Juazeiro, cidade com cerca de 230 mil habitantes, apenas uma empresa detém a permissão para explorar o serviço de transporte público

População aguarda transporte público por longos minutos

Reportagem Especial: por Thiago Gonçalves


João Barbosa é juazeirense e morador do bairro Piranga. Todos os dias, ele precisa pegar, em média, cinco ônibus para realizar suas atividades. Pela manhã, João vai ao centro da cidade fazer seus trabalhos da faculdade e/ou resolver problemas pessoais, retornando logo após para casa. À tarde, pega dois ônibus para chegar à Universidade do Estado da Bahia (UNEB), onde cursa Comunicação Social Jornalismo em Multimeios. Quando acaba a aula, o estudante vai andando até a Avenida Adolfo Viana esperar o ônibus que o leva à Universidade de Pernambuco (UPE), em Petrolina, onde estuda Letras, chegando a casa no final da noite.

Esse trajeto diário, além de causar um desgaste físico, ocasionado pela espera no ponto e o tempo gasto dentro do ônibus, compromete parte do dinheiro que João recebe de seus pais. Por dia, ele gasta, em média, R$ 4,70, o que equivale, levando em cosideração de segunda a sexta, a um gasto de R$ 112,80 por mês. João reclama que isso trás indignação, pois além de pagar caro tem que esperar cerca de 30 minutos no ponto e mais 50 minutos dentro dos ônibus para chegar à UNEB. Como não há ônibus direto, ele precisa passar pelo terminal.

Assim como João, outros juazeirenses que não possuem veículo próprio precisam, diariamente, utilizar o único transporte coletivo urbano da cidade, o ônibus, seja para trabalhar, estudar ou passear nos fins de semana. Segundo o coordenador de transporte da Secretaria de Transportes e Serviços Públicos (SETESP) de Juazeiro, Onias Mendes são vendidas em média 450 mil passagens por mês. No entanto, apenas uma empresa de ônibus oferece o serviço na cidade.

Em Juazeiro, os primeiros veículos a fazer o transporte de passageiros eram combis e marinetes, carros que conduziam um pequeno número de pessoas, sendo a primeira linha destinada a para Petrolina e posteriormente de um bairro para outro de Juazeiro. A partir da década de 1950, o então prefeito José Padilha de Souza assinou a portaria n°749, concedendo a exclusividade do transporte para o grupo empresarial que até hoje detém a única frota que desempenha o serviço urbano de transporte no município. A frota é de 36 ônibus, incluindo os veículos-reserva.

Onias Mendes afirma que a regulamentação do transporte coletivo é feito através de permissão, concedida a empresa que esteja habilitada a prestar o serviço. Questionado sobre a possibilidade da concessão para mais uma empresa, ele responde que Juazeiro não comporta a entrada de outra empresa de ônibus. A justificativa é que a facilidade na compra de motos e carros e a utilização do mototáxi estão provocando a diminuição do número de usuários. O coordenador de transporte afirma que, de acordo com o contrato social que ele tem conhecimento, duas empresas (Joafra e Joalina) atuam na cidade. As empresas citadas foram procuradas, mas a informação é que a Joalina só atua em Petrolina.

Na vizinha cidade Pernambucana, quatro empresas (Joalina, Menina Morena, Vale do Sol e São Francisco) prestam o serviço, para uma população estimada em 268 mil habitantes, ou seja, Petrolina possui apenas 38 mil habitantes a mais que Juazeiro, mas conta com quatro empresas, enquanto a cidade baiana com uma.

O estudante João Barbosa afirma que Juazeiro precisa de mais uma empresa de ônibus para que o serviço seja melhorado. “O transporte público de Juazeiro precisa de concorrência, porque se esta não existe não há qualidade”, enfatiza. Ele diz que os ônibus da Joafra possuem estrutura precária, e, muitas vezes, as pessoas ficam esperando no ponto e eles não passam porque estão quebrados. Outro problema destacado por João é o preço da passagem. Ele afirma que o usuário paga caro para percorrer uma pequena distância em um ônibus péssimo e lotado. Além de problemas na estrutura do serviço oferecido, o estudante reclama do mau atendimento. “O atendimento feito pelos cobradores e motoristas é ruim; há prazo para compra de passe, se passar daquele dia o estudante não pode comprar mais. Eles pensam que estão fazendo um favor aos estudantes”, afirma.

Para quem necessita de uma cadeira de rodas para se locomover, a situação é ainda mais difícil. Na cidade, nenhum ônibus é adaptado para o transporte de deficientes físicos. O cadeirante, James Medrado afirma que, em Juazeiro, os portadores de deficiência física encontram dificuldades para se locomover devido à falta de acesso às calçadas e ao transporte público. “Se houvesse transporte coletivo adaptado iria facilitar muito a vida dos deficientes físicos, principalmente daqueles que moram nos bairros distantes do centro e precisam que outras pessoas venham empurrando eles”, declara. James expõe que por morar próximo ao centro e ter uma cadeira triciclo pode fazer suas atividades sozinho. No entanto, para os que moram distante isso é difícil. Segundo ele, o transporte adaptado traria independência e autonomia.
O coordenador administrativo da Joafra, Evanildo Manuel, foi procurado para falar sobre os problemas destacados pelos usuários, mas não foi encontrado pela Equipe de Reportagem .

Moto táxi
Uma alternativa para os juazeirenses é o moto táxi. Segundo o membro da diretoria da Associação de Condutores Autônomos Profissionais Motoboys e Mototaxístas do Estado da Bahia (ACAMPMMEB), Adilson Santos, atualmente há cerca de 700 moto taxistas na cidade, destes 360 fazem parte da associação. No entanto, o serviço não é regulamentado.

Adilson afirma a não regulamentação se deve a falta de políticas públicas no município, pois cidades como Senhor do Bonfim e Feira de Santana na Bahia, Crato no Ceará já possuem moto táxi. A prefeitura municipal promete regularizar o serviço.

No Brasil, cerca de mil cidades têm o serviço regulamentado e em outras mil existem de forma ilegal. No entanto, essas leis municipais de regulamentação são inconstitucionais, pois de acordo com a Constituição Federal, as regulamentações sobre as atividades de transito e transporte são privativas da união. Atualmente 23 Projetos de Lei referentes ao moto táxi e moto frete tramitam na Câmara Federal e no Senado.

Segundo Adilson, a regulamentação traria benefícios, como geração de emprego e segurança para os passageiros. Ele explica que, acabando com a ilegalidade, todas as motos serão sinalizadas e numeradas, caso haja algum problema o cliente vai poder reclamar junto à associação. “Muitos pegam motos, sem saber com quem estão pegando, aí acontecem coisas erradas e eles pesam que é mototáxi. Mototaxistas somos nós, todos padronizados com a camisa da associação”, declara. Ele defende ainda que o serviço gera emprego e traz renda para a cidade. “Antes do mototáxi não havia tantas concessionárias de moto”, conclui.

O estudante de Engenharia da Computação da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), Deleisson Ariel diz que o mototáxi é rápido e eficiente. No entanto, não merece credibilidade por ser um serviço ilegal. “Nunca se sabe se o condutor faz parte da associação ou se é um delinqüente se passando por mototaxista”, declarou.

Enquanto o poder público não se mobilizar para melhorar o transporte público em Juazeiro, a população vai continuar utilizando ônibus lotados e pagando caro pela passagem, além de se submeter ao mau atendimento do transporte público existente. Cabe a cada juazeirense fiscalizar o serviço oferecido e cobrar do poder municipal a solução dos problemas.


