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Livro Minha’rimã da poeta uauaense Pók Ribeiro tem pré-lançamento divulgado

Pók Ribeiro é poeta, escritora e pesquisadora. Autora dos livros de poesia Pedilua (2017), Endométrio (2019) e Os dedos de Maria (2022), tem sua atuação marcada pela colaboração com outras mulheres poetisas e/ou escritoras do Semiárido baiano. Um dos coletivos que integra é o LiterÁridas e é co-autora do livro Úmidas (2022).



Foto: Carla Paiva


Seu mais recente trabalho, “Minha’rimã”, é um conjunto de vozes, desejos, labutas e gozos de várias mulheres que se atravessam em diferentes tempos e espaços, construindo suas próprias travessias nos mundos plurais em que vivem. O livro é apresentado como uma narrativa sinestésica, que busca a pluralidade de vozes e poéticas. A obra que está disponível como pré-lançamento desde o dia 27 de junho, é caracterizada como uma ciranda de expressões, uma conversa íntima com o leitor, uma reza e um grito ancestral que não cessa.



Foto: Acervo digital da editora Caravana

Acompanhe a entrevista que Pók Ribeiro nos concedeu, na qual exploramos a poética de seu trabalho, a estrutura do patriarcado e a essência do livro “Minha’rimã”.


Como surgiu a ideia para a criação de "Minha’rimã" e o que te inspirou a dar voz a tantas mulheres através dos contos?

 

Os textos que compõem a obra "Minha’rimã vêm sendo construídos há algum tempo, talvez desde lá de 2016 até agora, em um processo de escrita ainda sem intenção de publicação de livro. Eram textos que eu ia escrevendo, mas com intenção de resgatar essa memorança ancestral das mulheres, da comunidade onde eu nasci e vivi a minha infância, que é o Logradouro do Juvenal, no interior de Uauá (BA), bem dessa intenção, desse desejo de resgatar essa ancestralidade, esses saberes das mulheres. Trazer muito da oralidade, dos causos, das histórias que eram contadas. Só com a minha participação no Clipe, em 2023, um curso de preparação de escritores, promovido pela Casa das Rosas de São Paulo, é que eu fui entender a dimensão dos textos que eu já havia produzido e a partir dali eu passei a cogitar a possibilidade de transformá-los num livro. A partir das trocas, das escutas, das opiniões dos professores. O curso teve duração de um ano com professores e escritores renomados, entendi que aquela escrita que eu estava produzindo tinha sim um potencial artístico-literário grande, surgindo a ideia da criação do livro. Todas essas mulheres que atravessaram a minha vida, desde o meu nascimento, desde a parteira que me pegou na estrada, as minhas avós, a minha mãe, as minhas tias, as primas, as mulheres que frequentavam a casa dos meus avós, todas elas têm uma participação nos contos. O propósito é justamente trazer essa voz de mulher, que durante muito tempo é apagada, silenciada, seja pelo canône literário que é patriarcal, seja pela própria construção da sociedade, essa construção machista em que a voz masculina se sobressai, tem mais destaque, tem mais poder.

 

A narrativa de "Minha’rimã" é descrita como sinestésica e cheia de poéticas plurais. Como você construiu essa multiplicidade de vozes e sentidos na sua escrita?

 

A marca da sinestesia e das poéticas plurais, que é bastante presente na obra, vem muito dessa vivência mesmo. Eu trago muito do meu olhar de criança em meio à comunidade, em meio aos bichos e plantas da caatinga. As memórias que eu carrego dos cheiros do café e broa, feita pelas avós e tias-avós. Então isso está muito presente na obra, por isso que eu falo dessa sinestesia e dessas poéticas plurais. Não é uma narrativa apenas com propósitos descritivos, não. É poético, de tocar e sensibilizar. Eu acho que tem muito desse olhar da criança que eu fui vivendo aquelas experiências que hoje são experiências literárias também. A construção dessa multiplicidade de vozes e sentidos na escrita, vem daí também, da variedade de experiências e de trocas. Dessa vivência que é conjunta, ela não é individualizada, é uma vivência coletiva de que as mulheres se escutam, apoiam e conjuram alternativas de sobrevivência ao sistema e de uma vivência extremamente harmônica com a própria natureza, com a caatinga, com os elementos da natureza em si, com a compreensão dos ventos, das águas, do fogo, da terra, dos animais. Então é extremamente holístico. Então isso também está na pluralidade das vozes, na linguagem que é utilizada, nas palavras que eu resgato e nesses sentidos que se pluralizam.

 

Em "Minha’rimã", você menciona romper com os silêncios herdados. Pode nos falar um pouco sobre esses silêncios e como eles influenciam sua obra?

 

Pensar no silêncio como um produto, como um feito herdado, é entender essa construção histórica e social do patriarcado, que desde muito tempo coloca a mulher nesse lugar de invisibilização, de dominação e de silenciamento mesmo. Temos o conhecimento que, ao longo da história, as decisões eram sempre tomadas pelo patriarcado, isso no contexto familiar. As mulheres estavam relegadas ao silêncio, à obediência, ao recato, à imposição de um comportamento que domasse os seus desejos, que domasse as suas habilidades, as suas criações inclusive. Então, quando eu falo em silêncios herdados, para me referir à obra, é justamente para trazer essas mulheres, como donas de si, donas da sua palavra, donas dos seus desejos, dos seus corpos, dos seus gozos, donas também das decisões políticas e sociais sobre si mesmas, sobre seus destinos, que caminhos tomar. É nesse sentido, que falo sobre romper com esse silenciamento. Por exemplo, na época das minhas avós, na juventude das minhas avós, elas tiveram ensinamentos de que deveriam estar destinadas ao lar, ao casamento, à construção da família. Eu me pergunto, será que as minhas avós também não tinham vocação para a literatura, para as outras artes?! Não queriam ter tido outras profissões?! Não queriam ter tido outra vida?! A minha avó paterna, eu soube já depois de grande, que ela escrevia versos nas paredes da casa dos pais dela. Quantas escritoras, quantas artistas, quantas outras profissões não foram anuladas e silenciadas por conta desse patriarcado. Então, é pensar que essas vozes foram abafadas, foram anuladas, e trazê-las no formato de personagens ou de narradoras autônomas, cheias de si, é meio que fazer uma justiça a essas mulheres, a essas vozes.

 

 

O livro contém uma mistura de vozes ancestrais e contemporâneas. Como foi o processo de integrar essas diferentes temporalidades na narrativa?

