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Reportagem do MultiCiência ganha Prêmio Sebrae de Jornalismo

A estudante de Jornalismo da Uneb Juazeiro (BA), repórter da Agência MultiCiência, Laíse Ribeiro, conquistou um lugar no pódio do Prêmio Sebrae de Jornalismo com a reportagem “As Odetes e a representação feminina na Economia Solidária do Sertão do São Francisco”. Acesse a reportagem premiada de Laíse Ribeiro:

https://multicienciaonline.blogspot.com/2024/05/as-odetes-e-representacao-feminina-na_31.html

A cerimônia de premiação do Prêmio Sebrae de Jornalismo ocorreu na última terça (10), no 1º Encontro Baiano de Comunicadores, ocorrido no auditório do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) da Bahia, em Salvador, e premiou produtos jornalísticos divididos nas seguintes categorias: Jornalismo em Texto, em Áudio, em Vídeo, Fotojornalismo e Jornalismo Universitário. Essa última é uma novidade implementada neste ano, e tem como objetivo reconhecer e estimular produções estudantis ou de recém-graduados.


Dentre os finalistas, estavam estudantes de universidades estaduais, e jornalistas de diversas emissoras baianas, movidos pelo interesse em pautar o empreendedorismo no estado. A Universidade do Estado da Bahia (Uneb) conquistou dois lugares no pódio: o 3º, com a reportagem de Laise Ribeiro, e o 1º lugar, com o trabalho de Ana Novaes, do campus de Seabra, denominada: “Agricultura familiar e afro-vivências: memórias de quilombos da Chapada Diamantina”. O 2º lugar do pódio ficou com Murilo Trindade, da Universidade Estadual de Santa Cruz, com a produção: São João na Bahia é símbolo de empreendedorismo. 


Foto: Arquivo Pessoal

“O prêmio é muito importante pra mim, não só pra minha vida acadêmica, mas também pelo lugar de onde eu venho e por reconhecer não só o meu trabalho, mas o dessas mulheres”, afirma Laíse Ribeiro, ao ser perguntada sobre o que o prêmio significa.

Laíse Ribeiro e os processos de construção da reportagem premiada


Laise Ribeiro (22) é natural de Juazeiro - Bahia, e está no 6º período do curso de Jornalismo em Multimeios do campus III da Uneb. Decidiu estudar Jornalismo por, entre alguns fatores, ter afinidade com a escrita e interesse pelo poder transformador da Comunicação. 


Laise conheceu a Agência de Notícias MultiCiência - projeto de extensão da Uneb de Juazeiro - no 3º semestre, através de conversas com a ex-coordenadora professora Andréa Santos, atual diretora do Departamento de Ciências Humanas do campus, e se sentiu provocada a participar, diante do caráter laboratorial e possibilidade de atuação prática, que acaba ficando restrita aos períodos mais avançados da graduação. 


Desde o início do curso, ela se dedica a pesquisar e trabalhar temas relacionados à como a mídia é usada para reforçar o racismo e a xenofobia diariamente, e o quanto isso é enraizado. Além disso, também tem buscado dar visibilidade a pequenas iniciativas empreendedoras, culturais e artísticas de Juazeiro, da região, entendendo o Jornalismo como uma forma de potencializar saberes ancestrais e desconstruir estereótipos.


Uma dessas iniciativas que Laíse se interessou em estudar é “As Odetes”, um grupo de mulheres do Sertão do São Francisco - território às margens do Rio São Francisco que abrange cerca de 10 cidades, situadas na Bahia e em Pernambuco -, cujo contato inicial surgiu na visita a uma feira da economia solidária que aconteceu em Juazeiro, aliada à demanda por uma pauta para uma reportagem do componente Redação Jornalística III.


Laíse escolheu a Feira de Economia Solidária na cidade e foi visitá-la, inicialmente, com a intenção de escrever sobre o evento, pela relevância do tema, que é muito presente em Juazeiro. No entanto, quando chegou ao local, conheceu Ana Paula Severo, uma das Odetes, e percebeu que a história do grupo mereceria ser contada. “Ela foi me contar sobre a história, e, ao ver a força dessa mulher, o entusiasmo com que ela me contou aquela história, e como a economia solidária mudou a vida dela, me fez entender que era um tema extremamente importante, e escrever sobre aquilo”, destaca a estudante. 