Por Thiago Gonçalves, estudante de Jornalismo em Multimeios da UNEB.

Lá pelas bandas da cidade de Canudos

Cabelos brancos e espalhados pelo vento, que entrava pela porta de duas bandas comum em casas do sertão nordestino. A voz pausada, mas com a firmeza de quem muito vivera, ele logo avisa aos que vão em busca de seus relatos: “minha prosa é positiva, eu não gosto de contar o que me contaram, eu gosto de falar do que eu ví ”. Foi assim que seu Juca, no dia 31 de agosto, ainda muito lúcido aos noventa e nove anos, recebeu-me em sua casa, lá pras bandas da cidade de Canudos.



Fui em busca da história da grande Guerra de Canudos, ocorrida entre 1896 a 1897, período de intensa efervescência política no Brasil. Pretendia saber mais sobre as histórias de seus sobreviventes, sobretudo, do que ainda povoa no imaginário daquela população.


A Nova Canudos é a terceira cidade da região, reconstruída às margens do Vaza Barrís, contudo em um local mais alto para abrigar a população. A primeira, a velha Canudos do Conselheiro, foi destruída no dia 5 de outubro de 1897, quando seu últimos combatentes caíram sob a ação do exército. A segunda, ironicamente, cumprindo as profecias do Beato, virou mar, foi coberta pelo Açude de Cocorobó, construído pelo governo militar, na década de 1960.


Contudo, mesmo em meio a destruições e reconstruções, Canudos não morreu, sua memória continua no imaginário e na lembrança do seu povo.


E quem muito bem dá prova disso é o velho Juca, como é conhecido pela comunidade canudense, pois seu nome de batismo nem mesmo ele faz questão de divulgar.


Despreocupado com o tempo anunciado pelas batidas do relógio na parede da sala de sua casa, seu Juca, pausadamente, contou o caso de uma mulher do bando do Conselheiro que foi assassinada pelas tropas quando ainda amamentava o filho. Segundo ele, seu pai indignado com a situação, foi baleado na perna ao tentar pegar a criança dos braços da morta.

Após dar uma pausa, concluiu que os soldados não perdoavam qualquer manifestação a favor de conselheristas, como contara o pai a ele. Ele me relatou ainda a existência de netos e filhos dos sobreviventes levados na época pra Salvador, cerca de 300 mulheres, velhos e crianças que se renderam e depois retornaram para povoar a Nova Canudos.


Seu Juca, em um tom de graça mandou-me procurar um senhor que segundo ele conta um conto, mas que segundo o dito popular aumenta um ponto (risos), pois desde o início da prosa ele disse: “Isso é coisa que eu não faço, minha prosa é positiva”, reforça. A importância de sua recomendação reside no fato desse senhor ser filho de uma das crianças sobreviventes, resgatada pelas tropas no interior da igreja do Conselheiro. Essa se chamava pelo nome de Maria e tinha oito anos quando foi levada a Salvador.

Como não encontrei em sua casa o amigo e indicado de seu Juca, retornei informando-o que, em uma próxima oportunidade, voltaria em busca dos relatos do ausente, ainda que seja com acréscimo de alguns “pontos”. (risos)


Canudos, seu povo e sua historia, a partir dos causos e contos como o de seu Juca que além de um ser humano simpático e que gosta de prosear, como é dito no sertão, tem a consciência do seu valor e da importância que seus relatos representam enquanto registro histórico.


Compreender Canudos pode ser também ultrapassar as fronteiras da “história oficial”, saber dela a partir de quem ainda vive, de quem ainda pulsa no sangue a descendência dos que viveram aqueles dias infelizes. Apesar de esquecido a quilômetros de distância pelo grande centro midiático, o Sertão de Canudos ainda rememora um dos episódios mais mesquinhos da nossa história. Ainda pulsa nas palavras da sua mais antiga fonte, nas recordações trazidas por tantos outros contos do quase ancião, seu Juca.


Por Laura Ferreira, estudante de Jornalismo em Multimeios

Em defesa do ecossistema caatinga e da população de Pilão Arcado

Foto: Paulo Victor: Carvoaria ameaça ecossistema com queima da caatinga e poluição ambiental


Carta Aberta à Comunidade



Pilão Arcado, Bahia, 22 de outubro de 2008

Caatingas, bichos e pessoas pedem socorro!


Na região da Lagoa do Serrote, município de Pilão Arcado (Bahia), a mais de 1000 km de Salvador, mais de 200 famílias, organizadas em Associações de Fundos de Pasto, estão com as vidas ameaçadas pela ação das carvoarias.

Em apenas cinco meses de funcionamento das carvoarias, mais de 10 mil hectares de caatinga já foram devastados. Árvores seculares como Pau D’Arco, Aroeira, Pau de Birro, Barriguda, Violeta, Angico, Cangaeiro, Camaçari, Baraúna, Catuaba, Caatinga de Porco (ou Pau de Rato) e Pau de Casca, dentre outras, estão sendo rapidamente transformadas em carvão e fumaça.

Animais como caititu, tatu, canastra, cutia, tamanduá-bandeira, veados, onça pintada, onça bodeira, onça preta, répteis e aves estão sendo mortos ou expulsos do seu habitat natural.

As comunidades que vivem na região dependem diretamente dessas áreas para tirar o seu sustento. Ali as famílias criam seus animais, como cabras, ovelhas, abelhas, gado e animais de tração. Fazem seus pequenos roçados, retiram a madeira necessária para a construção de moradias. Com a ação das carvoarias, essas famílias se encontram em total desespero.

Segundo relatos de moradores da localidade, as carvoarias pertencem a proprietários de Minas Gerais e são transportados mais de 500 m³ de carvão por semana, que servem para alimentar os fornos da siderurgia mineira, principalmente para a produção de ferro.

Ainda segundo moradores, a origem do carvão é alterada porque as notas para o transporte têm como município de referência Buritirama, na Bahia. Inclusive, uma carreta que transportava carvão foi apreendida por transporte ilegal.

Até o momento 219 fornos estão em funcionamento e o plano das carvoarias prevê a exploração de carvão na região por dez anos, e as áreas devastadas devem ser cultivadas com a monocultura de eucalipto ou pasto em áreas não-cercadas, o que pode provocar o desmantelamento total do sistema de manejo das áreas de Fundo de Pasto de toda a região.

Diante de crimes tão bárbaros, onde estão as autoridades municipais, estadual e federal? Prefeitura Municipal, Centro de Recursos Ambientais (atual Instituto do Meio Ambiente – IMA Bahia), Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (IBAMA) que já foram informadas e até o momento nenhuma providência foi tomada.

Atenção: as carvoarias já estão ampliando sua atuação para municípios do Estado do Piauí como Avelino Lopes e Morro Cabeça no Tempo.

As comunidades pedem apoio. O que podemos fazer? Este é um relato parcial, em breve estaremos encaminhando um documento com mais informações e imagens.



