Meio Ambiente

. 24 julho 2012
Bactérias podem ajudar a recompor a mata ciliar
Engenheiro agrônomo realiza estudos para recomposição da mata ciliar do rio São Francisco por meio de rizóbios e leguminosas
Patrícia Lais

Experimentos com Feijão Caupi
O uso do solo para fins agrícolas, a expansão da área urbana e a grande poluição provocada pela própria população são os principais causadores de degradações ambientais. A mata ciliar do rio São Francisco, por exemplo, é uma das vítimas de ações comprometedoras do solo e da vegetação que o margeiam.

Devido a essa problemática, o engenheiro agrônomo Rubens Carvalho, de 28 anos, mestre em Agronomia pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), desenvolve uma pesquisa baseada na recomposição da mata ciliar por meio de tecnologias sustentáveis. Carvalho é natural do distrito de Caatinga do Moura, localizado no município de Jacobina (BA) e concluiu seu mestrado em agosto de 2011.

A pesquisa, desenvolvida como dissertação de mestrado, consiste no melhoramento e crescimento da mata através da associação entre rizóbios e leguminosas. O rizóbio é um gênero de bactéria fixadora de nitrogênio que, em convivência com leguminosas, converte esse nitrogênio em amônia, que, por sua vez, anexada às plantas possibilita o bom desenvolvimento da vegetação. Esse processo, denominado Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN), é uma alternativa sustentável para recuperar o solo degradado.

Coleta de sementes na mata ciliar da UNEB
Para desenvolver o experimento, o pesquisador utilizou o feijão-caupi, um dos principais componentes da dieta alimentar no Nordeste. Essa leguminosa se adapta a solos de baixa fertilidade e tem um potencial nutritivo para diversos usos na culinária, o que facilita a vida de quem não tem condições de investir em adubo. “O feijão-caupi pode ser cultivado entre as linhas das espécies nativas durante e depois do desenvolvimento e contribuir como fonte de nitrogênio para as outras plantas, além de ser uma alternativa de geração de renda para os ribeirinhos”, acrescentou o pesquisador.

Segundo Carvalho, a escolha dessa linha de pesquisa foi feita em 2010 a partir de alguns projetos de instituições regionais que desenvolvem estudos de recomposição da mata ciliar. O maior objetivo é poder contribuir com o meio ambiente através da recuperação da mata ciliar e investir em uma tecnologia para a produção de mudas.

Os experimentos iniciais foram realizados no Departamento de Tecnologia e Ciências Sociais (DTCS) da UNEB em parceria com a Embrapa Semiárido. As áreas escolhidas foram regiões ribeirinhas dos municípios dos Estados da Bahia e de Pernambuco, onde foram coletadas amostras do solo. “Depois de feita as coletas dos solos, realizamos um experimento em casa de vegetação para captura dos isolados de bactérias. Em seguida, no Laboratório de Microbiologia do Solo, isolamos, caracterizamos e realizamos outros testes com as bactérias”, explicou.

Antes dos procedimentos serem colocados em prática no meio ambiente, são necessários diversos estudos técnicos sobre a fauna, a flora e o solo ribeirinhos e, principalmente, a realização de um processo avaliativo acerca dos motivos da degradação. “O tempo necessário é aquele no qual se pode observar que há uma reconstrução do que era nativo nas margens dos rios para que voltem a ter água de qualidade e uma diversidade biológica vegetal e animal”, disse Carvalho.

Para o pesquisador, uma das dificuldades em desenvolver a pesquisa é a falta de informação por parte dos moradores ribeirinhos e o medo de não poder produzir nas áreas mais férteis. Além disso, os custos do projeto e o incentivo e apoio do governo também interferem na aplicação da pesquisa.

Os testes realizados com bactérias em casa de vegetação foram concluídos recentemente. Nesta etapa da pesquisa, comprovou-se que variações de bactérias nativas das margens do rio podem substituir uma espécie de adubo sintético, que tem custo elevado e apresenta uma ameaça ao solo e às fontes de água. A próxima fase do trabalho é levar os testes a campo para confirmar esse resultado.

“A população deve apoiar e zelar pelo desenvolvimento das ações realizadas por um conjunto de pessoas ligadas aos órgãos de Pesquisa, Ensino e Extensão, e também contribuir atuando como um agente ativo dentro do contexto de preservação e recuperação da mata ciliar. Os ribeirinhos são os principais personagens da manutenção da vida do rio e para isso devem conservar a mata ciliar que protege o seu leito”, afirmou Carvalho a respeito do que a população deve fazer para contribuir com o desenvolvimento da pesquisa e para manter o rio isento de danos futuros.

Matéria publicada no jornal Gazzeta do São Francisco em  21/07/2012