 

Confesso que eu não fui pensando tecnicamente ou teoricamente nessa mistura de vozes ancestrais e contemporâneas, não foi algo programado a partir de estilos ou de estudos teóricos. Foi algo muito mais subjetivo, foi algo muito mais sensorial, intuitivo, digamos assim. Eu deixei que esse fio das memórias, que a lembrança dessas mulheres, que o resgate dessas histórias, dos causos, eles fossem conduzindo, sabe? E meio que em determinado momento, as narradoras e as personagens tomavam a rédea da escrita. E aí eu era só um instrumento ali para escrever, porque as personagens, as narradoras, que também são várias, elas ganharam força nesse processo de escrita. E elas mesmo conduziam, sabe? Parece estranho falar nisso, mas, quando você está envolvido num processo de escrita, quando você se deixa tocar, de fato, pela emoção, pela força desse processo, é a escrita que lhe conduz e não o contrário. Então a escrita foi conduzida por elas, pelas doidas, pelas avós, pelas meninas que falam, que sentem. Então, naturalmente, há essa mistura, porque é um tanto dessa memória, minha é lá, da menina, da criança que eu fui, com memórias dessa eu que sou agora, com resgate dessas vozes. Elas se misturam, e se misturam intencionalmente, e fazem uma balbúrdia literária marcada pela emoção, pela espiritualidade, pela força mesmo.

 

Você faz parte de coletivos literários e trabalha com outras mulheres na produção de poesia e artes no Semiárido baiano. Como essas experiências colaborativas influenciam a sua escrita?

 

Sim, já há algum tempo eu tenho atuado mais coletivamente do que individualmente. Essa atuação coletiva que me interessa mais. Eu acho que quando a gente entende essa potência da junção das mulheres, mostrando que essa rivalidade que o patriarcado criou para nós é apenas uma estratégia de dominação, quando a gente entende isso, a gente multiplica forças. Quando a gente soma vozes, potências criativas e artísticas e literárias, a gente entende que o poder é maior. E talvez isso mesmo é que intimide o sistema patriarcal, por isso que eles querem nos ver separadas, apartadas. É uma escolha mesmo atuar coletivamente, no Coletiva Vozes das Mulheres Além das Margens, que tem atuação no Vale do São Francisco, por conta das e no LiterÁridas. É importante que a gente ocupe os espaços não apenas para preenchê-los, mas para transformá-los. São essas experiências coletivas que me marcam também. Escutar e ler essas mulheres, vai agregando, vai somando muito na gente, porque a coisa é importante. A gente tem discutido muito já há algum tempo sobre a escrita da mulher, sobre a literatura produzida por mulheres, a gente reivindica esse lugar. Fala, mas é importante pensar, nós lemos mulheres, nós divulgamos trabalhos de mulheres, nós compramos obras produzidas por mulheres, nós assistimos a espetáculos produzidos por mulheres, então é importante que a gente também tenha essa ação, de participar, engajar, colaborar, trocar, e não apenas discursiva. O discurso é importante, é óbvio, mas a ação coletiva, a ação de fortalecimento é fundamental. Então essa troca de experiências, com outras mulheres impacta positivamente, o tempo todo na minha escrita também.

 

 

A sua trajetória inclui a publicação de diversos livros de poesia. Como você enxerga a relação entre sua poesia e a prosa presente em "Minha’rimã"?

 

Essa é a minha primeira aventura na prosa. Confesso que inicialmente eu fiquei bastante insegura. Eu me sentia mais confortável, mais segura no meu chão de poesia. E, como eu já falei anteriormente, essa minha experiência no Clipe, de um ano, que é esse curso de preparação de escritores, me fez entender que necessariamente não precisam estar distantes. A poesia e a prosa não se opõem, do contrário, elas se completam, elas se interconectam. A prosa é uma escrita completamente poética também. Eu não fujo dessa minha veia, desse meu pé no chão da poesia. No livro “Minha’rimã”, há uma carga poética muito forte, ou de poéticas plurais, como já dito anteriormente. A minha poesia atravessa, seja na construção das frases, dos parágrafos, na forma como eu trago as memórias, como eu apresento as referências sensoriais dos cheiros e sabores. Tudo isso misturado ao processo narrativo, isso torna essa prosa uma prosa poética. Os textos não se misturam, não há um gênero único, não há um gênero puro. Em literatura tudo se mistura. A autobiografia, a narrativa, a ficção, a memória, a poesia, o contexto histórico, o ideal político, tudo se mistura em literatura. E é essa literatura que eu busco. Essa literatura da disseminação e contaminação, em que os gêneros se infiltram, se germinam um no outro. E “Minha-rimã” traz isso. É uma prosa permeada pela poesia, umedecida pela literatura. Pela poesia, umedecida pelos relatos memoriais, reflexões políticas, históricas e sensibilidade.

 

O que os 24 contos que formam o livro têm em comum?

 

Embora sejam 24 contos separados, eles têm meio que um fio mesmo que costura. Acho que é essa a ideia mesmo, da costura, do alinhavo, dessa colcha de retalhos. E se a gente for pensar qual seria essa linha, qual seria esse fio que costura, seria essa presença ativa de mulheres. Todos os contos são narrados e protagonizados por mulheres. Não que não haja presença de homens, há a presença de homens, sim. Na obra quem traz a voz, o desejo, a fala, o sentido, são as mulheres. São elas que falam sobre si a partir de suas próprias vivências, de suas experiências, dos seus olhares. Então esse fio é esse fio da voz, do corpo, da presença, da ancestralidade da mulher.

 

Existe um momento o qual é possível a pesquisadora se encontrar com a poeta? Elas se entrelaçam? O ramo da pluralidade e força da poesia pode caminhar com a pesquisa científica?

 

Na minha pessoa e na minha escrita, pesquisa, poética, tudo se entrelaça, tudo se dissemina, tudo se contamina, tudo se mistura. Embora a academia queira colocar essa coisa da subjetividade separada, da teoria, eu sigo um pensamento de que tudo se mistura. A Audre Lorde já havia dito, inclusive, em uma de suas obras, que teoria e poética são a mesma coisa porque é o que a gente vive, é a nossa experiência, é transformar a nossa experiência na poética, na literatura. Então, elas não se opõem, elas se completam, elas se misturam, que é o que também a Conceição Evaristo nos diz nas suas escrevivências, escritas a partir das vivências, das experiências das mulheres negras, dos seus silenciamentos. Então, eu acho que eu, nessa minha escrita caatingueira, que é um termo que inclusive eu adoto e defendo enquanto pesquisadora, trago essa mistura. Não tem como separar, sabe? Eu pesquiso a literatura produzida por mulheres nos Semiáridos baianos. Então, essa minha literatura também está aí dentro. Eu sou poeta do Semiárido baiano. Na verdade, tudo se mistura, não como mistura bagunçada, mas mistura que aglutina, que soma, que pluraliza, que diversifica e que amplia vozes. É uma forma de romper, de quebrar com a homogeneidade, com essa dominação de uma única voz, de um único corpo, de um único lugar. São vários lugares que falam, são vários corpos que falam, são várias vozes que se misturam e que se singularizam também. Então é isso, é pluralidade, é ancestralidade, é diversidade de vozes, de sentidos, de saberes e de escritas literárias, que também perpassam a pesquisa.