Associações de Fundo de Pasto de Lagoa do Serrote
Associações de Fundo de Pasto de Redenção
Associações de Fundo de Pasto de Lagoa Comprida
Associações de Fundo de Pasto de Lagoa Redonda
Associações de Fundo de Pasto de Bonfim
Associações de Fundo de Pasto de Pedra Branca II
Paróquia Santo Antônio de Pilão Arcado
Comissão Pastoral da Terra da Diocese de Juazeiro (CPT)



Fonte:

Paulo Victor - Assessoria de Comunicação da CPT Juazeiro (74) 3611 3550 / (74) 9997 4981

Aparício Rodrigues de Lima: um homem de letras, de memórias, de arte






Um homem de letras, memórias, de arte

“A principal essência do amor é a liberdade de amar”


por Illa Grazianne





O que mais chamou atenção foi o chapéu Panamá que usava. Só ouvi sua voz uma vez, estava com seu genro e sua neta à espera da sua filha. Cumprimentamo-nos e não o vi mais. O dono do chapéu Panamá é pai de 13 filhos, os seis homens têm seu nome e recebem em latim a ordem de nascimento: Primus, Secundus, Tertius, Quartus, Quintus e Sextus. As mulheres são Rosas como a mãe Rosália: Rosângela, Rosanara, Rosélia, Rosalie, Rosana e Rosalice.


O patriarca dessa família constituída por dez Aparicios, entre pai, filhos e netos é Aparício Rodrigues de Lima. Nasceu em 17 de janeiro 1921, em Santa Maria da Boa Vista, Pernambuco. Na cidade viveu até 1926, quando sua casa foi escolhida para ser quartel general das forças governamentais que combatiam a Coluna Prestes. Diante disso, mudou- se para a fazenda Pau Pretos em Curaça e, depois, Barro Vermelho, cidades no Estado da Bahia.


Autor de cinco livros, em 2000, aos 80 anos, concluiu “Petrolina e eu através do tempo”, o único livro publicado. Foi graças a ele que Aparício foi convidado a participar do Programa do Jô, na Rede Globo. Nunca gostou da designação livro, por isso referiu- se a ele entre aspas. Apenas pretendia deixar com seus escritos, conceitos filosóficos e lições de vida para os filhos.


Através do seu livro, de depoimentos da família e amigos, conheci o cavalheiro, o galista, o autodidata, um vencedor, enfim, Aparício. No dia 26 de agosto, não resistiu as complicações de um câncer e faleceu, antes da conclusão do seu perfil. Detentor de boa memória, ele costumava narrar sua história com riqueza de detalhes, lembrando de nomes e episódios da sua infância. Um deles foi sua chegada à Petrolina em 1929, e a quantidade de mulheres que lavavam roupa às margens do Rio São Francisco, prática pouco vista nos dias atuais, contudo comum no início do século na Rua do Grude, em frente ao Cais.


Em Petrolina, Aparício passou grande parte da sua vida. Na cidade estudou até o segundo ano ginasial, correspondente hoje, a sexta série. Devido as suas dificuldades em álgebra e por seu pai pagar as mensalidades do colégio através do seu trabalho como alfaiate, sentia- se constrangido e sem motivação para estudar. “Eu tenho que aprender uma arte e pronto. Conheço tanta gente que não é doutor e assim mesmo vive bem,” escreveu.


Assim, parou de estudar e aprendeu o oficio de sapateiro com Emanuel de Souza Dias. Mas, seu pai queria que ele alcançasse outros sonhos, já que ele não quis terminar o ginásio, arranjou-lhe um emprego público de Guarda Arquivista do Posto de Higiene de Petrolina. Depois, foi gerente da Cooperativa Banco de Petrolina Ltda.. Naquele tempo, era o rapaz mais bem pago da cidade. Começou no emprego como contínuo, ele varria a sala do escritório, entregava correspondências e fazia pequenas compras. Com as férias do caixa, passou a ocupar o cargo, até chegar ao cargo de gerente.


Durante toda a sua vida, Aparício gostou de rinhas de galo, cujo esporte favorito lhe rendeu alegrias e tristeza. A maior alegria foi ser homenageado em um campeonato que levou o seu nome. E a tristeza foi ter que dar um dos seus melhores galos a um amigo, pois tinha empenhado sua palavra. E palavra de um homem, para ele, era mais importante do que acordos firmados em cartório.


Casou-se em 1950 com o amor da sua vida. Viu sua esposa, Rosália, pela primeira vez em 1938, quando ela tinha cerca de nove anos. No momento, disse que ela seria a sua esposa. O tempo passou e ele conheceu o irmão da menina. Assim começaram a namorar.


O namoro não era estimado pelos familiares da moça, pois ele era visto na cidade como comunista e herege. “Comunista, porque sempre defendi os pobres, sempre fui contra a má distribuição de renda.”, confessava. Diante disso resolveu afastar - se de Rosa, era assim que ele a chamava. Até que o namoro acabou.


O tempo passou e ela ficou noiva de outro rapaz. Quando ele soube, resolveu procurá-la. Ela, sem titubear, respondeu que ainda gostava dele e, pouco tempo depois, ficaram noivos. O irmão mais velho de Rosália, Luís, não concordava com o casamento e em uma das brigas com a irmã “deu - lhe um pontapé”.


Diante disso, Aparício resolveu casar. “Foi talvez o casamento mais tumultuado de Petrolina. Se não me engano, casei - me no outro dia, contra tudo e contra todos, inclusive os preceitos da igreja, onde me disseram que tinha que correrem os banhos ou proclamas de casamento”, relembrou Aparício, em seus escritos. Para seu amigo Cantarelli, Aparício encontrou uma companheira tão importante quanto ele. “Rosália foi sua felicidade durante toda a sua vida”, ressalta.


Em Ituberá, na Bahia, trabalhou na Firestone Plantation Company, onde aprendeu a falar inglês. Devido ao seu domínio com a língua inglesa, ao voltar a Petrolina, ministrou aulas da disciplina.


Aparício tinha idéias à frente do seu tempo e foi o primeiro a fazer algumas realizações na cidade. Ele inovou ao fazer filmagens com sua câmera Super Oito, foi o primeiro a ter bicicleta e motocicleta e ensinou a sua esposa a dirigir. Além disso, era um grande piadista, segundo seu genro Joaquim. “Ele era capaz de contar piada com qualquer palavra”, afirma.

Aparício deu inicio algumas produções artísticas. Sempre inovando, ele criou algumas obras de arte superpondo materiais diversos, como cerâmica, papel machê, recortes, óculos...


A casa com detalhes coloridos, no centro da cidade, onde passou o fim da sua vida e pôde criar, educar e formar seus 13 filhos, faz lembrar o dono em cada espaço. Ele a decorou minuciosamente. No espaço que construía suas obras, ficou uma inacabada. Mas, o seu legado continua. A sua grande família, a quem ele sempre retratou com muito orgulho, permanece firme, apesar da sua ausência física.

Illa Grazianne é graduanda em Jornalismo em Multimeios (UNEB) e História (UPE).

Duas Cidades, uma arquitetura por Andréa Cristiana



Passeio por suas ruas, admiro casas, caminho por avenidas largas, ruas estreitas. À beira do que restou do cais, ainda posso admirar o pôr-do-sol e as águas do opara. Terra de acolhida de viajantes, é o olhar do estrangeiro que te admira. Saio à procura de sua história e vou ao encontro dos homens e mulheres que a construíram e a tornaram duas cidades belas à margem do Rio São Francisco.


Juazeiro, Petrolina, onde guardas a tua beleza? Juazeiro, Petrolina, qual fronteira te distingues? A Joazeiro, a Petrolina, outrora Passagem de Joazeiro, cidades emancipadas e orgulhosamente cientes de suas diferenças, de sua cultura, sua gente, mas com um legado em comum: o patrimônio arquitetônico que reúne uma história de conquista, honra, glória para torná-las um lugar para viver e morar?