Laise diz que a partir do contato com “As Odetes”, ela passou a entender melhor a relevância social daquele grupo, e o quanto a economia solidária pode transformar vidas.  “Nesse projeto, as mulheres são as protagonistas” destacou. 


A reportagem foi entregue para o encerramento do componente Redação Jornalística III, mas  Laíse, querendo submeter a proposta ao Prêmio Sebrae de Jornalismo, conversou com a coordenadora do MultiCiência professora Carla Paiva, que a orientou, propondo que mais mulheres do grupo fossem entrevistadas, mais imagens adicionadas etc.


A Agência MultiCiência: importância da extensão universitária


Com mais de 19 anos de história, a Agência Multiciência é um espaço de produções  jornalísticas dos alunos do curso de Jornalismo em Multimeios, que visa disseminar conteúdos jornalísticos para o Vale do São Francisco.  Além de difundir conhecimento científico para a sociedade, a agência é um espaço que busca estreitar os laços da comunidade acadêmica juntamente com a população, valorizando a cultura local e exaltando a importância da economia solidária no contexto do semiárido. 


Carla Paiva, coordenadora do Projeto e orientadora de Laise, conta que o produto designado pela aluna demonstra a importância dessa conexão entre a universidade e a sociedade. “O produto de Laíse é muito fruto desse papel da universidade de incentivar o jornalismo independente, de incentivar um jornalismo científico que converse com a sociedade e que converse com a diversidade.”, afirma Carla.


Carla ainda conta sobre a importância da agência, além de mostrar que a premiação de Laise é um exemplo de que a Agência tem se consolidado cada vez mais como esse local de construção e produção jornalística, tornando-se um importante projeto de extensão universitário. “A classificação desse trabalho denota a importância que a Agência MultiCiência tem não só para o curso de jornalismo, mas para a UNEB como um todo e também para o município de Juazeiro.”, acrescenta a coordenadora. 


O feedback das Odetes


Uma das características da agência Multiciência é a busca do estreitamento das relações entre a universidade e a comunidade externa, partindo da premissa de que as pessoas ouvidas, as histórias contadas, divulgadas, não são apenas fontes a serem usadas, objetos de estudo. E isso se manifesta na forma que os monitores/repórteres são instruídos: a darem espaço para que as pessoas possam assumir o protagonismo nas produções, sendo eles apenas mediadores, pois acredita-se que não se dá voz às pessoas, elas têm sua próprias vozes; o que se pode fazer é proporcionar um espaço para que essa voz seja intensificada.

Foi o que Laise fez. E isso se reflete na forma que as relações vão se constituindo. Ana Paula Severo, uma das Odetes, manifesta a felicidade e o agradecimento pelo grupo ter sido pautado e a ajudado a conquistar o prêmio. “Para nós é uma honra. Nós somos muito gratas. A palavra é gratidão, gratidão por tudo”, enfatiza Ana Paula.



Ana Paula Severo expõe produtos na Feira da economia solidária em Juazeiro (BA)
 Foto: João Pedro Tínel

Próximas etapas do Prêmio


O Prêmio Sebrae de Jornalismo agora segue com a etapa Regional, na qual os vencedores de cada categoria no Estadual serão avaliados por 5 júris das regiões do Brasil, e os trabalhos com as melhores pontuações serão os vencedores. 


Em seguida, haverá a etapa Nacional, prevista para acontecer em novembro, em que estarão concorrendo os trabalhos vencedores das diferentes categorias da fase Regional. 


Após isso, haverá a avaliação para identificar o vencedor do Grande Prêmio Sebrae de Jornalismo, que será definido entre um dos quatro ganhadores das principais categorias da fase Nacional. 

Por Ana Beatriz Meneses e Guilherme Leite, estudantes de Jornalismo em Multimeios e colaboradores do MultiCiência.

Com o tema “Uma xícara de café gera amizades”, II Ecofestival do Café da Serra dos Morgados valoriza produção local e promove o ecoturismo

Foto: Ana Beatriz Menezes

O Ecofestival do Café é um evento realizado pelos produtores de café da Serra dos Morgados, que fica localizada nos municípios de Jaguarari e Campo Formoso, no Território Piemonte Norte do Itapicuru, na Bahia, em parceria com diversas instituições, públicas e privadas. A segunda edição aconteceu entre 12 e 15 de julho de 2024 e teve como tema “Uma xícara de café gera amizades”.