Por Meiwa Magalhães e Ana Beatriz Menezes, estudantes de Jornalismo em Multimeios e monitoras do MultiCiência.

Júri Épico reflete sobre cultura nordestina no campo jurídico



Créditos: Moisés Cavalcante

 

Músicas, palestras e apresentações culturais nordestinas marcaram a terceira edição do Júri Épico (@júriepico), maior evento acadêmico e jurídico do Vale do São Francisco, que aconteceu nos últimos dias 11 e 12 de novembro. 

 

Em cada edição, o julgamento fictício traz personagens regionais. Os réus como João Grilo, famoso personagem de Ariano Suassuna, e o emblemático e também cangaceiro, Lampião, já foram julgados.

 

Este ano, o réu escolhido foi José Gomes de Britto, popularmente conhecido por Cabeleira, considerado o primeiro Cangaceiro foi registrado na história a partir da produção de Cordéis, já que no século XVIII não existia imprensa no Brasil. O protagonista se tornou o romance regionalista do século XIX, de autoria do autor cearense Franklin Távora.  Cabeleira ganhou fama de bandido cruel e temido na região de Pernambuco.


O Júri Épico é um projeto acadêmico coordenado pelo professor da UniFTC, Anderson Araújo, que também é advogado. O projeto contou com apoio dos alunos do curso de Direito da UniFTC e de outras instituições de ensino superior, juntamente com a Escola Superior da Advocacia de Pernambuco (ESA/PE) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/Petrolina).


Arte e Literatura

Créditos: Moisés Cavalcante

Para o diretor artístico Thom Galiano, que participou também da primeira edição do projeto, neste ano o grande desafio foi apresentar e aproximar o público de uma personagem que estava distante do imaginário mítico do próprio nordeste, “Nós tivemos que criar ou recriar as personagens aproximando as temáticas da contemporaneidade, porque não havia muitas produções, então o maior desafio foi criar alguns personagens”, afirma o diretor.

Créditos: Moisés Cavalcante

O artista conta que, para cada personagem, tem algum tema  relacionado a masculinidade, no caso da caracterização do Cabeleira que não existe nenhum registro concreto real, em termos de imagem, o diretor usou a criatividade para realizar um trabalho que desse mais sentido ao julgamento. “Se eu fosse ser mais fiel a história, no julgamento teria sido um ator careca, porquê era um hábito raspar a cabeça quando se prendia uma pessoa, para não proliferar piolho, então ao pensar na questão da temática do “masculino” me veio a ideia de convidar a atriz Monique Paulino para encenar e causar um estranhamento no público, se era uma mulher ou um homem, já que o pai de Cabeleira lhe imputou uma educação tóxica da cultura do cabra macho” .

Outro fato importante é a ausência da figura do pai que provocou diversas dúvidas no julgamento, já que, em muitos momentos, ele era citado e confundido com o filho Cabeleira, que estava sentado no banco do réu. “Retirei o pai de cena e ele se tornou um ser de quem se fala como uma espécie de pessoa fantasma que estava ali assombrando o pensamento do Cabeleira filho e de todo mundo. Então, isso é  mais poderoso para evidenciar a ideia desse homem terrível”, declara Galiano.

O personagem médico buscou esclarecer aos jurados os termos técnicos e científicos traços do comportamento psicológico do Cabeleira, considerado um homem cruel pela sociedade foi inventado pela equipe artística, como importante testemunha de defesa no julgamento, com a intenção ser um contraponto.

Thom Galiano ainda pontua que no Júri Épico os atores têm um trabalho diferenciado do Teatro, porque o réu fica em cena por muito tempo, quase oito horas no palco atuando, em que ele precisa construir um personagem que seja crível que tenha um pensamento próprio e comprometido com a história e, ao mesmo tempo, possa improvisar, pois algumas perguntas são combinadas e outras não, no qual advogados e promotores geralmente realizam na hora. “É necessário o ator e atriz tenha a capacidade de improvisação grande e resistência, pois num julgamento a sensibilidade fica a flor da pele, afinal é um grande jogo”, conta.

História e Direito

Créditos: Arquivo pessoal

Para o historiador e pesquisador da obra “Cabeleira”, Robério Santos, discutir esta produção é importante, porque traz questões do mundo jurídico e seus aspectos sociais, como o Cangaço e sua relação com o Estado, revelando as leis, as punições, a justiça e as injustiças. O Júri discute ainda os conflitos que envolvem a temática como o banditismo, as prisões e os julgamentos dos personagens. 

Ainda de acordo com  Robério Santos, o Júri Épico 2022 foi um acontecimento interessante, pois pode perceber o crescimento do projeto, já que participou como consultor histórico em outras edições desde 2019. “Assim como nas outras edições, este ano acompanhei todos os preparativos tanto na teoria quanto na prática”, revela.

O pesquisador expressa que foi muito significativo ver os juristas citando sua obra fazendo homenagem e que este momento marcou sua carreira. “Eu fiquei tão feliz que não tenho como descrever, porquê passei grande parte da minha vida pesquisando este personagem que era praticamente desconhecido da história e agora vemos em carne e osso na minha frente, através da atuação de todos os atores e personagens. É algo inexplicável e incrível”, confessa. 

Para saber mais sobre os trabalhos do historiador segue o instagram de Robério Santos @ocangaçonaliteratura. 



Créditos: Arquivo pessoal

O Júri Épico contou com a participação dos interpretes: Monique Paulino (@moniqueemcena), Benigna Areias (@benignareias), Juliene Moura @juhmourh, Zuleika Bezerra (@zuleikabezerra_), Raphaela de Paula (@raphaelakpm), José Lirio Costa (@joselirio), Severo Filho (@severofilho_). Auxiliando na dramaturgia Juliano Varela (@juliano_varela). Na direção artística do projeto, Thom Galiano (@thomgaliano) que faz parte do grupo de teatro do Vale do São Francisco fundado desde 2006, Trup Errante (@truperrante).


Redação: Moisés Cavalcante.

(Em)Frente


                                                                                                    Por: Diana Cristina
Ela viveu anos de sua vida sofrendo. 

A dor de ser desvalorizada era maior que as surras que levava. Maria de Vila Matilde, como era conhecida, mulher forte, valente e destemida. Acordava todos os dias para trabalhar. Nada conseguia acabar com sua força de vontade, mas a violência a abalava. A falta de amor a diminua. 

Maria estava cansada. O coração, que aceitava e fingia esquecer, não sabia mais disfarçar. Maria disse: Chega.

