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| Foto: Arquivo Pessoal |
CAMPO FORMOSO(BA) - Desde a infância, Pablo Santos já desenhava tudo que lhe vinha à cabeça sem grandes pretensões. Cada traço lhe permitia momentos lúdicos para uma criança que se encantava com a construção de sua própria habilidade artística adquirida ainda garoto na capacidade de buscar, organizar e absorver conhecimento sem um instrutor. Ele já demonstrava o dom para o desenho que foi se aprimorando com o tempo, sem imaginar que sua arte poderia se tornar no futuro em uma fonte de renda.
Natural de Campo Formoso (a 412 km de Salvador), o menino que não escondia a paixão por gibis e desenhos animados foi influenciado por animes e mangás, referências que se fazem presentes no sentido de moldar os traços de seu imaginário. Em meio às atividades escolares e brincadeiras, ele se debruçava sobre cadernos para desenhar como hobby.
O tempo foi passando e Pablo, aos 26 anos, não perdeu o estímulo pela arte. A grande virada aconteceu há três anos, quando ele fez uma ilustração retratando a Guerra de Espadas - tradição junina que envolve duelos realizados com fogos de artifício em sua terra natal, no período das festas de São João. O trabalho ganhou repercussão e foi se multiplicando nas redes.
A ilustração não só circulou na internet, como também foi publicada no Correio 24 Horas e continua sendo utilizada por grupos de espadeiros em estampas de camisas. Com a repercussão, Pablo entendeu que poderia seguir na área enquanto profissional, unificando seu traço único com o cotidiano que lhe cerca.
Desde então, o artista procurou diversificar sua linguagem para com os desenhos e assinou outras ilustrações que também ganharam visibilidade. Desenhos de terror, releituras sombrias de personagens, representações de elementos culturais na estética alternativa e até mesmo cenas carregadas de humor fazem parte do portifólio do artista que busca não ficar travado às estéticas e repetições do mercado.
Elementos místicos - A estética gótica que simboliza o obscuro, melancólico, romântico e macabro, indo além do visual para expressar emoções profundas, introspecção caracterizada por tons escuros, elementos místicos, focando na admiração pelo mistério, que o acompanha desde a infância é a principal forma de linguagem e a mais marcante característica presente em cada traço feito por Pablo.
É nesta estética da contracultura gótica que ele afirma encontrar espaço para lidar com temas como melancolia e tristeza sem perder o foco na tranquilidade. "Ignorar a tristeza e sentimentos ruins faz com que você não aprenda a lida com eles", afirma Pablo.
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| Foto: Arquivo Pessoal |
Em 2025, Pablo foi contemplado pelo edital da Lei Aldir Blanc com o projeto Gameleira, que conta através de quadrinhos uma história que se passa na Freguesia Velha de Santo Antônio (antigo nome de Campo Formoso) e se estende ao contemporâneo. A narrativa parte de três lendas famosas na região: A Barda do Missionário, O Corpo Seco e os Olhos de Fogo que misturam recortes históricos, doses de humor e ironia.
Pode-se se dizer que o artista é mesmo apaixonado por sua terra. Jamais deixou de perceber a necessidade e o valor afetivo de produzir em sua arte temáticas que façam com que seus conterrâneos se identifiquem com as histórias que ele tirava de suas memórias e indagações até colocar no papel.
Recentemente, o trabalho batizado de “Gameleira”, em que transformou referências presentes nos desenhos, se transformou em um projeto ligado à memória cultural de Campo Formoso. “Sempre me vejo envolvido com traços que são a memória de minha cidade, sempre é bom retratar a história da gente”, observa.
Em um mundo cada vez mais tecnológico, o artista se apropria das ferramentas digitais e reafirma o desenho como ofício de linguagem e representatividade.
Por Jediael Santos, estudante de Jornalismo em Multimeios, produzida na disciplina Redação Jornalística III.

