Ciclo de Debates Profissão Jornalista discute Jornalismo e Multimídia

Com o tema Jornalismo e Multimídia, acontece nesta sexta-feira (31/07) o quarto Ciclo de Debates Profissão Jornalista, às 17h, no Departamento de Ciências Humanas da UNEB, em Juazeiro, com a participação de professores, estudantes, jornalistas e egressos do curso de jornalismo.

Os profissionais Carlos Britto, Manoel Leão e Teresa Leonel foram convidados a discutir o uso crescente do ambiente virtual na distribuição de conteúdo jornalístico, a demanda de profissionais preparados para atender esse campo de atuação bem como das possibilidades e implicações dessa atividade.

O encontro faz parte das discussões motivadas pela decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de não-obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista.

Redação MultiCiência

Congresso discute o desenvolvimento da agricultura

A Universidade do Vale do São Francisco (UNIVASF) vai realizar o XXXVIII Congresso Brasileiro de Engenharia Agrícola, de 2 a 6 de agosto, com o tema “Planejamento da bacia hidrográfica e o desenvolvimento da agricultura” .


Além de palestras, a programação inclui apresentações de trabalhos técnico-científicos, que permitirão a participação de pesquisadores, professores, estudantes, produtores, profissionais de agroindústrias e indústrias de equipamentos e extensionistas. O evento é promovido pela organização da Associação Brasileira de Engenharia Agrícola.


Fonte Conbea 2009

Alegria nos Clubes de Juazeiro


Fevereiro de 1950, o carnaval estava próximo. Muita movimentação dos diretores das sociedades Apolo e 28 de Setembro. O espírito competitivo fazia parte da organização das festas carnavalescas. Afinal, era grande a expectativa para quem realizaria a melhor festa. Tudo era feito em silêncio, "segredo absoluto" e poucos sabiam onde eram feitos os carros alegóricos. As escolas de samba "Cacumbú e Piratas" já esquentavam seus tambores e tamborins. Todos os dias, os ensaios começavam das 20 às 23 horas e diariamente chegavam pessoas que vinham de Salvador e de outras cidades para brincar o carnaval.

Assim relembra Charles Muniz Duarte, no livro Memórias de um Juazeirense, os preparativos para as festas feitas pelos clubes em homenagem ao rei Momo em Juazeiro. A cidade sempre teve uma vida social e cultural de nível elevado, que servia de modelo para toda a região do médio e sub-médio São Francisco. No entanto, houve várias mudanças em sua infraestrutura e em seu cotidiano. Entre 1940 e 1950, o porto fluvial de Juazeiro era o segundo mais importante do Brasil e o município possuía um movimentado comércio, já que as barcas do São Francisco faziam o tráfego entre Juazeiro (BA) e Januária (MG).

Foi em 1871, com a vinda do “Saldanha Marinho” que o comércio de Juazeiro começou a expandir-se e experimentou um maior desenvolvimento a partir de 1896, com o advento do terminal da estação ferroviária da leste Brasileiro. Assim, a cidade com sua grande movimentação de comerciantes e visitantes passou a investir em diversão para entreter não só os filhos da terra, mas comerciantes que percorriam o velho Chico, viajando nos navios-gaiolas.


Desta forma, as festividades foram intensificadas, eram realizados bailes infantis, diurnos e grandes noites bailantes para as demais idades. Toda a população queria participar das festas. Mandavam comprar tecidos e adereços na capital para confeccionar as fantasias, luxuosas e ricas em detalhes, inspiradas em palhaços, pierrôs e colombinas, piratas, baianas e inúmeros personagens.


Com a efervescência da época, Juazeiro vivia um momento de paz e muita alegria. Era conhecida como “terra dos artistas”, palco dos poetas, cantores e compositores, além de escritores e teatrólogos. O talento era evidenciado na realização dos diversos bailes, apresentações de orquestras e corais. Na época, a orla fluvial ainda tinha o cais e os clubes, incontáveis e lindos bailes, comemorando datas como Carnaval, São João e Réveillon. Também se apresentavam cantores como Cauby Peixoto e Ângela Maria. Os clubes mais famosos eram as Sociedades 28 de Setembro; Apolo Juazeirense, Beneficentes dos Artífices Juazeirenses, o Clube do Zero e o São Francisco Country Club.

Mensalmente, os clubes realizavam os tradicionais “bailes chiques”, como diz a historiadora Maria Izabel Muniz, “Bebela”. Sociedades Fundadas como Sociedades Filarmônicas, a 28 de Setembro, em 1897, e a Apolo Juazeirense, em 1901, tornaram-se os dois clubes mais frequentados da época. Com isso somente pessoas de famílias tradicionais e com bom poder aquisitivo desfrutavam das festas das respectivas sociedades. De acordo com Bebela, quem não podia entrar na Apolo e na 28 participava da Sociedade Beneficente dos Artífices Juazeirenses, fundado em 25 de dezembro de 1928 por operários, que também comemorava o carnaval.

Segundo Bebela, os bailes nos clubes eram embalados por orquestras que tocavam valsas, blues, boleros entre outros estilos. Havia também os concursos de miss. Ela lembra até que a miss Brasil de 1959, Vera Ribeiro, chegou a participar de um desfile na Sociedade 28 de Setembro. “Toda essa produção de festividades fazia com que houvesse muita disputa entre os clubes, a sociedade 28 de setembro e a Apolo tornaram-se grandes rivais, porque cada uma buscava a conquista dos melhores eventos“,conta Bebela.

Embora existissem várias datas a serem comemoradas, o carnaval era a época mais festiva de Juazeiro, onde eram realizados quatro bailes nos quatro dias de folia. A cidade também promovia o carnaval de rua. E os blocos, tanto da Apolo quanto da 28, faziam um percurso com a orquestra na frente em meio a batalhas de confetes. A partir de 1948, iniciaram as batucadas com seus estandartes e samba-enredos. As mais famosas eram a Cacumbú e Piratas. O Clube do Zero, fundado por Adauto Morais, também realizava bailes.

Como esse clube nunca teve sede, “os bailes eram organizados em casarões alugados da cidade. E eram frequentados por pessoas de baixo poder aquisitivo. Entretanto, era o carnaval cultural, porque mostrava a riqueza dos nossos artistas. Nos bailes cantavam apenas músicas de compositores juazeirenses. Além da diversão, tinha expressão cultural”, acrescenta Bebela. Mudanças Em 1966, evidenciando a chegada da modernidade, foi criado o São Francisco Country Club como uma entidade esportiva e, logo depois, se tornou um clube de referência, devido a instalações modernas, com quadras de futebol de salão, voleibol e basquete, e ainda um conjunto de piscinas.

“O clube polarizava a atenção de todos e realizava festas sensacionais, como o carnaval diurno e os campeonatos esportivos”, conta o ex-diretor do Country Club Augusto Bispo de Moraes. A festa momesca começava no country pela manhã e se estendia até o início da tarde. Ele conta também que, somente após o baile, os foliões se dirigiam à rua da Apolo para acompanhar o desfile dos carros alegóricos. Somente mais tarde, entravam na Sociedade Apolo, 28 de Setembro e nos demais clubes. “Realmente, a festa carnavalesca de Juazeiro era a mais divertida", relembra.

Os campeonatos de futebol e os jogos estudantis também animavam a região, pois na primeira noite de abertura de campeonato aconteciam os concursos da mais bela miss dos clubes. Toda sociedade juazeirense estava presente no evento para torcer por suas candidatas. Essas festividades esportivas terminavam com um baile de gala e a apresentação da miss vencedora. "Juazeiro sempre foi uma cidade festiva, porém hoje se ressente”, lamenta Moraes a não realização de eventos semelhantes.

Hoje, a esteira do tempo modificou as festividades e a forma de entretenimento da população. Os juazeirenses desconhecem muito das iniciativas que faziam a alegria da comunidade. No entanto, embora seja difícil restabelecer algo que ficou esquecido, pode-se lutar pela preservação da memória da história de Juazeiro. “Hoje o que se vê é um carnaval sem expressão, sem alma. A arte e cultura está naquele tempo do Zero, dos Artífices, da 28 e Apolo,”defende Bebela. No presente, o que ficou foi a nostalgia de um tempo áureo, no qual, chegado o fim do último baile no domingo, as pessoas fantasiadas se abraçavam nos salões dos clubes da cidade, comemorando mais um carnaval. Em uma só voz, todos cantavam a marchinha composta por Zé Kéti e Pereira Mattos: “Oh, quanto riso,oh quanta alegria.Mais de mil palhaços no salão,o arlequim está chorando pelo amor da colombina,no meio da multidão”.

Por Juliane Peixinho Fotos Arquivo Maria Isabel Figueredo

Fenagri atraiu expectativas de novos negócios



A Feira Nacional da Agricultura Irrigada (Fenagri) terminou no último sábado com a expectativa de consolidar novos contratos de exportação para as frutas e outros produtos da Vale do São Francisco. Mesmo em meio a crise financeira que diminuiu os lucros das empresas agrícolas da região, os participantes comemoram o evento.

Embora ainda não se tenha divulgado o volume total das rodadas de negociação, o Secretário de Agricultura, Desenvolvimento Rural e Meio Ambiente, Jairton Fraga, acredita que a previsão de geração de negócios da ordem de 100 milhões foi atingida. Foram 170 stands expostos durante os três dias e houve um público estimado de 60 mil visitantes, como declarou o secretário.

Um dos diferenciais este ano foi o espaço de realização do evento que ocorreu no Campus III na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Para o Prefeito de Juazeiro, Isaac Carvalho, "a UNEB foi uma possibilidade interessante porque tem o campo agrícola, as áreas demonstrativas e está dentro da cidade. A universidade comprou a idéia e nós agradecemos a parceria que foi importante para o sucesso da feira", disse o prefeito.


Os empresários aproveitaram a feira para conhecer as novas tecnologias e renovar parcerias com bancos e empresas. O presidente da Câmara da Fruticultura de Juazeiro, Ivan Pinto, ressaltou a importância da Embrapa, EBDA e do Sebrae no desenvolvimento de projetos para a região e garantiu que o apoio dessas instituições são importantes para compreender as novidades do setor. "Eu já consegui conhecer novos produtos e máquinas. Este ano está muito mais parecido com uma feira de agronegócio e não com uma festa como já aconteceu antes", comenta Ivan.