Em uma noite em que chegou cansada em casa, deparou-se com as mesmas indagações sórdidas e sem fundamento. Respirou fundo e se dirigiu ao quarto, quando foi puxada pelos cabelos com violência e jogada ao chão. O mundo rodou. Maria no chão, sentiu o impulso que precisava para dizer: Basta!

O que motivou a moça de Vila Matilde foi a revolta, o desespero, o nojo e a angústia. Na primeira oportunidade que teve, quebrou-lhe um vaso na cabeça e chamou a polícia. Maria repetia consigo mesmo na frente dos dois filhos que tinha com o dito cujo: Cadê meu celular? Eu preciso chamar a polícia. 

Já eram seis da manhã quando a polícia chegou, ela repetia desesperadamente: "Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim"!

Maria se libertou. Em um gesto de desespero, em um grito de dor, Maria parou, o olhar de revolta e de quem decide a vida. Ah, a guerreira Maria quer justiça. 

- Aqui você não entra mais, eu digo que não te conheço e jogo água fervendo se você se aventurar!

Diana Cristina é estudante de Jornalismo em Multimeios. A crônica foi baseada na canção: Maria de Vila Matilde

"Solo para Vialejo: o que nele vejo"



Por Elisabet Moreira

Vejo uma banda de um interior do nordeste que ainda subsiste, resiste. 

A jazz band da capa do livro de Cida Pedrosa, em silêncio, nos faz viajar pelos caminhos da memória dela e de nossos encontros na juventude de uma era... Era uma vez...

Ninguém dizia “jéz”, nessa aculturação linguística que nos traiu no que poderia ter sido uma aproximação autêntica de origens simbólicas. Jazz nesse a que ressoa, jaz o canto...

Bodocó, essa terra de vogal forte a que Drummond chamou a atenção, nestas vastidões de um sertão mal conhecido, entre Orocó, Cabrobó e índios cariris tapuias, negros, pardos, brancos mal assimilados, é uma referência de poesia. Luiz Gonzaga cantou e ressoa...

Amar é para os fortes



Quando acorda no domingo, antes de ligar o celular, Pedro Gonçalves levanta da cama e coloca a mochila nas costas. Não usa despertador porque dorme junto com os irmãos, mas o costume não deixa que ele passe das sete e meia da manhã. Nem o costume nem a ansiedade. Dona Socorro já está acordada, pronta para abençoá-lo com seu “axé” e adverti-lo, como faz toda vez que ele sai de casa: “você é livre para fazer suas escolhas, mas prisioneiro das suas consequências”. Pedro não questiona mais como pode alguém ser livre e preso ao mesmo tempo. Ainda criança, perguntava insistentemente. Agora adolescente, ainda não compreende essa dicotomia, mas desconfia das respostas evasivas da mãe e sai porta afora a criar suas próprias hipóteses.

O caminho é curto até a banca de revista do morro, mas ele vai devagar, cantando. Às vezes é uma letra de funk, outras samba, e ele pode arriscar até um ritmo de jazz. Pedro gosta de música e reconhece a poesia de andar na rua sozinho como se fosse o único acordado. De todos os ritmos, prefere o estilo punk — é assim que ele se sente ao entregar as duzentas cópias de seu gibi para o dono da banca, todo primeiro domingo do mês.

Sinistro, o personagem principal da história em quadrinhos criada por Pedro, é a estrela da comunidade. Pedro pede que eu o chame assim, “é como todo mundo me conhece”. “É seu nome artístico?”, pergunto, ao que ele ri. Desacostumado com o título de artista, Sinistro conta que seu único objetivo com a venda dos gibis é pregar uma mensagem de resistência.

A Turma do Mulato é um grupo de amigos que moram no Alto da Colina, um morro análogo ao de seus pequenos leitores, e a cada edição eles vivem uma aventura diferente, mas sempre com a mesma lição de moral: o mais forte da turma é também o mais gentil. Sinistro espera ensinar a outras crianças aquilo de que já é tão convicto aos dezenove anos, mas queria ter aprendido mais cedo, que o amor é sua única esperança.


Depois da tempestade


Foi na escola que ele soube quando Rafael morreu. Pensava, nervoso, na prova de Geografia que definiria todo o seu futuro, a única nota que faltava para completar o boletim e garantir seu diploma do Ensino Médio. Sinistro não gostava de Geografia, não considerava tão importante quanto a Matemática dos boletos ou o Português das seleções de emprego, e sempre ficava perigosamente perto da média, por isso o nervosismo. Também não tomou a ausência do amigo como alerta porque sabia que ele fazia turnos extras no período de fim do ano. Era um jovem dedicado, embora desse mais prioridade ao trabalho do que aos estudos.

Faltavam poucos minutos para começar a prova quando Sinistro recebeu a ligação. Rafael Santos Gomes fora pego no meio de um fogo cruzado, em plena luz do dia. Morto a tiros, nunca se soube de quem.

A Polícia Militar é uma ameaça constante na vida de Sinistro e de todos os moradores do morro, e de tantos outros morros do Rio de Janeiro. Há conflitos pontuais com traficantes de drogas, mas esses se estendem por territórios desconhecidos e por tempo indeterminado, implicando na circulação inquietante das viaturas policiais. Seja por tiroteio ou perseguição, a comunidade vive alerta para não se tornar alvo.

Quem se envolve com o tráfico pode, pelo menos, reagir. Essa também é uma proposta constante, uma possibilidade que paira no ar. O crime e o vício parecem estar por todos os lados e, diante de tantos perigos, Sinistro nunca sentiu que tinha muito poder de escolha. Como se proteger? Como se isolar de todo o mal?

Com a morte de Rafael, ficou ainda mais difícil chegar a uma resposta.


Filho de Obá


Sinistro passou meses em choque. Em seus dezessete anos, nunca a morte tinha chegado tão perto, de maneira tão brusca. Ele nunca tinha sentido tanto medo pelos irmãos, pelos pais e por si mesmo. Nunca tinha sentido tanta raiva.

Quando Rafael morreu, virou a vida de Sinistro de cabeça para baixo. Ele deixou de fazer a prova de Geografia e, afinal, perdeu o ano letivo. Ao invés de voltar à escola no ano seguinte, decidiu focar no trabalho e se isolou completamente de seus velhos colegas de classe. Não via mais propósito em nada. Só pouco a pouco, frequentando o terreiro, ele recobrou as forças.

Sinistro é filho de Obá, a orixá justiceira, me explica, é ela que inspira nele a luta sem o espírito de vingança. O que o mantém motivado, pelo contrário, é o amor que ele sente pela família e pela comunidade.

O gosto pela poesia o faz notar pequenas coisas, às quais ele dá a dimensão da religião: os poucos amigos que fez no trabalho e pela vizinhança se fazem presentes, brincam e conversam, dão notícias de esposas e filhos. É o bem cotidiano que também está à espreita.

