Comissão Pastoral da Terra alerta para os impactos ambientais e sociais dos projetos eólicos e das mineradoras

MultiCiência 07 agosto 2023
A chegada de mineradoras no Sertão do São Francisco tem despertado interesse e preocupação às comunidades tradicionais e movimentos populares para assegurar a soberania popular nos territórios e a preservação dos recursos naturais e o bioma caatinga. 

De acordo com dados levantados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), o município de Campo Alegre de Lourdes possui mais de 80% de seu território mapeado para atividades de mineração. Além disso, os municípios de Curaçá e Uauá também enfrentam situação semelhante, com 90% de seus territórios destinados à exploração mineral. Essas estatísticas revelam a intensificação da atividade mineradora na região, pois possui um subsolo rico em minerais como ferro, cobre e ouro, atraindo empresas que buscam explorar esses recursos naturais.
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A instalação de mineradoras promete impulsionar a economia local, gerar empregos e atrair investimentos para a região. No entanto, a atividade mineradora é acompanhada por questões ambientais e socioeconômicas complexas. Os impactos ambientais incluem alterações no regime tradicional de uso e ocupação do território, assoreamento de recursos hídricos, desmatamento, erosão do solo, falta de saneamento básico, pesca predatória, poluição atmosférica, poluição de recursos hídricos, poluição do solo e a poluição sonora.

Confira a entrevista com Marina Rocha, coordenadora da Comissão Pastoral da Terra, que explica os principais problemas relacionados à implantação de mineradoras e eólicas no território.

MultiCiência: Quais são os principais problemas ambientais causados pela mineração e pela eólica?

Marina: Para a implantação desses projetos, o principal problema é o desmatamento. Dependendo do local, não tem escolha. Se há necessidade de implantar uma torre, ou extrair minério, não há escolha de qual solo, de qual área, se existe catinga, se não existe e que tipo de caatinga. Se é na beira do rio, na beira do lago, na beira da lagoa, se é numa nascente. Isso demonstra que há um grande problema ambiental, o desmatamento é um deles, que é feito, geralmente, nas áreas onde têm as nascentes, os olhos d’água, o lugar onde, principalmente, as mineradoras e as eólicas procuram. São lugares mais altos, nas serras que são as serras e nesses locais possuem caixa d'água, de onde vem a água para solo, subsolo. A população tem várias formas de armazenamento de água ou de extrair água. Geralmente, isso já impacta. Outra coisa, toda a implantação da mineração ou eólica causa destruição da natureza em geral. Ao chegar lá, você já percebe o grande desastre que uma empresa dessa causa nos locais, não precisa ter conhecimento técnico nenhum para perceber toda a destruição que há, isso é bem visível.

Marina Rocha participa da luta coletiva em defesa da vida no território 


MultiCiência: Quais são os impactos da mineração na saúde humana?

Marina: No caso das empresas mineradoras que já estão implantadas aqui no nosso território, por exemplo, tem a poeira desde a extração. No caso do concreto, lá em Angico dos Dias, distrito de Campo Alegre de Lourdes, que há exploração de minério de fosfato, a poeira é expelida cada vez que há extração do minério. A poeira é expelida o tempo inteiro, 24 horas como diz o povo de lá, e ninguém sabe quais são as partículas que compõem essa poeira. Isso tem gerado muitos problemas de saúde, muita gente com problema respiratório, problema de pele. Inclusive, tem pessoas que moram nesse local que foram atrás de recursos médicos e foram orientandos a não morar mais no lugar se quiserem continuar vivendo.

No caso do concreto, em Sento Sé e Campo Alegre de Lourdes, o trajeto desses minérios sai pelas carretas. É mais visível em Sento Sé, que por vezes chegam até 100 carretas diárias. A estrada é vicinal, e é o tempo inteiro jogando poeira no ar, nas plantas que estão ao redor. Na beira da pista, tem várias roças, aquela poeira vai para lá. As pessoas não conseguem mais andar por causa dessa poeira. Passa uma carreta, automaticamente as pessoas não conseguem ver carros, motos, pessoas que andam de bicicleta. Pessoas que tem criatórios, que vão levar os animais para beber água, estão preferindo vender, porque não consegue mais. É uma série de coisas. Mesmo que não solte a poeira do minério que vai nas carretas, a poeira que é espalhada por conta do tráfego grande tem prejudicado tudo nas comunidades.

