Mineradoras aumentam riscos à saúde do trabalhador no Sertão do São Francisco

MultiCiência 07 agosto 2023
Os trabalhadores de mineradoras no Brasil enfrentam riscos de acidentes nos seus locais de trabalho. Segundo a Fundação de Medicina e Segurança do Trabalho Jorge Dupratt e Figueiredo (Fundacentro), o índice médio de acidentes de trabalho no Brasil entre 2002 e 2010 foi de 8,66%, mas em áreas de exploração de minas o índice atingiu 21,99%. A frequência desses casos evidencia a necessidade de proteção dos direitos dos trabalhadores, conforme estabelecido pela Constituição Federal, em conjunto com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e a Norma Regulamentadora 22 (NR-22).

De acordo com a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), é dever das empresas fornecer um ambiente de trabalho seguro, implementar medidas preventivas de segurança e promover treinamentos adequados aos funcionários. Além disso, a NR-22 estabelece requisitos específicos para a proteção dos trabalhadores nas atividades de mineração, que abrangem desde o uso de equipamentos de proteção individual até a adoção de planos de emergência.

Mineradora em Angico dos Dias - Campo Alegre de Lourdes
Foto: Thomas Bauer - Comissão Pastoral da Terra (CPT)
                                        
O Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Extração de Ferro, Metais Básicos e Preciosos (Sindimina) foi um dos primeiros órgãos a defender a categoria na região do norte baiano. O sindicato está localizado na cidade de Serrinha, mas também atua nas cidades de Juazeiro, Uauá, Sento Sé, Remanso, Pilão Arcado, Casanova, e trabalha em busca de melhores condições de trabalho e qualidade de vida para os trabalhadores representados. No território do Sertão do São Francisco existem 13 mineradoras de pequeno a grande porte, sendo quatro atuantes em Casa Nova, três em Juazeiro, duas em Sento Sé e uma em Curaçá, Pilão Arcado, Sobradinho e Remanso.

O presidente do Sindimina, Sebastião Carlos, avalia que os trabalhadores da mineração precisam de medidas protetivas de segurança, devido ao risco potencial. “Os minerais são buscados no interior da terra e quanto mais você desce em busca do minério, mais arriscado fica a retirada. E nós estamos com uma das minas mais profundas da América Latina que é a Mineração Caraíba que requer uma visão de segurança muito maior”.

O sindicato atua como fiscalizador dessas medidas de segurança. “A fiscalização tem parceria com a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA), quando tem um acidente, algumas pessoas são escolhidas e formam uma comissão para investigar as causas para que ele não se repita”.

Infográfico geradas com a colaboração de inteligência artificial 


A psicóloga e professora universitária, Ivanessa Brito, realizou a pesquisa “Vozes do subsolo: percepções e atitudes sociais de trabalhadores de mina sobre saúde-adoecimento” na qual analisa os impactos do trabalho na subjetividade e saúde mental das pessoas. Ela apresenta seis relatos de trabalhadores que falam sobre suas experiências em minas subterrâneas localidades na região norte da Bahia. Nos depoimentos, os agentes de riscos mais citados foram desabamento de rochas e altas temperaturas.

Além dos riscos de acidentes, o contexto de trabalho em uma mineradora é insalubre, com período de jornadas de trabalho considerada extensa “Eles têm total consciência teórica que uma mineradora é risco nível 4, trazem como o risco mais desconfortável, a questão da temperatura. No subsolo é uma sensação térmica acima de 45°. E ao longo da jornada de trabalho, muitos passavam mal e precisavam tomar banho, mas isso acabava gerando um choque térmico, com água às vezes fria e um contexto quente”, explica Ivanessa.

Os sindicatos de trabalhadores do Sertão Baiano não têm dados recentes sobre os acidentes em mineradoras, em decorrência da subnotificação. Alguns fatores se tornam cruciais para que esses trabalhadores não informem aos órgãos responsáveis quando sofrem acidentes. “O medo de ficar desempregado seria um dos centrais e também a culpabilização do sujeito pela própria empresa”, afirma Ivanessa. 

Saúde mental dos trabalhadores

Além dos agentes físicos, químicos e biológicos, Ivanessa coloca luz sobre os problemas ergonômicos ligados ao trabalho em mineração. A pressão por produtividade e as relações interpessoais podem também levar a processos de adoecimento psicossocial.  Às vezes, o trabalhador pode "trabalhar, com o atestado, às vezes, no bolso. Ele não tem coragem de entregar”.

No ambiente de trabalho em mineradoras, os agentes psicossociais impactam na saúde e bem-estar dos trabalhadores. A exposição às condições adversas, como o risco constante de acidentes e a falta de suporte emocional, pode afetar negativamente a saúde mental dos profissionais. Além disso, a cultura organizacional, a falta de autonomia e a falta de reconhecimento podem contribuir para o surgimento de problemas psicossociais, como estresse, ansiedade e depressão.

Sebastião Carlos declara que o estado psicológico também contribui para a recorrência de acidentes graves e até mesmo a morte desses trabalhadores. “A maior briga de segurança nos tempos de hoje é a mente do trabalhador. Esse é um empecilho para que o trabalhador tenha uma vida saudável. E o pior é que isso não aparece nas estatísticas. A gente consegue brigar por proteções coletivas, mas essa parte que não aparece, que causa um estrago profundo, tem que ser vista com outro olhar.”

A reportagem tem foto de Thomas Bauer, disponível no site da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a quem agradecemos.

Reportagem de Yanne Carolina para o Especial "Sertão das eólicas e mineradoras: como a implantação dos empreendimentos pode afetar as comunidades no território Sertão São Francisco", desenvolvido no componente Redação Jornalística II e Planejamento Visual, ministrados pela professora Andréa Cristiana e Cecílio Bastos, respectivamente.


Reportagem atualizada dia 7 de Agosto de 2023, às 23h30.