Não são muitas as pessoas que conseguem nutrir a mesma afeição de Sinistro e com certeza não é fácil. A violência não parou, nem há bons prospectos a longo prazo. A positividade, nesse contexto, pode parecer alienadora e solitária.

No entanto, para Sinistro, o segredo é não ter medo da morte. Hoje ele abraça não só um, mas todos os futuros possíveis.


Resistência cultural


Um dia, voltando de ônibus do trabalho de caixa — para qual a Matemática tinha servido muito bem, sem nenhuma necessidade de Geografia —, teve a ideia de escrever uma história em quadrinhos.

Ainda que se sentisse mais integrado à vida no morro, Sinistro sentia falta do amigo que perdera e dos que deixara para trás. Era calado, soturno. Preferia sentar sozinho e, de preferência, pela janela, olhando para o lado de fora. Foi assim que ele viu dois meninos pequenos, talvez da mesma idade de seus irmãos, dividindo um gibi no ponto de ônibus. Sentados lado a lado, cada um segurando uma ponta do almanaque, eles pareciam ler em uníssono, em perfeita harmonia. Por apenas poucos segundos, Sinistro observou a cena, mas ficou emocionado e não descansou até desenhar seu primeiro rascunho.

No universo dos quadrinhos, Sinistro sempre anda acompanhado de seus amigos: Snoopy, Peixe e Rato. A Turma do Mulato representa todas as crianças do morro e de todos os morros do Rio de Janeiro, e o próprio autor se confunde com o personagem. Sinistro faz assim, companhia a uma versão sua de infância, a si mesmo e a tantos como ele. Incorpora na trama o Português da escola e a arte da rua, pensando novas formas de resistência.

Uma vez por mês, aos domingos, ele se demora na banca de revista até ver seus primeiros clientes. As histórias não são assinadas e ele também não faz menção de se revelar como o autor, mas fica à espreita. Uma menina vê o desenho colorido na vitrine e insiste para que o pai compre o gibi junto com o jornal. Um homem leva dois, diz que é para os sobrinhos. Sinistro acha graça, às vezes se emociona.

Na banca, no personagem, Pedro Gonçalves se esconde, mas não foge de ninguém. Vai em frente, de peito aberto, com confiança no caminho que escolheu.



Crônica produzida por Irina Bernardes, estudante de Jornalismo em Multimeios. Produção laboratorial da disciplina Tópicos Especiais em Jornalísmo.

Reencontro com o Rio



Manhã de quinta-feira. O sol ainda tímido, escondia seus majestosos raios cor de fogo entre a espessa camada de nuvens. Dezenas de pessoas, em um vaivém de trajes coloridos, exercitam-se, conversam alegremente e se preparam para tomar banho nas correntes de água gélidas que invadem as passarelas da caminhada. O cenário desperta curiosidade e atrai olhares entusiastas para a cheia repentina do Rio São Francisco na Orla Nova de Juazeiro (BA). 
A paisagem, como que desenhada por um artista experiente, enche os olhos e prende a atenção dos que passam por aquelas bandas. A aquarela de tons azuis, branco, verde e amarelo é um convite à contemplação. Cada elemento naquele lugar ganha destaque: os paredões de pedra pintados, agora inundados pelo flúmen; a imensidão anil das águas espelhando a dança das nuvens no céu; o revoar inventivo dos pássaros que batem suas asas com animada inspiração. Até a Ponte Presidente Dutra, com seu cenário contrastante de carros, motos, ônibus, caminhões pipas d’água e vans de viagem, aparenta querer fazer parte do aprazível quadro. 
Não se sabe ao certo se o horizonte apresentado, que mais afigura obra de arte, é fruto de mãos divinas, das intempéries da natureza ou mesmo da combinação de artefatos arquitetônicos produzidos pelo homem. A atmosfera parece carregar consigo um pouco dos três criadores. Como uma pintura famosa, exposta nos grandes museus e salões de artes, a imagem que se mostra a frente, causa espanto e admiração, amontoa cabeças humanas e captura olhares de espectadores curiosos para a visualização da cena.  

– Olha papai, que lindo, que lindo, diz uma garotinha puxando insistentemente a mão de um homem de cabelos grisalhos, que já passava da meia idade. 
– É sim filha, o rio está cheio. Mais cheio que costume, não tanto como antigamente, mas está, diz o experiente senhor.

A garota dá pulinhos dentro da água, tamborila os dedos pequeninos no rio, balança a mão para lá e para cá, encharcando um pouco a si e ao homem. 
– Por quê o rio está cheio agora?, pergunta a menina observando o pai com um ar indagativo.

Faz-se breve silêncio, enquanto os dois, pai e filha, parecem devanear em pensamentos. O senhor logo acha graça da situação e rompe a quietude:

– Ah! O rio é pra ficar assim na verdade. Tem uma lenda que diz que uma indiazinha de uma tribo chorou tanto, mas tanto, com saudades do namorado, que suas lágrimas deram origem ao rio. 
O pai continua em tom brincalhão:
– Sabe filha? Eu acho que a indiazinha deve está chorando muito agora, e cá estamos nós, inundados até as canelas.

A filha acha graça da história e cai na gargalhada. Ri até a barriga doer e os olhos lacrimejarem. O pai se deleita com a situação, enxugando as lágrimas felizes que lhe escorrem no rosto. 

Um grupo de jovens brinca logo a frente, jogando bola num improviso de polo aquático. Um outro grupo, a maioria com os corpos submersos, apenas as cabeças aparecendo, diverte-se tirando fotos dos rostos sorridentes. Outros pingados, estão por perto, descansando no extenso gramado verde, com o olhar pairando em frente. 

– É lindo papai, diz a menina fitando o além. 

Os pés pequeninos chutando a corrente de água que lhe alcança as pernas.

– Parece uma pintura, parece um quadro. 
– Parece sim, responde o pai, acenando com a cabeça, reflexivo com o comentário da garotinha. Parece um quadro em movimento, ele acha graça da sua observação. Nele, os indivíduos podem participar e a natureza interferir, os galhos das árvores balançam, as águas vem e vão, as pessoas conversam e caminham. Parece um quadro, e a pintura é a vida real. 

Crônica produzida por Ruana Mirele, estudante de Jornalismo em Multimeios. Produção laboratorial da disciplina Tópicos Especiais em Jornalísmo.

A Rainha Vermelha e a igualdade de direitos


A Rainha Vermelha - obra de estreia de Victoria Aveyard, norte-americana formada como roteirista - é um romance que, embora a catalogação aponte como uma fábula, uma fantasia -  há semelhanças com questões sociais presentes em nosso cotidiano: como igualidade de direito e discriminação racial.