Esse é o cenário da Exposição Cal, Barro & Luz, que apresenta imagens das casas, casarios, casarões, construções preservadas, outras abandonadas ao descaso. Sob o olhar da fotojornalista Jackelina Kern, as cidades se unem em um mesmo ambiente, cujo objetivo não é denunciar as diferenças da paisagem arquitetônica, mas ressaltar a memória entrevista por entre suas construções. No tempo e espaço, uni-las por meio de imagens por quem a escolheu como sua morada.


Na exposição, a memória, esse fio de Ariadne que nunca se interrompe, faz-nos voltar ao tempo em que os homens erigiram construções. É a estação que nos trazia mantimentos e pessoas para admirar o sertão, o açougue municipal, hoje abrigo para ressoar os maracatus.


As imagens também nos convocam a pensar: o que fizeste de ti, do teu passado? Será que todos sabem da importância da Ferrovia Leste, da qual ficou apenas a Estação de Piranga; de como sua gente lutou para construir casas e, depois de anos, são demolidas para dar lugar a um centro comercial, sem haver um cuidado em preservá-la.


Poderíamos indagar sobre qual a importância de procurar no barro, na cal e na luz os vestígios do passado. O caminhar apressado por entre suas ruas e avenidas pensando apenas no futuro nos faz, geralmente, insensíveis aos vestígios que o passado nos legou. Contudo, não somos eternos andarilhos, homens que não deixam suas marcas. O nosso legado é deixar às gerações futuras uma imagem, uma casa, uma lembrança. Quero passear com os meus filhos e falar do orgulho que sinto ao ver a casa, outrora de Pacífico da Luz, hoje morada do seu filho padre Bernardino; do porão da casa do Miguel Siqueira e local de brincadeiras de Dona Dinorah; do sobrado, alegria de Bebela; da porta de madeira talhada pelos artífices Saul Rosas, Cecílio Matos, Edgard Bandeira, um símbolo ao trabalho, à arte ribeirinha, à sua gente.


É este sentido de pertencer a um lugar, uma terra, uma história compartilhada que nos traz a exposição Cal, Barro & Luz, que fica aberta à visitação no Museu Regional do São Francisco, em Juazeiro, até o dia 5 de novembro. Ela nos convida a conhecer a cidade: o detalhe da platibanda, a marca da chuva e da poeira do tempo, a alegria de enxergar o belo onde hoje habita o abandono. Convida-nos a ver Juazeiro, Petrolina, como duas cidades, um só lugar, uma só morada.



Andréa Cristiana Santos, jornalista e professora do DCH III-UNEB.

Eventos apresentam pesquisas sobre hortaliças e melancias


Apresentar os projetos de pesquisa voltados para hortaliças, realizados por estudantes e professores do Departamento de Tecnologia e Ciências Sociais (DTCS), do Campus III da Universidade do Estado da Bahia, em Juazeiro.

Este é o objetivo do Dia de Campo Hortaliças e II Dia de Campo da Melancia. Promovidos pelo Núcleo de Estudos em Olericultura (NEO) do DTCS, em parceria com Departamento de Ciências Humanas (DCH), os eventos acontecem amanhã (18/10), às 8h, na Horta Didática do campus.


Segundo Carlos Aragão, coordenador do evento e professor da UNEB, o Dia de Campo é voltado para apresentação das pesquisas realizadas sobre hortaliças e será dividido em diferentes temáticas.


“Vamos fazer exposições mostrando, por exemplo, o manejo adequado de água para a melancia e o uso de extratos naturais nas abóboras para diminuir o uso de produtos químicos nas plantações”, explica Aragão.

Para participar dos eventos, voltados para estudantes e professores de agronomia, pesquisadores e produtores de hortaliças, os interessados devem preencher uma ficha de inscrição, que estará disponível 30 minutos antes do início das atividades.

“Tudo será feito no campo: inscrições, atividades e apresentações, entre outras atividades. Estamos esperando cerca de 200 pessoas para participar desse encontro”, afirma.

O evento conta com apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb).


Fonte: ASCOM

Dom Luiz Cappio recebe prêmio Paz da Pax Christi



Na próxima sexta-feira, durante programação da 5ª Romaria das Águas, será feita a entrega do Prêmio pela Paz da Pax Christi Internacional (2008 Pax Christi International Peace Award), ao bispo Dom Luiz Cappio e às organizações e movimentos sociais, povos e comunidades tradicionais, envolvidos na luta pela revitalização e contra o projeto de transposição das águas do rio São Francisco.


O prêmio será entregue a partir das 20 horas, durante ato inter-religioso, na Praça da Matriz da cidade de Sobradinho (BA). Em seguida, os participantes seguirão em Romaria para as margens do Rio São Francisco, ao pé da Barragem de Sobradinho, onde será realizado um show musical com várias atrações. A vice-presidente da Pax Christi Internacional, Laura Vargas Valcárcel, estará no Brasil para fazer a entrega do prêmio a Dom Cappio e a representantes do povo, como expressão do reconhecimento e incentivo à continuidade da luta popular em defesa das águas, da terra e de toda a vida.



Dom Luiz Flavio Cappio, bispo da diocese de Barra (BA), escolhido para receber o prêmio em 2008 convive há mais de 30 anos com as comunidades do São Francisco. Entre 1993 e 1994 fez uma peregrinação de um ano entre a nascente e a foz do rio, denunciando seu estado deplorável e animando as comunidades à luta em sua defesa. Em 2005 e 2007 fez dois jejuns pela revitalização e contra o projeto de transposição. A entrega será marcante também por acontecer no Brasil e pela primeira vez fora da sede européia da Pax Christi.

Fonte: Assessoria da Comissão Pastoral da Terra (CPT)
Para saber mais, acesse
www.cptnacional.org.br

Concurso para professor substituto

O Departamento de Ciências Humanas abriu inscrição até a próxima segunda-feira (21/10) para professor das disciplinas Planejamento em Comunicação e Técnicas de Comunicação Integrada. Os interessados em se candidatar à vaga deve ter formação em Comunicação Social com Pos-graduação Lato Sensu em qualquer área.
O processo seletivo é simplificado destinado a professor substituto e com 20 horas semanais. As inscrições serão feitas no Departamento de Ciências Humanas, campus III, no horario das 8h30 até 12h, e das 14h até 22h.

Mais informações: 74 3611-5617.

Águas para a paz, a celebração da vida!


A relação entre os usos das águas e a paz é tema da 5ª Romaria das Águas, que acontece entre os dias 16 e 19 de outubro em Sobradinho, norte da Bahia. Durante o evento, ocorrem romaria, caminhada, seminário, debates, manifestações culturais, entrega do Prêmio pela Paz da Pax Christi Internacional ao bispo Dom Luiz Cappio e às organizações e movimentos sociais, povos e comunidades tradicionais, envolvidos na luta pela revitalização e contra o projeto de transposição das águas do rio São Francisco.

A programação inicia no dia 16, à noite, com uma sessão solene na Câmara Municipal. O Seminário Revitalizar o Rio para a Vida em Paz, abre a sexta-feira (17) com a participação de representantes das comunidades e organizações populares da região.

As palestras e debates sobre modelo de desenvolvimento terão foco na revitalização popular. Ainda no dia 17, à noite, uma Celebração Eucarística na Capela de São Francisco deve relembrar os 24 dias de jejum de Dom Cappio, entre novembro e dezembro de 2007.

No sábado (18) acontecerá o Dia Mundial de Jejum pela Paz e Soberania Alimentar. O movimento chama a atenção para a tendência mundial em concentrar a produção agrícola em grandes empresas e com altas tecnologias, agora potencializadas pelos combustíveis de origem vegetal, em detrimento da produção alimentar e da agricultura camponesa, com graves riscos ambientais.