Comunidade de Angico dos Dias 
Foto: Thomas Bauer - Comissão Pastoral da Terra

Isso sem falar as rachaduras das casas que surgem com o uso dos explosivos para quebrar o solo, geralmente todas as empresas mineradoras que a gente conhece usam disso. Estragam as casas, estragam as cisternas que a população construiu para tirar água para o consumo. O pessoal não tem mais condição de beber água da cisterna que está poluída. Tem uma Lagoa em Angico dos dias que o pessoal tirava água para beber, para tomar banho, para fazer tudo, hoje ela está toda poluída, cheia de uma lama horrível, cheia de produto químico, não serve mais para nada. Inclusive até os animais que vão beber ficam atolados, adoecem ou morrem.

MultiCiência: Quais são os principais impactos sociais relacionados às mineradoras e eólicas?

Marina: Os impactos ambientais não dissociam dos sociais, porque geram doença em um grande número de homens que vêm pra comunidade. Modifica toda a relação que já existia na comunidade. As pessoas lá se conhecem e, de repente, chega um bocado de homem de vários lugares, que ninguém sabe nem de onde é, nem quais são os comportamentos, e muda toda a realidade local. Também há situações nas quais há um aumento do número de mulheres em situação de prostituição em locais onde as empresas se instalam. Tem casos também de muita bebida e uso de várias drogas que ninguém sabe nem quais são. É um transtorno, uma mudança total no modo de vida das comunidades, mexe com tudo.

Gera insegurança das pessoas de saber se vão poder ficar naquele lugar. Se ainda vão poder plantar em suas roças, se ainda vão poder criar, se vão poder viver. Por exemplo, as comunidades que estão sendo impactadas pela mineração na borda do lago, na qual foram expulsas por conta da barragem de Sobradinho. Hoje, elas se veem ameaçadas, de novo, de sair de seu território por conta dessas empresas.

A empresa pede licença ambiental para implantar a mina em algum lugar, mas o impacto não é só aquele pedacinho que ele pediu a licença, ele é regional e até estadual. Porque carretas que saem levando minério, saem de Sento Sé, passam por Juazeiro e por vários municípios, é preciso entender que os impactos da mineração são bem amplos. Existe toda uma visão de que se tem problema lá não diz respeito a mim, mas é um problema da sociedade. A questão da exploração desordenada e exagerada que existe, inclusive as previsões são de serem aumentadas aqui no nosso território de uma maneira muito grave. Hoje, a gente tem estudo que mais de 50% do nosso território está previsto de ser implantado mineradora. E tem municípios que 70% ou 80 já está mapeado. Isso tudo é uma tragédia anunciada,

MultiCiência: Como o ecossistema e a biodiversidade podem ser impactados?

Marina: Existem muitos lugares, que tem mineradora, que os animais sofrem, que a caatinga sofre porque é desmatada, não querem saber qual é o tipo de caatinga, derruba o que tiver na frente. Os animais que ali viviam, onde são implantados esses minérios, ficam chegando nas casas, como as cobras, e o restante da biodiversidade que tem naquele lugar é toda comprometida. No solo, derrubou a mata, mexe com tudo, mexe nas caças, nos bichinhos, na criação de abelha. Tem muita gente, onde são implantados esses projetos, que não tem mais condição de criar abelha. As abelhas se afugentam, ou então morrem.

Na beira do Lago, em Sobradinho, o medo é o impacto da poluição das águas do Rio São Francisco, porque é de onde o pessoal tira o pescado. Quantos casos a gente não já viu de poluição lá em Minas Gerais, norte de Minas, e os Surubim mortos aqui? Tudo está interligado. Não se pode pensar em gente sem relação com a natureza. Não se pode pensar em economia sem pensar nessa relação com a natureza. É tudo junto, se mexe com um, mexe com tudo.