A trama acompanha a vida da jovem Mare Barrow, uma garota que possui sangue vermelho - em seu mundo as pessoas são divididas pela cor do sangue. Vermelhos sempre estarão destinados a serem plebeus, humildes, a servidão. Por outro lado, os que possuem sangue prateado – os nobres, a elite - reinarão sob os vermelhos, e possuem poderes sobrenaturais.   alguns dentre eles capazes de manipular o fogo, metais de toda sorte e e a própria mente humana.

Durante a leitura de toda a saga - composta por mais três livros: Espada de Vidro; A  Prisão do Rei e Tempestade de Guerra - o leitor poderá perceber como a cor do sangue sempre será determinante. Não somente na divisão das classes sociais existentes naquele mundo, mas também com relação ao próprio valor da vida do indivíduo – os que possuem sangue vermelho não possuem valor algum. Basta um pequeno esforço e pode-se notar a semelhança com tempos atuais, nos quais pessoas com determinada "cor" no sangue considerando-se e sendo consideradas superiores a outras por não possuírem a mesma cor. Além disso, embora Mare viva numa região governada por reis e rainhas,  no seu mundo está apenas engatinhando o que chamaremos de democracia e mudanças começam a ocorrer: uma rebelião vermelha tem se aproximado por igualdade em outros reinos.

Entretanto, o único objetivo dos prateados será manter vermelhos nos seus devidos lugares - servindo. Cogitar na ideia de um governo baseado em direitos sociais e igualdade entre os povos, seria algo desnatural contra todos os méritos que só famílias prateadas são capazes de produzir.

Portanto, é com essa premissa de superioridade racial, democracia em risco e a destruição dos laços familiares pela ganância de poder - somados a habilidades sobre-humanas - que a autora convida seus leitores a se aventurarem no início de uma revolução: um mundo de igualdade e justiça social.

Por Wellington Martins, estudante de Jornalismo em Multimeios

Os anos ruins da adolescência por Elena Ferrante


A identidade de Elena Ferrante, o famoso pseudônimo por trás da Tetralogia Napolitana, permanece um mistério. De acordo com a crítica literária Fabiane Secches, “Ferrante defende que não escolheu o anonimato, pois seus livros estão assinados, e, sim, o que chama de ausência, um espaço repleto de possibilidades que afetam a escrita de um modo que ela gostaria de continuar a explorar.” A escritora defende a escolha de deixar o livro falar por si mesmo, sem a figura do autor para tomar seu holofote. Contudo, aquilo que Ferrante chama de ausência tem gerado um paradoxo. Em vez de diminuir o interesse pela pessoa por trás da obra, sua ausência tem despertado a curiosidade de milhões de leitores.
O lançamento do livro, La Vita Bugiarda degli Adulti (A Vida Mentirosa dos Adultos), foi marcado pela formação de vigílias em ao menos sete cidades italianas, onde os fãs se reuniram em clubes de leitura e livrarias para leituras de textos, exibição de filmes e testes de conhecimento, enquanto aguardavam ter o romance em suas mãos. A obra finalmente chegou ao Brasil no dia 1º de setembro pela editora Intrínseca.


De 1984 a 2020: o que George Orwell diria de um Brasil em Tempos de Pandemia?


Você já ouviu essa frase "cuidado homem, é mera coincidência"? Conhece os meandros de um Big Brother? E confinamento, alguma relação com os tempos que vivemos neste 2020? Se voltarmos ao ano de 1984 do século 20, o que teríamos o ano em que os brasileiros tomaram as ruas para exigir o fim do regime militar e a volta das eleições diretas para presidente, cuja campanha Diretas-Já seria derrotada no Congresso Nacional. Provavelmente seria uma discussão sem tempo para terminar e talvez não chegaríamos a lugar algum. Do confinamento da casa do BBB ao assustador isolamento por conta da covid 19, muito embate sem ponto final.
Em meio a tantos episódios, trataremos neste texto do livro "1984", de George Orwell, uma das obras mais influentes da literatura mundial, um clássico mais que contemporâneo, publicado em 1949, quando o ano de 1984 pertencia a um futuro relativamente distante. Só que esse futuro chegou rápido e como um cometa, atravessou um novo século, o 21, portanto a narrativa de Eric Arthur Blair, o George Well, autor nascido na Índia está bem atual diante dos tempos tenebrosos em que os mortais do planeta vêm atravessando. 

Há três anos, o clássico voltou a ser o livro mais vendido nos EUA, em razão de um homem chamado Donald Trump. O escritor, de narrativa afiada como um lâmina quente para todas as direções, foi jornalista, crítico e romancista que também filtrou a sociedade em outro livro de sucesso, a Revolução dos Bichos. Lançado um pouco após a Segunda Guerra Mundial, “1984” se tornou a obra mais icônica referente a personificação do poder absoluto. À época, o cenário carregava a forte lembrança de toda a guerra, do poder nuclear com a bomba atômica e da força dos governos autoritários.

Winston Smith é o principal personagem da obra que trabalha no Ministério da Verdade e sua função é editar reportagens de jornais antigos alterando os fatos para que o passado esteja de acordo com as diretrizes desse governo. Júlia: uma secreta rebelde, colega de trabalho de Winston, mas que detestava o governo comandada pelo Big Brother. Jovem por quem Winston se apaixona.

Big Brother, autocrata da Oceania, pode ser considerado uma representação simbólica do partido que comandava o governo, sendo que é uma figura que nunca foi vista por ninguém. A imagem dele se encontra em toda parte, especialmente em cartazes onipresentes com os dizerem: “Big Brother is Watching you” (O Grande irmão está te vigiando).

Filtrando os horizontes da narrativa, o livro se passa no futurístico ano de 1984, e se trata da história do solitário Winston, funcionário do Ministério da Verdade, em Londres, pertencente à Oceania. A Oceania, Eurásia e a Lestásia são as três potências remanescente da nova divisão que viviam em conflitos entre si. A Oceania é uma sociedade governada por um único partido (Ingsoc), um governo totalitário e repressivo que controla todos os aspectos da vida de seus cidadãos, comando representado pelo Grande Irmão (O Big Brother).

Sobre o Partido Dominante, a sociedade de Oceania é dividida em três classes: a maioria representada pelos membros do núcleo do Partido, era a classe privilegiada; a classe média, membros externos do Partido; e os proletas, os que constituem o restante da população que suportam altíssimas cargas de trabalho e sofrem as maiores desvantagens sociais.

O Partido é liderado pelo “Big Brother”, um líder ditador. O Grande Irmão, apesar de nunca ter sido visto pessoalmente, controla e vê tudo e todos. Todo controle é feito por meio das “teletelas” que tinham em todas as casas e microfones escondidos nas ruas e pequenos helicópteros (drones) que filmam dentro das casas.
Não por acaso, o papel da Polícia do Pensamento era fiscalizar o comportamento dos cidadãos, repreendê-los e puni-los, caso eles tivessem pensamento próprio e fossem contra o “Big Brother”. Após algumas atitudes de rebeldia contra o Partido, Júlia e Winston são desmascarados e presos. Winston é torturado por O’Brien, e com o tempo ele começa a aceitar o mundo autoritário do governo.