A entrega do prêmio começa com uma celebração inter-religiosa, no sábado à noite, às 20h. Líderes católicos estarão juntos com pastores de várias igrejas cristãs, mães-de-santo e pajés indígenas.

Ao término da celebração romeiros seguem em caminhada durante três horas, por cerca de quatro quilômetros. Ao longo do percurso, quatro paradas marcarão a vigília de todos pela paz, com depoimentos de representantes dos demais premiados além do bispo Dom Luiz Cappio.

A chegada às margens do rio São Francisco, deve acontecer no início da madrugada e será o momento final. Uma representante da Pax Christi Internacional estará no Brasil para fazer a entrega do prêmio a Dom Cappio e a representantes do povo, como expressão do reconhecimento e incentivo à continuidade da luta popular em defesa das águas, da terra e de toda a vida.

O prêmio

Dom Luiz Flavio Cappio, bispo da diocese de Barra (BA), será o terceiro brasileiro a receber o premi Pax Christi Internacional. O primeiro foi a sindicalista Margarida Alves, que recebeu postumamente, em 1988. O segundo foi o membro da ONU para os Direitos Humanos, Sérgio Vieira de Mello, morto vítima de um atentado terrorista no Iraque. A entrega acontece, oficialmente, no Brasil pela primeira vez.


Por Paulo Victor Melo
Assessoria de Comunicação da CPT Juazeiro-Bahia
cptjuazeiro@cptba.org.br
http://www.cptnacional.org.br/

Dissertação de mestrado é reconhecida pela Embrapa


A dissertação de mestrado de Hélio Maurício Viana Gonzaga, egresso do Programa de Pós-Graduação em Horticultura Irrigada (PPHI), da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Campus III, em Juazeiro, foi reconhecida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) como essencial para o aumento da produção da uva sem sementes na região do Vale do São Francisco.

Hélio defendeu sua dissertação no dia 26 de setembro, no auditório do Departamento de Tecnologia e Ciências Sociais (DTCS) do campus. Na ocasião, apresentou uma alternativa para melhoria da qualidade da uva e para a redução do trato manual de bagas.

A mesa foi composta pelos pesquisadores da Embrapa Semi-Árido, José Egídio Flori e Débora Bastos, e pelo professor-orientador da pesquisa, Valtemir Ribeiro. A banca de avaliação aprovou a solução apresentada pelo discente, que utiliza o ácido giberélico (fitoregulador) para o raleio químico de cachos de videira.

Segundo Manoel Abílio, coordenador do Mestrado do PPHI, a redução do número de bagas contidas em um cacho, chamada de raleio, é importante por permitir um melhor desenvolvimento das uvas e por ser considerado um elemento comercial de exportação.

“Sem o controle de bagas, as frutas não se desenvolvem. Para fazê-lo, precisamos de cinco pessoas trabalhando em cada hectare. É um custo muito grande com mão-de-obra, por isso os produtores da região procuraram nosso mestrado para que pensássemos em soluções. Isso é um reconhecimento a excelência da pesquisa que fazemos na UNEB”, complementou Manoel Abílio.

Qualidade internacional

Cada cacho da videira apresenta 140 bagas, em média. O mercado internacional considera que o ideal fique entre 90 e 100. Com esse fitoregulador, os pesquisadores de Juazeiro pretendem alcançar um equilíbrio, adequando quantidade e peso (4,5kg por caixa), utilizados em países como o Chile e Estados Unidos.

A viabilidade do raleio químico demonstrou uma economia de 70,36%, se comparado com o processo manual, que provocava um acréscimo nos insumos agrícolas. Além disso, o ácido giberélico utilizado é visto com bons olhos por não degradar o meio ambiente.

“O fitoregulador de hormônio foi usado em uvas para identificar se ocorria um maior número de aborto (das bagas). Foi utilizado um produto não tóxico, que não causa nenhuma ameaça ao meio ambiente, por ser extraído do fungo”, explicou Valtemir.

Para produzir sua pesquisa, Hélio contou com parceria da empresa Fazenda Copa Fruit S.A., em Petrolina (PE), onde analisou o ciclo da uva sem semente. Os custos com os testes e o desenvolvimento do fitoregulador também foram financiados pela empresa.

“Essa tecnologia é um avanço para a viticultura do Vale do São Francisco. Foi importante termos o apoio da iniciativa privada em conjunto com o respaldo teórico dado pela universidade”, contou Hélio Gonzaga.

O mestrado oferecido pela UNEB tem sido bem avaliado pelos grandes produtores da região. “Eles têm trazido os problemas e desafios da produção de frutas para que sejam pesquisadas pela universidade”, contou Manoel Abílio. O próximo edital do PPHI, destinado aos profissionais com diploma de curso superior em Agronomia e áreas afins, deverá ser publicado no início de novembro.


Texto ASCOM-UNEB

Arquitetura de Juazeiro e Petrolina vira tema para exposição

Estãção de Piranga


Casas, fachadas, casarões e pequenos afrescos compõem o cenário da Exposição Fotográfica Cal, Barro & Luz, que revela, por meio de imagens, o patrimônio arquitetônico das cidades de Juazeiro e Petrolina. A exposição faz um registro fotográfico das construções arquitetônicas construídas entre o final do século XIX e início do século XX, como uma forma de manter viva a memória local e chamar a atenção das pessoas para o descaso com o patrimônio.

A exposição de autoria da fotojornalista Jacklina Kern, expõe 24 imagens de parte da arquitetura existente nas duas cidades, sendo que uma delas foi registrada em Caboclo (Pernambuco). Entre as fotografias, o público pode apreciar as torres da Igreja Matriz de Juazeiro, a Estação Ferroviária de Piranga; a Estação de Ferro Petrolina-Terezinha, entre outras paisagens tão presentes no dia-a-dia, mas que passam despercebidas.

As imagens revelam não só a beleza das casas, mas ajuda na reflexão sobre a destruição do patrimônio histórico e não preservação da memória da cidade. “Tanto em Petrolina como em Juazeiro existem leis de proteção ao patrimônio, mas elas não são respeitadas. Em Juazeiro, por exemplo, é comum haver destruição de casas”, afirma Jackelina. Para a fotografa, a memória dessas casas que já passaram por transformações, ao longo dos anos, pode ficar cada vez mais distante com a modernidade. “O registro desse material abre um leque de objetivos, principalmente o fato de que nossos filhos e netos possam não conhecer o seu passado”, defende.

O projeto, resultante de um trabalho de conclusão do curso de Jornalismo em Multimeios, surgiu do olhar contemplador e da indignação da fotógrafa. “Foi caminhando pelas cidades de Juazeiro e Petrolina que percebi o quanto eram belas as casas e os monumentos antigos. Certo dia, procurei por uma casa que pensei em fotografar e só encontrei o barro”, conta. Assim, da admiração pelo antigo e da tristeza pela perda dessas belíssimas edificações, nasceu a exposição.

Para a orientadora do trabalho e professora do curso de Comunicação Social Jornalismo em Multimeios, da UNEB, Andréa Cristiana Santos, o registro fotográfico contribui para redescobrir à luz da fotografia e da memória aspectos da identidade social das duas cidades, construídas ao longo do tempo e ressignificadas no presente. “Como um fio de Ariadne, as imagens nos convocam a refletir sobre o presente por meio das lembranças de outrora, das pessoas e das casas que ainda existem. É uma forma de olhar as duas cidades e nos envolver-mos, abraçá-las como nossa morada”, esclarece.

