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Protocolos de avaliação ambiental mostram níveis de preservação variados dentro da Uneb Juazeiro

Foto: Letícia Duarte / NAC


Com o objetivo de preservar o bioma da caatinga dentro do campus III da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em Juazeiro, a instituição adotou o Protocolo de Avaliação Rápida (PAR), que consiste em um método de verificação de integridade ambiental que utiliza uma abordagem qualitativa com a finalidade de auxiliar no monitoramento da qualidade da área selecionada, visando a conservação da região. Por ser interdisciplinar, pode ser aplicado por profissionais do setor ambiental, gestores, estudantes e, ainda, comunidades locais.
O PAR é uma ferramenta de baixo custo e pode passar por adaptações conforme os contextos e necessidades observadas. Contudo, a importância desse tipo de diagnóstico é um dos pontos que precisa ser discutido dentro e fora da comunidade acadêmica para que a conservação ambiental, principalmente no local, seja trabalhada de maneira mais eficaz.

Segundo Rosangela Botelho, geógrafa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Rio de Janeiro, a avaliação possui níveis de integridade que podem ir do ruim ao ótimo e a partir dos resultados obtidos é possível identificar quais elementos estão com notas baixas e intervir. A perda da integridade tem ligação com a presença do ser humano no ambiente."A trilha não é um elemento natural dentro de uma área protegida e, com isso, o ambiente começa a sofrer os impactos causados pela atividade humana”, explica a geógrafa.

Foto: Letícia Duarte / NAC

Dentro do perímetro do Campus III da UNEB, as classes de integridade variam de ruins a boas nas trilhas e lagoas presentes no terreno. A professora Luzineide Dourado, coordenadora do projeto CONVIVERDE - Programa de Redes Ambientais na cidade de Juazeiro/BA - comenta que o PAR foi aplicado pela primeira vez na trilha José Theodomiro de Araújo, onde foram identificados vários trechos da trilha em situações muito ruins, enquanto outros estavam bons.

Foto: Letícia Duarte / NAC
A partir de diagnósticos como o PAR, a preservação ambiental de cidades e áreas verdes ganham mais visibilidade e servem como sinal de alerta sobre os prejuízos que ações humanas podem causar para o ecossistema. O conhecimento produzido dentro da universidade pode mudar a relação da população com a zona em que vive. O professor Lindemberg Almeida realizou o PAR Áreas Verdes Escolares - metodologia de diagnóstico ambiental escolar - que destaca a importância de manter o verde nativo vivo na educação. “Dentro da universidade surgem as possibilidades com o olhar voltado para a educação que pensa o local, semiárido, o chão que pisa. A escola não pode ficar alheia.”, destaca.


Para Rubens Carvalho, docente do curso de Engenharia Agronômica na UNEB, “esse é um dos protocolos de avaliações que a gente tem informações importantes para preservar e conservar de forma atenuada no presente, mas bem acentuada no futuro. Trazendo para o cotidiano acadêmico é onde vamos conseguir conduzir a nossa visão ambiental”, ressaltou.

Por Aylla Bomfim, estudante de Jornalismo em Multimeios e colaboradora do MultiCiência.


Observatório de ações afirmativas constroi saberes antirracistas no Sertão do São Francisco

Com uma atuação que vai da produção acadêmica à extensão universitária, o Observatório das Políticas Afirmativas Raciais (Opará) tem se consolidado como um espaço de articulação de saberes e práticas comprometidas com a transformação da realidade, militância social e grupo de pesquisa no território do Sertão do São Francisco. Vinculado a Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), no campus de Petrolina (PE), a organização está prestes a realizar o I Simpósio sobre Questão Racial — que acontece nos dias 13, 14 e 15 de maio de 2025, no Cineteatro da UNIVASF, no município pernambucano.


Para trazer mais detalhes sobre a construção deste Simpósio e ações afirmativas da Lei 12.990/2014 na promoção da equidade racial, nós conversamos com uma das coordenadoras do Opará, Ana Luisa de Oliveira, que também contou a trajetória do Observatório e importância de pensar a comunicação e educação a partir do território, da ancestralidade e da luta antirracista.

Ana Luisa de Oliveira. Foto: ASCOM Opará

MultiCiência: Como surgiu o Observatório Opará e quais são seus principais objetivos?


Ana Luisa de Oliveira: O Observatório Opará surgiu a partir das inquietações do professor Edmilson Santos, que pesquisava ações afirmativas e políticas públicas, e durante o ano de 2019, escreveu o documento “Semeadura de um Baobá”, refletindo sobre seu legado e a falta de aplicação da Lei 12.990/14 - que trata da reserva de vagas para pessoas negras em concursos públicos. Na sua atuação junto ao Colegiado de Educação Física da UNIVASF-PE, ele impulsionou a criação de uma comissão antirracista e um relatório que revelou a omissão da universidade na aplicação dessa lei. A partir disso, consolidou-se a necessidade de um espaço de monitoramento e reflexão crítica, dando origem ao observatório. Com o tempo, a gente passou a atuar também em projetos de extensão e em ações mais diretas para com a comunidade. Hoje, o Opará é esse espaço múltiplo que mistura pesquisa, vivência e militância.