Agricultura Familiar

Dentro da Fenagri também houve espaço para a exibição de produtos da agricultura familiar. Uma ala foi construída especificamente para pequenos produtores. Para a professora da UNEB, Edonilce Rocha, a Fenagri nasceu tradicionalmente com a Festa do Melão, que era uma valorização do que era plantado pelos agricultores familiares. “Hoje, eles são mais expectadores que expositores", declara a professora, em contraposição ao crescimento do agronegócio da região, presente em grande parte dos Stands da Fenagri.

Um dos motivos para a pouca participação dos pequenos produtores no mercado local se deve a dificuldades por não terem se adaptado à lógica do grande capital nos perímetros irrigados, como demonstra pesquisa feita pela professora. Nos últimos anos, os investimentos do governo federal, aos poucos, tem mudado essa realidade, como esclarece Barros.

Atualmente, agricultura familiar é responsável por 32% da produção nacional e representa 50% dos produtos que fazem parte da cesta básica, além de ser responsável por 25% das terras cultivadas do Brasil. Também são mais de 14 milhões de pessoas nesse setor agrícola.

O líder dos Agricultores Familiares de Lajes, em Sento Sé, Flávio Alves, participou pela primeira vez da feira com a produção do povoado onde ele mora. "O doce do umbu e do maracujá tem melhorado a vida da comunidade e a gente está confiante que os resultados virão", diz Flavio Alves. Um dos anseios dos expositores é poder firmar novos contratos que ajudem a aumentar a renda das comunidades que, em sua maioria, trabalham de forma organizada e respeitando a qualidade dos solos evitando o uso de defensivos agrícolas.
 

Por João Barbosa

fotos Emerson Rocha

Ciclo discute Educação e Jornalismo amanhã no DCH III

Com o tema Educação e Jornalismo acontece nesta próxima quarta-feira (22/07), o terceiro Ciclo de Debates Profissão Jornalista, ás 17h, no Departamento de Ciências Humanas da UNEB, em Juazeiro, com a participação de professores, estudantes, jornalistas e egressos do curso de jornalismo.

O evento vai contar com a participação dos professores Cosme Batista, que realiza uma pesquisa sobre Divulgação Científica da Educação a partir da análise de revistas pedagógicas como Nova Escola, Ciência Hoje; e o professor Josemar Martins (Pinzoh), que coordena a pesquisa Laboratório de Práticas Pedagógicas e é um analista da pauta da Educação na Mídia.



A finalidade do Ciclo é discutir como a temática educação é um campo de estudos para o jornalismo e também uma área profissional, devido ao crescimento das revistas especializadas na área, editorias de jornais e a criação de agências de notícias destinadas somente a pauta da Educação.

O encontro faz parte das discussões motivadas no Curso de Comunicação Social Jornalismo em Multimeios pela decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de não-obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista.



Redação MultiCiência

Inscrições abertas para o Rumos Jornalismo Cultural

Estão abertas as inscrições para a terceira edição do Rumos Jornalismo Cultural, que, ao apoiar estudantes e professores da área, reitera a importância de identificar um caminho possível para a melhor compreensão dos papéis e das funções da mídia, da academia e das instituições culturais no jornalismo de cultura brasileiro.

O programa selecionará reportagens culturais de estudantes (em mídia impressa, sonora, audiovisual e web) e textos de professores de graduação e pós-graduação que abordem o aperfeiçoamento do profissional na disciplina de jornalismo cultural e/ou a formação do aluno na área.

As inscrições são gratuitas e individuais e foram prorrogadas até o dia 14 de agosto, sendo permitida mais de uma inscrição pelo mesmo candidato, em quaisquer das categorias, porém a comissão de seleção poderá vir a contemplá-lo em somente uma categoria e com uma única reportagem.

Dentre as premiações estão a divulgação do currículo, credencial para o VI Colóquio Rumos Jornalismo Cultural, a ser realizado em dezembro de 2009, apoio financeiro mensal, títulos sobre jornalismo e cultura e muito mais.

Para saber mais sobre as categorias, a inscrição e o processo de seleção, leia o edital.

Fonte: Itaú Cultural

Da Redação MultiCiência

Juazeiro e o Futuro: que política pública para cultura é necessária ser discutida?

Aurélio Buarque de Holanda define cultura como o ato, efeito ou modo de cultivar. É também o complexo dos padrões de comportamentos, das crenças, das instituições, das manifestações artísticas e intelectuais. O filósofo francês Claude Levi-Strauss conceituava cultura como tudo aquilo que corresponde a hábitos, atitudes, comportamentos, modo próprio de agir e sentir de um povo. Contudo, na atualidade, a cultura apresenta-se como uma grande intervenção social e um nicho mercadológico. O Produto Interno Bruto relativo à cultura brasileira cresce acelerado, representando cerca de 1,5% de todas as riquezas do país. A constatação desse investimento na cultura desperta a atenção dos poderes públicos pois a destinação de verbas para o segmento tem crescido. Secretarias estaduais, municipais são instituídas, além da valorização das tradicionais fundações culturais.

Mas a complexidade do campo cultural é notável, são linguagens e suportes de expressão a serem contemplados como teatro, música, dança, cinema, comunicação de massa, artes plásticas, fotografia, escultura, artesanato, livros, patrimônio cultural (material e imaterial), circo, museus etc. Cada um com a sua particularidade e especificidade a ser considerada por quem trabalha com a gestão da cultura. Para o pedagogo e especialista em Gestão Cultural Cixto Filho, é necessário que as políticas públicas para o setor cultural sejam implementadas de forma abrangente, considerando as linguagens e suportes, capacitação profissional, criação, produção, circulação e financiamento da cultura.

“O Estado deve utilizar conjuntos de instrumentos institucionais, tais como programas, projetos, editais, leis, decretos e portarias, dentre outros, e que são as formas concretas como as políticas públicas”, afirma.

Levantamento feito no ano de 2006 pelo Instituto Brasileiro de Estatísticas (IBGE) indica que existem cerca de 290 mil empresas culturais no Brasil, movimentando uma receita líquida de R$ 156 bilhões. A cultura corresponde ao quarto item de consumo das famílias brasileiras, superando os gastos com educação e abaixo apenas da habitação, alimentação em primeiro, e transporte em segundo lugar. Cerca de 1 milhão de reais investidos no segmento geram 160 postos de trabalho diretos e indiretos.

Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, são movimentados cerca de 5 bilhões por ano no setor gerando mais de oito mil empregos. A cultura responde ainda por 3,8% do PIB fluminense. Segundo Pesquisa de Informações Básicas Municipais, realizada pelo IBGE com dados 2006, as prefeituras brasileiras gastam, em média, R$ 273,5 mil com a Cultura e empregam nesse setor aproximadamente 58 mil pessoas. Contudo, não existem –pelo menos em 84,6% dos municípios - órgãos exclusivos para gerir a cultura. Em 72% dos municípios ainda predominam a cultura acoplada à outra secretaria. Juazeiro estar entre os 42% dos municípios brasileiros que não tem uma política pública cultural formalmente apresentada à sociedade.

Uma cidade com grande valor histórico cultural e que comporta várias tradições, Juazeiro tinha a cultura como ação governamental de segundo plano. Na antiga administração, o órgão municipal que cuidava da cultura era a Secretaria Extraordinária de Desenvolvimento Econômico Social e Cultural - SEDESC, que engloba outras modalidades da administração municipal, reduzindo a atividade cultural a um setor da secretaria sem orçamento previsto.

Na atual gestão a cultura está ligada a Secretaria de Cultura, Esportes, Turismo e Lazer (SECETLA) sob a responsabilidade do secretário Pedro Alcântara Filho. A secretaria não possui dotação orçamentária e trabalha com o a cessão financeira da Secretaria de Desenvolvimento e Igualdade Social que abrigava os departamentos de cultura, esporte e turismo na outra gestão. Para o Secretário, a função principal da secretaria é promover ações de políticas públicas que colaborem na difusão do conhecimento artísticos dos grupos culturais. Para Pedro Alcântara Filho, sua escolha como secretário não causou estranhamento dos artistas da cidade, mesmo não fazendo parte do segmento. Ele acredita que sua experiência e visão da arte vai colaborar para o bom trabalho da secretaria, mesmo sem nunca ter pisado no palco. “Vim da platéia”, afirma.

Hoje, a cultura na cidade é administrada diretamente pela Gerência de Cultura, sob a responsabilidade de Marcio Mascarenhas, oriundo do segmento artístico. Marcio acredita que o trabalho desenvolvido pela gerência é fundamental para a área cultural da cidade, por isso tem investido em ações de planejamento e de organização dos segmentos artísticos. "A finalidade é fazer com que a prática assistencialista seja substituída pelas políticas públicas pensadas para o setor", declara. Organizar o setor para que ele comece a “andar” com as próprias pernas é uma das intenções da Gerência.

Para Márcio, a organização da classe artística é o caminho para o desenvolvimento da cultura na região, assim com a realização da Conferência Municipal de Cultura marcada para setembro, para que sejam planejadas políticas publicas para o setor. “Não falta recurso e sim organização dos segmentos”, defende. A construção do Museu Memorial, da Galeria Municipal de Artes, a restauração do prédio da Ferrovia Leste, reestruturação do Festival Edésio Santos como uma atividade de fomento à arte musical e a criação da Escola Municipal de Música, que também receberá o nome de Edésio, são algumas ações previstas para serem articuladas pelo poder municipal.

A Fundação Cultural

Uma atitude que confirma a falta de políticas públicas culturais das administrações municipais foi o fechamento da Fundação Cultural de Juazeiro (FCJ), criada em dezembro de 2001 e que tinha a finalidade de gerir a área cultural e artística da administração municipal, na implementação de políticas públicas. Apesar de estar ligada a Secretaria Municipal de Educação, a Fundação tinha status de Secretaria e possuía autonomia financeira. Em 2005, a verba destinada à pasta era referente a 4% do orçamento municipal, cerca de 2,5 milhões.