A exposição resulta de uma pesquisa fotográfica com base em memórias e a observação da cidade. Segundo Jackelina Kern, o objetivo inicial era fazer uma pequena exposição nas dependências da UNEB, em Juazeiro, mas o envolvimento com as casas, os documentos e as pessoas a fez transformá-la em material educativo e exposição para a comunidade.

Historiadores Maria Isabel Figueredo (Bebela) e Euvaldo Aragão contribuíram para narrar o tempo de glamour dos casarios. A seleção das casas priorizou a composição estética e o valor histórico, mas a afetividade também influenciou o trabalho. ”Tenho as minhas fotos preferidas e as casas também. Isso, não tanto pela fotografia, mas pelas histórias vividas em cada uma delas”, conclui a futura jornalista.

A exposição ficará no Museu do São Francisco na Praça da Bandeira, em Juazeiro, até o dia 05 de novembro. O vernissage de abertura acontece na próxima amanhã (08/10) a partir das 18 horas. A anfitriã, Jackelina Kern, convida a comunidade das duas cidades para apreciar a “Cal e o Barro” das construções à “luz” da fotografia.

Por Eneida Trindade

Exposição fotográfica apresenta patrimônio arquitetônico de Juazeiro e Petrolina



Cal, Barro & Luz. Este é o título da exposição fotográfica que pretende apresentar à população de Juazeiro e de Petrolina um novo olhar sobre a arquitetura das duas cidades construídas no final do século XIX e inicio do século XX. As fotografias ficarão expostas no Museu do São Francisco, localizado na Praça da Bandeira, em Juazeiro, a partir do dia 8 de outubro.

A exposição é um projeto experimental produzido por Jackelina Kern como Trabalho de Conclusão do Curso de Comunicação Social/Jornalismo em Multimeios, campus III, UNEB. O projeto surgiu de uma inquietação da autora que sentia a falta de uma memória visual que contemplasse as fachadas das construções, sujeita a modificações, no decorrer dos anos. “Esse patrimônio pode sofrer ainda mais com a modernidade, fato que possa vir a inviabilizar a oportunidade de nossos filhos e netos conhecerem o seu passado”, avalia.

Inicialmente, a intenção de Jackelina era registrar estes objetos e fazer uma pequena exposição dentro da própria universidade. Mas ela explica que, quando se viu envolvida com as fotos, memória de pessoas que conhecem a história das duas cidades, os livros, surgiu a necessidade de transformá-lo em um material educativo com informações históricas. Para tanto, a estudante desenvolveu pesquisou histórico dessas casas junto com historiadores e memorialistas como Evaldo Aragão e Maria Isabel Figueredo (Bebela), entre outros.

A captura das imagens, que incluem também um registro dos casarios de Cabloco, rendeu a Juazeiro e Petrolina um arquivo fotográfico significativo para a história da região. Até o dia 5 de novembro, o público poderá conferir24 belos capítulos desta história, agora, eternizada através da luz da fotografia.


Mais informações: Jackelina Kern
(74) 8819-4176


Por Lívia Orge

As Novas Tecnologias a serviço da História da Imprensa





“Não há dentro das políticas culturais de Petrolina, Juazeiro e das demais cidades do Vale, preocupação com a preservação da história da imprensa Sanfranciscana. De vez em quando são publicados livros sobre os jornais, com apoio de empresas e do poder público, mas é muito pouco. É preciso preservar os acervos, escritos e audiovisuais e colocá-los a disposição da sociedade”.

A análise é do jornalista do impresso Gazzeta do São Francisco, Jean Carlos do Nascimento Corrêa, ao comentar a responsabilidade do poder público na conservação dos arquivos jornalísticos, em museus e bibliotecas. Esse ano, o jornalismo lançou em parceira com a também jornalista Nomeriana Cavalcanti Ferreira, o CD-ROM O Pharol - Tempo, Imagem & Memória.

Jean Carlos, formado em jornalismo pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), afirma que o trabalho é uma contribuição a memória da imprensa da região do Vale do São Francisco e que permite, através das novas tecnologias da informação, a difusão do conhecimento histórico sobre a imprensa para a comunidade acadêmica e civil.

O jornalista, em entrevista à Agência de Notícias MultiCiência, comenta, a seguir, os desafios, a emoção do pesquisador em resgatar a história e a importância da implantação do Curso de Jornalismo, para a memória das cidades de Juazeiro e Petrolina.



Agência MultiCiência: O CD-ROM O Pharol – Tempo, Imagem & Memória é um projeto experimental apresentado como trabalho de conclusão de curso. Qual a proposta que esse CD-ROM aborda?

Jean Carlos (JC): A proposta do CD-ROM era determinar o surgimento do fotojornalismo nas páginas do jornal O Pharol, de Petrolina, e caracterizá-lo por meio dos seus gêneros. Aconteceu que a pesquisa assumiu uma proporção maior, que foi a de resgatar a história do jornal O Pharol - que estava praticamente esquecida - e do seu fundador, João Ferreira Gomes.


Agência MultiCiência: E como foi realizado esse resgate da história do jornal e do seu fundador?

JC: Era necessário contar a história do jornal, do seu Joãozinho, como ele era conhecido, e ao mesmo tempo, traçar um perfil social e político de Petrolina, porque era preciso caracterizar o cenário no qual o jornal circulou. Fizemos visitas ao Museu do Sertão, de Petrolina, que contêm boa parte do acervo preservado do jornal, o Pharol, inclusive edições de 1915, quando ele foi fundado. Entrevistamos pelo menos três ex-funcionários do impresso (um jornalista, que escreveu sobre o jornal em 1975 para o periódico O Estado de São Paulo) e a filha de seu Joãozinho. Além disso, pesquisamos livros sobre Petrolina. E as próprias edições do jornal auxiliaram a contar sua historia.


Agência MultiCiência: Durante a pesquisa vocês encontraram muitas dificuldades, para localizar documentos sobre a história do jornal?

JC: A principal dificuldade foi localizar edições do jornal das décadas de 1960 e 1970. No acervo do museu há uma lacuna enorme dos jornais desse período. Pela questão do tempo, não tivemos acesso a outros documentos que seriam válidos, como por exemplo, cartas, diários de Joãozinho, que poderiam ter contribuído para o nosso trabalho de conclusão de curso (TCC). E existe um número grande de jornais em mau estado de conservação, entre os que localizamos.


Agência MultiCiência: Como você analisa a importância do seu projeto para a comunidade do Vale do São Francisco?

JC: O nosso projeto resgata de uma maneira inédita (no caso, por meio de um CD-ROM) a história do jornal de mais longa duração do sertão de Pernambuco. Também relembra uma parte da trajetória do fundador, João Ferreira Gomes, e contribui para a valorização da memória do seu jornal, importantes no contexto da narrativa da comunicação – em Petrolina e todo o Vale do São Francisco. Além disso, O CD-ROM tem um valor didático, por que narra a história do Pharol. Precisamos relatar parte dos principais acontecimentos do século 20 em Petrolina, no país e no mundo.


Agência MultiCiência: E como o CD-ROM está estruturado?

JC: O CD-ROM traz uma apresentação da proposta do TCC, traça uma evolução do emprego da fotografia nas páginas do noticioso, cuja história é dividida por décadas; além de um perfil biográfico de Joãozinho. Conta, ainda, a história do jornal/cidade de Petrolina, reúne imagens das capas do impresso, entrevistas no formato PDF das fontes e traz a bibliografia consultada.