MultiCiência: Como nasceu a iniciativa de organizar o I Simpósio sobre Questão Racial?


Ana Luisa de Oliveira: A ideia do evento surgiu da urgência de criar um espaço dentro da universidade para discutir o racismo estrutural e promover o encontro de diferentes saberes em torno das questões raciais. Não queremos que seja só um evento acadêmico, mas um espaço vivo, onde a escuta, o diálogo e a presença dos territórios estejam no centro. Estamos preparando uma programação com mesas, oficinas, rodas de conversa e intervenções culturais. Vai ser um momento importante para reunir estudantes, pesquisadores, militantes e a comunidade do entorno.


MultiCiência: Quais os temas centrais do simpósio?


Ana Luisa de Oliveira: Vamos tratar de comunicacao antirracista, juventude, politicas públicas, memória e identidade. A proposta é tensionar os saberes acadêmicos com os saberes de quem vive essas experiências no cotidiano. Queremos fazer um evento que tenha sentido real para quem participa.


MultiCiência: E qual a importância de ações como essa dentro de uma universidade pública neste território?


Ana Luisa de Oliveira: Trabalhar a pauta antirracista no interior do Nordeste exige uma escuta muito atenta ao território e às experiências locais. Um dos maiores desafios é romper com a ideia de que o racismo é um problema ‘das grandes cidades’ ou ‘do Sul e Sudeste’. Muitas vezes, aqui, o racismo se expressa de forma mais sutil, mas profundamente enraizada nas práticas institucionais, nas relações de poder e no silenciamento da população negra.

Outro desafio é garantir que as ações do Observatório dialoguem com a realidade das comunidades e não apenas com o universo acadêmico. Por isso, a gente aposta muito na extensão, na escuta ativa e no trabalho com movimentos sociais. É nesse chão que a luta antirracista se fortalece e ganha sentido.


MultiCiência: E quais os resultados vocês esperam alcançar com a realização do I Simpósio sobre Questão Racial?


Ana Luisa de Oliveira: O nosso sonho é que o Opará continue sendo esse espaço de formação crítica e de articulação entre universidade e comunidade. Queremos fortalecer ainda mais a presença de mulheres negras, indígenas e pessoas periféricas nas discussões acadêmicas e políticas. Com o simpósio, a gente espera abrir caminhos para que mais pessoas negras ocupem espaços de fala, de poder e de criação dentro da universidade. Eu mesma espero olhar para o auditório e ver muitas pessoas negras — estudantes, professores, lideranças comunitárias — protagonizando os debates, apresentando seus trabalhos, sendo ouvidas.

E com muita coragem e compromisso, estamos construindo este evento de forma totalmente gratuita para quem vem assistir. Estamos trazendo lideranças políticas e intelectuais de várias instituições como AGU, MPF, DPU, TCU, MNU, etc… que, pela primeira vez, participam de uma iniciativa como essa no Sertão do São Francisco. É um marco para a região e um passo importante na construção de espaços verdadeiramente plurais e antirracistas.


Os interessados podem saber mais informações através das redes sociais do Opará no instagram (@observatorioopara) e do site: observatorioopara.com.br .


Por Inês Eugênia Cruz, estudante de Jornalismo em Multimeios, colaboradora do MultiCiência e vinculada ao Observatório Opará.


MultiCiência realiza 1° Encontro de Agências de Notícias das Escolas do Vale do São Francisco

Nesta quarta-feira (09/10), a Agência de Notícias de Ciência, Educação e Tecnologia MultiCiência, vinculada a UNEB de Juazeiro-BA, realizou no Campus III, o 1° Encontro de Agências de Notícias das Escolas do Vale do São Francisco. O evento, pensado para compor as atividades do DCH III da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia,  recebeu estudantes do ensino médio das escolas da rede pública de ensino do Território do Sertão do São Francisco.


A mesa de abertura, composta pelas professoras Carla Paiva, coordenadora da Agência MultiCiência; Rosicleide Gomes, articuladora de projetos pedagógicos do Núcleo Territorial de Educação (NTE10); e Andréa Cristiana Santos, Diretora do Departamento de Ciências Humanas (DCHIII) e idealizadora do MultiCiência, deu início ao evento. As professoras compartilharam suas expectativas e objetivos com o encontro, destacando a importância da comunicação e da ciência no ambiente escolar. A abertura foi encerrada com a apresentação da orquestra "Som do Coração", formada por estudantes da Escola de Tempo Integral Iracema Pereira Paixão e da Escola Maria de Lourdes Duarte, coordenada pelo professor Joelson Batista.

Mesa de abertura. Reprodução: Glícia Barbosa

A programação seguiu com a palestra da professora Lindsai Amaral, professora da rede municipal de Juazeiro - BA, coordenadora pedagógica da rede estadual da Bahia, com o tema “Como a ciência contribui para a educação?”. A palestrante explicou as peças básicas da ciência e do método científico de pesquisa, a partir do Lego, uma brincadeira infantil que instiga a mente, fazendo uma correlação entre o brinquedo e a pesquisa científica como incentivo a resolução de problemas, com o objetivo de explicar a construção do pensamento científico.