Para Cixto filho, ex-gestor da FCJ, a instituição tinha o propósito de promover ações estruturantes, que entendiam a cultura como prática intrínseca ao ser humano, além de estabelecer uma política cultural preocupada com a cidadania, o bem-estar, educação, estimulando a participação efetiva da comunidade na construção das políticas. A FCJ desenvolvia projetos importantes na comunidade juazeirense, a exemplo da Escola de Musica Edésio Santos, Multiplicarte, projeto de arte-educação em bairros periféricos, o Fórum de Cultura, as leis de tombamento do patrimônio histórico da cidade (1667/2001) e de incentivo à cultura pelo fundo municipal – FUMCULTURA (1621/2001). A estudante Érica Daiane, moradora da comunidade do Salitre, salienta a importância da instituição no desenvolvimento da cultura popular na cidade e no interior do município, pois auxiliava os grupos artísticos existentes e os novos, focando o trabalho da arte educação na periferia da cidade. “Eles deram todo o suporte para a formação dos grupos” garante. Em 2004, com a extinção da Fundação pelo gestor Misael Aguilar, o município ficou sem ações no campo da cultura, reduzindo a participação da prefeitura em eventos como carnaval, São João e apoios a produções culturais, atendendo a poucos grupos. Com a falta de atenção e de política publicas para a cultura por parte do poder público municipal, a classe artística procurou se organizar, com a instalação do Conselho Municipal de Cultura (CMC).

CONSELHO MUNICIPAL

O Conselho Municipal de Cultura – CMC criado pela Lei n° 1.669, de 10 de setembro de 2002, é um órgão colegiado de caráter consultivo, fiscalizador, quanto às demandas culturais gerais e deliberativas, quanto ás questões relacionadas ao FumCultura, oriundo do repasse do Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis (ITBI), Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU) e Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS), além de ter como objetivo promover a participação autônoma de todos os segmentos da sociedade integrantes da ação cultural do Município.

O Conselho Municipal de Cultura é composto por representantes de entidades da sociedade civil e do poder público, sendo composta por entidades representativas de produtores culturais, entidades estudantis, entidades sindicais de trabalhadores da área, empresários do setor, instituições com inserção em assuntos culturais, escolas, universidades e associações de moradores, entre outros.

A implantação do Conselho Municipal de Cultura não foi imediata à homologação da lei que o regulamenta. Depois da realização da etapa regional da Conferencia Estadual de Cultura 2008, os artistas resolveram encampar o processo de instalação do conselho. Reuniões foram feitas entre o segmento e a gestão passada e, no dia 14 de julho, em Assembléia no Centro de Cultura João Gilberto, foram eleitos os 19 membros titulares e suplentes para o mandato de dois anos.

O conselho hoje é presidido por Marcio Mascarenhas, que acredita que o conselho tem um papel fundamental na democratização do acesso ao fomento cultural por parte do poder executivo. Para o diretor e ator teatral, Elcio Campos, o conselho irá facilitar a promoção da arte na cidade, atuando como fiscalizador das verbas culturais e ajudando a classe artística, na elaboração dos seus trabalhos. Elcio também acredita no poder político do órgão. “Trata-se de um instrumento de democratização da gestão cultural e, como conseqüência, do Estado, contribuindo para que haja maior participação na elaboração da política cultural”, defende.

Para o conselheiro Daniel Cardoso, o Conselho poderá democratizar as verbas destinadas para a área cultural da cidade. ”Todos os grupos e artistas, independente de suas convicções e opções políticas terão acesso ao dinheiro destinado à área cultural”, assegura. Esta é a expectativa de todos que desejam que a cultura seja tratada como política pública, colaborando para o desenvolvimento da cidade, a cidadania, educação e criando novas alternativas de geração de renda.

Por Welington Júnior Fotos: Emerson Rocha

Nos áureos tempos do Cine- teatro São Francisco


1968. Era noite na movimentada Rua da Apolo, na cidade de Juazeiro. Rosy Luciane de Souza Costa, em seu vestido de caça branco, olhava admirada as mudanças feitas no então reformado Cine- teatro São Francisco. O espaço exalava elegância com seu carpete rubro, fachada espelhada e funcionários muito bem apresentáveis.

Os habitantes da cidade, em seus melhores trajes, lotavam os 900 lugares disponíveis, e aguardavam ansiosos o instante em que as cortinas de veludo vermelho fossem abertas. Todos queriam apreciar o filme Doutor Jivago, um clássico indicado ao Oscar. Não era a primeira vez que a população local se encatava com o ambiente. O Cine- teatro São Francisco foi inaugurado em 1937, na cidade de Juazeiro.

Habitual espaço de encontro, o cinema foi por um longo período um dos principais centros de sociabilidade na região do Vale do São Francisco. Nele, jovens marcavam encontros e famílias se divertiam com os filmes, peças e espetáculos musicais. Pessoa simples, que nunca ouvira falar em uma língua estrangeira, se interessava por estudá-la, citando inclusive algumas frases de efeito, como “Thank you”. A moda também foi influenciada e, as roupas dos atores e atrizes de Hollywood bastante reproduzidas pelos jovens.

Semanalmente, antes dos filmes, eram exibidos cinejornais com o resumo dos acontecimentos ocorridos no Brasil e no mundo, dentre eles os jogos de futebol. “As pessoas também iam ao cinema para se informar. Todos queriam ver os jogos do Flamengo. O cinema era um bem cultural e orientava as pessoas”, diz Rivadávio Espínola Ramos, ex-gestor do estabelecimento.

Em 1968 o cinema passou por uma reforma que viabilizou grande conforto aos seus frequentadores. A projeção dos filmes passou a ser feita em uma tela panorâmica, onde em qualquer lugar o expectador podia ter uma boa percepção do material apresentado. Os assentos eram enumerados e, por um preço um pouco mais caro, o cliente podia assistir aos filmes na parte superior do edifício, onde as cadeiras eram mais confortáveis. Ao lado da sala de exibição havia uma área aberta com música funcional ambiente, destinada a diversão e àqueles que aguardavam as próximas sessões. Uma novidade que facilitou a saída do público foi a construção de portas laterais que davam diretamente na Rua da Apolo.

A maioria dos cinemas da época era também palco de espetáculos musicais, humorísticos e teatrais. Os principais artistas do Brasil rodavam o país se apresentando nestes espaços. Grandes nomes passaram pelo palco do Cine- teatro São Francisco. O maior fluxo de apresentações ocorreu entre 1950 e 1970. Alicio Figueiredo Gil Braz, empresário e apresentador, era um dos responsáveis por trazer os profissionais para abrilhantar as noites da cidade.

Dentre estes artistas pode-se citar: Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Ângela Maria, Vicente Celestino, Orlando Dias, Waldick Soriano, Bartô Galeno, Luís Gonzaga, Sanfoneiro Abadias, Vanderlei Cardoso, Jerry Adriane, Reginaldo Rossi, Carlos Alberto, Cauby Peixoto, Trio Nordestino e algumas vedetes do Teatro Rebolado, a exemplo de Enesita Barroso. Rosy Costa recorda a agitação local durante show de Roberto Carlos, que no auge da Jovem Guarda foi trazido à cidade. Naquele dia, o cantor foi escoltado em um calhambeque. A fila para prestigiar o evento dava voltas no quarteirão e foi necessária a presença da polícia para que a ordem fosse mantida. Os jovens, eufóricos, quase quebraram as cadeiras diante do embalo do espetáculo. Com o surgimento e ascensão da televisão, seguida pelo vídeo cassete, o cinema aos poucos foi perdendo seu fiel público.

O Cine São Francisco, apesar das tentativas de modernização, não resistiu à mudança dos hábitos sociais. Na década de 1980, Joca de Souza Oliveira arrendou o espaço à empresa baiana, Oriente Filmes. O grupo, no entanto, não conseguiu manter um fluxo frequente de pessoas e logo se transferiu para a Galeria Água Center, onde também não obteve sucesso. As exibições cinematográficas aos poucos foram se moldando a uma nova lógica que incluía locais de grande movimentação, onde as pessoas além de assistir aos filmes, pudessem ter outras opções de lazer. Por este motivo, na atualidade, grande parte dos cinemas está localizada estrategicamente em shoppings. A mesma Oriente Filmes que não fez sucesso em Juazeiro, mantém salas no River Shopping, em Petrolina.

No edifício do antigo cinema, funciona hoje as Lojas Maia. Recentemente, duas máquinas de projeção foram doadas, uma à Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), onde será recuperada e utilizada no laboratório de linguagens, do curso de Ciências Sociais, e outra ao Museu Regional do São Francisco, no qual ficará em exposição para o público. O equipamento, de marca americana Westrex, data mais de 50 anos. Como os filmes eram divididos em rolos, chegando muitas vezes a 15 deles, eram necessários dois equipamentos, manuseados por um operador atento, responsável por trocar um e outro, a fim de não haver descontinuidade durante as exibições cinematográficas.

Para Rivadávio, a importância da doação do maquinário está no fato deste contar a história do cinema na região. “É bom guardar uma coisa que marcou uma época tão forte. O cinema dos áureos tempos não é mais o de hoje. É importante guardar essas informações. Tomamos atitudes também baseado no que passou, muitas vezes copiando e melhorando. Não se pode ter educação sem história”, afirma o ex-gestor.

Fotos: Ilana Copque e Arquivo Maria Franca Pires

Histórias de um Futebol Juazeirense

O estádio estava lotado, como nunca fora visto antes. Toda a cidade mobilizada às ruas em direção ao palco do espetáculo, empunhando bandeiras, bradando gritos de amor. Uma profusão de alegria, de cores e vibrações tomava conta do público, que se espremia nas arquibancadas para não perder um só lance. O foguetório anunciava a entrada dos combatentes em campo. Olaria e Veneza, times que juntos somavam o maior número de conquistas do campeonato local, enfrentavam-se no ano de 1972, marcando a reabertura do estádio Adauto Moraes. Naquele dia, dentro das quatro linhas, o Olaria saia vitorioso com o expressivo placar de 2 a 0. No entanto, fora de campo, quem ganhava era o torcedor, certo de que a paixão pelo futebol era recompensada à altura. São cenas como essas que demonstram que a história do futebol em Juazeiro é marcada por sucessos.

Desde 1917, jogos amadores lotavam o estádio Juazeirense, hoje Adauto Moraes. As partidas entre times como Fluísco, XV de Novembro, Juventus, América, Carranca e, principalmente, Olaria e Veneza, equipes de maior torcida e protagonistas do grande clássico da cidade, proporcionavam à população um dos acontecimentos mais grandioso do município. O futebol em Juazeiro foi oficialmente fundado em 1923. Dava-se um grande passo para o crescimento do esporte na cidade com a criação da Liga Desportiva Juazeirense, que tinha à frente nomes importantes, como Saul Rosas e Cecílio Neto.