Agência MultiCiência: Que momento da pesquisa mais o impressionou e quais entrevistas foram mais importantes para a elaboração do trabalho?

JC: O momento mais impactante do trabalho foi à apresentação do CD-ROM, elaborada na forma de uma carta a seu Joãozinho, fomos as lágrimas escrevendo aquilo, entende? Escrever uma carta a alguém que jamais irá lê-la? Fiz o esboço geral, Nomeriana leu depois e ambos concordamos que aquilo havia sido uma das melhores idéias do TCC. Quanto às entrevistas todas tiveram sua importância, porque cada uma foi como um pedaço do quebra-cabeça que permitiram construir e contar, como era o emprego de fotos no Pharol, a história do jornal, e quem era o seu Joãozinho.


Agência MultiCiência: E como você verifica o trabalho de resgate, aqui na região? Tem existido uma preocupação em preservar a história dos jornais?

JC: A percepção da importância de se preservar e resgatar a história dos jornais, produzidos na região, cresceu e tomou forma a partir da implantação do Curso de Comunicação Social e dos estudos surgidos a partir da instituição. Nunca antes eu havia notado maior preocupação em contar, de forma pormenorizada, crítica e sob vários pontos de vista, a história desses jornais. Antes existiam livros que contavam a história de Juazeiro e Petrolina, mas que abordavam muito superficialmente esses periódicos. Diziam, por exemplo, jornal tal foi fundado ano tal, circulou até ano tal. Agora não, você tem estudos e pesquisas mais profundas, e que abordam outros temas dentro do contexto maior, que é o da história da imprensa. Hoje, há pesquisas sobre o fotojornalismo, os editoriais, enfim, o conteúdo dos noticiosos.


Agência MultiCiência: E quanto as políticas públicas, há ou não incentivo a preservação desse patrimônio?

JC: Pelo menos, que eu conheça, ainda não há dentro das políticas culturais de Petrolina, Juazeiro e das demais cidades do Vale, preocupação com a preservação da história da imprensa Sanfranciscana. De vez em quando são publicados livros sobre os jornais, com apoio de empresas e do poder público, mas é muito pouco. É preciso preservar os acervos, escritos e audiovisuais e colocá-los à disposição da sociedade. Falei história da imprensa, mas na verdade se trata da história da comunicação, por que quando falo audiovisual, quero defender que a história da produção cinematográfica da região também tem que ser contada e preservada.


Agência MultiCiência: Foi falado antes sobre a emoção, que vocês tiveram durante o resgate da história, revelando o quanto o trabalho de pesquisa é um processo que envolve o sentimento do pesquisador. Como foi o trabalho de vocês junto à família de Joãozinho?

JC: Não tivemos muito contato com a família de Joãozinho. Nós entrevistamos a filha, Dona Darcy, com a presença de uma das netas, mas olhando para trás, creio que poderíamos ter feito mais uma ou duas entrevistas com ela, para saber mais sobre seu Joãozinho. Também não tivemos oportunidade de conversar com outros familiares.


Agência MultiCiência: Como você destaca a relevância da difusão dos trabalhos científicos para a sociedade Juazeirense? E o que você espera despertar no público com o seu trabalho?

JC: É fundamental divulgar o método cientifico a qualquer comunidade/sociedade, e mostrar que por trás desse nome aparentemente frio, ciência, está à produção de conhecimentos e de trabalhos capazes de nos realizar pessoalmente, de nos engrandecer, de permitir que façamos algo importante também para outras pessoas. Cada vez que falo do TCC, do jornal o Pharol e de seu Joãozinho, penso que estou contribuindo para que mais pessoas se interessem em conhecer a história do periódico e também em produzir CDs-ROM que tragam algo relevante para o nosso conhecimento. Nosso conhecimento de pedaços da história da cidade onde vivemos, afinal, o que é mais próximo a nós é o que nos é mais relevante.



Por Káll Britto

História da Imprensa, Tempo e Memória


A partir da concepção de que o jornal é um documento histórico, relevante para o patrimônio cultural, político e social do Vale do São Francisco, o Departamento de Ciências Humanas (DCH III) promove, hoje, a 78 Sessão Cientifica para resgatar o lugar central que os meios de comunicação exercem na contemporaneidade.


A Sessão Científica é promovida pela docente Andréa Cristiana, com o objetivo de apresentar ao público a produção na área da história da imprensa realizada na instituição. O evento também socializa com a sociedade a importância que o impresso teve nesses dois séculos de existência no Brasil.


O estudo da memória jornalística é realizado por diversos pesquisadores, que defendem a necessidade da manutenção de acervo de períodicos em museus e bibliotecas, locais e nacionais. As pesquisas buscam entender a produção, a ciência, os discursos de uma dada sociedade, através da análise dos periódicos.


Na região do Vale do São Francisco, os trabalhos envolvem noticiosos produzidos em Juazeiro e Petrolina, além de um diário de âmbito nacional. “A imprensa viabiliza uma série, um conjunto de mensagens. É por meio desse veículo de comunicação que o cidadão começa a ter acesso à informação, orienta-se na sua vida cotidiana, educa-se e socializa-se e faz parte também de uma memória. O jornal é um local de memória”, afirma Andréa.


As pesquisas, em torno da história do impresso brasileiro fomentam discussões sobre a importância da educação patrimonial da população. Os estudiosos acreditam que, diversas vezes, a população e o poder público não identificam o jornal como um documento histórico, já que não há políticas voltadas para a preservação dos periódicos.


Com a implantação do Curso de Comunicação Social na região e dos saberes científicos construídos pelos docentes e discentes de jornalismo, cresceu o interesse no resgate da história dos jornais. Já foram produzidos dois trabalhos de conclusão de curso produzidos no DCH III e docentes e discentes apresentam textos em seminários nacionais.


Entre eles, pode destaca-se o estudo realizado por Audimara Lima, estudante de jornalismo, sobre o jornal Tribuna da Luta Operária, que circulou entre 1979 a 1988, em todo o país. A pesquisa retrata a memória de um diário vinculado ao partido comunista do Brasil (PC do B), como organizador do coletivo partidário e defensor da democracia.


“Ele sempre levava o eleitor a procurar novos caminhos para se livrar da ditadura militar, além de falar de assuntos do imaginário comunista, faziam a leitura de Marx, de Lênin, de Stalin. Fazia com que o leitor se identificasse com esse discurso”, afirma Audimara.


Na produção regional, existe o CD-ROM Pharol, Tempo, Imagem & Memória, produzido pelos jornalistas Jean Carlos e Nomeriana Cavalcanti, que recuperaram a história do jornal, o Pharol e do seu fundador, João Ferreira Gomes. O produto multimídia traz o perfil da sociedade petrolinense, da década de 30 e 40, além de temas que foram notícia naquela época, enfatizando desde a construção do patrimônio arquitetônico de Petrolina, até a evolução do emprego da fotografia.


No universo da imprensa local, os estudantes Adzamara Amaral e Daniel Santana estudam o jornal O Juazeiro. Essa vertente trata do registro do noticioso que, em três fases diferentes, circulou na cidade, entre os anos de 1903 a 1954. O trabalho destaca a participação de Demerval Ferreira Lima, que, desde o primeiro momento, marcou sua participação no jornal, tornando-se futuramente o dono de O Juazeiro.


