A produção do cosplay como instrumento de expressão artística no Vale do São Francisco

MultiCiência 01 outubro 2026

Foto: Shinobi Festival 2025

O cosplay é o ato de se caracterizar e interpretar personagens de animes, mangás, filmes, desenhos, séries, games (jogos eletrônicos), dentre outras produções de entretenimento ocidentais e principalmente orientais ligados à cultura geek. Tal prática surgiu nos Estados Unidos, no ano de 1930. Nessa época, os filmes e livros de ficção científica e histórias em quadrinhos do Flash Gordon e Buck Rogers foram os primeiros personagens a serem performados pela prática. 

Para compreender melhor como essa prática funciona e as suas raízes, começamos pelo termo “cosplay”, originado no Japão em 1980, a palavra é derivada do inglês, “cos” significa “costume” (fantasia), já o “play” vem de “roleplay” (interpretação ou brincadeira). Mas, foi através do jornalista Nobuyuki Takahashi, que ao visitar a Convenção de Ficção Científica Worldcon, em 1984, nos EUA, ficou impressionado com a caracterização e o amor dos fãs e popularizou a ideia. Quando retornou ao Japão, ele escreveu sobre o que tinha visto e ajudou a impulsionar a cultura do cosplay em todo o país, se tornando uma das principais referências para o mundo desde então. 

Muito além da vestimenta característica, os cosplayers se dedicam para interpretar fielmente o personagem escolhido para ser caracterizado. Vale ressaltar que os visuais podem ser produzidos de forma artesanal ou encomendados para os artesãos especializados e categorizados para cada item do visual, sendo eles os cosmakers (responsáveis pela confecção das roupas) propmakers (produzem acessórios e objetos) e wigmakers (especializados em perucas). A maquiagem também é um quesito importante na hora da caracterização, requer cuidado e atenção para reproduzir os detalhes exatos do personagem, alguns exigem o uso de perucas, acessórios (espadas, armaduras, armas e outros itens). E por último mas não menos importante, a interpretação da personalidade, comportamento e falas, acompanhadas do visual completo e característico que permite dar vida ao personagem.

As primeiras práticas de cosplay surgiram no Brasil na década de 1990, através dos festivais promovidos pela Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustrações (ABRADEMI), em São Paulo. Os registros da associação relatam que título de primeiro cosplayer no Brasil é do engenheiro Diego Fernando Ferreira, que aos 7 anos desfilou com uma fantasia de Saint Seiya (personagem do anime Cavaleiros do Zodíaco), no baile de Carnaval do Floridiana Tênis Clube, de Rio Claro (SP), realizado em 1995. No ano seguinte, é realizada a 1ª edição do MangáCon que anunciou o primeiro concurso de cosplay no Brasil. A partir disso, a prática é popularizada e no cenário atual é comum profissionais que trabalham como cosmaker, cosplayers de forma profissional ou como hobbie, estes artistas podem ser encontrados em festivais e eventos nacionais como o Anime Friends, a BGS (Brasil Game Show), a CCXP (Comic Con Experience) e a UCCONX.

 Estes festivais são realizados anualmente em diferentes regiões do país e não seria diferente para o Vale do São Francisco, que através do Shinobi Festival e o Festival Conexão Geek se tornam ponto de encontro para os admiradores da cultura geek. Anna Clara Rodrigues, estudante de psicologia, é uma das pessoas que encontrou no cosplay uma forma de expressar sua criatividade e paixão por este universo. Finalista do concurso de cosplay do Shinobi Festival 2025 e uma das vencedoras do concurso de cosplay do Sesc Geek, ela compartilha o processo de preparação que inicia meses antes do evento.

Foto: Anna Clara (Acervo pessoal)


“É um processo longo que demanda bastante tempo, geralmente, se tenho a intenção de competir, as preparações começam após a finalização das apresentações do ano anterior”, explica. A estudante comenta que a influência na escolha do personagem variam da afinidade, quanto a popularidade do personagem. 

Depois da escolha, iniciam os estudos dos detalhes das roupas e acessórios para calcular a quantidade de material que deverá ser usado, enquanto treina para tornar a caracterização o mais próxima possível da referência original.Contudo, a produção não se limita ao visual, para as competições a cosplayer ensaia para uma apresentação que envolve roteiro, gravação de áudio, sonoplastia e edição de vídeo. Segundo ela, a história do personagem serve como base para construir uma apresentação, que pode seguir acontecimentos da própria obra ou criar uma situação fictícia.

O interesse de Anna Clara pelo universo das fantasias começou ainda na infância. Desde os cinco anos de idade, ela já tinha contato com esse tipo de expressão e, com o acesso à internet, descobriu os animes, mangás e conteúdos sobre maquiagem e caracterização. Aos poucos, foi se identificando com a comunidade cosplay e transformando a brincadeira de infância em uma forma de expressão artística. Além da caracterização, a comunidade possibilita a rede de profissionais na produção desses itens como citados anteriormente. Para Anna Clara, esses profissionais são fundamentais para o desenvolvimento da cena cosplay e também encontram na atividade uma possibilidade de geração de renda.

