Ambientalista e estudioso sobre aves há mais de 30 anos, Aliomar Antônio Almeida, demonstra receio com a implantação de um parque eólico na cidade de Canudos e os impactos na fauna local, principalmente na rota de voo da espécie Arara-Azul-de-Lear. Experiências com outras aves em parques eólicos ao redor do mundo têm resultado na extinção local de algumas espécies, o que representa uma preocupação significativa para as araras. Isso acontece porque as hélices dos aerogeradores são obstáculos ao comportamento de voo das aves.
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| Os parques eólicos representam uma preocupação para a existência das Araras-Azuis-de-Lear. Foto: Halanna Halila. |
Para saber mais, confira a entrevista de Aliomar Almeida realizada por Levi Varjão à Agência MultiCiência.
MultiCiência: Como avaliar os impactos das turbinas eólica na fauna local?
Aliomar: Em um projeto dessa magnitude as consequências para o meio ambiente são muitas. Mas, não temos no mundo nenhuma experiência com parque eólico e araras, principalmente a Arara-de-Lear, que tem um comportamento de voo muito contrário aos obstáculos de construção de parque eólico. É uma arara que usa correntes de vento para pegar impulso, e é uma espécie voa muito à noite. Ela chega a uma velocidade de 60 a 80 por hora.
A arara faz esse deslocamento dos dormitórios para as áreas de alimentação de até 60 km diariamente, há milhões de anos. Assim, construir um obstáculo no meio do caminho é sempre uma ameaça de consequências que não podemos imaginar. Mas, a gente sabe que as experiências em locais onde há parques eólicos situados em rotas de voo não são boas. É muito comum onde tem um parque eólico há extinção de algumas espécies de aves localmente. Isso é uma questão bastante preocupante para a arara.
A gente não discute a questão se o parque eólico é uma coisa boa ou não, porque energia eólica, em princípio, é uma coisa boa, é menos poluente do que os outros tipos de energia. Mas a gente questiona o licenciamento ambiental, as autorizações de um parque eólico dessas proporções sejam feitas sem o rigor da lei ambiental do Brasil. Existem leis, normas, existem resoluções do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama(, existe uma série de condições que precisam ser respeitadas e, infelizmente, o órgão ambiental da Bahia, talvez pela urgência política, eu não sei dizer exatamente, mas tecnicamente a gente entende que os licenciamentos foram concedidos com pouco exigência legal.
| Complexo Eólico. Reprodução: Redes sociais. |
MultiCiência: A consultoria, que a empresa contratou para fazer o estudo que lhe garantiu a licença prévia, disse que não havia comprovação de que a rota de voo das araras passava pelo trajeto do complexo. Apesar de reconhecer que, ao longo do ano, essa rota poderia sofrer uma mudança e elas poderiam passar por lá. A rota de voo das araras chega a passar pelo complexo?
Aliomar: Isso foi dito pela empresa lá no começo, quando ela ainda tentava a licença prévia. Hoje, ela já não tem mais condições de fazer isso, porque existem fotos das araras lá na área de implantação do parque. A empresa construtora do parque eólico emitiu uma opinião baseada num estudo que ela contratou de uma empresa de assessoramento para licenciamento ambiental. A assessoria emitiu um laudo baseado nas suposições dela, que não se comprova porque se ela tivesse simplesmente perguntado para nós. E nós trabalhamos em toda essa região, ou se ela não quisesse perguntar para nós sobre o projeto, poderia perguntar nas comunidades. Isso bastaria para saber que ali é rota de arara.
A comunidade do Bom Jardim tem população que vive e convive diariamente com a arara, sabe da passagem da arara ali. Então, o que talvez a empresa tenha usado é um dado “científico” . Vamos dizer “científico”, entre aspas, pois o rastreamento de algumas araras que vivem no dormitório das Barreiras, no extremo leste do parque eólico, fica a 6km.
Eles botaram rádio transmissores em 10 filhotes de arara e esses não voam em direção ao parque eólico, eles voam na direção oposta. Então, obviamente, se eles tivessem rastreado araras em todos os dormitórios esse dado não seria verdadeiro. Além disso, existem questões técnicas, porque para fazer o rastreamento e dizer que, em um determinado local, não passa o animal que está sendo monitorado, você precisaria fazer isso em duas estações reprodutivas, ou seja, por dois anos, porque as araras mudam de comportamento de acordo com o período do ano.
| Ambientalista e estudioso sobre aves, Aliomar Almeida, alerta sobre os impactos na fauna local. Reprodução: Redes sociais. |
Para se ter uma ideia, são 2 mil Araras que vivem na região. Existem períodos do ano que, em Canudos, não dormem mais do que 400 araras e há períodos que dormem mais de 1mil, então elas se deslocam, já que é um bando, só entre os cinco dormitórios mais importantes delas. O estudo que eles fizeram de monitoramento, que na verdade foi um estudo pago para uma empresa de licenciamento ambiental, só foi feito por cinco ou seis meses e não fechou nem um ciclo completo de 1 ano. Já a norma técnica determina que esse estudo seja feito por duas estações reprodutivas, ou seja, por dois anos. Hoje, a empresa não tem mais coragem de dizer que não passa, porque a arara está passando muito lá.