Em entrevista, a professora expressou suas altas expectativas para a primeira edição do evento. “Eu acho que a gente precisava fomentar a criação e a movimentação das agências de notícias aqui das escolas da nossa região, porque a gente tá vendo essa expansão em vários lugares do Brasil e no mundo, e Juazeiro não pode estar fora disso porque Juazeiro é um polo de conhecimento científico”, afirma.


Lindsai Amaral. Reprodução: MultiCiência

A programação da manhã foi encerrada com a apresentação da professora doutora Andréa Cristiana Santos, idealizadora do MultiCiência, que expôs os projetos e redes da Agência de Notícias vinculada ao DCHIII da UNEB.


Durante a tarde, o evento continuou com oficinas ministradas pelos monitores da Agência MultiCiência para os estudantes das escolas participantes, como o Colégio Democrático Estadual Profª Florentina Alves dos Santos (Codefas), Hildete Lomanto, Pedro Raymundo Moreira Rego, Colégio da Polícia Militar - CPM Alfredo Vianna, e SESI. As formações incluíram fotografia, escrita jornalística, vídeo reportagem, edição de vídeo, criação de card, entrevista e reportagem e divulgação em redes sociais.

Para os participantes, as palestras e oficinas do 1º Encontro de Agências foram importantes para formação dos estudantes participantes, como enfatiza a professora Lindsai Amaral ao pontuar a importância do intercâmbio entre escola e universidade, “Precisamos divulgar e fomentar isso. Tenho certeza de que as escolas são espaços muito promissores. Pois, a importância da divulgação científica reside na nossa necessidade hoje de que o conhecimento válido, pesquisado, verificado chegue às pessoas independente delas estarem na universidade, delas estarem na escola, que ela chegue nos lugares mais distantes”. 


Por Rayssa Keuri e Luiz Rodrigues, estudantes de Jornalismo em Multimeios e colaboradores do MultiCiência.

Agosto Dourado: a busca pela construção de uma jornada de amamentação mais leve e segura para mães e bebês

O leite materno é o único alimento recomendado nos primeiros meses de vida do bebê. De acordo com a UNICEF, “Os bebês até os seis meses de idade devem ser alimentados somente com leite materno, não precisam de chás, sucos, outros leites, nem mesmo de água.” Pensando na importância dessa conscientização, foi criada em 1990, a campanha “Agosto dourado”, mês reservado a conscientização sobre a importância do aleitamento materno. A cor dourada se refere ao padrão ouro do leite materno.


Mesmo sendo de grande importância, há mães que não conseguem produzir leite, bem como há bebês em UTI 's que necessitam dele, é aí que agem os bancos de leite humano. No Vale do São Francisco, o Hospital Dom Malan é responsável por essa rede de distribuição, através do banco de leite materno que atende a rede PEBA, um dispositivo de regulação que atende os estados de Pernambuco e Bahia.


O banco de leite que atende essa rede funciona há 29 anos dentro do hospital Dom Malan, unidade materno infantil de alta complexidade, na cidade de Petrolina, em Pernambuco, recebendo gestantes de alto risco e bebês prematuros de 53 municípios circunvizinhos. Segundo a ASCOM do hospital, o banco de leite atende bebês prematuros que estão nos leitos de UTI, na Unidade de Cuidado Intensivo (UCI) e no alojamento canguru. “O banco de leite atende mais de 50 crianças”.

Foto: Internet

Diante de uma demanda cada vez mais alta, surge uma das maiores dificuldades encontradas pelas equipes da unidade, que é a falta de leite, pois para suprir essa necessidade as solicitações chegam a atingir em média 10 litros de leite por semana. Pensando em resolver esse problema, o hospital vem realizando campanhas internas de conscientização dentro da unidade, conseguindo então aumentar as doações de mães dentro e fora do hospital, que são visitadas duas vezes por semana para a coleta.


Diversas mães e bebês já foram e são beneficiados por esse banco de leite, não só com doações, mas também com orientações sobre amamentação, como por exemplo, quando caso o bebê não consegue fazer a sucção correta do leite. É o caso de Érica Dias, mãe que já foi beneficiada pelo banco. “Como eu tinha muito leite, eu não fazia uso das doações do Banco de Leite do Hospital Dom Malan. As enfermeiras  acreditavam que meu filho estava com dificuldade na sucção na pega da mama. Então, era retirado o leite da minha própria mama e colocado em uma mamadeira. Eles colocavam uma mangueirinha na mamadeira e aí era a refeição que ele fazia lá no biama”, acrescenta Érica.


Neste cenário, é necessário entender como funcionam esses bancos de leite. A médica Pediatra Flávia Guimarães  explica que os bancos de leite do Brasil trabalham na Rede Nacional de Bancos de Leite, em um sistema de produção, adicionando e recolhendo dados a cada mês, como os volumes de leite pasteurizado, produzidos e número de doadoras nesses períodos. Esses dados são recolhidos através das mães que doam e também das que recebem as doações, geralmente porque algumas delas acabam produzindo pouco leite, por falta do estímulo feito pelos bebês, que nestes casos estão impossibilitados, por estarem em Unidades de Terapia Intensiva, as UTI 's.