Foto: Ruan Oliveira (Acervo pessoal)


No Vale do São Francisco, essa produção também ganha espaço por meio de artistas que unem o cosplay à performance. Professor de dança e cosplayer, Ruan Oliveira conheceu esse universo em 2021, quando decidiu produzir sua primeira caracterização, inspirada no personagem Satoru Gojo do anime Jujutsu Kaisen. “Foi paixão à primeira vista, pois não conhecia ele e nem a animação. Corremos contra o tempo para achar uma costureira e os tecidos, descolori meu cabelo todo e foi uma loucura do começo ao fim”, relembra.

Para Ruan, o processo de produção é uma das partes mais importantes do cosplay, a partir da escolha do personagem, ele pesquisa detalhes para aproximar a caracterização da referência original e também define como será a apresentação de acordo com a categoria e as regras de cada evento. A dança entra nesse processo como uma ferramenta para construir a performance e dar movimento ao personagem.

Finalista do concurso de cosplay do Shinobi Festival, Ruan afirma que a experiência vai além da competição, Para ele, ser reconhecido por outras pessoas durante os eventos e receber elogios pela caracterização é uma das partes mais gratificantes da prática. Mesmo atualmente em uma pausa na prática do cosplay, o personagem Satoru Gojo continua sendo uma referência marcante em sua trajetória. “Tem cinco anos que eu entrei nesse mundo e não desejo parar mais, é uma cultura muito linda. É muito gratificante você chegar em um evento de cosplay e ser reconhecido pelas pessoas presentes, tirar várias fotos e ser elogiado pelos mesmos”, afirma.


Foto: Shinobi Festival 2025


O psicólogo Rodrigo Souza sempre frequentou eventos geek, mas foi em 2015 que despertou a prática do cosplay através de incentivo dos amigos que comentavam sobre sua desenvoltura na produção. Dessa forma despertou-se a paixão pela arte, ele revela que a primeira ideia de cosplay para interpretar era um zumbi (morto-vivo originado dos gênero de terror, de ficção científica e de sobrevivência) por imaginar a facilidade, mas quando colocou na prática que compreendeu o processo árduo da personificação de um personagem. “Hoje, eu entendo a complexidade que é você fazer um cosplay, até um cosplay simples, precisa de referência. É isso que torna a experiência legal, porque você não apenas apresenta, existe um conceito e um processo de criação.” complementa.

Além de ser um campo de atuação para expressão artística e desenvolvimento criativo, um dos efeitos que o cosplay proporciona para quem admira ou pratica é a reflexão das quebras de tabus de que o cosplayer precisar ter, como características físicas semelhantes ao do personagem escolhido para ser interpretado. Rodrigo reforça como o cosplay permite a liberdade de performar independente das suas características físicas. “Eu fiquei surpreso quando vi a cosplayer Barbara Duzzi interpretando um personagem masculino, e até aquele momento eu nunca tinha visto.” relata. A partir desse momento Rodrigo explica que compreendeu como o cosplay além de um hobby ou fonte de renda, pode ser uma ferramenta de expressão. “Aquilo destravou a possibilidade de fazer qualquer outro personagem, porque eu não me prendia mais ao gênero. Eu sou quem eu sou e eu posso interpretar o cosplay que eu quiser” complementa.

Para Anna Clara, quem deseja começar precisa respeitar o próprio processo e não se deixar levar por comparações ou comentários negativos. Ruan também incentiva os iniciantes a participarem dos eventos, mesmo que a roupa ainda não esteja perfeita. “Só vão. Mesmo com vergonha, subam no palco, vão aos eventos de cosplay e sintam a energia e a magnitude de ser um cosplayer. A roupa não precisa estar perfeita, estando do seu agrado já é o suficiente”, aconselha.

Apesar do crescimento da cultura geek na região, Ruan acredita que ainda existe espaço para ampliar a presença do cosplay nos eventos do Vale do São Francisco. Para ele, os festivais poderiam investir mais na comunidade, criando espaços não apenas para competições, mas também para encontros e momentos de interação entre os participantes.“Temos muito potencial e qualidade para mostrar, só acho que os eventos poderiam investir mais na área, pois eles mesmos sabem que somos a alma dos eventos da região”, declara.

Como um dos nomes influentes na produção e performance de cosplay do Vale do São Francisco, o psicólogo destaca também como o processo de erro é necessário para o aprendizado e relata como os critérios de avaliação não são padronizados e se moldam a cada evento. “As avaliações do cosplay não seguem uma regra universal, então em alguns concursos avaliam a roupa, outros seguem pela a apresentação, e os que analisam 50% de cada critério”. Rodrigo relata ainda que o universo do cosplay é uma área que precisa de estudo e aprimoramento constante, mas possui retorno quando feito com paixão. “Acredito que a informação profissional é interpretar e viver a experiência de forma tranquila e buscando ser feliz com isso, pois é uma área que você pode se frustrar facilmente”, complementa.


Reportagem e produção por Gabriel Matos e Anne Carvalho, estudantes de jornalismo e colaboradores do MultiCiência.