Os primeiros torneios passariam a ser realizados com maior organização. As equipes eram formadas em campos improvisados dos próprios bairros, ou, como no caso do “640”, time dos soldados do Tiro de Guerra, por grupos de trabalho. Castro Alves, Associação Atlética Juazeirense, Bahiano e Botafogo eram alguns dos principais times da época. O futebol amador juazeirense projetou vários jogadores para o cenário do esporte nacional.

O desportista e comentarista esportivo Augusto Moraes, que participou diretamente de diversas fases do futebol local, relembra: “por volta dos anos 60 e 70, o time do Galícia de Salvador, por exemplo, vivendo sua época áurea no futebol profissional, levou daqui seis jogadores, como Jaime Pirrucha, Taladinho e Zé Odorico que constituíram a base do time que era a sensação da Bahia”. Augusto ressalta ainda Dozinho e Caboclinho, considerados as “pérolas negras” do futebol juazeirense. Os jogadores foram requisitados por equipes de quase todo o Nordeste. Dozinho ainda jogou no Ceará, no Rio Grande do Norte e teve seu auge no Vitória. Caboclinho chegou a receber convite do Flamengo: “eu recusei sim e não me arrependo. Naquele tempo, o futebol era diferente, não dava dinheiro como dá hoje, os jogadores não eram bem vistos. Mesmo as condições aqui não sendo as melhores, eu sabia que se fosse para o Rio iria passar necessidades e acabar escolhendo caminhos piores, como muitos colegas meus fizeram”, afirmou o ex-jogador.

Além desses, outros jogadores da terra destacaram-se mundialmente, como é o caso de Luiz Pereira, conhecido na época como “Chevrolet”, e Nunes. Segundo dados da pesquisa “Do amador ao profissional”, realizada por Augusto Moraes e Herbert Mouze, o juazeirense Luiz Pereira ainda criança foi levado pelos pais para São Paulo. Lá defendeu o Palmeiras, sendo um dos responsáveis pela jogada ousada de um zagueiro de área deixar seu campo defensivo e ir para o ataque fazer gols. Chegou à seleção brasileira, na década de 70, com destaque. Em 1992, ao lado de Rivelino, Pereira capitaneou uma partida da Seleção Brasileira de Másteres, no Adauto Moraes.

Igualmente reconhecido, Nunes não é natural de Juazeiro, mas deu os primeiros chutes nos campos da cidade. Chegou a jogar no Carranca e no Olaria, atuou no time profissional do Confiança de Sergipe e se projetou jogando pelo Santa Cruz de Recife. Então, foi para o Rio de Janeiro, onde defendeu a Seleção Brasileira e o Flamengo, time com o qual foi campeão brasileiro e mundial. O futebol amador por várias vezes inseriu Juazeiro no circuito do esporte nacional, como na época em que trouxe equipes titulares e campeãs a exemplo do Vasco, Botafogo e Flamengo, ou quando recebeu, em 1977, o então presidente da FIFA, João Havelange. Tinha no torcedor, sempre presente, vibrante e barulhento, um espetáculo à parte.

No entanto, apesar de sua importância no cenário sócio-cultural da cidade, o esporte encontra-se decadente. A 86ª edição do Campeonato Juazeirense de Futebol Amador teve início em maio deste ano, com a participação de oito equipes e baixa média de público. O Campeonato, que não provoca mais a mesma repercussão na cidade, é ofuscado, em parte, pelo futebol profissional, que já esteve entre os principais times da Bahia como o Juazeiro Social Clube e hoje tenta o retorno para a elite do futebol baiano, com a Sociedade Desportiva Juazeirense.

Por Inês Guimarães, Jornalista em Multimeios, matéria exclusiva para o jornal Folha do São Francisco.

Uma cidade que produz inovação tecnológica


Juazeiro abriga, desde abril de 2005, a biofábrica Moscamed, organização social que desenvolve experimentos para o controle, a redução e a erradicação de pragas incidentes nas atividades agropecuárias, especialmente da fruticultura. A idéia é contribuir para ampliar a economia das regiões frutícolas, por intermédio de processos biotecnológicos de produção de insetos estéreis e introdução de técnicas que reduzem o uso de inseticidas, aumentando a qualidade dos produtos e das exportações, além de preservar o meio ambiente.

A biofábrica Moscamed, utiliza a tecnologia do inseto estéril (TIE), uma forma biológica de controle de pragas que esteriliza insetos machos na fase de pupa, estágio intermediário entre a larva e o adulto, com irradiação gama de Cobalto 60. Embora não implique na abolição de produtos químicos, a TIE reduz a quantidade de pulverizações nos pomares e é aceita sem restrição pela legislação fitossanitária internacional.

A esterilização dos insetos na Moscamed é feita até então com energia nuclear, sendo um dos motivos do apoio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), organização das Nações Unidas com sede em Viena, na Áustria. A Agência é um fórum tecnológico e científico para o uso pacífico da energia nuclear e procura inibir a utilização de armas atômicas para fins militares. O engenheiro agrônomo e supervisor de campo da biofábrica, Rodrigo Viana, esclarece que há a previsão de chegar uma a máquina de esterilização com fonte de energia elétrica, vinda de Salvador para Juazeiro.

Primeiras pesquisas
A tecnologia do inseto estéril foi criada pelo entomologista americano E. F. Knippling na década de 1950 nos Estados Unidos inicialmente para a mosca varejeira, a mosca-verde, durante o fim da Segunda Guerra Mundial, quando o controle de praga era feito essencialmente com inseticidas.

A comunidade científica americana inicialmente estranhou a invenção de Knippling, por não entender o porquê do entomologista multiplicar o inseto que eles tentavam combater. Viana relata que, depois de o cientista erradicar em um ano a mosca da varejeira na Ilha da Madeira, situada entre o continente americano e africano, Knippling passou a ser reconhecido e até hoje os seus experimentos tem obtido sucesso para eliminar a praga tropical. Hoje, o governo americano mantém uma biofábrica da mosca varejeira no Panamá que libera moscas na América do Sul para evitar que os insetos circulem em áreas erradicadas.

No Brasil, a produção em escala industrial de moscas por meio da TIE acontece em Juazeiro na Moscamed. A biofábrica, criada pelo biólogo Aldo Malavasi, mestre e doutor em Genética aposentado pela Universidade de São Paulo (USP), em parceria com diversos órgãos estaduais, federais, privados e internacionais, pretende exportar 350 milhões de moscas semanais para países como Espanha, Israel e África do Sul, sendo Juazeiro localização estratégica para a distribuição dos machos estéreis nas áreas de fruticultura do nordeste, região exportadora de 90% da manga e da uva fina de mesa.

O produtor de frutícola em Casa Nova, José Maria Mendes, afirma que utiliza o serviço de monitoramento como condição de adquirir o certificado da fruta, uma exigência do mercado externo que cada vez mais busca alternativas substitutivas dos métodos químicos convencionais. Comenta ainda que não houve muita diferença no preço mas houve ganhos no valor agregado ao produto.

A Moscamed trabalha com as espécies de moscas Ceratitis Capitata ou moscamed (mosca do Mediterrâneo), Anastrepha spp. e Bactrocera Carambolae. De acordo com Viana, as culturas monitoradas pela biofábrica no Vale do São Francisco são de manga, uva, goiaba e acerola. Já na cidade de Mauriti (CE), a cultura supervisionada pela organização é de manga. Em Linhares, Sooretama e Aracruz (ES), o mamão, e em Canto do Buriti (PI) e no norte da Bahia, melão. Já no Rio Grande do Sul está previsto o trabalho com maçãs.


Tudo começa no campo

O primeiro passo para o controle das moscas é identificar a quantidade de macho-estéreis que será necessária produzir para liberar no campo, o que é feito por meio da instalação e análise de armadilhas que possibilita verificar a situação populacional da praga de moscas. Segundo Viana, uma equipe de nove técnicos agrícolas visita todos os pomares que têm armadilhas e nas sextas-feiras eles se reúnem na fábrica para tabular os dados no sistema e definir as áreas aptas para liberar os macho-estéreis em quantidade maior do que a encontrada na natureza. Em seguida os machos copulam com as fêmeas da natureza, transferindo espermatozóides inviáveis, por conta do tratamento recebido.

Para a produção das moscas estéreis é necessário uma estrutura de simulação das condições de vida encontradas na natureza, algo encontrado inclusive na alimentação da larva dos insetos, composta por bagaço de cana, levedura de cerveja, farinha e gérmen de trigo, açúcar granulado e conservantes como ácido cítrico, benzoato de sódio e tetraciclina, preparada na biofábrica para durar 16 dias. Este preparo fornece a nutrição similar que a mosca encontra na fruta e o resíduo, depois de tratado, é aproveitado na engorda de caprinos da área experimental do Departamento de Tecnologia e Ciências Sociais (DTCS) da UNEB, em Juazeiro.

Os macho-estéreis são liberados no campo que já está com baixo nível populacional de moscas com a função de manter este baixo nível. Por meio do processo denominado de Programa de Armadilhamento e Controle (PAC), é possível garantir a exportação de manga e uva no Submédio do São Francisco, o qual possui 357 áreas de produção de manga distribuídas em 6.361,36 hectares e 73 empresas de uva dispostas em 1498,30 hectares. Para exportar a manga e a uva da região, o produtor necessita ter este programa de monitoramento, uma exigência do mercado externo, que custa R$ 6,97 por hectare por mês.

Já o Projeto Zona Tampão (PZT) monitora e cria uma barreira nas culturas de goiaba e acerola, que também são hospedeiras de mosca da fruta, para proteger as culturas de exportação situadas em pomares circunvizinhos, visando impedir a migração das moscas. A biofábrica atua em 296 áreas de goiaba distribuídas em 2.712 hectares e em 117 áreas de acerola dispostas em 920 hectares no Vale do São Francisco. No total, a biofábrica monitora 11.491,66 hectares e presta serviço a 843 produtores na região.