Foram três dias marcados por uma programação diversa, mas que tinha objetivos comuns: contribuir à produção local de café, divulgá-la e mostrar para o mundo as belezas da região serrana que une as duas cidades e impulsiona a economia local e o turismo. Oficinas como as de plantio, manejo da plantação, colheita, pós-colheita, filtragem, montagem de cafeteria e produção de cafés especiais marcaram os momentos destinados à capacitação de produtores locais, que, atualmente, chegam a um total de mais de 200.

Segundo Juracy Marques, professor da Uneb de Juazeiro, coordenador do evento e produtor de café, natural da Serra dos Morgados, “O grande diferencial que nós temos esse ano é o lançamento da linha de cafés especiais da Serra, que tem todo um processo diferente, e está sendo produzido pelos próprios moradores, que já produzem há muito tempo”.


Foto: Ana Beatriz Menezes

Marques destaca a importância de se existir espaços como esse para que haja a valorização cultural e a conscientização sobre a necessidade de preservar a Serra. Para além da questão econômica e de lançar a linha de cafés especiais, o coordenador explica o objetivo principal do evento tem ligação estreita com o Movimento Salve as Serras, idealizado por Juracy e outras pessoas que se interessam pela preservação da área: “Dentro da xícara de café que você compra da Serra, tem essa luta ecológica por trás dela”, enfatiza.


Foto: Ana Beatriz Menezes

Como um típico Ecofestival, o evento contou com trilhas ecológicas, guiadas por condutores que levaram os turistas a desbravar as serras, e a saber da importância dos ecossistemas ali existentes. Além disso, shows como o do coletivo Semiáridas, apresentações culturais locais como o Reisado, e o Café Literovisual garantiram a parte artística do evento, que, durante à noite, chegou a ter temperaturas próximas dos 10°C, um clima atípico para o Sertão da Bahia, mas que é o ideal ao crescimento e frutificação do café.


Grupo Mandala - Batuque Mulher. Foto: Organização do Evento

Falando em frutos, no primeiro dia, foi exibido o documentário “A história do café da Serra dos Morgados”, que conta um pouco de como essa cultura surge na Serra, e quais fatores explicam porque a região vem se consolidando como produtora da bebida mais consumida no mundo — de forma orgânica —, chegando a competir com cafés como o de Piatã, também produzido na Bahia, na Chapada Diamantina.

Feira da Economia solidária e oficina de torra


Foto: Ana Beatriz Menezes

No Ecofestival,  há também o espaço para outras produções orgânicas da região, seja de alimentos, bebidas — como os tradicionais doces, geléias e cocadas de frutas nativas —, ou ainda de produtos artesanais, como sandálias e bolsas de couro e produtos de decoração, esculpidos em madeira. É a Feira da Economia Solidária, que reuniu nesta edição do evento produtores de diversas cidades, além das sediadoras, como Uauá e Senhor do Bonfim, e comercializou durante os três dias o que há de melhor no interior baiano.

Gaúcha, moradora de Morro de São Paulo (Bahia), Magda Reis é entusiasta do ambientalismo e apaixonada por café. Psicóloga aposentada, foi ao Ecofestival do Café pela primeira vez, e diz que o intuito do evento lhe chamou a atenção. “A proposta, por ser um lugar ecológico e que precisa de recuperação ambiental. Investir nisso e tornar este lugar conhecido é muito importante.”, destaca.

Dentre as oficinas realizadas, a sobre Torras de Café, que aconteceu no segundo dia (13) foi ministrada pelo Mestre de torras Túlio Fernando, de João Pessoa (PB), que ganhou em 2022 o 4º Campeonato Brasileiro de Torra. O Mestre realizou uma formação atenta aos produtores locais, que viram possibilidades de expandir suas produções e terem uma produtividade ainda maior, pois a torra é um processo que pode “pôr o café a perder”, caso não feita da forma correta.


Foto: Ana Beatriz Menezes

Por Ana Beatriz Menezes, estudante de Jornalismo em Multimeios e monitora do MultiCiência.

As Odetes e a representação feminina na Economia Solidária do Sertão do São Francisco

Ana Paula Severo expõe produtos na Feira da economia solidária em Juazeiro (BA)
 Foto: João Pedro Tínel

Geleia e licor de palma, de manga com cachaça, de tomate, de maracujá, sequilhos e petas. Esses são alguns dos produtos produzidos e comercializados pelas Odetes, mulheres do Sertão do São Francisco, que encontraram na Economia Solidária uma fonte de renda, independência e protagonismo. Elas fazem parte da Associação de Mulheres em Ação da Fazenda Esfomeado - AMAFE, no município de Curaçá, Bahia. "A economia solidária surgiu em minha vida junto com a AMAFE, e eu sou muito grata”, aponta Ana Paula, uma das Odetes. 