MultiCiência: Quais são as consequências que um único evento de colisão de uma única arara com essas turbinas pode causar para a espécie como um todo?
Aliomar: Normalmente, quando você estuda os comportamentos e o impacto de um animal sobre um determinado projeto, no caso, um projeto de energia eólica, as pessoas falam com base em um conhecimento técnico, mas é preciso se aprofundar no comportamento da espécie que está sendo analisada. Tenho 10 anos de convivência com a arara e sou especialista em reprodução de papagaio Psittacidae há mais de 30. Eu conheço comportamento animais, eu estudo isso a minha vida inteira e a Arara-de-Lear tem um comportamento muito específico. Então, o que vai acontecer é o seguinte: as Araras voam em grupos familiares. Um grupo pode ter três araras, o casal mais um filhote, pode ter dois casais e mais quatro ou cinco filhotes. Esses grupos vão de três indivíduos até um grupo, em média, de 30 indivíduos, que é um grupo na família, essa família voa junta.
Quando elas retornam, esse grupo familiar, se por uma fatalidade, qualquer um elemento desse grupo for atingido por uma hélice do aerogerador, ela vai cair e o grupo vai voltar para resgatar, isso não há dúvida. O grupo vai voltar, ficar circulando em torno dos aerogeradores para tentar recuperar aquele elemento do grupo que se acidentou. Isso pode dizimar o bando inteiro. Esse é um fato que preocupa demais.
Outra coisa que eles falavam era em pintar as pás de vermelho e preto, não faz diferença a cor que você vai pintar a pá, para um bicho que voa à noite, não faz diferença. Outra coisa, eles falaram em frear o funcionamento das pás, não é o giro das hélices que põe a arara em risco, lógico que põe, mas elas vão se chocar com o parque eólico, mesmo não funcionando.
E quando eles estão funcionando, é ainda mais grave, porque eles geram turbulência. As araras vêm a uma velocidade de 80km/h, ela não tem como frear. Ela é engolida pela turbulência, de forma que o que eles estão dizendo que é uma solução, na verdade, é um desejo e não tem como se consolidar na prática. O comportamento da arara é contra isso que eles estão propondo de solução, nesse caso não se deve pagar para ver. Toda essa construção foi levada pelo Ministério Público Ambiental da Bahia e o Ministério Público Ambiental Federal para o juiz federal, que pediu a suspensão da obra e solicitou que a empresa refaça todos os estudos técnicos antes de colocar em operação. Agora, nós estamos diante de uma medida cautelar que o juiz concedeu para o Ministério Público e a gente está torcendo muito que a empresa faça o que tem que fazer, porque, se não fizer, o futuro da Arara-Azul-de-Lear como espécie é sombrio, é bastante sombrio.
MultiCiência: Além dessas características comportamentais que você elencou, existem também características morfológicas que tornam a arara-azul mais vulnerável a isso?
Aliomar: A gente não tem essa resposta porque não temos experiência nisso. Por exemplo, os morcegos são as maiores vítimas dos parques eólicos. A gente tem aqui na região de Canudos mais de 100 espécies de morcego, e eles têm um papel ecológico absurdamente grande na dispersão de sementes e no controle sobre insetos. O que acontece com as mortes de morcegos? Os Gaviões, eles aprendem a resgatar os morcegos e eles voam acima dos aerogeradores à procura dessas vítimas do parque eólico, que podem ser morcego, podem ser passarinhos. Qualquer bicho que se chocar, o gavião está de olho, mas quando ele mergulha para resgatar essa presa, ele também se choca com o parque eólico. A gente não conhece o que vai acontecer com a arara. A gente só tem dúvida. Agora, a gente já sabe que as maiores vítimas dos parques eólicos são os rapinantes, urubus, gaviões. Essa turma aí, exatamente por conta desse comportamento de ir resgatar.
Mas, a gente sabe que o comportamento da Arara diante dos obstáculos dos parques eólicos vai levar a um conhecimento novo e esse conhecimento vai ser pela pior forma que é pelo impacto de morte.
MultiCiência: E as turbinas eólicas podem afetar os padrões de comportamento das Araras para além dos já citados. Elas podem afetar também a forma de alimentação e mesmo de descanso das Araras da região?
Aliomar: Depende do tamanho do parque eólico, porque nós temos uma população mínima. A população de Araras reprodutivas não chega a 500. Imagina, para cada casal que você perder - não precisa nem perder o casal, pode perder um indivíduo de arara em idade reprodutiva - é uma tragédia para a recuperação da espécie. Então, o parque eólico não leva a mudança de comportamento a arara está aqui há muitos anos.
