacrifício e amor: Rita, Francisco e Cícera. “Não tenho revolta na vida. Sempre mantive minha honestidade como filha, mulher e mãe”, desabafa Maria do Mato.

Como as longas estiagens no Sertão sempre foram fator determinante para migrações de muitos agricultores rumo às áreas urbanas, não havia de ser diferente como sua família que também reconheceu a necessidade de abandonar o campo. Na cidade, a sobrevivência exigiu tempo integral. Quando tinha 32 anos, Maria transformou suas atividades de trabalhadora para garantir o sustento.

De imediato abraçou uma nova profissão: lavar e passar roupas. Nessa época, não havia água encanada, nem energia elétrica. Para dar conta do serviço, saía cedinho para as margens do rio São Francisco, onde esfregava as peças em latas de querosene, quarava as roupas nas pedras e aguardava a secagem em varais improvisados, divididos com outras lavadeiras.

O ciclo era ininterrupto. No fim do dia, enquanto Antônio preparava a janta, Maria e as filhas voltavam para casa. Comiam e iniciavam a segunda etapa: passar a roupa com ferro em brasa. O combustível era a lenha que elas buscavam do outro lado do rio. O dinheiro era pouco. Mal garantia o básico, mas ajudava Antônio a colocar a comida na mesa.

Depois dos 40 anos, o corpo deu o primeiro aviso para fragilidade da saúde com o sinal de um derrame cerebral. Mesmo assim, Maria do Mato não parou, nem se entregou para uma “aposentadoria” forçada. “Enquanto eu podia, era de dia lavando e à noite passando”, relembra. Em menos de dois anos, veio o segundo derrame. Só que desta vez, ela viu a morte de perto. Por conta de seu quadro clínico, a rotina antes puxada,  foi interrompida completamente.

Hoje, Maria olha pra trás com certa resiliência sem reclamações,  e observa a modernidade com o olhar de quem conhece o ofício. “A máquina nunca vai lavar como uma pessoa”, defende. Seus valores continuam os mesmos: Deus, família, saúde e paz. Para as novas gerações, ela guarda um conselho curto: “Os jovens de hoje precisam estudar, trabalhar e pensar no futuro. O futuro do país com certeza são vocês, os jovens”. 


Mariana Saturnino, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III.