Aplicativo “Amamente”, uma ferramenta facilitadora  para a amamentação

Foi pensando na necessidade de informação para as mães que doam, como também para as que recebem as doações, que a professora  Gilvania Paixão criou o aplicativo “Amamente”, fruto de um projeto de desenvolvimento tecnológico realizado no Campus III da Universidade do Estado da Bahia, UNEB, em Juazeiro, disponível para download desde 2023. Unindo essa necessidade à potência da internet para a disseminação de informações. “A mulher que amamenta exclusivamente precisa dispor de seu tempo quase que integral para um bebê, isso é a realidade, e muitas vezes o celular é que acompanha a gente durante o dia, as noites em claro, então por que não transformar esse celular em uma fonte de informação de qualidade também para essas mulheres “, explica Gilvania.



Logo do aplicativo Amamente, criado pela professora Gilvania.



O APP funciona de forma inovadora, trazendo técnicas de manejo de amamentação, superação de dificuldades, favorecimento de mães que estão de volta ao mercado de trabalho para entender os protocolos de ordenha e armazenamento do leite. Esse trabalho conta no momento com três estudantes bolsistas de Iniciação Científica da UNEB, Campus Senhor do Bonfim, que desenvolvem uma pesquisa sobre os benefícios do aplicativo, com profissionais de saúde e o trabalho de divulgação dessa ferramenta.


Uma das estudantes envolvidas nesse trabalho é Iasmin Costa, que entende o aplicativo como uma ferramenta muito importante neste período em que a mãe está amamentando. "O amamente atua como facilitador na vida de tantas gestantes que estão em preparação, puérperas, profissionais e redes de apoio", comenta a estudante, que tem como expectativa melhorar a experiência de lactação para as mães e bebês, pois segundo ela, "o  nosso objetivo é tornar a jornada da amamentação mais leve".


Por Laíse Ribeiro, estudante de Jornalismo em Multimeios e monitora do MultiCiência.

Luísa Bessa Freire Recebe Menção Honrosa na 28ª Jornada de Iniciação Científica da FACEPE


Foto: Luísa Bessa Freire

Luísa Bessa, graduanda em Farmácia, na Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), foi recentemente homenageada com a menção honrosa na 28ª Jornada de Iniciação Científica da Fundação de Amparo à pesquisa do Estado de Pernambuco (FACEPE), recebendo o prêmio Ricardo Ferreira ao Talento Jovem Cientista na área da Ciência da Saúde. O reconhecimento veio graças ao seu trabalho no projeto “Antes Cedo do que Tarde: Conhecimento e Utilização de Plantas Medicinais da Caatinga por Estudantes Adolescentes na Cidade de Petrolina”. A proposta dessa atividade foi a investigação do conhecimento de adolescentes sobre plantas medicinais da Caatinga, estimulando a conservação desse bioma.

O projeto, coordenado pelo docente Dr. Braz José do Nascimento Júnior, membro do colegiado de Farmácia, praticou uma metodologia que divididiu em três etapas. O estudo contou com a participação de 44 estudantes, que inicialmente responderam a um questionário. Posteriormente, participaram de oficinas temáticas sobre o cultivo, preparo e uso de plantas medicinais da Caatinga, e finalizaram com um questionário. A pesquisa destaca que, apesar de um conhecimento limitado sobre plantas medicinais entre os adolescentes, a transmissão familiar ainda desempenha um papel crucial na perpetuação dessa sabedoria.

Foto: Luísa Bessa Freire

Ao longo do desenvolvimento do projeto, a principal dificuldade enfrentada pela equipe foi a locomoção até a escola, situada em uma área rural de difícil acesso. No entanto, a experiência e o planejamento detalhado do professor Braz permitiram a superação desse obstáculo, garantindo a execução eficiente das atividades. 

Participar do evento e receber a menção honrosa foi uma experiência gratificante e enriquecedora para Luísa e sua equipe. Durante o evento, tiveram a oportunidade de apresentar os resultados do projeto e receber conselhos valiosos sobre como aprimorar suas futuras abordagens. Ela destaca a importância da valorização da sabedoria popular e da conservação da Caatinga, especialmente entre os jovens. A jovem pesquisa de iniciação científica acredita que essa valorização garante a preservação cultural, promove a sustentabilidade ambiental e fortalece os laços entre a universidade e comunidade. 

Os resultados do estudo mostraram que 36,36% dos participantes usavam plantas medicinais aprendidas com pais e avós, enquanto 95,45% dos adolescentes sabiam o que é a Caatinga. As plantas medicinais mais citadas foram capim santo, alecrim e erva doce. Ela destaca que a continuação do projeto pode ter um impacto ainda maior na educação e preservação ambiental entre os jovens de Petrolina.