Aos interessados que desejem mais informações, a 78 Sessão Científica “História da Imprensa, Tempo e Memória”, ocorre nesta quinta-feira (02/10), na sala 03 do Departamento de Ciências Humanas (DCH III), da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), às 18h. A apresentação será coordenada pela professora Andréa Cristiana Santos, com a colaboração dos jornalistas Jean Carlos e Nomeriana Cavalcanti; e dos estudantes Audimara Lima, Itamara Santos, Adzamara Amaral e Daniel Santana. A sessão tem entrada franca.


Por Kall Britto

A crise financeira por Flavio Aguiar

O Titanic era tão grande e incontrolável, e o excesso de confiança por ele gerado era tanto, que o navio ia acabar mesmo batendo num iceberg e afundando. E a combinação dos dois, tamanho e excesso de confiança, produziu uma situação que não houve lugar para todos nos escaleres de emergência.



Agora, um século depois do acidente e tantos anos depois dos vários filmes sobre o tema, é possível fazer uma profecia a contrapelo sobre o Titanic. Aquele troço era tão grande e incontrolável, e o excesso de confiança por ele gerado era tanto, que o navio ia acabar mesmo batendo num iceberg e afundando. E a combinação dos dois, tamanho e excesso de confiança, produziu uma situação que não houve lugar para todos nos escaleres de emergência.

Há algo desse complexo de sentimentos (mais do que reflexões) no modo como críticos e acríticos do sistema capitalista e da orgia financeira promovida nos últimos anos reagem diante do afundamento do sistema imobiliário norte-americano e de sua repercussão nos bancos, fundos de investimento, caixas de poupança, bolsas de valores e assemelhados pelo mundo afora.

Do lado de muitos críticos, como apontou Emir Sader dias atrás aqui mesmo na Carta Maior, há um lado ao mesmo tempo catastrófico e triunfalista de “eu não disse?”. Do lado dos muitos acríticos, para não dizer entusiastas do sistema capitalista, há uma mistura paradoxal de conformismo e ansiedade. O conformismo se manifesta numa certeza de que “a vida é assim mesmo”, os “ineptos”, sejam pobres ou ricos, sobrarão nesse reordenamento de investidores e vítimas do sistema financeiro. Esse sentimento é reforçado pela notícia divulgada dias atrás em publicações como The Economist, de que alguns dos altos executivos das instituições financeiras que quebraram ou foram adquiridas por outras para não quebrarem perderam fortunas, tanto quanto pequenos investidores estão perdendo magras e sofridas economias. A ansiedade decorre da pressa em afirmar a necessidade de “salvar o sistema”, isto é, a atual estrutura do mercado financeiro, sem visualizar com ou sem nitidez as tragédias e dramas pessoais que se espraiam pelo mundo todo.


De qualquer modo, esses entusiastas ou conformados admiradores do sistema capitalista têm razão num ponto: os mais pobres, os mais fracos, é que pagarão mais pela crise, seja através do dinheiro de impostos que será empregado no “calçamento” do sistema financeiro, seja através das perdas conseqüentes. Também sairão perdendo pela explicação que se consolida cada vez mais nos círculos ortodoxos, de que o problema causador da crise foi o sistema “subprime” de financiamento imobiliário nos EUA.

O sistema subprime é um subsistema do financiamento do setor, que cobra juros mais lucrativos para financiar clientes de baixa renda, endividados, inadimplentes, numa palavra mais pobres. Esse sistema gerou uma cadeia não virtuosa de endividamentos e compromissos, pois os papéis decorrentes desses empréstimos, que cresceram muito nos últimos anos, foram negociados com outros investidores também a juros mais compensadores, porque de maior risco. Quando os clientes endividados ou pobres deixaram de pagar seus compromissos e hipotecas, veio o efeito dominó, chegando até as grandes instituições financeiras cujos executivos tinham mergulhado nessa ciranda que tinha um condimento de ilusão que, infelizmente para muitos, se revelou o lado mais real de tudo.

Conclusão implícita para os crentes no sistema: emprestar para pobre é mesmo um entojo para a economia; emprestar para pobre não é “investimento”, é “gasto” de fato.

Foi um amálgama desses sentimentos confusos com ambições ou medos políticos imediatos que levou a Câmara norte-americana a rejeitar o pacote de 700 bilhões de dólares para “calçar”o sistema financeiro. O resultado dessa decisão (que mal ou bem pode ser comparada àquela de rejeitar a CPMF no Brasil, de tempos atrás) foi desastroso para o mundo: do Japão à Islândia, passando pela Alemanha, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, França, Grã-Bretanha, etc., não só as bolsas despencaram, como houve uma dupla corrida a bancos: de um lado, correntistas retirando dinheiro, do outro, governos e bancos centrais nacionalizando (leia-se, estatizando) instituições financeiras ou seus ativos, ou injetando nelas bilhões das respectivas moedas em ajuda financeira.

Culpar o sistema subprime pela quebradeira é parte da verdade, e como soe acontecer nessas situações, a meia-verdade ajuda a ocultar a verdade inteira. A expansão do sistema imobiliário norte-americano veio calcada numa total desregulamentação do setor, destinada a potencializar lucros, que é a pedra-de-toque da gestão neo-liberal, junto com a permanência da política econômica de Bush e Cia. que comprimiu cada vez mais a vida dos remediados e mais pobres. Ou seja, liberaram-se os gambás no galinheiro das penosas cada vez mais depenadas, essa é a questão. O problema não é apenas uma implosão do sistema subprime, mas se baseia na ausência de uma política social adequada. Essa ausência pode impulsionar tanto a crise atual como catástrofes do tipo do furacão que se abateu sobre Nova Orleães anos atrás.
Entretanto essa compressão dos mais empobrecidos não assegura nenhum triunfalismo à esquerda. Tradicionalmente as grandes crises do sistema capitalista, além de provocarem imediatamente uma brutal reconcentração de ativos e de liquidez, deságuam ou numa renovação do tipo New Deal (quem sabe alguma talvez possível renovação trazida por Barack Obama) ou numa renovação endurecida de políticas de direita (agora, no caso, a eleição de McCain, cujo programa agora se cobre de novas incertezas).

Na Europa o clima de crise, que vem se manifestando já há algum tempo, tem provocado reações pelos extremos. Na Alemanha, o surgimento do novo partido Die Linke (A Esquerda) é sinal disso, bem como o reforço de partidos de extrema-direita nas eleições parlamentares do último domingo em torno de Berlim, que agora parece uma cidadela de esquerda sitiada num mar encapelado onde a direita cresce. Ao mesmo tempo o partido conservador CSU perdeu a hegemonia de 40 anos na Baviera, mas o partido social-democrata, o SPD, não parece apto a beneficiar-se disso, imerso numa disputa interna entre correntes mais e menos conservadoras.

Na Áustria houve reforço de tendências conservadoras no mesmo domingo; não se sabe ainda como serão as inclinações no futuro imediato em outros países, onde predomina um clima de indecisão movido pelo complexo do Titanic: em caso de acidente, não haverá lugar para todos nos escaleres da salvação.


Em todo caso, registre-se uma curiosidade lateral: a situação da presente crise vem, até o momento pelo menos, confirmando uma previsão afirmada por jornais mais e menos conservadores em maio/junho deste ano, quando da realização das cúpulas e encontros para discutir o papel da especulação financeira no aumento dos preços dos alimentos em escala mundial. Diante da crise que já galopava em campo aberto, previa-se que, entre as grandes e médias economias do mundo, as mais protegidas, ou menos expostas, seriam as de Brasil, China, Rússia e Índia.



Por Flavio Aguiar