O nome Odete é uma homenagem a Dona Odete Ferreira, uma senhora dessa comunidade. Hoje, ela tem em torno de 93 anos e carrega um legado de luta e conquistas. Mesmo sem acesso ao estudo, ela foi responsável por criar a primeira associação da Fazenda Esfomeado e conquistou, através das suas lutas, as primeiras tecnologias de convivência com o Semiárido,  como a cisterna, para essa região. Dona Odete é considerada um exemplo de luta para essas mulheres e para a comunidade. Diante desse legado, elas escolheram denominar o projeto com seu nome. “Para homenagear essa grande mulher e mostrar para nossa comunidade que nós podemos buscar e fazer o melhor para as pessoas”, afirma Ana Paula Severo. 


Segundo Ronalda Silva, coordenadora da incubadora de Economia Solidária da Universidade do Estado da Bahia, a Economia Solidária: “é um conceito que expressa um conjunto de atividades de produção, distribuição, consumo, poupança e crédito. Caracterizada pelo trabalho coletivo, a autogestão e valorização do ser humano e não do capital, sendo também considerada uma alternativa para o desenvolvimento sustentável.” 


A economia solidária é trabalhada de diversas formas, produtos e serviços no Brasil. De acordo com o Cadastro Nacional de Empreendimentos Econômicos Solidários - CadSol, aproximadamente 1,4 milhão de pessoas são beneficiadas por esse modelo econômico no país, por meio de mais de 20 mil empreendimentos cadastrados. Esses dados evidenciam a importância da economia solidária, principalmente, para empreendimentos movidos por mulheres, como as da Fazenda Esfomeado. 


A associação começou no ano de 2010 ainda na casa das mulheres, através de uma formação sobre a produção de sequilhos, oferecida pelo Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA). A partir daí, as Odetes não pararam. A casa já não cabia mais, então, construíram uma mini fábrica da agricultura familiar de 3,5 metros quadrados, que acabou sendo barrada pela vigilância sanitária. Mas, era preciso mais para parar essas mulheres. Elas então foram em busca de parceiras para regularizarem suas produções, conseguiram empréstimos e assim ganharam a regularização do imóvel e a autorização da vigilância sanitária.


Por meio de parcerias públicas, as Odetes ainda conseguiram reformar a mini fábrica e um  carro. Hoje o empreendimento também já conta com a parceria do Centro Público de Economia Solidária da Bahia - CESOL, que faz um trabalho junto a esses pequenos empreendimentos para melhorá-los. "As melhorias no grupo foram nos produtos, acesso a compra coletiva de embalagens que ajuda a baratear os custos para o empreendimento e comercialização no mercado convencional em Salvador”, informa Sheila Feitosa, agente socioprodutiva e assessora de comunicação do CESOL. Esse centro desenvolve ainda um trabalho de Educomunicação que orienta a formação para gestão das redes sociais das Odetes.



Associação das Mulheres em Ação da Fazenda Esfomeado. 
FOTO: Ana Paula Severo

Mulheres do Sertão do São Francisco, presente!


De acordo com Ana Paula Severo, conselheira fiscal da AMAFE, ao descrever as Odetes: “Não é porque a gente mora no interior, na fazenda, que a gente não pode crescer e realizar nossos sonhos.”, afirma. Ela percebe muito do poder feminino em sua história. “Nós somos parte da perspectiva do poder da mulher sobre as decisões sociopolíticas do território.” 


Atualmente, há 19 associadas e 5 mulheres na área da produção, Ana Paula é uma delas. Ela acrescenta que ao adotar esse modelo de economia solidária não só houve uma melhora no potencial dessas mulheres, como também no diálogo, atuação de lutas e geração de renda para as famílias, "Faço com muito amor, cada geleia, cada biscoito que sai”, assegura. E é assim que surge essa forma de trabalhar a Economia Solidária no contexto do Sertão do São Francisco, através de matérias-primas da região como a palma e do trabalho e cooperativismo de mulheres da comunidade. 