O que é muito trágico é que, no início de 2019, a gente avisou a empresa. Para implantar um parque eólico, precisa tomar muito cuidado. Depois, em 2021 o Ministério Público recomendou que eles parassem para fazer um estudo mais completo. A empresa não parou, ela continuou tocando o projeto dela. É muito triste ver que a empresa assume o risco e toca um projeto sem ouvir especialistas no assunto. Para se ter uma ideia, foram ouvidas 19 entidades, todas as grandes instituições do mundo e do Brasil que entendem de ave foram ouvidas. Dessas 19 instituições, somente duas disseram que não tem risco para a Arara. Quem são as duas? Uma é o órgão licenciador que é o Inema e a outra empresa de assessoria fez o estudo para o parque eólico. Será que nós temos essas 17 instituições especializadas em aves no mundo que estão erradas?
É bastante preocupante que a coisa seja feita assim, porque isso gera prejuízo para todo mundo, gera expectativa. Acho que é ruim para todo mundo que tenha que se passar por esse tipo de discussão. A gente sempre foi aberta a conversar com eles, mas eles passaram a não ouvir as pessoas que realmente têm conhecimento técnico, nem o Ministério público. Para você ter uma ideia, o ICMbio, o Ibama, o CMAV, O Conselho Federal de Biologia, o Conselho Federal de Veterinária, todos emitiram pareceres contrários a instalação do parque eólico nesse local.
O território da arara tem 70 km de largura e 150 km de comprimento. É um território relativamente pequeno para o tamanho da Bahia. Daria para o parque eólico ser feito a uma distância segura, se ele deslocasse o parque 20 km não ficaria na área de colisão das Araras. E eles mantiveram mesmo sabendo desse risco.
MultiCiência: Quais são os motivos para a Arara-Azul-de-Lear ser considerada uma espécie de reprodução lenta?
Aliomar: Os papagaios psitacídeos, que é a família que a Arara, integra, tem um comportamento longo de maturidade sexual. As aves vivem muito, a gente estima que uma Arara-Azul-de-Lear vive mais de 50 anos. E ela fica adulta e reproduz a partir dos oito anos. Esse é um comportamento biológico da ave. Ela tem uma postura de três ovos. Normalmente ela cria um filhote, em média, porque não existe alimentação para todos os filhotes por falta do licuri.
É preciso considerar que há 40 anos a gente tinha menos de 100 Araras-de-Lear no mundo, pois ela só existe aqui na Bahia. De um grupo de 100 Araras, hoje, estamos chegando em 2 mil. Então, é uma luta grande, muito grande.
MultiCiência: Existe um plano de conservação e redução de danos desenvolvido por parte da empresa eólica que explora o território de Canudos?
Aliomar: Em um licenciamento ambiental, o órgão licenciador, no caso da Bahia, o Inema, pede que as empresas que vão cometer impacto ambiental tenham alguma contrapartida. O que a empresa está se propondo a fazer é: eles contrataram um grupo de pesquisadores que tem um histórico com pesquisa de Arara. Esse grupo de pesquisadores tem uma empresa, e eles apresentaram um plano de execução e de plantio de licuri.
Tenho bastante dúvidas sobre esse programa de licuri, porque o Inema estabeleceu que para cada pé de licuri que a empresa retirasse, ela deveria plantar mais quinze. A empresa não cumpriu isso. Eles entenderam que para cada 15 pés de licuri que ela destruísse, bastava plantar um. Eles inverteram o entendimento.
Não sei como é que uma empresa especializada em meio ambiente pode fazer uma confusão dessa. Mas ela transplantou, ela pegou 3 mil pés de licuri que ela tirou da natureza e colocou em outro lugar. Não conheço nenhum programa de transplante de licuri que tenha dado certo.
A última divulgação que a empresa fez, eles afirmaram que sobreviveram 27% desse transplante. Acho muito, mas a gente tem que calcular, porque para cada metro quadrado de área desmatada, tem, pelo menos, um pé de licuri. Essa é a escala na região que eles desmataram, a estimativa é que eles tiraram 150.000 pés de licuri da natureza. Precisariam fazer uma reposição grande, então são questões muito controvertidas.
O vídeo “Araras da caatinga” é uma forma da empresa fazer uma publicidade em cima de uma intenção. Mas o que eles propõem, não é viável, porque, primeiro, para plantar licuri precisa de terra. Eles não vão plantar licuri na terra dos outros.
Outra questão é o seguinte: se você vai implantar um parque eólico e sabe que a Arara é um obstáculo para o seu empreendimento, por que é que os teus interesses como empreendedor colocaria o aumento de Araras como um desejo? É conflitante esse discurso. A empresa precisa ser mais clara com relação a isso.
A Arara pertence a todo mundo, é um patrimônio da região baiana, patrimônio da humanidade. Ela já foi considerada a quinta ave mais importante do mundo. Um parque eólico é um empreendimento privado que visa lucro. Uma empresa francesa que vai levar a riqueza para França e vai deixar para trás pouca coisa.
Matéria de Levi Varjão para a Série "Sertão das eólicas e mineradoras: como a implantação dos empreendimentos pode afetar as comunidades no território Sertão São Francisco", desenvolvido no componente Redação Jornalística II e Planejamento Visual, ministrados pela professora Andréa Cristiana e Cecílio Bastos, respectivamente.
