Rejeitos da mineração preocupam moradores de Angico dos Dias em Campo Alegre de Lourdes (BA)

MultiCiência 16 agosto 2023

A qualidade da água, do ar e do solo pode ser comprometida com a presença de poluentes emitidos pela mineração. Em Campo Alegre de Lourdes, no interior da Bahia, a preocupação é a contaminação do meio ambiente pelo fosfato, que, no meio ambiente, pode desencadear muitos danos, quando inserida artificialmente.

Foto: Thomas Bauer - site CPT

Edinei Dias Soares é agricultor rural e morador de Angico dos Dias, distrito de campo alegre de lourdes, onde está instalada a empresa mineradora do Grupo Galvani. As atividades exploratórias com a mineração na sua localidade têm preocupado sua saúde emocional diariamente quando observa as plantações de milho e feijão no campo sendo afetadas pela exposição dos caminhões nas estradas vicinais. “Eles passam com os carros destruindo nossas plantas e é muita poeira, acabam com todo trabalho realizado e não se responsabilizam. A minha família depende da agricultura, e ficamos totalmente isolados por conta dessas situações,” comenta Edinei.

Agricultor Edinei Dias


Ainda de acordo com o agricultor Edinei, a comunidade não estava pronta para receber o empreendimento. "Vivemos no sufoco devido aos abusos. Com a chegada dessa empresa, nossa comunidade já sofreu vários danos, como a destruição da lagoa, o plantio, chegadas bruscas abrindo lages. E além disso, destroem as áreas aguadas e devastam a caatinga. Na localidade onde moro, fazem pilhas muito altas de rejeito do minério do fosfato que extraem, e, no período chuvoso, a chuva leva todo esse material para baixo, danificando toda a produção”.

Militante do Movimento pela Soberania Popular, Henrique Silva, explica que a contaminação ambiental causada pelo fosfato “inviabiliza o uso da água para consumo, recreação, turismo, paisagismo e irrigação.”

Levantamento feito pela Comissão Pastoral da Terra aponta que no sertão da Bahia, municípios chegam a ter 90% da sua área total mapeada para exploração. De acordo com Marina Rocha, os impactos são diversos, e vão desde dos animais que acabam saindo das faunas, da saúde dos pastos que perdem a produtividade até aos problemas de peles em humanos causados pela contaminação pelos fosfatos extraídos da mineração. Confira a entrevista com Marina Rocha, realizada por Yanne Carolina e Levi Varjão, aqui.

Acompanhe o infográfico sobre os impactos àmbientais

A produtora rural e moradora de Angico dos Dias, Maria do José, relata que a sua preocupação com a degradação ambiental é frequente e impacta diretamente a vida na comunidade. “Nós precisamos do alimento, nossas terras são ótimas para o plantio e acabamos perdendo todo nosso trabalho por conta do rejeito da mineradora. Vivemos com um sistema de trocas de alimentos, e todos da comunidade tentam se ajudar, mas isso poderia ser evitado se não tivesse essas questões ambientais. Nós deveríamos ter o direito de não perder nossas produções e essa empresa ser sentenciada,” relata Maria José.

Segundo alguns moradores que preferiram não se identificar, a empresa já tentou utilizar a água do açude na comunidade de Angico dos Dias, mas não conseguiram devido à resistência dos moradores, que não aceitaram a construção da barragem de rejeito e a empresa recorreu para o ar seco.

Para o psicólogo José Ricardo Silva, a percepção das mudanças socioambientais na comunidade e a perda da produção agrícola nas terras provocada pela atividade de exploração da mineração são preocupantes para a saúde física e psicossocial. De acordo com José Ricardo, não há uma boa forma de conviver com a perda do trabalho árduo no campo, mas saber lidar com as consequências é mais recomendado. “Em relação à perda é recomendado buscar estratégias até mesmo com auxílio com um profissional recomendado para resolver as questões psicossociais,” declara o psicólogo José Ricardo.


Nota à imprensa

A Agência MultiCiência entrou em contato com a empresa Galvani para saber sobre as ações para reduzir os danos socioambientais. A Assessoria de Comunicação enviou o comunicado:

"Nota à imprensa

A Galvani atua em Angico dos Dias (BA) desde 2005, produzindo concentrado fosfático, utilizado como matéria-prima para a fabricação de adubos amplamente aplicados na agricultura nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

Prezando pelo bem-estar e desenvolvimento da região, a Galvani vem realizando e apoiando projetos sociais e iniciativas voltadas às comunidades, especialmente por meio do Instituto Lina Galvani. Ao longo de quase 20 anos de atuação na região, a empresa tem contribuído com a comunidade, não apenas pela geração de renda para comunidade, com seus mais de 200 empregos diretos, mas também pelo investimento no desenvolvimento comunitário. São inúmeros projetos apoiados, com iniciativas de empreendedorismo, valorização da cultura local e outras temáticas, impulsionadas pela empresa e pelo Instituto Lina Galvani, e que ajudam a conectar diferentes pessoas com diferentes formações e experiências de vida para trabalharem juntas em prol do desenvolvimento das comunidades.

Sobre o processo produtivo, a Galvani desenvolveu e patenteou uma tecnologia inovadora que permite o tratamento do minério em um processo a seco, sem utilização de água e produtos químicos, para a produção de concentrado fosfático na Unidade de Mineração de Angico dos Dias, localizada no município de Campo Alegre de Lourdes (BA). Essa metodologia também permitiu eliminar a necessidade de barragem de rejeitos.

Vale ressaltar que todas as atividades na Unidade de Mineração de Angico dos Dias, localizada no município de Campo Alegre de Lourdes (BA), são devidamente licenciadas pelos órgãos responsáveis, seguem os parâmetros exigidos pela legislação e não representam riscos à saúde da população e ao meio ambiente. Em todas as etapas do processo, a empresa possui controles e monitoramentos para evitar, reduzir e mitigar eventuais impactos ambientais.

Sobre a utilização de recursos hídricos, a Galvani ressalta que toda a água usada para limpeza, cozinha e banheiros é devidamente captada e tratada, em estação própria de tratamento instalada na área interna da unidade, e depois reutilizada na umectação de vias internas.

Em relação ao trânsito de veículos a serviço da Galvani, uma série de boas práticas é adotada para diminuir desconfortos às comunidades onde estamos inseridos. Desvios para caminhões e outros veículos pesados foram construídos pela Galvani e passam por constantes cuidados por parte da empresa, que incluem a manutenção, instalação de lombadas e sinalizações, além da realização de umectação e terraplanagem sempre que necessário. Os veículos de pequeno porte que circulam pelas comunidades a serviço da empresa obedecem a rígidas regras internas de segurança e os motoristas são constantemente orientados a respeitar os limites de velocidade e horários, ter cuidado e dar preferência a pedestres, animais e ciclistas.

Além disso, a empresa dispõe de canais de atendimento para a população, que pode encaminhar sugestões, dúvidas e comentários. Os relatos são devidamente verificados pela empresa, que sempre concede retorno ao interessado".  


Reportagem de Edilene Leite para a Série "Sertão das eólicas e mineradoras: como a implantação dos empreendimentos pode afetar as comunidades no território Sertão São Francisco", desenvolvido no componente Redação Jornalística II e Planejamento Visual, ministrados pela professora Andréa Cristiana e Cecílio Bastos, respectivamente