Produção de geleias.
FOTO: Ana Paula Severo


Janaiane da Silva é uma dessas mulheres. Viu a vida ser transformada depois de entrar para a Associação. Ela ocupa o cargo de secretária das Odete e conta que esse projeto foi capaz de abrir seus olhos para entender que mulheres devem ter espaço e podem chegar onde quiserem. “As mulheres era só em casa, a partir desse momento que foi criada a ideia e colocada em prática, fomos abrangendo e mostrando para essas outras mulheres que somos capazes de chegar onde queremos”, afirma Janaiane. 


Ela ainda conta que as experiências têm sido muito positivas e mudado totalmente sua vida, visto que antes do projeto era considerado apenas uma dona de casa e mãe, mas após a criação desse grupo ela viu que podia ir além das fronteiras do seu lar e das funções maternas. Impactando assim não só a sua vida, mas a de todas as mulheres do projeto, da comunidade e da sociedade geral. 


Mas, mesmo diante de tantas conquistas, essas mulheres ainda enfrentam dificuldades pelo caminho e a maior delas é a dos preconceitos de gênero e o machismo, que descredibiliza as Odetes que querem alcançar sua independência e protagonismo, principalmente no sertão. E é essa a maior dificuldade que Janaiane relata haver nesse momento. “É mostrar para a sociedade que as mulheres podem alcançar seus objetivos e dominar o seu território, defender e mostrar o seu potencial.”


Apesar do trabalho contínuo, essas empreendedoras enfrentam também obstáculos na comercialização dos produtos. Uma das formas encontradas para diminuir essa problemática é a participação em eventos,  como a Feira da Economia Solidária, que aconteceu nos dias 5 e 6 de abril de 2024, em Juazeiro - BA. A feira é promovida pelo CESOL e 68 feirantes tiveram espaço para comercializar seus produtos, entre eles, as mulheres da AMAFE.


Por Laíse Ribeiro, estudante de Jornalismo em Multimeios e colaboradora do MultiCiência

"Tatuador da Estrelas": o jovem empresário que desafia estereótipos

Destacar histórias de sucesso de jovens das periferias é fundamental para inspirar outros a perseguirem seus sonhos, evidenciando que há alternativas positivas diante dos desafios, desencorajando assim o envolvimento com drogas e atividades criminosas.

Como exemplo, Iariel, mais conhecido como “Tatuador das Estrelas” um garoto de família humilde, que hoje aos 23 anos de idade é um tatuador premiado, empresário e influencer, somando mais de 40 mil seguidores em suas redes sociais. 


Iariel, "Tatuador das Estrelas". Foto: Quele Santos.


Em entrevista concedida aos repórteres do MultiCiência no estúdio empresariado e arquitetado pelo próprio artista, sediado em Juazeiro Bahia, o jovem expõe sua história de vida: projetos escolares, pessoas que lhe encorajaram e até mesmo desarranjos que contribuíram para seu desenvolvimento pessoal e profissional. 





Iariel em seu estúdio. Foto: Samuel Henrique

Segue a baixo a entrevista completa.

 

Quando você começou a desenhar e em qual momento você percebeu que sua arte poderia ser uma fonte de renda?

Eu desenho desde que me vejo por gente, uns 7 ou 8 anos de idade. Daí, comecei a trocar desenhos por lanche na escola. Vim de uma família humilde, nunca faltou nada em casa; meu pai sempre foi trabalhador. No entanto, eu desejava pequenos luxos, como lanchar na escola, e foi aí que comecei a fazer essas trocas. Percebi que poderia transformar isso em um comércio.

Aos 13 anos, conheci Ramires, um profissional de tatuagens que me fez sentir o desejo de seguir no ramo da arte. Aos 14, participei no colégio Paulo Sexto do programa estudantil "Lápis na mão", competindo com mais de 700 pessoas, e tive êxito, ficando em primeiro lugar. Fui destaque em uma feira de empreendedorismo na escola, participando com enfoque em arte. Com 16 anos, comecei a ingressar no ramo da tatuagem, e aos 17, terminei o ensino médio já empregado na área.

 

Por que você recebe o nome profissional “Tatuador das estrelas”?

Eu comecei a andar muito com artistas, e em 2020 tatuei o Poeta em Salvador e ele brincou ‘Por que você não é tatuador das estrelas, tatuador dos artistas, isso e aquilo’, e assim terminou colando e até hoje permaneceu e trabalho com esse nome. Já tatuei vários outros artistas também, como Igor Canário, Duda Wendling (atriz da TV globo), Backing vocal da banda “La Fúria”, cantor polêmico entre outros famosos, por isso o nome pegou.  