Viana alerta para as dificuldades deste ano decorrentes das variações climáticas e da suposta crise no setor de agroexportação, o que impede inclusive o aumento do custo do serviço que desde que foi criado não teve alteração.

Por Naiara Soares
Fotos: Ilana Copque

A "Terra Prometida" de Maniçoba


Sandálias de couro, calça de tergal, camisa de mangas compridas, aliança no dedo esquerdo e o inseparável boné na cabeça. É assim, com esta simples indumentária, que o agricultor José Alves dos Santos Filho, senta-se para prosear sobre a situação atual dos Perímetros Irrigados, em Juazeiro, região norte do estado da Bahia. Acomoda-se na cadeira da mesa da primeira refeição diária, na qual ainda restam alguns pedaços de pão, um pouco de café e leite fresco extraído da vaca a poucos metros dali. Tem o rosto enrugado, as mãos calejadas.

Histórias não faltam para este baiano que teve 12 filhos ao longo dos seus 65 anos de vida. Popularmente conhecido como “seu Deca”, José nasceu e criou a maior parte dos filhos no povoado de Conchas, localizado a 45 km da sede do município. No início da década de 80, quando “seu Deca” ainda vivia da cultura de frutas e grãos sustentados pela chuva, alguns veículos de comunicação da época discutiam de forma intensa o plano de implantação de mais alguns perímetros irrigados na região sanfranciscana. A

Revista Fatos do Vale reservava a editoria “Irrigação” onde abordava a importância da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (CODEVASF) para o entorno do Sub-médio São Francisco, sendo uma promessa para “salvar o Vale” e modificar substancialmente as condições de miséria em que vivia a grande parte de sua população. Os projetos de irrigação passaram pelas fases de estudo, implantação e produção até a sua plena operacionalização. 

No Pólo Juazeiro-BA / Petrolina-PE foram instalados os primeiros Projetos-Piloto de Irrigação – Bebedouro (1968), na cidade pernambucana de Petrolina; e Mandacaru (1971), no município baiano de Juazeiro, ambos implantados na vigência da antiga Superintendência do Vale do São Francisco (SUVALE), antecessora da CODEVASF. Os quatro Perímetros Irrigados localizados em Juazeiro, além de Mandacaru são: Tourão (1979), Maniçoba (1981) e Curaçá (1980).

Segundo a socióloga e pesquisadora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Edonilce da Rocha Barros, os perímetros surgem num cenário caótico de cessão de terra como elemento que iria conter os movimentos reivindicatórios, modo encontrado pelo regime Militar, nas décadas de 60 e 70, para barrar e abafar os movimentos de luta pela reforma agrária na região nordestina, como as Ligas Camponesas (1956).

Considerados como áreas de colonização “doadas” pelo governo para os pequenos produtores, identificados pelo Estado como colonos, tornam-se dependentes ao serem assentados nos seus respectivos “lotes”, pertencentes a uma área considerada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) como de colonização. Os agricultores que ocuparam os “lotes” nos Perímetros Irrigados foram aos poucos, inserindo-se na dinâmica produtiva do Vale.

Dois de maio de 1981. Esta data mudaria toda a rota de vida pregressa de “seu Deca”; da sua esposa, dona Helena Maria dos Santos, 64 anos; e dos seus 10 filhos, já que dois haviam falecido. Neste dia, parte da infra-estrutura do Perímetro Irrigado de Maniçoba, localizado a 32 km de Juazeiro, entrou em funcionamento e lá, as primeiras famílias de colonos assentadas começaram a produzir culturas com o apoio e assistência técnico-agrícola da CODEVASF.

Segundo Edonilce Barros, a ocupação do perímetro só foi completada em 1984, embora não tenham sido executadas plenamente suas obras de implantação. A socióloga destaca, por exemplo, a descontinuidade dos programas do Governo (não conclusão, falta de acompanhamento e avaliação) para revitalizar e dinamizar o processo produtivo do Perímetro. Problemas como esses fizeram com que José Alves quase desistisse de migrar para Maniçoba, pois não acreditava que o projeto fosse se consolidar.

Na época, era delegado sindical e acompanhou as pesquisas e análises de solo para fundação do projeto. Mesmo assim, “seu Deca” venceu o medo, arrumou a mudança e partiu em direção a “terra prometida”. Na cabeça, um turbilhão de lembranças de um tempo sofrido, constante labuta diária e pouco progresso. Já na bagagem, sonhos e perspectivas de um futuro promissor. De um dia poder “formar” os filhos, ver-lhes com uma profissão e boas oportunidades, as quais não pôde ter. Assim, o agricultor narra, emocionado, a realização em ver seus primogênitos com um outro ofício, que não seja o seu: colono. “Sempre dei prioridade a saúde e educação dos meus filhos. Via que aqui, em Maniçoba, tudo isso seria mais fácil. Creio que isso eliminou os meus fantasmas. Eu queria na verdade, e quero sempre, o bem estar da minha família. Não queria ver meus filhos passarem pelas mesmas dificuldades que eu passei. Das incertezas da plantação, do sol-a-sol, do duro trabalho na roça... Por isso, fiz questão que todos estudassem e dei oportunidade para cada um. Quem realmente não estudou, foi porque não quis”, diz o agricultor.

Oportunidade que foi conquistada por um dos seus filhos mais velhos, Autemir José dos Santos, 40 anos, que hoje vive de uma profissão totalmente distinta a do pai. Ele acabou trocando a enxada, o arado, o machado, o facão e o foice pelas seringas, agulhas, gazes e bisturi. As manhãs e tardes áridas do sol causticante da roça foram trocados pelas diárias e plantões nos postos de saúde e hospitais da região. Autermir não quis de forma alguma seguir o oficio de colono e, atualmente, trabalha como Técnico em Enfermagem.

Nas manhãs, ele compõe o corpo de enfermagem do Posto de Saúde da Família de Maniçoba. Em noites alternadas, faz plantão num hospital de urgência e traumas em Juazeiro.

Na farmácia do Posto de Saúde, o rádio, na sintonia AM, impõe a trilha sonora, enquanto Autemir José demonstra saudosismo e emoção ao relembrar sua história de vida, admitindo que não gostava de estudar e, até seus 17 anos, não tinha outra opção a não ser trabalhar na roça na companhia do pai. “Até meus 17 anos não via outra coisa para mim a não ser trabalhar na roça. Eu não gostava de estudar, fiquei um bom tempo parado, só ajudando meu pai mesmo. Lembro que, quando completei 18 anos, fui descobrindo os verdadeiros sonhos do meu pai e vendo as terríveis dificuldades que ele passava. Aos poucos, fui percebendo que aquilo não era o que realmente eu queria”, diz o técnico.

Segundo ele, faltava um incentivo, uma palavra de alguém para que fizesse enxergar nos estudos a transformação social. Foi quando ouviu, por acaso, seu pai conversar com um amigo e dizer que seu maior sonho era ter um filho “formado” e que não mediria esforços para que isso acontecesse. Fazia de tudo para eles estudarem, mas não tinha certeza se um dia ia ter este prazer. Aquelas palavras era o que Autermir realmente precisava para ver nos estudos uma via necessária para sua vida.

Em 1993, com 25 anos de idade, Autemir conclui o curso Técnico de Enfermagem no Colégio Democrático Estadual Professora Florentina Alves dos Santos (CODEFAS), em Juazeiro, onde morou alguns anos numa casa comprada por “seu Deca”, no fim da década de 80, para que os filhos pudessem concluir o antigo segundo grau (Ensino Médio). À época, em Maniçoba, só havia o Ensino Fundamental. Era a realização do pai e a mudança de vida do filho, que se senti, hoje, realizado com a profissão e vê que tudo que passou valeu a pena, tanto para seu desenvolvimento pessoal quanto profissional.

Apenas dois dos filhos de “seu Deca” não terminaram o Ensino Médio, mas mesmo assim, não vivem como colono. Dos outros, alguns fizeram o curso de Técnico Agrícola, outros o antigo Científico (Médio). Uma das filhas mais novas, Luzinete Helena, 33 anos, concluiu o curso de Pedagogia na UNEB e neste ano finalizou o curso de Pós-graduação em Educação Especial Inclusiva pela Universidade Norte do Paraná (UNOPAR). Carmem da Silva Mota, 29 anos, é uma outra filha de colono que compõe as estatísticas das mudanças sociais que transformam a qualidade de vida em Maniçoba. Ela é um outro exemplo dos filhos de colonos que prosperaram, diferentes dos pais, e hoje fazem cursos de nível superior na cidade para terem uma outra profissão.

Estudante do curso de Administração, ela também trocou a labuta da roça em busca de uma outra situação de vida. “Cheguei com quatro anos de idade em Maniçoba e aqui vi muita coisa mudar. Gosto da roça, mas não para trabalhar nela. Meu pai nunca nos forçou a este serviço. Muito pelo contrário, sempre deu total apoio para que estudássemos e tivéssemos uma profissão diferente da dele. Por isso, faço todo esforço para estudar”, afirma Carmem. Ela ainda mora em Maniçoba. Pretende terminar os estudos, ser aprovada em um concurso público, mas não pensa em abandonar a terra que lhe viu crescer. Trabalha durante o dia como Auxiliar Administrativo numa empresa de assistência técnica aos produtores, no Projeto; à noite vai para faculdade, na cidade pernambucana de Petrolina. “Para mim, é um grande desafio, às vezes cansativo, mas creio que em breve a recompensa virá. Agradeço estas conquistas a meu pai que sempre me deu apoio em tudo”, declara a auxiliar administrativo.

As transformações ocorridas nas dinâmicas político-sócio-culturais no Perímetro Irrigado de Maniçoba são visíveis. A maioria dos moradores afirma que muita coisa mudou. Além das mudanças sociais, a estrutura física do Perímetro se modificou vertiginosamente. Cerca de 5.200 pessoas reside hoje na localidade, segundo dados da Equipe Saúde da Família. O cenário rural - de roças - foi se “urbanizando”, dando espaço ao volumoso comércio e ao grande número de residências. No entanto, a estrutura física tendeu a não acompanhar o ritmo acelerado do crescimento. A maior parte das ruas não é asfaltada, alguns esgotos correm a céu aberto. Ainda sem saneamento básico, as pessoas penam por soluções. Enquanto alguns colonos amargam o árduo endividamento devido a cobrança de taxas água e manutenção cobrada pela CODEVASF. Mesmo assim, o povo maniçobense insiste em manter no olhar o brilho e a esperança por melhores condições de vida e agradecem a Deus pela bênção da “terra prometida”, como a comunidade descreve o projeto Maniçoba.

