Impactos da Energia Eólica na Bahia: Desafios e Conflitos para Comunidades de fundo e fecho de pasto

MultiCiência 17 agosto 2023
O setor da energia eólica no Brasil causa impactos às comunidades de fundo e fecho de pasto, que mantêm uma relação ancestral com suas terras e recursos naturais. Os desafios enfrentados pelas comunidades são agravados pela falta de respeito às suas culturas, ausência de medidas de mitigação efetivas e dificuldade no acesso aos territórios tradicionais.

O pesquisador do IRPAA Judenilton Souza ressalta que a forma como os parques eólicos são implantados traz problemas para as comunidades locais, com apropriação dos territórios, que, na maioria das vezes, “são terras públicas devolutas ocupadas tradicionalmente pelas populações".

Reunião com representantes de comunidades

As comunidades de fundo e fecho de pasto têm a posse de áreas coletivas que são utilizadas há gerações para atividades como criação de animais e extrativismo. Para elas, a caatinga é considerada um santuário ecológico e um patrimônio cultural. A invasão desses espaços pelas empresas eólicas modifica o modo de vida dessas comunidades, dificultando o acesso às áreas coletivas e caminhos tradicionais. "Isso impede o acesso das famílias aos seus territórios e resulta na perda de criatórios, regularização de minifúndios e grilagem de terras", afirma Judenilton.

Além disso, a especulação imobiliária tem aumentado nas terras das comunidades tradicionais, com empresas celebrando contratos de arrendamento individualmente com pessoas sem um amplo processo de discussão e transparência, o que agrava a situação.

A gerente de Turismo da cidade de Sento Sé, Mariluze Amaral, destaca que os principais impactos são visíveis e abrangentes. Além da grilagem de terras, a implantação dos parques eólicos tem resultado na morte de nascentes, desvios de mananciais e afugentamento de animais nativos, causando prejuízos na agricultura familiar, na criação de caprinos e ovinos, na fruticultura e em outras atividades essenciais para as comunidades.

Mariluze Amaral

Com a implantação dos parques eólicos, as áreas de caatinga utilizadas para a criação de caprinos, ovinos e bovinos são desmatadas, o que impacta diretamente na diminuição do rebanho, na perda da principal fonte de renda das famílias e no extrativismo natural.

Mobilização das organizações sociais
As comunidades afetadas têm demandas concretas, que incluem garantir seu modo de vida e a permanência em seus territórios tradicionais. Elas destacam a importância do respeito ao direito de consulta prévia, livre e informada, conforme previsto na Convenção nº 169, da Organização Internacional do Trabalho (OIT). "As famílias das comunidades precisam conhecer seus direitos e ter a oportunidade de decidir conscientemente o que é melhor para elas", ressalta Judenilton.

A agricultura familiar é um dos setores que é prejudicado pelos parques eólicos.

No entanto, as empresas muitas vezes não fornecem informações adequadas aos moradores e omitem diversos dados relevantes. Isso dificulta a compreensão dos impactos, dos direitos territoriais e das alternativas energéticas descentralizadas para as comunidades. O trabalho das organizações e movimentos sociais e populares é fundamental na informação sobre a política energética, buscando esclarecer questões relacionadas à implantação dos parques eólicos, apropriação indevida das estradas, dificultando seu acesso e prejudicando a mobilidade local e o desmonte de fundos de pasto, principalmente pelo cercamento das áreas.

A destruição de espécies ainda não estudadas, tanto da fauna quanto da flora, e o comprometimento de bacias hidrográficas, com a morte de nascentes e riachos, também são problemas graves. “Além disso, observa-se o desrespeito aos programas de mitigação, a destruição de sítios históricos, arqueológicos, paleontológicos e a ameaça às comunidades tradicionais”, pontua Mariluze Amorim.

Para enfrentar esses desafios, as comunidades exigem maior conhecimento técnico, recursos e apoio das autoridades locais. “É fundamental fortalecer as comissões de acompanhamento de empreendimentos, garantir a transparência nos programas de compensação e assegurar a aplicação adequada dos recursos destinados a essas comunidades pelo BNDES”, acrescenta.

Alteração nos modos de vida
A ética na implantação de empreendimentos sustentáveis deve ser um princípio fundamental a ser seguido. Como destaca Mariluze Amaral, "as empresas e as autoridades responsáveis pela licença e fiscalização dos empreendimentos devem respeitar a cultura e os direitos das comunidades, em consonância com a legislação vigente".

Um dos grandes desafios enfrentados pelas comunidades é o desrespeito total à sua cultura por parte das empresas. As medidas de compensação e os programas implementados não são cumpridos de forma adequada, apresentando falhas e falta de transparência. Comissões de acompanhamento de empreendimentos também precisam ser fortalecidas, para que possam desempenhar efetivamente seu papel de fiscalização. Além disso, é necessário garantir o respeito aos direitos territoriais das comunidades, como o direito à consulta prévia, livre e informada. "É necessário ainda garantir que essas comissões sejam compostas por membros capacitados e realmente engajados na defesa dos interesses das comunidades", afirma Judenilton.

Diante dessas questões, as organizações e movimentos sociais têm desempenhado um papel fundamental na formação e informação das comunidades sobre a política energética. A discussão sobre os impactos socioambientais, os direitos territoriais e as alternativas de energia descentralizada tem sido centrais nas ações dessas organizações, visando garantir a preservação da cultura e dos meios de vida das comunidades tradicionais.

É necessário um esforço conjunto da sociedade, das autoridades e das empresas para encontrar soluções sustentáveis que respeitem os direitos das comunidades, promovam o desenvolvimento econômico e, ao mesmo tempo, protejam o meio ambiente. Somente com um diálogo aberto e a adoção de medidas efetivas será possível construir um futuro energético mais justo e sustentável para todos.

Mariluze Amaral destaca a importância de garantir o modo de vida e a permanência das famílias em seus territórios tradicionais. Ela ressalta que as comunidades têm demandas concretas e precisam conhecer seus direitos, para que não sejam simplesmente impactadas pelos empreendimentos sem ter a oportunidade de decidir conscientemente o que é melhor para elas. "É fundamental assegurar que as comunidades sejam de fato consultadas e informadas, em conformidade com os princípios estabelecidos", afirma Mariluze.

A energia eólica tem potencial para contribuir com a política energética em tempos de mudança climática. No entanto, é crucial que a implantação de parques eólicos respeite os direitos das comunidades tradicionais, evitando violações territoriais e garantindo um diálogo transparente e participativo. Somente assim será possível conciliar o desenvolvimento energético com a preservação da cultura, do modo de vida e do meio ambiente das comunidades afetadas.

Reportagem de Flávio Freire para a Série "Sertão das eólicas e mineradoras: como a implantação dos empreendimentos pode afetar as comunidades no território Sertão São Francisco", desenvolvido no componente Redação Jornalística II e Planejamento Visual, ministrados pela professora Andréa Cristiana e Cecílio Bastos, respectivamente