Por Meiwa Magalhães

Projeto de Pesquisa na Facape registra oscilações nos valores da Cesta Básica em Petrolina e Juazeiro

No mercado, pode-se notar oscilações de preço em diversos produtos como alimentos, frutas e vegetais, como foi o caso do tomate. Durante a safra do tomate, a abundância desse produto pode resultar em preços mais baixos, no entanto, fora da temporada, quando a oferta diminui, os preços podem subir devido à escassez. Essas variações são comuns devido às flutuações sazonais na produção agrícola e destacam como a oferta e a demanda influenciam os preços dos produtos que encontramos no mercado. “A mudança de preços semanalmente me assusta um pouco, as oscilações tem sido evidente, os itens necessários tomaram uma proporção enorme com relação aos preços, o arroz e feijão, por exemplo, mudam constantemente e é difícil encontrar uma promoção e quando encontro levo em grande quantidade para aproveitar”, disse a consumidora Luciana Freire dos Santos, de 51 anos.

O curso de Economia da Faculdade de Ciências Aplicadas e Sociais de Petrolina (Facape), elaborou o projeto de extensão e pesquisa denominado “Cesta Básica”, abordando a composição dos itens essenciais e o cálculo dos preços envolvidos. Coordenado pelo professor de Econometria da instituição João Ricardo, esse projeto tem 10 anos e desenvolve pesquisas em supermercados da Região do Vale do São Francisco. “O objetivo principal é promover conscientização e conhecimento sobre questões relacionadas à segurança alimentar e acesso a produtos essenciais e as oscilações deles” - afirma João Ricardo.




Em uma abordagem prática, o projeto conta com dois alunos bolsistas, eles fazem um mapa e buscam semanalmente analisar o preço do arroz, feijão, macarrão, carne, sal, banana,  entre outros, em supermercados, durante o mês, analisando os fatores que influenciam os preços desses produtos que compõem a cesta básica. São considerados aspectos como sazonalidade, condições econômicas locais e globais, além de políticas governamentais que impactam diretamente os custos dos alimentos e a redução no período de produção devido a questões climáticas. 

O projeto “Cesta Básica” contribui para o conhecimento da população, compartilhando um boletim, descrevendo as oscilações desses valores. Em Abril de 2024, o boletim da Facape mostrou que o aumento da cesta básica foi de 1,81% em Petrolina e 1,36% em Juazeiro. Diante disso, o valor da cesta básica em Petrolina/PE ficou R$631,53 e na cidade baiana foi de R$ 584,80. Em 12 meses, o tomate acumula alta de 83,93% em Petrolina e de 55,66% em Juazeiro.


“As tecnologias já fazem parte do Jornalismo”, entrevista ping-pong com o jornalista e pesquisador Paulo Faltay

Internet, sites, aplicativos e smartphones se tornaram objetos fundamentais no cotidiano da maioria das pessoas e, no campo da comunicação, avançam cada vez mais, alterando o trabalho jornalístico. Na verdade, as tecnologias de informação, como máquina de escrever, impressões de fotografias, computadores etc sempre fizeram parte do cotidiano do jornalismo, porém, as redes sociais, o uso excessivo das plataformas digitais e agora a Inteligência Artificial – IA se tornaram pauta pelas questões que podem afetar a saúde mental dos usuários, independente da idade e objetivo da sua utilização, disseminando possíveis conflitos éticos sobre o uso delas no jornalismo.

Para entender melhor essa situação, o MultiCiência entrevistou o jornalista e pesquisador nas áreas de comunicação, saúde e tecnologias, Paulo Faltay, um dos convidados da mesa de abertura do Intercom Nordeste 2024, que ocorreu nos dias 08, 09 e 10/05/2024, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Multi: As inteligências artificiais já participam de nosso cotidiano, facilitando tarefas e organizando sistemas ou ideias. Como e até onde essa tecnologia pode influenciar nas redações e no trabalho do jornalista?

 

Paulo Faltay: Já existem recursos que facilitam e tornam quase automáticas as nossas tarefas no dia a dia, como o corretor dos teclados de celulares e aplicativos de digitação, sistema de recomendações e a verificação de dados e checagem de fatos. As tecnologias já fazem parte do jornalismo. Mas também precisamos pensar como os jornalistas utilizam elas, pode ser uma tradução, transcrição de áudio, elas podem ser usadas para otimizar o seu trabalho. As tecnologias vão influenciar na pré-produção, no produto final e também na pós-produção.




 

Multi:  Nós percebemos no dia a dia que ao acessar algum site ou falar que temos interesse em algo, somos bombardeados com matérias e anúncios sobre aquilo. Como os algoritmos podem influenciar, não somente uma escolha de consumo de um produto, como também a nossa visão política?

 

Paulo Faltay: Os sistemas de conteúdo e recomendação funcionam como uma espécie de bolha ou câmera de eco, ela calcula as suas atividades na internet, os seus likes, comentários, compartilhamentos e produtos que consome, criando um perfil.  Não é uma rede humana que te influencia, como família, amigos e outras pessoas que você pode conhecer. Então, elas te fazem acreditar que você tem uma liberdade, mas elas te “prendem” em assuntos e coisas que você já sabe ou estão diretamente ligadas com os conteúdos que você já está acostumado. O sistema segue mais na linha do não mostrar, ou seja, ele esconde outros assuntos para o usuário.