                                                      Por Micael Benaic, Jornalista em Multimeios Fotos Emerson Rocha

Mandacaru, o primeiro perímetro irrigado em Juazeiro

Na década de 1970, com a política de investimentos federais na agricultura nordestina, a cidade de Juazeiro - BA foi contemplada com seu primeiro projeto de irrigação, o Mandacaru, criado em 1971. Famílias oriundas de vários lugares do Brasil encontraram, além da terra fértil para o plantio, a oportunidade de melhorar de vida. Solange Benedita Sousa, moradora do Projeto Mandacaru, conta que costumava dizer para o seu pai: eu sou sua estrela da sorte.

Três meses depois do seu nascimento, o pai foi selecionado para ser um dos colonos do Projeto Mandacaru. “Chegamos aqui em outubro de 1973. Estudei na Escola Piloto Mandacaru, espaço muito significativo de convivência da juventude desse lugar. Hoje sou formada em Letras, leciono na escola onde estudei durante a infância e adolescência. É muito satisfatório, saber que estou contribuindo de alguma forma para o desenvolvimento do lugar onde cresci”, comenta Solange que, assim como outros jovens do lugar investiram em uma profissão mas fizeram a opção de ficar no distrito.

O nome Mandacaru foi escolhido para batizar o perímetro, devido ao nome homônimo da planta característica do semi-árido nordestino, famosa por sua capacidade de armazenar água nos dias chuvosos, para sobreviver no período de seca. Com sua estrutura envolta a espinhos, o mandacaru brota uma flor muito delicada, de beleza rara. Então, quando se pensa nesse distrito, logo se imagina que, nas ruas, há pé de mandacaru por todos os lados, e realmente tinha alguns em pontos estratégicos, mas - não se sabe o porque nem tão pouco quem - decidiu por retirar a planta símbolo do lugar. 

Pedro Bernardino, um dos fundadores do projeto, explica que existem em Juazeiro outras localidades com o nome Mandacaru, o que às vezes pode levar a confundir o endereço, mas ele lembra que o projeto foi o primeiro a usar a nomenclatura.

Para diferenciar dos demais, quando se refere a esse projeto, usa-se sempre a denominação Mandacaru I. O morador conta que, quando os agricultores tomaram posse dos lotes de irrigação, investiram na plantação de arroz, mas essa cultura não se adaptou ao ambiente. Já o cultivo de tomate, cebola e, anos mais tarde, o melão, proporcionou riquezas e modificação na infra-estrutura do lugar.

As casas pequenas foram ampliadas, os moradores compraram carros, construíram escolas, igreja, clube, praça, posto de saúde e policial, quadra esportiva e até agências bancárias instalaram seus postos de atendimento no lugar. Contudo, o tempo também trouxe modificações como planos econômicos que não deram certo – como o Cruzado -, transição da moeda com as URVs e, depois o Plano Real; o surgimento do agronegócio. Tudo isso, somado ao pouco conhecimento administrativo dos pequenos agricultores, freou o desenvolvimento econômico dos primeiros anos. “A diversificação de cultivo tem sido a alternativa mais viável,” comenta Pedro. O projeto Mandacaru começou com a vila dos colonos, depois surgiram mais duas vilas chamadas Juca Viana um e dois. No início dos anos dois mil, surgiu mais uma vila que recebe a mesma nomenclatura só que acrescentada do número três – Mandacaru III. Apesar da crise da agricultura agroexportadora, o lugar se expande. Nessas novas vilas, fica localizado o comércio ainda tímido e acontece também o campeonato de futebol amador, Liga Desportiva do Mandacaru, realizado desde 1994 nos meses de maio a setembro.

Segundo Monzart Rodrigues Ramos, participante assíduo do evento, Mandacaru tem oito times e conta com a participação de agremiações de futebol de povoados circunvizinhos. Nos dias quentes a população tem como opção de lazer as margens do São Francisco e a Ilha Culpe o Vento. É proibido banhar-se nos canais que levam águas para as roças, mas há sempre quem dê um jeitinho de quebrar essa regra. No dia-a-dia, é um distrito tranquilo, as pessoas nos fins de tarde costumam sentar-se defronte às suas casas, crianças ainda brincam de futebol e bola nas ruas.                    

Para lembrar a origem do lugar no mês de julho, acontecem festividades em comemoração ao dia do agricultor. Este ano, as festas irão ocorrer no final do mês de agosto. Durante a semana que antecede a festa dançante é realizado o culto em gratidão a Deus na Igreja Batista Betânia e a missa na Igreja Nossa Senhora da Conceição, padroeira da comunidade, no dia do enceramento, as comemorações começam com alvorada e um carro de som por volta das 5h da manhã que percorre as ruas convidando os colonos a participar desse momento. Em seguida, a solenidade de hasteamento da bandeira, ao meio dia o tradicional churrasco dos colonos e, à noite, festa dançante.

                                                                                                                                 Por Abgaela Martins

Declaração de Amor a Juazeiro

O que falar de ti ó Juazeiro? Por mais que tente expressar com as minhas pobres palavras, não conseguirei explicar como essa terra é importante para mim. O que posso dizer é que, com as vozes da esperança, tu renovas as forças dos que em ti encontraram um porto seguro. Tua formosura emana da simplicidade das coisas que refletem o calor humano do juazeirense. Sim, tudo aqui colabora para que nos tornemos mais afetivos. As ruas, o calor do sol, a orla dos encontros, a arte e tantas outras coisas são o pretexto de nos achegarmos ao próximo com a doce vontade de ser juazeirense nascido ou adotado com muito amor.

Às vezes me pergunto quantas amizades ou amores nasceram no bate papo alí na orla de Juazeiro. Qual o segredo daquele espaço tão juazeirense de ser? Seriam as águas do velho Chico? Seria a brisa sentida na face dos rostos que ali estão sempre a sorrir? Ou seria a vista para Petrolina? Não. Com certeza, a visão para a cidade vizinha não é a nossa inspiração. Mesmo sendo cidades irmãs, somos diferentes, então, não queremos ter semelhança com nenhum lugar do mundo. Na verdade, nós somos é juazeirense com a marca inconfundível de um povo que tem a orla como um espaço de consolidação do ato de viver em paz e harmonia.

Não posso esquecer de falar da arte que aflora dos nossos poros e dos nossos corações que ritmado de alegria explode nas melodias das músicas. Aliás, de melodias e rimas, nós entendemos bem, porque daqui saiu João Gilberto, Edésio Santos, Ivete Sangalo, Manuca Almeida, Targino Gondim e tantos outros talentos que nos brindam com as suas canções, enriquecendo a nossa arte com o selo made in Juazeiro. Mas a ginga e o talento não se restringem as esses nomes, pois outros artistas estão nas ruas e eles dominam a maravilhosa arte de viver feliz e confiante. Isso mesmo, daqui também saiu seu José, Antônio, Cícero, Manuel, dona Maria, Expedita, Antônia e tantos outros artistas da labuta do dia a dia que fazem desse lugar o único em toda a terra.

Aqui, temos uma paixão especial pelas águas e a nossa prova de amor está no vaporzinho que por muito tempo navegou no Velho Chico e que depois de cumprida a sua jornada escolheu Juazeiro como lugar de descanso e paz. Quem nunca passou sequer uma noite ali, a olhar o simpático vapor, tentando imaginar por quantos lugares viajou ou quantos sonhos carregou aquecido pela fornalha que o movia sobre as águas? Essa é a Juazeiro da pura história e da doce simplicidade em seus detalhes.

Por mais que eu percorra o mundo a fora, jamais esquecerei os dias em que aqui fui feliz. Fui marcado por essa terra e por onde quer que eu vá, poderei lembrar os grandes momentos vividos nessa cidade. Aqui aprendi que as pequenas coisas é que trazem a verdadeira felicidade e constroem em nós uma base concreta para seguir a vida sempre confiante.

Oh terra dos doces frutos! De uma árvore frondosa tu nasceste e foste regada pelas águas do Velho Chico. Com o calor do sol aqueceste e aquece todos os que aqui chegam, pois se é para amar e te fazer ainda mais Juazeiro, que venham e se sintam confortáveis e seguros ao lado de novas amizades testemunhadas pelos céus que cobrem essa tímida, mas - sempre uma amiga cidade - chamada Juazeiro.


João Barbosa

Ciclo de Debates discute os desafios da Comunicação Popular

Comunicação popular como campo de atuação da atividade jornalística e o coronelismo eletrônico foram discutidos ontem (14/07)no segundo dia do Ciclo de Debates Profissão Jornalista no curso de Comunicação Social Jornalismo em Multimeios, do Departamento de Ciências Humanas (DCH), UNEB.


O debate, mediado pela professora Tereza Leonel, teve a participação como palestrantes da jornalista e professora da UNEB Ceres Santos, dos profissionais Ana Jamille, Raimundo Fábio e Marcos Vinicius, e concentrou a discussão no modo como a comunicação popular estabelece o lugar de reconhecimento e construção de identidades sociais.


Durante o evento, a professora e especialista na área, Céres Santos, abordou a relação entre a comunicação popular e o profissional formado pela universidade. Ela defendeu a educomunicação como meio dos jornalistas por formação mediarem a qualidade da comunicação popular. Com experiência com comunicação no Instituto da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), a jornalista Ana Jamille explicou que “as pessoas que atuam na comunicação popular não vão tomar o lugar dos comunicadores formados porque eles também buscam essa formação profissional através das universidades”.


Estudantes questionaram e provocaram a reflexão acerca da necessidade do estudante e do jornalista investir em novas proposições da comunicação popular; a possibilidade do ingresso desses comunicadores às universidades sem a realização de processos seletivos, considerando a formação diferenciada que possuem e o anseio em busca de qualificação através da graduação. Os participantes do debate também reflitiram sobre a criação de rede social e de que forma pode funcionar.