Agora, o paralelo  entre os EUA de Trump e a Oceania idealizada por Orwell não é centrado no totalitarismo, pois não se discute que o presidente, digamos, destrambelhado e inconsequente, foi eleito democraticamente e se tornou um líder legítimo. Eis que que a coincidência consiste no modus operandi, na forma como Trump e seus aliados  vêem o mundo, tratam divergência e encaram o que é verdade. Nesse caso, faz-se oportuno lembrar que houve polêmica sobre a quantidade de pessoas na posse de Trump, comparada com a de Barack Obama, três vezes mais concorrida.
Noutras palavras, o termo "pós-verdade", tornou-se acessível em 2016 e se tornou tão conhecido exatamente por conta da última campanha eleitoral americana. Para o professor de Ciência Política da UNB, Pablo Holmes, em entrevista para o Jornal do Commercio no ano da vitória de Trump, "cada vez mais se projeta formas de ressonância de  informação completamente desarticuladas, sem qualquer controle crítico por parte de visões alternativas e contrapropostas. As pessoas podem ouvir somente o que querem".
Voltando ao contexto plural de “1984”, é um livro que traz questionamentos que perduram até os tempos atuais, como a vigilância 24 horas por meio das câmeras existente no mundo. Até que ponto essa vigilância é benéfica para as pessoas? Como ficamos diante da liberdade quando as pessoas estão sendo vigiadas e controladas por câmeras 24 horas?
As “teletelas” descritas em “1984” são como as câmeras de segurança, dos celulares, tablets e computadores que também são capazes de captar e transmitir imagens. Não há como não se questionar incansavelmente o mundo da tecnologia que tem contribuído amplamente para o controle dos cidadãos e assim, a perda da privacidade.
Alguma semelhança com o programa Big Brother da Rede Globo? Alguma observação a respeito da última campanha eleitoral brasileira respaldada com milhares de fakes-news. E alguma lembrança com 1964 quando os direitos democráticos foram triturados por um golpe militar? Enfim, em que aspectos a vitória de Jair Bolsonaro, a facada e os fatos atuais da política brasileira podem ser comparados a certas passagens de 1984? A diferença está na folha do calendário, 2020. E agora para onde vamos em 2024, 2034, 2044, 2054...?


Coluna Do Texto ao Texto (Letras e sons) por Emanuel Andrade, jornalista, professor do curso de Jornalismo em Multimeios e Doutorando em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Trabalhou como Repórter no Jornal do Comércio e foi pioneiro no jornalismo cultural na região, ao assinar a coluna de Literatura e Música  para o Gazzeta do São Francisco na década de 1990 e para rádios do Vale do São Francisco. 

Arte Gráfica: Gabriela Yane, estudante de Jornalismo



O Amor em Tempos Sombrios


O ano é 1943 e num bosque, diante de “uma grande fome e um grande frio”, vivem “uma pobre lenhadora e um pobre lenhador”. O maior anseio da pobre lenhadora é ser mãe, ela já pediu a Deus, ao céu, as estrelas e a natureza. Suplicou tanto que cansou e pedia apenas para que a fome passasse. Ela gosta de observar o trem que passa e repassa, imaginando-se uma viajante, “arrancando de si aquela fome, aquele frio, aquela solidão”. Para atiçar a sua curiosidade, seu marido, o pobre lenhador lhe diz que ali no trem vão “mercadorias”. Ingenuamente, ela se enche de esperança, esperando que algum dia uma das mãos que aparece pelas grades do vagão do trem lhe jogue um presente.

Mal sabe ela que as mercadorias que vão dentro do trem, no comboio 49, são crianças, homens, mulheres, velhos, judeus. Ali vai um pai perguntando-se a todo instante: “que fazer?”. Ali também vão sua esposa e seu casal de gêmeos recém-nascidos, tão breves, mas “já judeus, já fichados, já classificados, já procurados, já perseguidos”, sendo trazidos de um campo de deportação em Drancy e indo em direção ao que o pai suspeita ser algo tenebroso. Em um ato de desespero pega uma das crianças sem nem olhar para saber se é o menino ou a menina, a enrola num xale feito “de fios de ouro e prata” e pelas grades da lucarna do vagão joga o bebê em direção a neve, onde uma senhora corre em direção ao trem. A pobre lenhadora, enfim, recebeu o seu presente.

Esse é o enredo do livro “A mercadoria mais preciosa: uma fábula” do autor Jean-Claude Grumberg, lançado pela editora Todavia no ano passado. Nascido em Paris em 1939, Grumberg é filho e neto de judeus que foram transportados em comboios em direção aos campos de extermínio nazistas. Para contar essa fábula, ele se inspirou nas histórias verdadeiras de “O Memorial da Deportação dos Judeus da França”, em histórias como a de Abraham e Chaïga Wizenfeld que, junto com seus filhos gêmeos Fernande e Jeannine, foram levados de Drancy, cidade francesa, no dia 7 de dezembro de 1943 pelo Comboio 64 após 28 dias do nascimento das crianças.

Escrita de maneira inventiva e muito poética, a curta e sombria fábula de Jean-Claude nos lembra dos horrores de um período brutal da História, do que os homens são capazes quando movidos pelo ódio e conformismo. Sobretudo, é um exercício de imaginação que transforma um trauma em literatura belíssima passando uma valorosa e necessária moral da história.

Ao contar a história da garota chamada “mercadoriazinha” que foi salva de erguer-se ao céu como “fumaça espessa e escura” para ser amada por uma pobre lenhadora e um pobre lenhador que a tinha como “sem-coração” por ser judia, Jean-Claude narra o que pode fazer a diferença em tempos sombrios. Por amor a uma criança, o casal vence o racismo, a ignorância, a mentira e o medo disseminados pelo regime nazista. Em tempos sombrios, a esperança se chama amor. “A única coisa que merece existir nas histórias como na vida verdadeira. O amor, o amor oferecido às crianças, às suas como às dos outros. O amor que faz com que, apesar de tudo o que existe, e de tudo o que não existe, o amor que faz com que a vida continue”, como escreve Jean-Claude.