 

Multi: Em pesquisas recentes, foi apresentado que o uso da internet, de aplicativos e o excesso de informação fazem mal para a nossa saúde mental. É possível reverter esse quadro e tornar o mundo digital menos agressivo? Como?

 

Paulo Faltay: Eu não gosto de pensar nesse campo da saúde mental e das redes sociais como se existisse uma diferença entre tecnologia e uma pessoa individual, elas estão relacionadas, existe uma relação humana e tecnologia. E nesse processo, ocorre uma disputa, uma competitividade além do normal para entrar dentro de nichos e mercados que são baseados em curtidas, comentários e visualizações. Nesse caso, é necessário repensar o mercado e a construção e o desenvolvimento dos algoritmos, mas isso também precisa ser feito a partir de uma mudança de comportamento do usuário comum das plataformas digitais. Esse processo está diretamente ligado com a comunicação. Somos nós, jornalistas, que também precisamos trazer informações, educar e repensar como devemos usar a nossa credibilidade para tentar reverter essa situação.

 

Multi: E por fim, o que deve mudar na mente dos futuros profissionais de comunicação?


Paulo Faltay: O grande jornalismo e a comunicação sempre estiveram no caminho para alcançar um grande público e vender, no entanto, é preciso saber quais são os valores e as virtudes de uma comunicação e da comunicação digital. Não podemos pensar somente nos parâmetros das plataformas, temos que usar de estratégias e desses valores e virtudes do jornalismo para mudar esse panorama, seja nas pesquisas como também nas redações, matérias e reportagens.


Por João Pedro Tínel, estudante do curso de Jornalismo em Multimeios e colaborador do MultiCiência.

Pesquisas discutem imprensa negra e Comunicação antirracista no Brasil

Em 14 de setembro de 1833, o tipógrafo Francisco de Paula Brito fundava, no Rio de Janeiro, o jornal “O Homem de Côr”, conhecido também como “O Mulato”, que lutava pela abolição da escravidão no Brasil. Pioneiro na imprensa negra do país, O Homem de Côr foi a inspiração para criação dos periódicos Brasileiro Pardo e o Lafuente, lançados cerca de dois meses depois. 

 

Cento e noventa anos depois, a imprensa negra no país promove uma comunicação contra-hegemônica, em um país dominado por conglomerados de mídia, geralmente administrados por famílias com passado colonialista. Segundo pesquisa feita pelo Media Ownership Monitor (MOM) Brasil, Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação e Repórteres sem Fronteiras, cinco grupos e seus proprietários controlam mais da metade dos veículos de comunicação do país – Grupo Globo, Bandeirantes, família Macedo, Grupo de escala regional RBS e Grupo Folha. 


Essa concentração de mídia evidencia o racismo estrutural que se manifesta no campo da comunicação. Em 2021, pesquisa da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) sobre a presença de profissionais negros nos maiores jornais impressos do país demonstra que as pessoas brancas correspondem a 84% dos profissionais; pardas, 6,1%; pretas, 3,4%; amarelas, 1,8% e indígenas a 0,1%. 


A pesquisadora Suzy Santos, no artigo E-Sucupira: o coronelismo eletrônico como herança do coronelismo nas comunicações brasileiras (2006), define o coronelismo eletrônico como o singular cenário recente brasileiro, a partir de 1980,  no  qual deputados  e  senadores  se  tornaram  proprietários  de empresas concessionárias   de Comunicação   e,   simultaneamente,   participam   das comissões  legislativas  que  outorgam  os  serviços  e  regulam  os  meios  de  comunicação  no país. 


Para ela, por esse viés entende-se porque estudiosos avaliam que a mídia hegemônica brasileira é racista devido a concentração do poder social, econômico e político em algumas famílias, cujo poder é oriundo do coronelismo colonial e escravocrata que estruturou o Brasil, consequentemente a mídia reproduzirá as ideias dos grupos, estrutura social e os privilégios que os constituíram.


O sociólogo Muniz Sodré, em seu livro Claros e escuros: identidade, povo e mídia no Brasil (1999), discorre sobre a origem da mídia brasileira, intelectualmente elitista e que atua na legitimação ou na escamoteação do racismo estrutural. O pesquisador esclarece que essa gênese fez da mídia um patrimônio nas mãos de poucas e poderosas famílias, cujo monopólio exerce forte influência no imaginário social coletivo do país, sobre praticamente todos os temas, e com o racismo não seria diferente, criando uma opinião pública racista e estigmatizada. 


Historicamente, o racismo está presente na estrutura social, configurando o que Silvio Almeida – advogado, filósofo e o atual ministro dos Direitos Humanos do Brasil –, define no livro Racismo Estrutural (2018) como o caráter institucional do racismo. Ele acredita que a estrutura racista construiu a sociedade brasileira, portanto, a mídia. Isso se manifesta desde os profissionais que constituem os meios de Comunicação – principalmente nos cargos mais altos –, até aos conteúdos e a forma que os veiculam. 