Enfatizando a importância da formação em Jornalismo para atuar também nos meios populares, a jornalista e professora da Uneb, Andréa Cristiana, ressaltou que a “comunicação popular também é poder”. Citando as concessões de rádios comunitárias, algumas como propriedade de políticos, a jornalista ponderou que tais veículos podem ser utilizados para alienar a sociedade, como os da mídia hegemônica e as grandes empresas aliadas ao capital. Ela afirmou ainda que poderá haver uma tendência à profissionalização da comunicação popular, o que não deve ser tratado de forma negativa, em virtude do crescimento da área do terceiro setor.

Considerando a falta de estratégias e planejamentos existentes a longo prazo nas organizações que trabalham com a comunicação popular, o jornalista Marcos Vinícius considera que estas estratégias poderão trazer melhorias à comunicação, entendido por ele como “um meio de ascensão à qualidade do cidadão”.


“Comunicação popular não é vendável, ela é de doação”, defendeu Vinícius, reforçando o papel dos processo de comunicação no meio popular. As bases da comunicação popular são fundamentadas na experiência de vida de grupos sociais, mas, como ressaltou o radialista, estudante de Jornalismo em Multimeios e funcionário do IRPAA, Raimundo Fábio, se os proprietários dos meios de comunicação tivessem comprometimento com a informação haveria uma comunicação mais qualificada.


O debate encerrou com a imprescindibilidade de se discutir as concessões de rádio e TV no Brasil. “A democratização dos meios é mais importante que a reforma agrária”, citou o jornalista e militante, Paulo Vitor em alusão ao discurso da deputada do PSB, Luiza Erundina, em favor de uma reforma na regulamentação do sistema de comunicação no Brasil.


Considerando que o Ciclo de Debates foi motivado pela decisão do Supremo Tribunal Federal pela não obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista, o debate, de ontem, trouxe a provocação de que estudantes, professores e profissionais reflitam a relação entre liberdade de expressão e obrigatoriedade do diploma e liberdade de expressão e democratização dos meios.


No próximo dia 22 de Julho, o Ciclo de Debates Profissão Jornalista irá discutir o tema Comunicação e Educação. Os interessados nas discussões receberão Certificado, desde que tenham assiduidade de 75% no evento, que só se encerra no final do mês de Agosto


Por Silvana Costa

Pré-Jornada de Cinema da Bahia no DCH

Pela primeira vez, o Departamento de Ciências Humanas (DCH III) vai sediar a 36ª edição da Pré-jornada Internacional de Cinema da Bahia, que acontece em vários Campi da Universidade do Estado da Bahia, com o o tema “Os Sertões de Euclides da Cunha”. Já no DCH, a temática adotada será “O sertões pelo olhar dos sertanejos, nas produções locais”.

O evento acontece a partir de amanhã (16/07) até sábado (18/07) com abertura prevista para as 19h com discussão sobre a produção cinematográfica local e a tematizações da condição da vida humana fora dos grandes centros. O Reitor Lourisvaldo Valentim estará presente ao evento. Também irão ocorrer oficinas de produção de cinema e vídeo pela manhã, e exibição de filmes, durante tarde e noite.

Abgaela Martins


Da Passagem a Juazeiro, a cidade atraiu migrantes

Nascida de uma árvore frondosa e frutífera, Juazeiro consegue surpreender pelas histórias que revelam todo um passado de trabalho e amor a essa terra. Alguns lugares da cidade são a marca de um tempo de glória, honra e de esperança, pois muitos moradores migram para a cidade e prosperam. Atualmente, Juazeiro já tem uma população com mais de 230 mil habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Dentro deste universo, a Agência MultiCiência vai contar a história de dois personagens que tem uma trajetória que demonstra as transformações sociais que a urbes sofreu no decorrer dos anos. Eles são pessoas anônimas, mas contribuíram significativamente para ajudar essa terra a crescer e a chegar aos 131 anos.

Seu Miguel de Aguiar, 72, veio de Sergipe no ano de 1964 para trabalhar na rede ferroviária federal, conhecida como a LESTE. Seu Miguel vagueia em seus pensamentos, quando relembra as viagens feitas na locomotiva do trem. 
"A gente passava por várias cidades e éramos recebidos com muito carinho pelas pessoas nas estações", diz, com um largo sorriso, no rosto. Contudo, a saudade parece aumentar quando lembra o tempo dos carnavais antigos e garante: "Vocês hoje não sabem o que é brincar carnaval. Naquele tempo a gente saia na rua com os amigos e não tinha a violência que tem hoje. Sempre digo aos meus filhos para terem cuidado com essas festa de hoje". 

A preocupação com a geração que o sucede é grande, pois seu Miguel tem 20 filhos. Somente com os homens da casa, ele formou um time de futebol no ano de 1995, pois o pai desejava que todos se tornassem jogadores de futebol. Apaixonado por esporte, seu Miguel mostra com orgulho a foto em que ele está ao lado de companheiros do time que ele fundou em 1972, A liga de Piranga.

O homem dos trilhos diz, orgulhosamente, que também jogou no Petrolina Ferroviária. Contente com a vida que construiu com dignidade, ele confessa: "Nunca tive vontade de sair de Juazeiro. Criei todos os meus filhos nesse lugar, tenho muitos amigos e agora tem até um campeonato de futebol aqui de Piranga com o meu nome". Empolgado, convida a todos para assistir ao jogo: "A final dos jogos é pra agosto, você tem que ir assistir os jogos, viu?".  

Uma outra moradora ilustre da cidade é Dona Geraldina Gonçalves, 72, que desembarcou, pela primeira vez no bairro do Piranga, em 1967, com seu esposo que foi transferido para trabalhar na Rede Ferroviária. Ao chegar na cidade, nao tinha lugar para ficar, pois faltavam casas para os trabalhadores que chegavam. A cidade crescia impulsionada pelos novos migrantes. " Nós tivemos que morar um mês e três semanas no vagão, porque nao tinha casa para alugar", diz dona Geraldina.

A cidade se modificava aos poucos, apresentava novas demandas para a comunidade. Se alguém quisesse frutas e verduras, tinha que esperar o trem que vinha de Senhor do Bonfim às sextas-feira, trazendo mercadorias para a feira que acontecia aos sábados. "A gente pegava água do chafariz todo dia. Só depois é que passamos a ter água encanada".

Com os olhos brilhando ao lembrar do passado, ela conta sobre o tempo em que os trilhos ainda eram um meio de transporte, ainda não substituído, totalmente, pela rodovia. Com nostalgia deste tempo, comenta: "senti muita falta do trem. Quando ele vinha a gente já ouvia o apito e sabia que estava vindo um monte de passageiros". Dona Geraldina procura trazer para o presente as lembranças da época. "Eu gostava de sair na escola de samba. Naquele tempo tinha os carros alegóricos. Em Piranga, ficava a escola Fala quem Pode, Cacumbú e, em Juazeiro tinha muitas outras. Eu nunca esqueço que a tarde as meninas se mascaravam e se fantasiavam. Era um tempo muito bom", fala, expressando saudade.

Assim como seu Miguel e dona Geraldina, muitos juazeirenses também têm histórias pessoais que exemplificam a trajetória de um povo que luta e acredita nessa terra. É sob os cuidados de sua gente que Juazeiro comemora mais um aniversário em sua história. Parabéns, Passagem do Joazeiro!

Por João Barbosa

Universitários ganham revelação grátis em concurso da Diocese

Os estudantes universitários que vão participar do concurso de fotografia da Diocese de Petrolina ganharam a revelação ou impressão de suas fotos gratuitamente mediante parceria realizada com laboratório de fotografia.

Os alunos regularmente matriculados nas instituições de ensino só precisam procurar a loja Art Foto Paulista na avenida Souza Filho, nº 433, no centro da cidade, e apresentar o comprovante de matrícula.

Cada participante pode revelar/imprimir até 3 fotos que contemplem a temática do concurso: “Diocese de Petrolina, 85 anos de História”. A promoção vai até o último dia de inscrição, 24.07.

Fonte: UNIVASF

Juazeiro diante de seu passado



Historicamente, Juazeiro é uma referência para o centro comercial, econômico e político do Vale do Submédio São Francisco. Contudo, processos socioculturais, como a construção da Barragem de Sobradinho na década de 1970, trouxeram mudanças sociais, econômicas e políticas para a cidade que, nos anos seguintes, sem uma maior intervenção governamental e municipal, ocasionariam uma situação de estagnação econômica.

Essa avaliação é da cientista social Odomaria Rosa Bandeira Macedo, docente da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), ao comentar a situação histórica de Juazeiro no cenário sócio-econômico do Vale do São Francisco. "Foram alguns anos, oito anos mais ou menos, que ficou tudo parado no Rio, em termos da comercialização de produtos que se fazia tradicionalmente entre Minas Gerais e Bahia. Nós ficamos sem o tráfego de vapores até o porto de Juazeiro, durante a construção da barragem, quando foi praticamente impedido o tráfego de Sobradinho para baixo e, depois, com a eclusagem isso se complicou", afirma.

As mudanças econômicas também impulsionaram e foram acompanhadas de transformações culturais e urbanísticas. Para Odomaria, a configuração do centro urbano da cidade também demonstra que o processo de mudanças foi sendo feito ao longo do tempo sem uma intervenção do poder público. Já na cidade vizinha Petrolina-Pe, observa- se que ocorreu um maior planejamento urbano. "Juazeiro é uma cidade muito mais antiga que Petrolina, a vida urbana aqui se fez de uma forma mais espontânea, a configuração do próprio centro urbano dá evidências de que o processo foi mais natural", esclarece.

Em entrevista à Agência MultiCiência, a cientista social relata suas impressões sobre a trajetória de crescimento econômico da cidade de Juazeiro como um centro comercial relevante ao longo do tempo, e destaca a posição privilegiada economicamente do município, que será ora fortalecida, ora enfraquecida pelas mudanças externas e internas.


MultiCiência: Juazeiro é tida no cenário histórico como importante para a integração do Vale do São Francisco ao restante do país. Como ocorreu esse processo? Quais momentos demarcam a relevância de Juazeiro na interiorização do Brasil?