 

Em algum momento da sua juventude na periferia, você se encontrou envolvido em situações desafiadoras ou atividades questionáveis?

Sim, quando eu estava indo para o ginásio sexto ano, eu era um garoto muito brigão, praticava boxe, judô, me enturmei com algumas pessoas que gostavam disso e a gente estava sempre brigando, a gangue era organizada em hierarquia, e para entrar na gangue você precisava bater nos outros e ia subindo de cargo sempre que ia “derrotando” os dos cargos acima do seu, e isso servia para dizer quem você deveria respeitar e quem iria te respeitar, eu fiquei na segunda posição. Eu fui crescendo e amadurecendo minhas ideias, outros integrantes da gangue foram parando de estudar, perdendo o ano, e hoje em dia muitas pessoas que eu andava naquele tempo não existem mais, estão debaixo da terra, outras foram presas, eu fico feliz de ter saído dessa vida.

 

Existe algo específico que você gostaria de destacar, registrar ou transmitir à juventude?

Sempre acredite nos seus sonhos e siga até o fim, independente das barreiras que apareçam, continue no foco até conquistar o que deseja.





Jovens apostam em inovação no Vale do São Francisco

Jovens visionários lideram uma revolução inovadora, com a mente inquieta e energia inabalável, desempenhando um papel fundamental na construção de um futuro promissor. Eles colaboram, compartilham conhecimentos, derrubam barreiras tradicionais e buscam soluções inovadoras, engajados nas oportunidades. 

Um exemplo inspirador dessa inovação pode ser encontrado em um pequeno espaço de Coworking na cidade de Petrolina-PE. Aos 16 anos, quando estava no ensino médio, Jonatas Araujo Matias, foi convidado para participar de um concurso na Campus Party, festival de tecnologia, empreendedorismo e ciência, que abriu oportunidades para o início da sua trajetória no rumo de Startups e empreendedorismo. "O propósito do evento era nos desafiar a solucionar problemas referente ao Agronegócio,e  nós que trabalhamos em startups somos extremamente fascinados em solucionar problemas e é isso que me define. Esse foi o pontapé inicial na minha trajetória inovadora que domina o vale do São Francisco’, afirma Jonatas. Hoje, aos 19 anos, ele é um jovem que está inserido na cultura de inovação e tem uma agência de marketing focada para pequenos e médios negócios.

 Jonatas Araújo Matias ao lado esquerdo, recebendo o prêmio Campus Party. Arquivo Pessoal. 


O Vale do São Francisco tem potencial para criar polo de startups e sistemas de tecnologia principalmente para o agronegócio, pois conta com parceiros como Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e a Universidade do Vale do São Francisco (Univasf). As instituições atuam para unir jovens e agricultores por meio de startups que solucionam problemas que afetam a cadeia produtiva, através de polos tecnológicos de agronegócio e aplicativos que facilitam a certificação para os pequenos e médios produtores que queiram exportar.

Essas ideias nascem de uma geração de jovens que utilizam da tecnologia como ferramenta de transformação.Contudo, a implementação de pólos tecnológicos e de startups no Vale do são Francisco ainda enfrenta dificuldade com relação à acessibilidade da sociedade.

“Infelizmente muitas pessoas não têm acesso ao lado inovador ,mas isso tem caminhado para mudar de uns anos para cá , sinto novos olhares para esse lado transformador e revolucionário das startups’’, conclui Jonatas ao explorar novas perspectivas de futuro para o sistema tecnológico. 

Jonatas ministra palestras de desenvolvimento e startups voltada para o Agronegócio. Arquivo Pessoal.



Além da empresa de marketing, Jonatas é uma jovem liderança do Inova Petrolina, onde participa de uma comunidade de Startups no Vale do São Francisco, atuando como consultor de inovação em alguns eventos do Sebrae e faz a gestão das startups a Valenet e a Cistech monitoramento inteligente. 

Cultura de inovação

No entanto, a inovação não se limita apenas à tecnologia, a juventude promove  a diversidade e a inclusão em todos os aspectos da sociedade, como na inovadora proposta de Pedro Lourenço,morador de Juazeiro-BA . Aos 19 anos, o jovem teve oportunidade de participar de uma simulação online das Organizações das Nações Unidas(ONU). 