Mudanças na postura da mídia hegemônica


Estudos realizados por pesquisadores da área das Ciências Sociais Aplicadas, da Comunicação, especificamente, mostram o panorama da cobertura das temáticas raciais, principalmente do racismo, na imprensa hegemônica brasileira. 


A pesquisadora da Universidade de São Paulo, a USP, Tainá Medeiros, trabalha com o tema do racismo estrutural no Jornalismo digital, e traçou um panorama de matérias publicadas em veículos de comunicação hegemônicos brasileiros, de 2010 a 2020, usando análise de conteúdo para estudar qualitativamente os textos.


Em seu trabalho de conclusão de curso (TCC) da Especialização em Cultura, Educação e Relações Étnico Raciais, a pesquisadora identificou 737 matérias de 178 veículos, porém analisou apenas 23 meios digitais, pois estes publicaram acima de 10 matérias com a temática étnico-racial. Foi constatado que houve um aumento significativo da cobertura desse tema, especialmente a partir de 2017. 


Medeiros elenca alguns motivos que levaram a esse aumento, tais como a pressão articulada politicamente do Movimento Negro Unificado (MNU) principalmente, que a partir desse período, e por meio de eventos como a Marcha das Mulheres Negras, de 2015 e a Coalizão Negra Por Direitos, de 2019, se mobilizou meio da internet, fazendo a mídia agendar tais assuntos.  



Comunicação antirracista e imprensa negra: a “saída”?


Professora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), escritora e pesquisadora do tema racial há anos, Ceres Santos aponta que após a pandemia de Covid-19 e dos assassinatos de George Floyd nos Estados Unidos e de João Alberto Silveira Freitas, pela polícia, no Brasil, ambos em 2020, houve um aumento considerável nas coberturas da mídia hegemônica sobre temas raciais. Ela acredita que isso aconteceu junto à pressão e as denúncias que o Movimento Negro fez, ressoando a militância negra articulada. Contudo, ela destaca que não há o aprofundamento necessário: “Falta, por exemplo, relacionar os fatos com causas e consequências, como em casos em que a violência policial é um fator importante, e não se fala sobre.”, destaca. 


Diante da necessidade de analisar como a mídia atua nessas questões, Ceres Santos e Márcia Guena, coordenadora do Grupo de Pesquisa Comunicação Antirracista e Pensamento Afordiaspórico, da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares na Comunicação (Intercom) e também professoras da Uneb, resolveram criar, em 2023, o Observatório racial da mídia brasileira, projeto de pesquisa desenvolvido por estudantes de graduação em Jornalismo em Multimeios da Uneb. 


Flávio Freire (bolsista), Ceres Santos e Márcia Guena (orientadoras), em mesa de lançamento do site do Observatório.

Foto: NAC/UNEB DCH III.


Após cerca de 10 meses de pesquisa, dados preliminares indicam que houve mudanças consideráveis na quantidade de matérias sobre a temática racial, em comparação a estudos já realizados por elas no passado, e em comparação também com os estudos de Tainá Medeiros, da USP. 


Em uma década (2010-2020) foram encontradas por Medeiros 737 matérias, como afirmado acima, enquanto que no Observatório, em aproximadamente sete meses, encontrou-se o total de 1.692: uma diferença de 955 matérias. É importante destacar que as palavras-chave usadas para as buscas são diferentes, mas todas focam na temática racial, principalmente do racismo. Em menos de um ano (2023) foi publicado mais do que o dobro de matérias com esse tema do que em uma década de coleta. No entanto, a superficialidade é a característica principal dessas coberturas, e por isso, as pesquisadoras da Uneb avaliam que a mídia independente negra é uma maneira de confrontar esse sistema e fazer uma comunicação antirracista.


Para Ceres Santos, a mídia independente negra é a “saída” para romper o racismo institucional reproduzido pela mídia hegemônica. Segundo a pesquisadora, existe um “mundo negro” que a população desconhece porque não sai na grande mídia, mas que a independente negra pauta. Contudo, ela alerta para a necessidade de enxergar que a mídia independente negra também tem interesses, e de não pensá-la como neutra ou imparcial. 


Ela acredita que a Comunicação antirracista passa principalmente pela análise da mídia hegemônica, apontando causas e consequências desse desinteresse pelas temáticas raciais, e pautando a necessidade de ter cuidado para não naturalizar o racismo. Deve se questionar porque os assuntos relacionados às pessoas negras são abordados de forma diferente, sobretudo.



Márcia Guena em mesa de lançamento do site do Observatório Racial.

Foto: NAC/UNEB DCH III.


Márcia Guena defende que é preciso investir na mídia negra independente, porque esta parte do princípio da decolonialidade – consciência que surge a partir do questionamento e da desconstrução da lógica moderno-colonial –, da contra hegemonia, e tende a fazer coberturas mais contextualizadas, plurais e abrangentes. 


Para estimular a Comunicação antirracista, Marcia Guena alerta para o sistema algorítmico da internet – onde mais se propaga informação atualmente – que segue os padrões racistas, uma vez que é controlado pelas grandes empresas de comunicação. Ela destaca que a imprensa negra, por assumir postura contrária, acaba sofrendo retaliações, o que fere a liberdade de imprensa – lei nº 2.083, de 12 de novembro de 1953 –, e consequentemente, a democracia. Para ela, apesar de ser uma luta desigual, é preciso fazê-la.