Odomaria Rosa Bandeira Macedo (Odomaria):
Essa região, que envolve Juazeiro e adjacências, é uma área que se integra às demais regiões brasileiras, através do processo de expansão da colonização, com a vinda do rebanho bovino pelas margens do Rio São Francisco, na busca pelo ambiente natural para o criatório do gado. Surgiram grandes fazendas sob o domínio de uma família de origem portuguesa, os García D'Ávila. Paralelamente, há toda uma atividade mais sistemática, com a presença dos jesuítas nessa área através das missões. Há um trabalho de aldeamento dos índios que restaram, os que não foram mortos a tiro ou à bala. Então, eles foram sendo readaptados pela ação direta da catequese. Posteriormente, no século XVIII ocorreu a exploração das minas de ouro e salitre na área onde se tem hoje os territórios de Jacobina e Juazeiro, no Salitre, o que fez com que houvesse toda uma reorganização da atividade colonizadora. Esses eventos contribuíram para a fundação da cidade de Juazeiro posteriormente, e para que essa viesse progressivamente a se tornar um ponto estratégico no Vale, já que tudo que vinha de Salvador para cá passa a se espalhar para frente, para cima e para baixo de Juazeiro, através do rio São Francisco. Com isso, o Opara passa a ser também percebido como um via natural de integração dessa região às demais partes do Brasil em formação, pois daqui nós vamos para Pernambuco, Piauí, Minas Gerais, para Sergipe, Alagoas.

MultiCiência: E qual seria a via de integração?
Odomaria: Nesse aspecto, o que consolida essa relação é o desenvolvimento da navegação no rio São Francisco, já no final do século XIX. O potencial do comércio marítimo pelo Rio São Francisco, já está no início do século XX bastante evidenciado com a atividade da Companhia de Navegação do Rio São Francisco e empresas similares que, com suas embarcações, possibilitam o tráfego intenso de gente e produtos e favorecem o desenvolvimento dessa região as margens do rio. Juazeiro, pela sua condição topográfica, passa a ser ponto de partida, da Bahia, de todas essas embarcações que sobem, e ancoradouro das que descem de Pirapora (MG) com os produtos. E dessa forma o município se faz uma cidade referência para o Médio São Francisco e foi se construindo como um centro mercantil importantíssimo na história da Bahia.

MultiCiência: O município juazeirense já experimentava uma posição diferenciada em relação as demais cidades. Há outros aspectos importantes que favoreceram o crescimento econômico?

Odomaria: Sim. Um primeiro fator é a construção da estrada de ferro que traz, através do trem, a aceleração de todo um processo "civilizatório" (a vida moderna) pelo deslocamento mais rápido, não só dos produtos, mas das pessoas e dos costumes. Vai possibilitar um intercâmbio muito grande de variados aspectos socioculturais entre parte do Recôncavo baiano e todo esse território das barrancas do São Francisco. Ocorre uma interligação entre duas vias importantes de integração econômica, social e política, o transporte ferroviário com o fluvial, e isso potencializa ainda mais o comércio local. Um segundo motivo vem na década de 50 com a construção da ponte Presidente Dutra, que permite a extensão da via férrea até o Piauí, que significa certa polarização de Juazeiro na economia regional.

MultiCiência: Qual era o aspecto do pólo comercial de juazeiro, no final da década de 70?

Odomaria: Havia não só as grandes lojas de comércio, nas quais se atendia com os mais variados produtos a um consumo interno. Tinha-se em Juazeiro, também, algumas empresas voltadas para o mercado externo, as “firmas” exportadoras de produtos locais. Á época, os produtos não eram os produtos agrícolas como temos hoje, dentro dessa idéia do agronegócio; eram produtos como a pele, artigos mais simples, beneficiados, mas não industrializados, extraídos de uma produção natural que se encontrava em domínios de certas famílias de proprietários das terras: produtos da carnaúba, como a cera de carnaúba, da mamona, como o óleo, e outros. Então, todo esse material extraído da carnaúba de uma ponta a outra do Médio do São Francisco era exportado para outras regiões do Brasil e até para fora do país. Assim como a mamona, além das peles, que eram curtidas inicialmente de uma forma artesanal, também a cera daqui, serviram para alimentar a produção de calçados e outros artefatos de couro. Houve ainda a produção do vinil para os discos da indústria fonográfica e a indústria de alimentos e medicamentos.

MultiCiência: Como se apresenta a educação e a cultura nesse período?

Odomaria: Até o final da década de 70, parece que havia em ambas um vigor que acompanhava ou correspondia a esse potencial econômico. A grande escola pública encontrava-se em Juazeiro, o Colégio Estadual Ruy Barbosa, com os cursos chamados “clássico” e “científico”, tendo-se em Petrolina apenas o Colégio N. S. Maria Auxiliadora e o Colégio D. Bosco como escolas grandes. Somente depois surgiu ali o Colégio Estadual que até então era, simplesmente, a Escola Estadual de Petrolina. Já no início da década de 1960 foi inaugurada a Faculdade de Agronomia em Juazeiro e, logo depois, uma Faculdade de Filosofia Ciências e Letras que funcionou três anos e, infelizmente, não vingou naquela época. Antes disso, já existia, também, um movimento cultural expressivo em termos de arte, bem dinâmico nessa cidade, com o Clube Comercial e o dos Artistas, as filarmônicas na Sociedade Apolo Juazeirense e a 28 de setembro. Desde o século XIX, encontram-se jornais sendo produzidos em Juazeiro. Existiam teatros, mais de um grupo teatral, saraus, festas artísticas e tinha, pelo menos, duas bandas de jazz em Juazeiro. Havia o teatro Santana, o Cine São Francisco, onde hoje funciona as Lojas Maias...

MultiCiência: Como a introdução da rodovia vem favorecer a modernização da cidade? Quais os pontos positivos e negativos?

Odomaria: Constrói-se a rodovia Lomanto Junior, no final da década de 60. Junto a isso se trouxe a energia elétrica de Paulo Afonso, com o que também se acelerou ainda mais o processo de modernização nessa região, com muitas mudanças de hábitos. Por um lado, a ferrovia vai sendo deixada de lado, pouco a pouco, por causa da imponência que teve a rodovia a partir de então. Na viagem de trem, é um tempo muito maior para você se deslocar. Em uma viagem pela estrada asfaltada, o que nós passávamos em um dia e meio viajando de Juazeiro a Salvador, passava a ser feito se gastando apenas sete a oito horas graças a rodovia e tudo isso eu acho que veio alterando bastante o ritmo da vida, trazendo vantagem e desvantagem. Introduzindo novos hábitos, alterando outros que eram mais tradicionais e isso se reflete na vida das pessoas.

MultiCiência: O que promoveu a desestabilização e a alteração gradual do desenvolvimento de Juazeiro no Vale do Submédio São Francisco?

Odomaria: A construção da barragem do Sobradinho altera bastante esse contexto. Nós ficamos sem o tráfego de vapores até o porto de Juazeiro, durante a construção da barragem, até que se formasse o lago de Sobradinho, e, depois, com a eclusagem isso se complicou. E foram alguns anos, oito anos mais ou menos, em que ficou tudo parado no rio, em termos da comercialização de produtos que se fazia tradicionalmente entre Minas Gerais e Bahia. Não é só da edificação da barragem em si, que falo, mas de todos os processos socioculturais que se desencadearam, desde a configuração do ambiente ao deslocamento de populações de cinco cidades. Há uma convergência muito grande de várias partes do Brasil para cá. Há, em termos culturais, uma dinâmica muito intensa de mudanças se processando, tanto em Juazeiro, como em Petrolina e demais localidades ribeirinhas do São Francisco.

MultiCiência: Como foi a introdução do processo de irrigação em Juazeiro?

Odomaria: A irrigação mais intensa veio posterior a construção da barragem de Sobradinho, visivelmente no final de década de 70 e início da década de 80, principalmente com os projetos de colonização, que vem pela ação do governo federal, através da SUVALE, que se transformou depois na CODEVASF. Inicialmente, a questão era levar água para a produção agrícola, voltada para o consumo e mercado local, para a subsistência. Seria uma produção muito mais de mandioca, de milho, de feijão, abóbora, coco, goiaba, pinha, melancia limão, laranja, hortaliças. O Salitre foi, naquela época, um grande celeiro nesse tipo de produção. Grande parte das frutas que nós comprávamos aqui na feira de Juazeiro era quase tudo, produzido no Salitre. Exceto na produção de cebola, que foi cultivada desde seu início nessa região como uma monocultura para exportação, que me parece ter se destacado como produção regional com os projetos de irrigação.

MultiCiência: Houve algum governo que favoreceu a região juazeirense?

Odomaria: Em termos da urbanização da cidade, houve o governo de Aprígio Duarte, no início do século XX, com o qual se iniciou um trabalho de intervenção mais sistemática da prefeitura municipal no processo de urbanização, com a instalação dos serviços de água encanada, de esgotamento sanitário, de arborização das ruas, definindo o traçado das vias e construindo alguns dos espaços públicos, algumas praças, fazendo o calçamento de ruas, o cais etc. Ele começou a promover o trabalho de planejamento e de execução de determinadas obras, que deu um caráter urbano, moderno a cidade de Juazeiro.

MultiCiência: A estrutura física da cidade de Juazeiro, hoje, contrasta com a vizinha Petrolina. Como a senhora percebe o início essa modificação?

Odomaria: Eu terminei o segundo grau no ano de 69, e Juazeiro era uma grande cidade, ao contrário de Petrolina que era bastante limitada, em todos os aspectos. Fui estudar em Salvador e cinco anos depois, quando retornei para cá, percebi que estava se processando uma mudança significativa em Petrolina, visível aos olhos em termos da expansão da cidade e do seu visual. Depois, passamos a ver também que a vida em Petrolina ganhava mais fôlego: educação, cultura, lazer eram mais visíveis, uma grande animação passava a acontecer ali. Para mim, isso resulta do fato de que existiu ali e, isso no momento necessário, uma intervenção governamental decisiva, e a ação municipal em Petrolina se fez de forma mais organizada e racionalizada. Juazeiro é uma cidade muito mais antiga que Petrolina, a vida urbana aqui se fez de uma forma mais espontânea, a configuração do próprio centro urbano de Juazeiro dá evidências de que o processo foi mais natural. Então nós encontramos ruas bastante estreitas aqui no centro, diferentemente do que nós percebemos em Petrolina. E um grande diferencial de Petrolina, foi esse planejamento urbano, dentro de um projeto de cidade moderna, que no caso de Juazeiro não foi assim.


Por Kall Britto

Entrevista republicada em 15 de Julho de 2023, em celebração aos 145 anos de elevação à categoria de cidade.