Por Jônatas Pereira, estudante de Jornalismo em Multimeios da UNEB

Barulho


Mergulhada na completa escuridão do quarto, corpo estirado sobre a cama à espera do sono, Luzia repete a si mesma todos os acontecimentos do dia: coisas feitas, frases mal formuladas, o destino do lixo do banheiro, aproveitando ainda a oportunidade para realizar o prognóstico do dia seguinte. Esse era o único momento que tinha de parar e pensar, a rotina exigia a apreensão das coisas no tempo de um pensamento. Sua meditação é interrompida por um estranho barulho de folhas secas ou sacola plástica de supermercado, o som provinha do quarto onde se encontrava, praticamente vedado a vácuo.
- O que será isso? - pergunta a si enquanto busca alcançar algum registro ou movimentação no breu que a circunda.
Pela descontinuidade do ruído, Luzia volta à sua agenda: relembra das expressões de todos na sala quando defendeu sua ausência na próxima reunião. Nunca faltou e sempre cumpriu com todas as suas obrigações, uma faltazinha não mataria ninguém - riu.  Novamente o fluxo da recapitulação é interrompido, dessa vez o som parecia mais alto. 
 - Será que algum bicho entrou no quarto? A espinha gela, há pouco tempo foi necessário um dedetizador e uma série de parafernálias para limpar sua casa dos ratos. Passados dois meses foram os morcegos, muito pior. 
- Eles teriam voltado? - Não se mexeu, morria de pavor desses animais asquerosos, só de pensar o corpo já estremecia. 
O morcego é horripilante, sua cabeça parece ter sido amassada para dentro do corpo, “quase não tem pescoço”, pensou ela. Nas vezes em que deram o ar da graça (foram mais de um) apareceram do nada, dando um rasante pelo quarto, sem direção, destrambelhados e quando, finalmente, estavam em solo, depois de um pouso estranhíssimo, caminhavam como quem escala uma parede com suas mãozinhas nas pontas das asas. Isso sem falar no som extremamente agudo que emitiam, semelhante a um garfo arranhando um prato vazio. 
Enquanto interpretava o ruído sentiu algo subir em sua perna. A coberta havia se movimentado por alguns centímetros. “Ai, Jesus!” – disse ela, assustada. Subitamente recolheu o pé. Por que ela não levanta e acende a luz? O medo parecia dominá-la.
As estórias que circulam através de nossos pais e avós fazem sentido, se o seu pé estiver coberto pode ficar despreocupado, nenhum mal irá te afetar. Essa era sua religião agora.
Luzia passou a ouvir diversos sons, todos vindos do quarto, cada vez mais altos como zumbidos, pegadas e respiração. Ela não aguentava mais, os barulhos iam se aproximando e rodeando a cama. 
- A casa está infestada de animais de todos os tipos! 
Jurou ouvir até som de serpente. Se ela não fizesse nada, eles a matariam pela noite! Morcegos e ratos além de feios e nojentos traziam muitas doenças.
Nem todo morcego bebe sangue, a maioria come pequenos insetos e frutas, ela sabia bem, aluna nota dez em biologia. Porém abriu uma possibilidade: 
- Esse morcego só pode ser carnívoro, não temos árvores muito menos frutas dentro desse quarto!  
Tateando achou na cabeceira de cama o celular, com pouca bateria, é verdade, mas que poderia iluminar todo o recinto. Disparou a luz contra o cômodo como se emanasse um poder divino. “AAAAAAAAA!”, pensou consigo. Era melhor não ter feito.
Na cadeira da escrivaninha, sentado, com as duas mãos nos joelhos e com um grande chapéu estava alguém a observá-la. “Jesus, Maria, José!” - disse enquanto cobria, por fim, o rosto. Deixou o celular cair. 
Toda empacotada pela coberta, Luzia tremia e pedia misericórdia, buscava na memória alguma música da Alinne Barros. Cantarolava “Jesus...”, com a voz trêmula e toda desafinada. Lembrou-se de outra música: “como Zaqueu, quero subir, o mais alto que eu puder!”, cantou alto, já eram mais de 23h, alguém poderia reclamar.
Era um matador impiedoso que estava no seu quarto esperando o dia todo escondido para que pudesse matá-la a sangue frio. Ela tinha plena convicção disso. Mas poderia ser um fantasma também. Um fantasma de um pirata (chapéu parecia do capitão gancho) que morreu em alguma parte da costa brasileira tentando interceptar o ouro espoliado nas Minas Gerais, vagava pelo interior do território, perdido, até parar em sua residência. Poderia ser também um bandeirante morto, eles usavam chapéu e caminhavam para o interior do país, onde Luzia morava. Não se sentiu confortável, já tinha lido e ouvido falar de como eles agiam, não eram nada amistosos, as tribos indígenas sabem bem! De qualquer forma Luzia morreria, fantasmas, assim como nos filmes de Hollywood, matavam à beça.
Será que o fantasma desistiria de matá-la? Buscaria a luz celestial e a deixaria em paz? Boas perguntas, mas nenhuma resposta.
Já havia perdido as esperanças de sair viva dali, se arrependia de ter pedido a folga no dia da reunião: “Eu podia ter escolhido outro dia, Deus está me castigando com uma morte horrível!”. Sua vida passou diante de seus olhos, se lembrou da mãe, do pai, dos irmãos e do filho que havia saído para trabalhar. 
Quando já estendia os braços em forma de cruz, se entregando para o único mal irremediável, dizendo ”se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi!”, um clarão! Uma luz forte emanou em sua frente. 

Abriu a boca, chorando:

-Pai! A Ti entrego minha alma!

Pensou estar morta, chegava naquele momento às portas do paraíso. Teria sido uma morte rápida, nem sentiu nada, mas estava ali, de boca entreaberta, chorando. Ouviu uma gargalhada. “Deus, rindo?” – pensou. No máximo poderia sorrir afinal gargalhar seria estranho e desrespeitoso com seus sentimentos de recém-defunta.

Abriu, por fim, os olhos. Não conseguiu enxergar direito de início, depois viu seu filho parado na sua frente, seu quarto, sua cama, sua escrivaninha, sua cadeira.

-Pai? - gargalhou o filho. Vou até bater na madeira, seria muito azar ter um filho agora.

Ao olhar o quarto, viu que os sons de folhas secas eram de sacolas que se desdobraram. “Não foram feitas para dobrar” - pensou Luzia. Quanto à beirada da cama havia uma mala que ela preguiçosamente não retirou de lá, “ninguém sentou na cama”, falou baixo, completando o quebra-cabeça. Na cadeira, o assassino que a observava era nada mais nada menos que um amontoado de roupa para passar, “não é serviço meu”, justificou ela.

Antes que o filho deixasse o quarto, sem entender o que se passava com sua mãe, Luzia falou com ar de sabedoria:

- Na escuridão vejo melhor!

Texto por: Otávio Tonelloto (otavio.tonelloto@gmail.com), graduado em Artes Visuais pela Universidade Federal do Vale do São Francisco, atualmente é Professor de Artes Visuais pela Prefeitura Municipal de Guaratinguetá.

Ilustração: Maria Clara de Oliveira (@_am_arte), graduanda de Jornalismo em Multimeios na UNiversidade do Estado da Bahia (UNEB), Campus III.