MultiCiência: É possível mensurar os desafios para a recuperação e reabilitação dessas áreas degradadas pela mineração?

Marina: Primeiro, deveria ser uma responsabilidade das empresas mineradoras. Geralmente, o que sobra para as comunidades são os buracos. Tem lugar que as mineradoras foram embora antes de terminar, muitas mineradoras pequenas. Aqui na nossa região, a gente ainda não conhece mineradora que já deixou, mas a gente sabe de outros estados. Eu andei Minas Gerais, conheço bem o complexo minerário de Minas Gerais. O que sobram são os buracos, parecendo um lugar morto.

Mesmo que eles façam um plano de recuperação das áreas degradadas, isso não é cumprido e não tem condição. Como dizia um trabalhador, “como é que eles vão recuperar uma serra? Eles derrubaram nosso serrote, derrubaram nossa serra, como é que a empresa vai se recuperar a serra?” Como é que ele vai recuperar a economia que a pessoa vivia? Eu conheço certas comunidades que viviam da criação de caprino, como é que eles vão recuperar a caatinga em pouco tempo? Nem em muito tempo eles não vão recuperar.

Eu não acredito na recuperação das áreas degradadas. Pode até fazer alguma iniciativa, um pedacinho, eles fazem um canteiro, um negocinho assim minúsculo, mas não a área toda que é degradada por uma mineradora ou por uma eólica. As nascentes de água vinham dali, como é que vai recuperar água de lá, como é que vão recuperar os olhos d’água que saiam desse lugar? Recupera alguns trechos, algumas coisinhas, fazem alguns faz de conta que recuperou, faz a propaganda.

MultiCiência: Quais são os riscos e impactos da mineração em regiões sensíveis, como áreas de preservação ambiental ou ecossistemas frágeis?

Marina: A beira do Lago Sobradinho que está sendo implantado mineradora é área de Área de Proteção Ambiental (APA). Existem várias áreas na região que são patrimônios culturais, são patrimônios das comunidades, praticamente todas as áreas que estão sendo implantadas esses projetos, são áreas de preservação. O que vai sobrar para o povo é a destruição. Os impactos são incalculáveis. Basta ver os exemplos de Mariana e Brumadinho, que já existiam a mais tempo, mas como foram de forma assim tão grandiosa, todo mundo percebeu que as mineradoras causam prejuízos.


MultiCiência: Como acontece o recrutamento de trabalhadores nas comunidades por parte das mineradoras?

Marina: Olha, quando elas chegam em um lugar, procuram o povo para fazer os trabalhos pesados, por exemplo, capinar e roçar. Desde a pesquisa, eles vão precisar entrar em algum território e contratam algumas pessoas pra fazer aquela roçagem. Geralmente, eles contratam pessoas do local que eles já conhecem, ou eles colocam uma lista para as pessoas se inscreverem para o serviço. Isso, geralmente, é a única vez que pessoas da comunidade trabalham nas empresas, porque depois vem o serviço mais técnico.

Muitas vezes, essas comunidades só vão saber que o empreendimento vai para o território, na hora que ele chega. A pesquisa eles fazem escondido, entra no território da pessoa sem aviso. Eles se apropriam de tudo, da vida, das pessoas, do território, da biodiversidade e têm o controle de tudo, como se não existisse nada nem ninguém naquele lugar

Para conhecer o trabalho da Comissão Pastoral da Terra e a luta no território para preservar o ecossistema e garantir os direitos da população, acompanhe o site da instituição e os seminários de mobilização popular que realizam no território aqui. Equipe MultiCiência usou as imagens disponíveis no site e agradece a instituição. 

Entrevista realizada por Yanne Carolina com colaboração de Levi Varjão para a Série "Sertão das eólicas e mineradoras: como a implantação dos empreendimentos pode afetar as comunidades no território Sertão São Francisco", desenvolvido no componente Redação Jornalística II e Planejamento Visual, ministrados pela professora Andréa Cristiana e Cecílio Bastos, respectivamente