Mídia hegemônica X mídia negra: dados

 

Veículos independentes antirracistas como o Alma Preta, o Notícia Preta e o Mundo Negro são objeto de estudo do projeto de pesquisa Observatório Racial da Mídia Brasileira, coordenado por Santos e Guena. Dados do projeto apontam que é possível realizar coberturas mais contextualizadas, com diversidade de fontes e que não reproduzem estereótipos e ou preconceitos, sem ter muitos recursos para isso, sejam financeiros ou de capital humano. 


No período analisado, de fevereiro a agosto de 2023, o subprojeto do Observatório que estuda a mídia independente negra e indígena constatou que a maioria das matérias dos veículos estudados segue pelo enquadramento temático, que consiste basicamente em uma forma de abordar os conteúdos jornalísticos de maneira que contextualiza, relaciona e avalia antecedentes, causas e consequências. 


Já a mídia hegemônica nesse período, com mais recursos, mantém essa comunicação racista; apesar de haver um aumento na quantidade de material veiculado sobre essa temática, adota o uso da superficialidade e da falta de aprofundamento. A partir do conceito de enquadramento oficialista, desenvolvido pelo pesquisador Danilo Rothberg (2010), a mídia hegemônica usa somente de fontes e informações oficiais, principalmente de governos ou instituições privadas ligadas ao assunto em questão. Os veículos também não consideram a diversidade de fontes, no que se refere a recortes de gênero e raça.


Foto: arquivo pessoal de Vanessa Ramos (bolsista do Observatório).


Imprensa negra nas universidades


Ceres Santos acredita que, para se ter uma comunicação antirracista, é preciso que haja uma formação específica dos futuros jornalistas, e que deve começar no início do curso. Segundo a pesquisadora, se estuda pouco a história da imprensa negra no Brasil como um todo. Ela considera inaceitável os estudantes saírem da universidade sem ter contato com a imprensa negra, sem saber sua importância e como se constitui o sistema da relação entre a Comunicação e o capital.


Na sua visão, são necessárias mudanças nos currículos das universidades, a fim de que desde o início se paute a imprensa negra, na ideia de que devemos conhecer a história real, não somente contada pelo viés colonizador, eurocêntrico. 


Laíse Ribeiro, estudante de Jornalismo na Uneb e aluna de Márcia Guena e Ceres Santos, destaca que o contato com a Comunicação antirracista e o letramento racial foram possibilitados em duas disciplinas que as professoras lecionaram: Cultura brasileira e afro-índigena e Análise do discurso midiático. Segundo Ribeiro, as professoras a despertaram para a consciência racial, pautando a necessidade de não enxergar a mídia de forma “neutra”, “desinteressada”, mas para pensar que tudo o que é veiculado tem algum interesse, e que “a mídia hegemônica é racista”, comenta. 


Juliana Pereira, também estudante de Jornalismo, diz que as atividades desenvolvidas em sala, principalmente durante a matéria Cultura brasileira e afro-indígena, como elaboração de artigos e análise de produtos midiáticos, a fizeram mudar o olhar sobre a mídia como um todo, buscando ver além do que está explícito. 


Como frutos dessa formação inicial que lhe foi proporcionada, e despertadas para o letramento racial, bem como para os modos que o racismo se manifesta na Comunicação, as estudantes escreveram, em 2023, dois artigos pautando o tema racial na imprensa brasileira, os quais foram aprovados para apresentação em congressos da Intercom: um na etapa regional e outro na nacional. Os trabalhos se intitulam “CPF Cancelado: Sikêra Júnior, o Jornalismo fortalecedor do populismo penal” e “A mídia hegemônica e o racismo institucional: análise de matéria do jornal da Band sobre vacina para dependentes químicos”, este último em parceria com outras colegas.


Foto: arquivo pessoal de Laíse Ribeiro.


Como um meio de buscar romper o racismo na Comunicação, Santos e Guena indicam a necessidade de mobilização articulada dos setores a que interessam a Comunicação, do privado à sociedade civil, passando pelo poder público. As pesquisadoras entendem ainda que parte importante dessa mobilização é o cumprimento do Estatuto da Igualdade Racial, de 2010, e o documento final da Primeira Conferência Nacional de Comunicação, de 2009. 


A criação dos documentos referenciais foi um passo significativo, porém é preciso ação prática para se ter uma comunicação que, mesmo estruturada na lógica do sistema capitalista e colonial, não usa do poder que tem para continuar a “formar” uma sociedade racista. 



Para conhecer o trabalho do Observatório Racial da Mídia, acesse: https://www.observatorioracialdamidia.com.br/ 

(o site se encontra em fase de elaboração, por questões de contrato de licitação da universidade, mas é possível acessar conteúdos). 


Por Ana Beatriz Menezes, estudante do curso de Jornalismo em Multimeios e colaboradora do MultiCiência.