A  proposta do projeto é expor os participantes ao ambiente diplomático, entendendo o funcionamento das organizações internacionais e permitindo aos estudantes de qualquer lugar do mundo possa colocar em prática as diversas teorias dentro do campo das relações internacionais, ciência política, diplomacia e direito. Pedro sentiu a carência de diversidade étnico-racial no ambiente. "É um ambiente de pessoas brancas, elitizadas europeias e americanas, há uma carência de brasileiros nesses lugares e os poucos que tem são elitizados, são simulações restritivas financeiramente".


Diante da pouca diversidade e oportunidades restritas, Pedro decidiu então criar o Instituto Jovem Brasileiro que é uma instituição que leva jovens brasileiros baixa renda para as maiores simulações da ONU do mundo, como simulação da ONU de Harvard, Yale, MIT, Stanford, Cornell e outras, de forma gratuita, que já acumulou mais de R$40 mil em bolsas de estudo. Atualmente, também promove a própria simulação da ONU virtual focado no público brasileiro e publica quinzenalmente uma newsletter intitulada "Mu News" sobre simulações da ONU, geopolítica, história e humanidades. 

"A necessidade de quebrar essas barreiras e ver estudantes de baixa renda em grandes destaques e podendo participar de simulações e experiências fora do país foi o que me motivou, pois para ir aos eventos as agências cobram de $1000 até $3000 reais já nos do instituto conseguimos facilitar à gratuidade para jovens de menos condições financiáveis através de bolsas de estudos que são pouco divulgadas e conhecidas."- conclui Pedro. 

A revolução inovadora liderada pela juventude não é apenas um fenômeno local, mas global, ideias e iniciativas estão se espalhando e conectando jovens de diferentes partes do mundo que compartilham a mesma paixão pela inovação. No entanto, essa revolução não está isenta de desafios. A falta de recursos, acesso desigual à educação e resistência de alguns setores da sociedade são obstáculos que a juventude enfrenta. 

Entretanto, esses desafios os motivam a serem ainda mais inovadores e resilientes. A juventude tem uma força poderosa no cenário da inovação, como a rede de apoio criada por Artur Cisneros, Coordenador do Curso de Economia da Faculdade de Ciências Aplicadas e Sociais de Petrolina (Facape). O professor desenvolve projetos que buscam uma gestão mais focada em inovação e gestão de negócios. 

"No Vale do São Francisco a inovação já está presente em vários seguimentos, através de nossos jovens principalmente nas universidades, projetos estão encaminhados para que partes como sustentabilidade no agronegócio, ou criar ferramentas para que oportunidades sejam fornecidas para mentes inovadoras, o jovem de hoje tem utilizado as redes de tecnologia como apoio de grandes inovações e visibilidade para novos campos de atuação não só na agricultura," afirma o economista. 

Artur Cisneros coordenador do Curso de Economia da Facape


O apoio ao jovem inovador é fundamental para promover o desenvolvimento econômico e tecnológico de uma sociedade. Investir em programas, incentivos e recursos que estimulem a inovação entre os jovens pode levar a avanços significativos em diversas áreas. Isso não só impulsiona a criatividade e o empreendedorismo, mas também cria oportunidades de emprego, fortalece a competitividade e contribui para soluções inovadoras em desafios globais e incentiva os jovens a construir um futuro próspero e sustentável.

Jovens decidem apostar em empreendedorismo cultural

O empreendedorismo cultural é uma forma de negócio que se baseia na criatividade e no talento humano, no qual os princípios-chave são a experiência sensorial, a sensibilidade artística, o lazer e o entretenimento. Em Juazeiro e Petrolina, empreendedores na área da cultura encontram um solo fértil para produção e comercialização de seus produtos em busca de geração de renda. 

O poeta e influencer nascido no sertão nordestino, Rodrigo Frazzão, acredita que a cultura é uma forma de manifestar a ancestralidade e o pertencimento. “A cultura é importante porque nos faz pertencentes a um espaço, lugar, e mantém as tradições”, diz. 


Foto: arquivo pessoal. 



Aos 28 anos, Netão Ribeiro, artista audiovisual natural de São Raimundo Nonato, interior do Piauí, acredita no empreendedorismo cultural como forma de ‘salvação’ das pessoas, através da arte. Essa salvação, segundo ele, se dá pela valorização, a partir de políticas públicas e de assistência profissional aos artistas empreendedores para que possam se dedicar às produções, e não somente às questões administrativas. “Quando se pensa em empreendedorismo cultural, é nessa perspectiva de que os artistas precisam ser salvos, para então produzir artes que salvem outras pessoas”, declara. 

O território banhado pelo rio São Francisco, onde é possível encontrar cultura nas mais diversas formas e estilos, tem potencial para se tornar referência no setor cultural. É o que pontua Ita Alves, de 28 anos, que é produtor cultural, ao ser questionado sobre projeções futuras para a região. 

O jovem empreendedor de Petrolina ressalta porém que, para que o Vale possa se consolidar como um polo de cultura, é preciso que haja valorização dos artistas, sobretudo dos artistas jovens. “A gente está com uma mina de ouro na mão para a

produção cultural, o que precisa mesmo é investir e incentivar o banco de talentos que a gente tem, e explorar mais os espaços para fazer essas produções.” 

Empreendedorismo entre jovens 

Dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizada no primeiro trimestre de 2023, apontam que a taxa de desemprego entre jovens de 14 a 24 anos aumentou, levando em conta o 4º trimestre de 2022 e o 1º trimestre deste ano, ficando em 33,1% entre 14 a 17 anos, e em 18% de 18 a 24 anos. 

Ainda, segundo dados do relatório Education at a Glance, realizado em 2022 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil é o segundo país, de um total de 37 analisados, com maior proporção de jovens, com idade entre 18 e 24 anos, que não estudam e não trabalham, estando atrás apenas da África do Sul. 

Os dados evidenciam o desemprego e a evasão escolar que afligem a população jovem do país, e que, aliados ao desejo de independência financeira e busca pela autonomia no trabalho, fazem muitos jovens irem para o empreendedorismo. É o caso de Netão Ribeiro, artista visual que veio para Petrolina em busca de maiores oportunidades de estudo e trabalho. 

Graduado em Artes Visuais pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), Ribeiro, que também é professor, conta que chegou ao empreendedorismo através da potencialização da sua arte, mas a atuação profissional se deu a partir da inserção na universidade. Ele alerta para o risco de adotar um discurso meritocrático, apontando que não se deve enxergar o empreendedorismo, mas devem ser dadas oportunidades iguais para todos. 

No entanto, há jovens que veem no empreendedorismo a sua paixão, a sua vocação, e aliam-nas à necessidade e à conjuntura do mercado cultural, marcada pela desvalorização da arte como um todo, como ressalta Ita Alves. Graduado em Publicidade e Propaganda, ele conta que a ligação com o empreendedorismo sempre foi forte em sua vida. “Desde muito novo sempre fui muito ligado a essa movimentação, de fazer o meu próprio negócio e fazer meu próprio dinheiro. Só que não era formalizado”. 

Dicas para empreender 

Para quem deseja empreender, é necessário conhecer instituições que possam apoiar o modelo de negócio que deseja empreender, pois o empreendedorismo é marcado por muitos desafios. Dono da Fexô, empresa de divulgação cultural, Ita Alves elenca três principais dicas para quem está passando por esse momento: 

“A primeira dica é estudar sobre produção cultural. Não precisa fazer um curso de produção cultural, no caso, mas ler e estudar. Tem vários livros que ajudam a entender o segmento. A segunda é procurar o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), para orientação técnica e para saber como planejar. A terceira dica é vivenciar todas as possíveis culturas que estão presentes no meio que a pessoa vive, para entender as narrativas daquela sociedade”, orienta.

Foto: arquivo pessoal. 



Para Rodrigo Frazzão, a internet é a principal forma de empreender no ramo da cultura, pois possibilita muita visibilidade, troca de experiências e criação de networking. Além disso, ele vê como importante o próprio empreendedor se enxergar enquanto produtor e artista. “Quando você valoriza a sua arte, começa a cobrar o valor devido. É importante também expor, pois é preciso aparecer para que as pessoas saibam que você existe.” 

Ribeiro defende que, para começar a empreender culturalmente, é necessário estar alinhado com a ideia de que o planejamento e a estratégia são essenciais para obter sucesso, como também ter um caixa para investir inicialmente. “É preciso tentar sempre fazer um plano de negócio, usar estratégias de venda, buscar se especializar, e também ter um capital para começar”, indica. 

Ele defende, contudo, a ideia de que a comunicação oral, fora da internet e de outras mídias, também funcionam bem nas vendas, pois chegam a todos, sem distinção. “Gosto de pensar que o físico, que o ‘boca a boca’ ainda funcionam”. 

Foto: arquivo pessoal. 



Para saber mais sobre o Sebrae e começar a empreender, acesse o site: https://sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/.


Por Ana Beatriz Menezes, estudante de Jornalismo em Multimeios.